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quinta-feira, 31 de março de 2011

Boff lembra as tragédias anunciadas da humanidade

O sistema econômico está em confronto com a vida, busca cada vez mais uma produção voltada ao consumo, cujo preço é a depredação da Terra e a criação de desigualdades, disse o teólogo católico Leonardo Boff em entrevista a Ana D’Angelo, do jornal Brasil de Fato.
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Explicou que o sistema econômico pergunta quanto vai ganhar, já o sistema vida indaga o que fazer para produzir equilíbrio na natureza e preserva sua vitalidade. “A degradação vai continuar até se tornar insuportável. A decisão cabe à humanidade: mudar ou desaparecer”, alertou.

A sustentabilidade e o crescimento econômico seguem lógicas diferentes, afirmou Boff. A sustentabilidade se baseia na interdependência de todos com todos, a cooperação e a co-evolução de todos, respeitando o valor intrínseco de cada ser. Já o crescimento econômico é linear, pressupondo que cabe dominar a natureza e que tudo será utilizado na medida da lógica exclusiva do ser humano.

A sustentabilidade representa um novo paradigma que se opõe ao paradigma de violência contra a natureza. Ela supõe um novo acordo de sinergia, de respeito e de sentimento de pertença à natureza. Os seres humanos são chamados por serem a parte consciente e responsável dela. A maneira como a noção de sustentabilidade é utilizada pode melhorar alguns aspectos da redução de gases de efeito estufa, mas não muda a lógica de pilhagem da natureza em vista à acumulação, enfatizou o teólogo de tradição franciscana.

Uma gota de água caída do céu não significa nada, exemplificou. Mas milhões e milhões de gotas produzem um chuva e até uma tempestade. “Devemos pensar que tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e circunstâncias. E como tudo está conectado, devo pensar em como o bem que pessoalmente faço não fique reduzido ao meu mundo. Se ele entra no circuito das interdependências, pode deslanchar grandes mudanças. Se não posso mudar o mundo, sempre posso mudar esse pedaço de mundo que sou eu mesmo. E como a crise é global e atinge a todos, somos convocados a dar a colaboração”, apontou.

A maneira como as culturas produzem seus parâmetros éticos, pode criar pistas para a convivência mínima entre todos. Hoje, lembrou, vive-se uma fase planetária. “Estamos juntos na mesma casa comum, mas ninguém tem direito de impor seus valores particulares aos demais. Por isso, a ética deve partir de algo básico, comum a todos, de forma que todos possam se identificar com aqueles valores e princípios.”

Cada qual preciso ter consciência das conseqüências de seus atos, alguns dos quais podem ser letais para toda a espécie humana, frisou o pensador catarinense. É preciso um senso mínimo espiritual segundo o qual a vida tem sentido, o universo não é absurdo, a verdade sempre representa um valor e o amor é o laço que une todos os seres e traz felicidade à vida.

Um bloco econômico como os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) é importante porque pode mostrar os valores do Grande Sul, quebrar a hegemonia do Norte e obrigar as potências econômicas e militaristas a ouvi-los. Mas se adotarem um paradigma mimético, imitando as lógicas das potências ocidentais, podem acelerar a gravidade da crise. Se a China e a Índia quiserem consumir como o Ocidente (e cada um desses países possui uma classe média de pelo menos de 300 milhões de pessoas) seguramente irão desestabilizar o processo produtivo da Terra, disse.

Os seres humanos, como os mais inteligentes, devem partir da constatação de que pertencem à natureza eles são a parte consciente e amante da Terra e simultaneamente a parte desequilibradora e destruidora dela. “Possivelmente só iremos aprender e tomaremos decisões fundamentais quando grandes ameaças atingirem nosso destino. Só então percebermos que não temos outra alternativa senão mudar o modo de relacionamento com todos os seres, as formas de produção e consumo, os espaços de convivência pacífica e tolerante entre os mais diversos povos”, admoestou.

Os tempos atuais são dramáticos, haja vista as tragédias sísmicas. Não representam ainda uma tragédia anunciada, mas significam seguramente uma grande crise de civilização. Os antropólogos dizem que em tempos assim fervilham as religiões e se aprofundam os caminhos espirituais. Eles formam aquele campo da experiência humana em que se elaboram os grandes sonhos e utopias, redescobrindo o sentido da vida e rasgando horizontes de esperança.

O segredo da felicidade e a quietude do coração não se encontram nas ciências, nem na acumulação de poder, mas no cultivo da razão sensível e cordial, ensinou. Esta se identifica com aquela dimensão do profundo humano, no qual medram os valores e vige o mundo das excelências. Lá, nascem os sonhos e os valores que podem inspirar um novo ensaio civilizatório.

Boff concluiu enfatizando que o sistema-Terra é complexo, mas frágil. E que as mínimas mudanças podem acarretar, devido ao caráter sistêmico, grandes mudanças no todo.


Fonte: CEBI

Subcomissão é criada para investigar impacto dos agrotóxicos

A Câmara dos Deputados criou, em 23/03, uma subcomissão especial sobre o uso dos agrotóxicos no Brasil.

Ela tem a finalidade de avaliar as políticas do setor, propondo medidas sobre o comércio, utilização, controle e fiscalização desses produtos.

Temas como as consequências do uso de agrotóxicos para a saúde, contaminação dos alimentos, os direitos dos trabalhadores rurais e os impactos no meio ambiente serão debatidos pela Comissão.

“Os dados da Anvisa e de pesquisas de universidades mostram a presença de resíduos desse agrotóxico nos alimentos, inclusive no leite materno.

Não basta o Brasil avançar em uma produção só na lógica da quantidade de alimentos. É preciso avançar na qualidade, para garantir saúde para todo o povo brasileiro.

Queremos discutir também a situação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais e também a questão ambiental, com contaminação das águas e da própria terra”, destaca o deputado federal Padre João (PT - MG), que propôs o grupo.

A Comissão de Seguridade Social, onde foi criado o grupo, também aprovou a realização de uma Audiência Pública sobre os agrotóxicos.

Ela acontecerá no dia 07 de abril, data do Dia Internacional da Saúde, na Câmara dos Deputados, em Brasília.

4ª Ampliada Estadual das CEBs do RS

Rio Grande do Sul - Ampliada Estadual das CEBs

Nos dias 12 e 13 de março em Santa Maria, realizou-se a 4ª Ampliada Estadual das CEBs do RS, em preparação ao encontro estadual que será em 2012, nesta mesma Diocese.


Este encontro estadual terá como tema: "Justiça e profecia a serviço da Vida", e como lema: " CEBs: proféticas e missionárias na vivência do Reino".


Estiveram reunidos representantes de várias dioceses, incluindo o Bispo referencial das CEBs do RS, Dom José Clemente Weber e o Bispo de Santa Maria D. Hélio.


Nesta reunião ampliada foi realizada uma partilha da caminhada das dioceses, um relato da Ampliada Nacional que aconteceu em janeiro em Crato no Ceará, da qual participaram Frei Milton Backes (Diocese de Santa Cruz do Sul) e Neidi Paula Heck (Diocese de Santo Ângelo).


Foram também tratados encaminhamentos para o encontro estadual, como a questão da escolha dos temas que envolvem a temática do encontro, que após longo diálogo foram definidos assim: Justiça na Bíblia e no mundo; A vida missionária das CEBs; CEBs e a vida do planeta; CEBs: mística e espiritualidade nas Romarias; Profetas e profetizas e ontem e de hoje; CEBs e Juventude: desafios e perspectivas; As CEBs e os Movimentos Sociais; O macro-ecumenismo na vida das CEBs.



No domingo de manhã, foi realizada celebração com a comunidade Nossa Senhora Medianeira, que acolheu a ampliada.


Da Diocese de Santo Ângelo participaram os representantes da coordenação diocesana, Neidi Paula Heck e Fernando Nonnemacher, juntamente com D. Clemente Weber.


O padre belga expoente da Teologia da Libertação

Em 1968, uma campanha da TFP (Tradição, Família e Propriedade) juntou, de Norte a Sul, um milhão de assinaturas pedindo a expulsão do padre Joseph Comblin.

O texto é de Estêvão Bertoni e publicado no jornal Folha de S. Paulo, 30-03-2011.

Belga que por aqui adotou o nome de José, ele era um homem tímido. Dez anos antes da campanha, chegara a Campinas (SP), já doutor em teologia, para dar aulas.

Na década de 60, passou pelo Chile e voltou em 1965, a convite de dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, para ser seu assessor.

Como lembra o padre José Oscar Beozzo, teólogo e historiador, padre Comblin era bem radical em suas críticas. Em 1968, ele redigiu um documento sobre a situação da América Latina. O texto, interno, acabou vazando.

Comblin, um dos mais destacados nomes da Teologia da Libertação, foi considerado subversivo, mas permaneceu no país. Até 1971.

Naquele ano, ao voltar de uma aula dada na Bélgica, foi barrado e expulso. Exilou-se no Chile, de onde teve de sair com a ascensão de Pinochet. No Equador, trabalhou com indígenas e traduziu a Bíblia para o quíchua. Voltou definitivamente nos anos 80.

Autor, entre outros, de "A Ideologia da Segurança Nacional" e "Teologia da Enxada", trabalhou com camponeses na Paraíba, pondo em prática a ideia de que a formação teológica não deveria separar a pessoa do trabalho.

No fim de 2010, o Estado, enfim, suspendeu simbolicamente a ordem de expulsão.

Ele vivia em Barra (BA). Morreu no domingo, aos 88, de infarto. Pediu para ser enterrado na Paraíba, ao lado do padre Ibiapina, cuja atuação ele considerava

Fonte: IHU

Comunidades eclesiais de base


Entre as forças emergentes da Igreja nestes últimos anos, há a experiência significativa das Comunidades Eclesiais de Base. São grupos que amadureceram e ganharam sua legitimidade como forças vivas da Igreja num momento particularmente difícil e, ao mesmo tempo, glorioso da Igreja da América Latina.

As Comunidades Eclesiais de Base representam, ainda hoje, um ponto de referência para muitas Igrejas espalhadas pelo mundo todo e adquiriram um estatuto legítimo nos documentos da Igreja oficial (Medellín, Puebla, Aparecida).

Hoje, no entanto, nos perguntamos sobre a real consistência dessas comunidades e quais rumos estão trilhando na entrada do terceiro milênio.

Na V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe, realizada em maio de 2007, no Santuário de Aparecida do Norte, os bispos reconheceram e confirmaram a força positiva das Comunidades Eclesiais de Base:
- Elas abraçam a experiência das primeiras comunidades (At 2, 42-47);
- Elas têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com a sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros (DA 178);
- Elas permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação na fé dos adultos (Puebla 629);
- No seguimento de Jesus, elas têm a Palavra de Deus como fonte de sua espiritualidade (DA 179);
- Elas demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados, e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres.
- Mantendo-se em comunhão com o seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em sinal de vitalidade na Igreja particular (DA 179).

Com esta simples referência ao Documento de Aparecida, desejo em primeiro lugar renovar o meu apelo para que as CEBs, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, possam contribuir para revitalizar as nossas paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades.

E lembrar, enfim, que todas as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o centro de sua vida e a Palavra de Deus for o farol de seu caminho e de sua atuação na única Igreja de Cristo.





Dom Odelir José Magri

Golpe de 1964 - Sem esquecimento, sem perdão, sem temor

O golpe de 1964 não é apenas passado, nem foi só obra de generais hoje aposentados e mortos. Quando um deputado diz ter saudade da ditadura, quando um candidato presidencial se alia a generais de pijama e a organizações de ultra-direita, quando um ditador é homenageado por uma turma de formandos de uma escola militar, quando um ministro diz que a Anistia impede a justiça de apreciar crimes contra a humanidade, não estamos diante de saudosismos inconsequentes. Estamos vendo e ouvindo uma parte da elite brasileira dizer o seguinte: quebramos a legalidade e algum dia poderemos voltar a quebrar. O artigo é de Valter Pomar.

Muitos de nossos amigos latino-americanos não conseguem entender por qual motivo os governos brasileiros pós-ditadura pegaram tão leve com aqueles que romperam com a legalidade, sequestraram, torturaram, mataram e desapareceram.

Neste quesito, os governos pós-ditadura na Argentina, Chile e Uruguai foram muito mais efetivos no combate aos crimes das ditaduras, do que os governos Sarney, Collor, FHC e Lula.

Nossos amigos não entendem, e muitos de nós tampouco entendem, paradoxos como a convivência, no mesmo governo, de uma presidenta que foi presa e torturada, com um general para quem fato histórico é codinome para crime que merece ser perdoado. Ou de ministros que defendem a Comissão da Verdade, com outros para quem a Lei da Anistia imposta pela ditadura permite que autores de crimes contra a humanidade escapem de julgamento.

A persistência desta situação revela, mais do que a força da direita, a incapacidade que parte da esquerda tem de perceber os riscos que corremos ao agir desta forma. Afinal, o golpe de 1964 não é apenas passado, nem foi apenas obra de generais hoje aposentados e mortos.

O golpe de 1964 foi a resposta dada por uma parte da elite brasileira, contra um governo progressista. Foi uma das batalhas da guerra travada, ao longo de todo o século XX, entre as vias conservadora e progressista de desenvolvimento do capitalismo brasileiro.

A via conservadora é aquela que desenvolveu o capitalismo, preservando os piores traços de nosso passado escravista e colonial. A via progressista é aquela que buscou e busca combinar crescimento capitalista, com reformas sociais, democracia política e soberania nacional.

O golpe de 1964 foi executado por uma coalizão cívico-militar. Os militares foram o partido armado do grande empresariado, do latifúndio e dos capitais estrangeiros. Muitas das empresas envolvidas no golpe, ou que cresceram durante o período da ditadura, seguem atuantes. As Organizações Globo, por exemplo.

Hoje, prossegue a guerra entre aquelas duas vias de desenvolvimento. O governo Dilma, assim como o governo Lula, constituem expressões atuais da via progressista. E a campanha reacionária feita por Serra, nas eleições presidenciais de 2012, traduziu os sentimentos e os interesses dos legítimos defensores da via conservadora (alguns dos quais, é bom dizer, buscaram e encontraram abrigo do lado de cá).

Quando um deputado diz ter saudade da ditadura militar, quando um candidato presidencial se alia a generais de pijama e a organizações de ultra-direita, quando um ditador é homenageado por uma turma de formandos de uma escola militar, quando um ministro diz que a Anistia impede a justiça de apreciar crimes contra a humanidade, não estamos diante de saudosismos inconsequentes.

Estamos, isto sim, vendo e ouvindo uma parte da elite brasileira dizer o seguinte: quebramos a legalidade e algum dia poderemos voltar a quebrar; desconsideramos a voz das urnas e algum dia poderemos voltar a desconsiderar.

Uma esquerda que defende os direitos humanos de maneira consequente, deve lembrar que a impunidade dos torturadores de ontem, favorece os que hoje torturam presos ditos comuns. Uma esquerda que defende uma via eleitoral, tem motivos em dobro para ser implacável contra os que defendem a legitimidade de golpes. E uma esquerda que se pretende latinoamericanista precisa lembrar que o golpe de 1964 foi, em certo sentido, o início de um ciclo ditadorial que se espalhou por todo o continente.

E que ninguém ache que golpes são coisas do passado. Honduras, bem como as tentativas feitas no Equador e Venezuela, Bolivia e Paraguai, mostram que os Estados Unidos e parte expressiva das elites locais têm uma visão totalmente instrumental da democracia. E o reacionarismo atual de parte das chamadas classes médias não deixada nada a dever frente aquele que mobilizou, em 1964, as marchas com Deus, pela Família e pela Propriedade.

Por tudo isto, temos todos os motivos para dar o exemplo. Como nossos amigos de outros países da América Latina, não devemos temer, não podemos esquecer e não podemos perdoar.

Valter Pomar

Fonte: Carta Maior

Cidades não estão prontas para as mudanças climáticas

“Nas próximas décadas, as mudanças climáticas irão fazer com que centenas de milhões de pessoas, na sua maioria as mais pobres e marginalizadas, fiquem cada vez mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos de terra e outros desastres naturais. Esta é a previsão que fazemos baseados na melhor ciência que temos disponível”, alerta Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, no prefácio do relatório Cidades e Mudanças Climáticas, produzido pelo UN-Habitat.

Se os cálculos das emissões de gases do efeito estufa das cidades englobarem processos como o consumo e geração de energia, os transportes e a produção industrial, as áreas urbanas aparecerão como as grandes vilãs mundiais, ficando responsáveis por 70% das emissões sendo que ocupam apenas 2% do território do planeta.

É justamente como protagonistas das mudanças climáticas que o relatório Cities and Climate Change: Global Report on Human Settlements 2011 (Cidades e Mudanças Climáticas: Relatório Global sobre as Ocupações Humanas 2011) apresenta as cidades. Produzido pelo UN-Habitat, programa da ONU direcionado para promover o desenvolvimento social e ambiental das cidades, o documento afirma que o modelo atual de urbanização está seguindo um rumo de alto risco devido às transformações no clima.

“Nas próximas décadas, as mudanças climáticas irão fazer com que centenas de milhões de pessoas, na sua maioria as mais pobres e marginalizadas, fiquem cada vez mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos de terra e outros desastres naturais. Esta é a previsão que fazemos baseados na melhor ciência que temos disponível”, alerta Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, no prefácio do relatório.

O aumento populacional nas cidades e como consequência a ocupação de áreas de risco são fatores apontados pelo documento que tornarão cada vez maiores os números dos flagelados. Segundo dados da ONU, 59% da população mundial habitará áreas urbanas até 2030, sendo que a cada ano mais 67 milhões de pessoas passam a viver em cidades.

Baseado nessas estatísticas e nos fenômenos climáticos extremos que foram observados nos últimos anos, o estudo do UN-HABITAT traça um panorama sombrio para o futuro das áreas urbanas:

- Mais de 200 milhões de pessoas devem perder suas casas por causa das mudanças climáticas até 2050;

- Mesmo o mínimo aquecimento de 1°C ou 2°C na temperatura pode fazer com que de 6 a 25 milhões de pessoas fiquem sujeitas a inundações apenas no litoral do norte da África;

- Atualmente 40 milhões de pessoas vivem em áreas onde podem ocorrer grandes enchentes, em 2070 essa população será de 150 milhões, elevando os prejuízos para até US$ 38 trilhões;

- Na América Latina, entre 12 a 81 milhões de pessoas podem sofrer com a escassez de água até 2020. Em 2050 esse número deve ser de 79 a 178 milhões.

Corrida contra o tempo
Esse cenário pode ainda ser alterado, pois o lado positivo das cidades serem responsáveis por 70% das emissões é que ações vigorosas bem direcionadas podem surtir um grande efeito.

“O nosso relatório procura disseminar o conhecimento e contribuir para que as cidades consigam mitigar o aquecimento global e se adaptar às mudanças climáticas. Além disso, identificamos medidas já existentes e que podem ser replicadas em mais locais”, explicou Joan Clos, diretor executivo do UN-Habitat.

Entre essas políticas o relatório destaca, por exemplo, a cobrança de pedágio para a circulação de veículos privados nos centros das grandes metrópoles européias. Além de reduzir as emissões e melhorar a mobilidade urbana, os recursos adquiridos podem ser destinados para ações sustentáveis.

Outra medida citada é a reforma de prédios públicos e a obrigatoriedade de adoção de padrões de eficiência energética para novas construções. A cidade de Londres apresenta neste sentido uma politica exemplar pela qual o governo financia a troca de antigos aquecedores residenciais por modelos mais modernos e eficientes. Com isso, as emissões dos domicílios londrinos podem ser reduzidas em 60%.

Com relação à adaptação às mudanças climáticas que já são irreversíveis, o UN-Habitat recomenda algumas normas simples principalmente para a construção de casas populares em países em desenvolvimento. Melhores fundações, aterramento mais elevado e colocação de plataformas sob os móveis são medidas simples que podem evitar com que as pessoas percam tudo o que possuem em cada enchente.

“Muitas cidades não conseguem colocar em prática medidas de adaptação ou mitigação simplesmente por falta de conhecimento ou de acesso aos recursos internacionais que tem esse fim. Nosso relatório pode ajudar neste sentido, divulgando as melhores práticas já existentes e facilitando o intercâmbio de informações. É fundamental que as cidades percebam o quão importante é o papel delas para combater as mudanças climáticas”, concluiu Joan Clos.


Fabiano Ávila - Instituto Carbono Brasil


Fonte: Carta Maior

quarta-feira, 30 de março de 2011

Convite: 40 ANOS DE PASTORAL OPERÁRIA


Meus irmãos (as)

Com alegria conclamo. “é preciso despertarmos do sono” (Rom.13:11).

“Não é possível continuarmos a dormir, de maneira particular, na Igreja, diante da classe trabalhadora esmagada. Precisamos dizer, claramente, que um Sistema que fabrica milhões de desempregados, não presta. Precisa cair. É pecaminoso. Precisamos agarrar a CHAVE da questão social que é o TRABALHO e, com ela abrir novas portas de vida.”

(DOM ANGÉLICO SÂNDALO BERNARDINO)

Diante destas sabias palavras, que alicerçam a nossa caminhada até os dias de hoje. Convocamos todos os discípulos do filho de Deus e do carpinteiro José para celebrar, estes 40 anos de Pastoral Operária que nos propiciou tantos aprendizados, e tantos despertar de consciências, nos tirando do túnel da opressão, e nos direcionando em busca de uma sociedade justa e fraterna.

DIA: 10 ABRIL 2011 - DOMINGO

HORA: 15:00

LOCAL: CATEDRAL DE SÃO MIGUEL ARCANJO – SÃO MIGUEL PAULISTA

CELEBRANTE: DOM ANGÉLICO SÂNDALO BERNARDINO


ABRAÇO FRATERNO.

COORDENAÇÃO DE PASTORAL OPERÁRIA DA DIOCESE DE SÃO MIGUEL PAULISTA

Revolta em Jirau reflete superexploração

Em 15 de março, parte dos cerca de 22 mil trabalhadores da Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, levantaram-se contra as péssimas condições de trabalho em que viviam. Mais do que isso. Muitos compreenderam que o consórcio Energia Sustentável do Brasil, formado pelas empresas Camargo Corrêa, Suez e Eletro, estão lucrando às custas de sua exploração.

Na ocasião, dezenas de veículos foram incendiados e algumas instalações do canteiro de obras, depredadas. Praticamente todos os alojamentos foram incendiados. As obras estão paralisadas por tempo indeterminado. Uma assembleia já havia sido marcada para o dia 27 de março. Segundo os trabalhadores, o estopim foi a agressão, por parte de um motorista da empresa que transporta os funcionários, a um operário que fora impedido de embarcar porque não possuía autorização para deixar o canteiro. A situação, então, tornou-se incontornável. Por causa da manifestação, cerca de 35 trabalhadores foram presos.

Vandalismo”

Emergem dúvidas, entretanto, sobre quem praticou o primeiro ato de “vandalismo”. “O funcionários nos relatam constantemente inúmeros desmaios por dia em plena obra, sendo que os ambulatórios não possuem médicos. E o pior: permanecem sob observação por dez minutos, e, depois, são obrigados a retornar ao trabalho”, revela a irmã Maria Ozânia da Silva, coordenadora da Pastoral do Migrante em Rondônia.

O transporte dos operários é de péssima qualidade. Segundo conta o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) em Rondônia, Océlio Muniz, aquele que perde um ônibus devido à lotação e chega atrasado na rodoviária de distribuição para os canteiros de obras perde o dia de serviço.

De acordo com ele, no almoço, que dura uma hora, todos se apressam para tomar o ônibus. Não há tempo para descanso. O mesmo acontece para quem perde o ônibus que retorna ao alojamento e é obrigado a andar por cerca de 7 quilômetros até o dormitório.

Em junho de 2010, um funcionário do setor de reciclagem de Jirau afirmou à reportagem do Brasil de Fato presente no local que o simples posicionamento de um trabalhador exigindo seus direitos, como a existência de instrumentos básicos de proteção, como máscaras, por exemplo, resultava em sua demissão ou perseguição.

“A falta de diálogo, o autoritarismo da empresa, isso tudo se reflete na violação dos direitos humanos tanto das comunidades atingidas quanto em relação aos operários”, critica irmã Maria Ozânia da Silva. Também existem relatos de trabalhadores que teriam sido agredidos por outros funcionários contratados pela Camargo Corrêa.

Direitos atacados

Não é de hoje que as empresas que constroem a Usina Hidrelétrica de Jirau – que faz parte do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – estão envolvidas em sérios ataques aos direitos trabalhistas.

Em setembro de 2009, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Rondônia e o Ministério Público do Trabalho libertou 38 pessoas que trabalhavam em condição análoga à escravidão para a BS Construtora, empresa terceirizada do consórcio dono da barragem que construía a Vila Nova Mutum, para onde serão transferidas as famílias que residem na área que será inundada.

A grande imprensa focaliza o “vandalismo” dos trabalhadores, mas pouco ou nada diz sobre os motivos da revolta que, para o sociólogo Luiz Fernando Novoa, professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir), reside na “insistência em disciplinar e aferrar a mão de obra a cronogramas físico-financeiros autistas e irreais, com condições de trabalho degradantes, e através da repressão policialesca”.

Para Novoa, grande parte dos erros cometidos contra os trabalhadores está inscrita em dois equívocos maiores: na “licenciosidade” por parte do governo federal em relação à implementação das obras no rio Madeira e na busca das empresas pelo lucro imediato, atrelados a tais “cronogramas autistas” mesmo que o custo seja o desrespeito aos direitos dos barrageiros. “O governo federal, em nome da atratividade do negócio, afrouxou ao máximo a regulamentação e a fiscalização em todas as áreas afetadas devidos às obras (ambiental, trabalhista, urbanística, compensações sociais) e blindou política e juridicamente todo o processo de outorga, concessão e licenciamento”, destaca.

Arranjo financeiro”

Novoa lembra que as hidrelétricas feitas na região amazônica devem ser extremamente flexíveis na sua implementação, oferecendo, nos leilões, tarifas reduzidas que justifiquem o risco nesse investimento. O consórcio Energia Sustentável do Brasil, que constrói Jirau, ofereceu, em leilão ocorrido em 2008, o preço de 71,40 reais por Mwh (megawatt-hora), um considerável deságio de 21,5%.

Quase um ano depois das rebeliões ocorridas na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, o sociólogo aprofunda a questão ao elucidar que o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira resulta de um arranjo financeiro, arquitetado pelo Ministério do Meio Ambiente (MME) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e viabilizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que premia a máxima antecipação da operação das usinas com a venda de 100% da energia, gerada antes do prazo contratual, no mercado livre.

“Impõe-se a etapa da construção nas margens mínimas de tempo e de custos e quem paga por isso são os trabalhadores, a população atingida e o meio ambiente. É preciso lembrar que o governo federal, ao defender a construção da Usina de Belo Monte, apresentava as usinas do Madeira como modelo de sustentabilidade e participação. Será esse o paradigma para a construção de novas grandes hidrelétricas na Amazônia?”, critica Novoa. Como ele disse ao Brasil de Fato em 2010, “a fatura está vindo de modo informal, por meio dessas rebeliões”.

Altair Donizete de Oliveira, do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Rondônia (Sticcero), joga mais luz nessa situação. Ele lembra que a Camargo Corrêa não pagou a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) que deveria ter sido repassada em novembro.“É dito cinquenta vezes por dia que a Usina de Jirau está um ano adiantada no cronograma, e a empresa não paga PLR porque diz que não teve lucro. Então, como fica a cabeça do trabalhador?”, conta.

O projeto da Usina Hidrelétrica de Jirau recebeu R$ 7,2 bilhões do BNDES. O salário médio dos funcionários é de R$ 1.500. Grosso modo, os gastos do consórcio com salários gira em torno de entre R$ 33 milhões e R$ 40 milhões. (com informações da Radioagência Notícias do Planalto)

Eduardo Sales de Lima


Fonte: Brasil de Fato

"Carne Osso" retrata trabalho nos frigoríficos brasileiros

Selecionado para o Festival "É Tudo Verdade", documentário alia imagens impactantes a depoimentos que caracterizam o duro cotidiano do trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos

Quem trabalha em um frigorífico se depara diariamente com uma série de riscos que a maior parte das pessoas sequer imagina. Exposição constante a facas, serras e outros instrumentos cortantes; realização de movimentos repetitivos que podem gerar graves lesões e doenças; pressão psicológica para dar conta do alucinado ritmo de produção; jornadas exaustivas até mesmo aos sábados; ambiente asfixiante e, obviamente, frio - muito frio.

Clique na imagem acima e assista ao trailer do documentário "Carne Osso", da Repórter Brasil
Esse é o duro cotidiano de trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos que o documentário "Carne Osso" traz à tona.

Ao longo de dois anos, a equipe da ONG Repórter Brasil percorreu diversos pontos nas regiões Sul e Centro-Oeste à procura de histórias de vida que pudessem ilustrar esses problemas.

O filme alia imagens impactantes a depoimentos que caracterizam uma triste realidade que deve ser encarada com a devida seriedade pela iniciativa privada, pela sociedade civil e pelo poder público.

Selecionado para o Festival "É Tudo Verdade", "Carne Osso" concorre na competição brasileira de longas e médias metragens. O filme será exibido nos dias 2 (às 21h) e 3 (às 13h) de abril, no Cine Unibanco Arteplex (Sala 6) - Praia de Botafogo, 316, Rio de Janeiro (RJ). Em São Paulo (SP), às exibições estão marcadas para 4 (às 21h) e 5 (às 13h) de abril, no Cine Livraria Cultura (Sala 1), no Conjunto Nacional, na Av. Paulista, 2073. A entrada é gratuita.

Danos físicos e psicológicos
"Cerca de 80% do público atendido aqui na região é de frigoríficos. Ainda é um pouco difícil porque o círculo vicioso já foi criado. O trabalhador adoece e vem pro INSS. Ele não consegue retornar, ele fica aqui. E as empresas vão contratando outras pessoas. Então já se criou um círculo que agora para desfazer não é tão rápido e fácil"
Juliana Varandas, terapeuta ocupacional do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) de Chapecó (SC).

As estatísticas impressionam. De acordo com o Ministério da Previdência Social, um funcionário de um frigorífico de bovinos tem três vezes mais chances de sofrer um traumatismo de cabeça ou de abdômen do que o empregado de qualquer outro segmento econômico. Já o risco de uma pessoa de uma linha de desossa de frango desenvolver uma tendinite, por exemplo, é 743% superior ao de que qualquer outro trabalhador. E os problemas não são apenas físicos. O índice de depressão entre os funcionários de frigoríficos de aves é três vezes maior que o da média de toda a população economicamente ativa do Brasil.

Ritmo frenético
"
A gente começou desossando três coxas e meia. Depois, nos 11 anos que eu fique lá, cada vez eles exigiam mais. Quando saí, eu já desossava sete coxas por minuto"
Valdirene Gonçalves da Silva, ex-funcionária de frigorífico

Em alguns frigoríficos de aves, chegam a passar mais de 3 mil frangos por hora pela "nória" - a esteira em que circulam os animais. Há trabalhadores que fazem até 18 movimentos com uma faca para desossar uma peça de coxa e sobrecoxa, em apenas 15 segundos. Isso representa uma carga de esforço três vezes superior ao limite estipulado pelos especialistas em saúde do trabalho.

Reclamações curiosas
"Tu não tem liberdade pra tu ir no banheiro. Tu não pode ir sem pedir ordem pro supervisor teu, pro encarregado teu. Isso aí é cruel lá dentro. Tanto que tem gente que até louco fica"
Adelar Putton, ex-funcionário de frigorífico

Muitos trabalhadores se queixam também de restrições de menor importância – pelo menos, aparentemente. Por exemplo: o funcionário só pode ir ao banheiro com permissão do supervisor e em um tempo bastante curto, coisa de poucos minutos. Também são tolhidas aquelas conversinhas paralelas que possam diminuir o ritmo de trabalho.

Problemas com a Justiça
"
O trabalho é o local em que o empregado vai encontrar a vida, não é o local para encontrar a morte, doenças e mutilações. E isso no Brasil, infelizmente, continua sendo uma questão séria"
Sebastião Geraldo de Oliveira, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª região (TRT-3)

Nas regiões em que estão instaladas as indústrias frigoríficas, boa parte dos processos que correm na Justiça do Trabalho diz respeito a essas empresas. Em cidades como Chapecó, no oeste de Santa Catarina, as ações movidas por trabalhadores contras essas companhias respondem por mais da metade dos processos.

Pujança econômica
"Esse é um problema de interesse do conjunto da sociedade, não é só de um setor. O Estado tem que se posicionar. Não se pode fazer de forma tão impune ações que levam ao adoecimento e à incapacidade tantos trabalhadores"
Maria das Graças Hoefel, médica e pesquisadora

O Brasil é simplesmente o maior exportador de proteína animal do mundo. O chamado "Complexo Carnes" ocupa o terceiro lugar no pódio do agronegócio nacional, atrás apenas da soja e do açúcar/etanol. Em 2010, as vendas externas superaram US$ 13 bilhões. No total, o setor emprega diretamente 750 mil pessoas. Vale lembrar que muitos desses frigoríficos se transformaram em gigantes no mercado mundial com dinheiro do governo via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - o principal banco de fomento da economia brasileira.

Melhorar é possível
"
Basicamente, é conscientizar essas empresas para reprojetar essas tarefas. Introduzir pausas, para que exista uma recomposição dos tecidos dos membros superiores, da coluna. Em algumas vai ter que ter diminuição de ritmo de produção. Nós estamos hoje chegando só no diagnóstico do setor. Mas as empresas ainda refratárias a esse diagnóstico"
Paulo Cervo, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)

Não é difícil diminuir a incidência de problemas no ambiente de trabalho de um frigorífico. Reduzir a jornada de trabalho, adotar um rodízio de tarefas, diminuir o ritmo da linha de produção e realizar pausas mais frequentes e mais longas são algumas medidas possíveis. Falta apenas que as empresas se conscientizem disso.

Ficha técnica - Carne Osso
Duração: 65 minutos
Direção: Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros
Roteiro e edição: Caio Cavechini
Fotografia: Lucas Barreto
Pesquisa: André Campos e Carlos Juliano Barros
Produção Executiva: Maurício Hashizume
Realização: Repórter Brasil, 2011

Exibições - É Tudo Verdade
Entrada gratuita


Rio de Janeiro (RJ)
2 de abril - 21h
3 de abril - 13h
Cine Unibanco Arteplex (Sala 6)
Praia de Botafogo, 316

São Paulo (SP)
4 de abril - 21h
5 de abril - 13h
Cine Livraria Cultura (Sala 1)
Conjunto Nacional, na Av. Paulista, 2073

Fonte: Reporter Brasil

O FMI e a Comissão Europeia organizam o saque da Grécia

Enquanto o povo é confrontado com uma destruição generalizada das conquistas sociais (reduções de salários e pensões, aumentos dos impostos indiretos, aumento da idade de reforma, privatização e aumento das taxas de serviços públicos…), a Grécia compra armamento da França (6 fragatas FREMM de cerca de 500 milhões de euros cada e helicópteros de combate SAR) e da Alemanha (submarinos). O governo grego às ordens da troica FMI-CE-BCE, culpado de falta de assistência à população em perigo, organiza o saque do país em benefício do grande capital. Jérome Duval

Enquanto o desemprego continua a subir depois de ter passado de 9,7% para 12,9% da população ativa entre o 3º trimestre de 2009 e o 3º trimestre de 2010 (cerca de 34% dos menores de 25 anos estão desempregados), o povo continua a mobilização contra os planos de austeridade de orientação ultraliberal e conformes ao “consenso” de Washington.

Essa política promovida pela troica – Fundo Monetário Internacional (FMI), Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) – em troca de ajuda financeira para fazer face ao pagamento da dívida pública é digna daquela que levou a Argentina, aluno modelo do FMI, a uma crise memorável em 2001. Os meios de comunicação dominantes escondem-nos o orçamento militar grego que não cessa de agravar o déficit. No entanto, este é, proporcionalmente ao PIB, o mais significativo dos países membros da OTAN depois dos Estados Unidos e representou 4% do PIB em 2009. Será que os traficantes de armas proprietários de impérios midiáticos, como Dassault ou Lagardère, não querem comprometer um mercado lucrativo?

Enquanto o povo é confrontado com uma destruição generalizada das conquistas sociais (reduções de salários e pensões, aumentos dos impostos indiretos, aumento da idade de reforma, privatização e aumento das taxas de serviços públicos…), a Grécia compra armamento à França (6 fragatas FREMM de cerca de 500 milhões de euros cada e helicópteros de combate SAR) e à Alemanha (submarinos). Essas compras de armamento em tempo de austeridade drástica para a população são inadmissíveis. O dinheiro roubado à população para comprar material militar deve ser devolvido na íntegra e os responsáveis levados à justiça.

Segundo o SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), a Grécia é o país europeu que mais dinheiro gasta na Defesa em relação ao seu produto interno bruto (PIB) e está entre os 10 maiores compradores de armas no mundo. Trata-se de um comportamento odioso e irresponsável para com a sua própria população, que dessangra para reabastecer os cofres do Estado.

Em maio de 2010, segundo o Ministério da Defesa francês questionado pelo deputado François Cornut-Gentille, “nenhuma das medidas de contenção orçamentária suplementares decididas no mês de março de 2010, na sequência da intervenção da União Europeia, deverá afetar, este ano, o orçamento de aquisição do Ministério da Defesa grego. (…) as etapas de aquisição de fragatas tipo FREMM (fragatas multi-missão) e de helicópteros SAR (busca e salvamento) permanecem, portanto, vigentes”.

A Grécia assinou com o FMI e a União Europeia novos empréstimos mal chamados “ajuda”. Ao tentar reduzir o déficit à custa de incríveis sacrifícios, o país deverá pagar uma dívida sobrecarregada com juros cada vez mais elevados à medida que as agências de notação degradam a classificação do país.

Em dezembro de 2010, os deputados gregos aprovaram um novo pacote de cortes orçamentários que consiste em reduzir os salários dos funcionários da televisão e dos transportes públicos. Os jornalistas gregos juntaram-se aos protestos que percorrem o país e, em Atenas, a entrada do Banco Central foi pulverizada com tinta vermelha. Em fevereiro de 2011, foi a vez dos médicos, farmacêuticos e profissionais da área médica se manifestarem à frente do parlamento contra uma redução de 1,4 mil milhões de euros em despesas de saúde exigida pela União Europeia (UE) e pelo FMI, enquanto uma centena de médicos acampavam em frente ao Ministério da Saúde, em Atenas.

A delegação do FMI e da UE enviada para o local em Atenas, a 7 de fevereiro de 2011, aguardará a execução da reforma do sistema de saúde, antes de dar o sinal verde para o pagamento da quarta parcela do empréstimo – no montante de 15 bilhões de euros – inicialmente previsto para fevereiro de 2011. A cada vez, medidas sempre mais liberais exigidas pela UE e o FMI são o pré-requisito para desbloquear as parcelas sucessivas no quadro do empréstimo de 110 bilhões aprovado em maio de 2010.

O governo grego às ordens da troica FMI-CE-BCE, culpado de falta de assistência à população em perigo, organiza o saque do país em benefício do grande capital

Mas, como se isso não bastasse, os credores exigem uma “aceleração decisiva” das reformas estruturais para reduzir a dívida e atrasam o pagamento da quarta parcela. Em fevereiro de 2011, o governo de Georgios Papandreou acabou por reagir quando mais uma vez a troica FMI-CE-BCE pediu o aprofundamento das reformas e o aumento da sua meta de privatização de bens públicos do Estado, passando de 7 bilhões de euros de receita a realizar até 2013, dos quais 1 bilhão em 2011, para 50 bilhões até 2015. Essa reação faz-nos sorrir quando vemos a total submissão aos seus credores por parte de um governo que se auto-denomina socialista.

De resto, levou apenas alguns dias para que Papaconstantinou, Ministro das Finanças, voltasse atrás e indicasse que “o objetivo” deste plano de privatização de 50 bilhões «era certamente ambicioso, mas exequível», aceitando de novo a ingerência do FMI, secundado pela Comissão Europeia… São então visados os portos, os aeroportos, os caminhos-de-ferro, a electricidade, assim como praias turísticas do país. O representante da Comissão Europeia, Servaas Deroose, propôs no diário To Vilma, a “venda das praias para o desenvolvimento do turismo e do mercado dos imóveis turísticos”. Noutra entrevista, acrescentou: “A Grécia poderia facilmente arrecadar cinco bilhões de euros vendendo o antigo aeroporto de Atenas, localizado numa zona costeira lucrativa”. Por seu lado, o chefe da missão do FMI, Poul Thomsen, sugeriu a “venda de terrenos, incluindo o antigo aeroporto” de Atenas. “Estamos num momento crucial em que precisamos de uma aceleração das reformas”, teria ele declarado, segundo o diário Kathimerini.

A contração, mais severa do que o previsto pelas instituições, do PIB grego em 1,4% no quarto trimestre de 2010, uma inflação galopante de 5,2% em janeiro de 2011, bem como a queda das receitas dos gregos, que caíram 9% em 2010 sob o efeito das medidas de austeridade, dão uma ideia do rotundo fracasso da política da troica FMI-CE-BCE. De acordo com o Banco da Grécia, “O poder de compra dos funcionários públicos recuou para um nível inferior ao de 2003, enquanto no conjunto da economia o poder de compra recuou em média para um nível inferior ao de 2006”. Por seu lado, os investidores são incentivados a fazer negócios suculentos por meio de uma redução dos custos trabalhistas de 3% em média no país.

Não há com que acalmar uma população já golpeada pela crise, e uma greve geral paralisou o país em 23 de fevereiro de 2011. O povo grego tem o direito de exigir outras medidas radicalmente diferentes, como a tributação dos rendimentos elevados e uma moratória sobre a compra de armamento militar. Mas só uma auditoria das contas públicas do Estado sob controle cidadão poderá analisar os acordos da dívida, a fim de restituir a parte ilegítima ou odiosa ao verdadeiro credor que reivindica soberania e dignidade: o povo grego. É necessário, a este respeito, saudar a iniciativa da deputada Sophia Sakorafa que, em dezembro de 2010, propôs ao parlamento grego a constituição de uma Comissão Parlamentar de auditoria da dívida pública.

Jérome Duval

Fonte: Carta Maior

Interpretação feminista do relato da criação

As teólogas feministas nos despertaram para traços antifeministas no atual relato da criação de Eva (Gn 1,18-25) e da queda original (Gn 3,1-19), o que veio reforçar na cultura o preconceito contra as mulheres. Consoante este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: "eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (hebraico: ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir a sua varoa: e os dois serão uma só carne"(2,23-25).

O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher. Mas, a anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi, porém, interpretada como superioridade masculina. O relato da queda soa também antifeminista: "Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus"(Gn 3,6-7).

Interpreta-se a mulher como sexo fraco, pois foi ela que caiu na tentação e, a partir daí, seduziu o homem. Eis a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado: "estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará"(Gn 3,16).

Há uma leitura mais radical, apresentada por duas teólogas feministas, entre outras: Riane Eisler (Sacred Pleasure, Sex Myth and the Politics of the Body,1995) e Françoise Gange (Les dieux menteurs 1997) que aqui resumo. Estas autoras partem do dado histórico de que houve uma era matriarcal anterior à patriarcal. Segundo elas, o relato do pecado original seria introduzido no interesse do patriarcado como uma peça de culpabilização das mulheres para arrebatar-lhes o poder e consolidar o domínio do homem. Os ritos e os símbolos sagrados do matriarcado teriam sido diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior. O atual relato do pecado original coloca em xeque os quatro símbolos fundamentais do matriarcado.

O primeiro símbolo atacado é a mulher em si que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe. Agora é feita a grande sedutora.

No segundo, desconstrói-se o símbolo da serpente que representava a sabedoria divina que se renovava sempre como se renova a pele da serpente.

No terceiro, desfigura-se a árvore da vida, tida como um dos símbolos principais da vida, gestada pelas mulheres, agora colocada sob o interdito: "não comais nem toqueis de seu fruto" (3,3).

No quarto, se distorce o caráter simbólico da sexualidade, tida como sagrada, pois permitia o acesso ao êxtase e ao conhecimento místico, representada pela relação homem-mulher.

Ora, o que faz o atual relato do pecado original? Inverte totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Desacraliza-os, diaboliza-os e transforma o que era bênção em maldição.

A mulher é eternamente maldita, feita um ser inferior, sedutora do homem que "a dominará" (Gen 3,16). O poder de dar a vida será realizado entre dores (Gn 3,16).

A serpente será maldita, feita inimigo fidagal da mulher que lhe ferirá a cabeça mas que será mordida no calcanhar (Gn 3,15).

A árvore da vida e da sabedoria cai sob o signo do interdito. Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa perigo letal (Gn 3,3).

O laço sagrado entre o homem e a mulher é substituído pelo laço matrimonial, ocupando o homem o lugar de chefe e a mulher de dominada (Gn 3,16).

Aqui se operou uma desconstrução profunda do relato anterior, feminino e sacral. Hoje todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador como está no Gênesis.

Por que escrever sobre isso? É para reforçar o trabalho das teólogas feministas que nos apontam quão profundas são as raízes da dominação das mulheres. Ao resgatarem o relato mais arcaico, feminista, elas visam propor uma alternativa mais originária e positiva na qual apareça uma relação nova com a vida, com os gêneros, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.


Leonardo Boff

II Encontro Nacional de Mulheres Brasileiras (ENAMB 2011)

Articulação de Mulheres Brasileiras realiza encontro nacional em Brasília

Cerca de 600 mulheres de 23 estados brasileiros se encontrarão, a partir de hoje (30), no II Encontro Nacional de Mulheres Brasileiras (ENAMB 2011). O evento, realizado pela Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), acontecerá até o dia 2 de abril no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com Sílvia Camurça, da coordenação nacional da AMB, o objetivo deste e de outros encontros da Articulação é "promover um espaço de acolhimento das novas militâncias da AMB", além de contribuir com propostas para as ações e os debates feministas dentro do movimento.

O Encontro, convocado em 2010, assume uma importância ainda maior no atual cenário político brasileiro, quando, pela primeira vez, o país tem uma mulher na presidência. Para Sílvia, o Governo da presidenta Dilma Rousseff "exige um reposicionamento feminista".

Isso porque, na opinião dela, a emancipação feminina passa a ser foco de disputa não só na política, como também nos meios de comunicação e em outros espaços. "É desafiador [para o movimento] essa disputa simbólica sobre como a mulher pode ou não se comportar, até onde ela pode chegar", comenta.

Outros pontos que deverão exigir atenção do movimento feminista no Governo Dilma, segundo Sílvia, são o modelo desenvolvimentista adotado pela presidenta - considerado pela feminista como um problema no atual contexto de crise ambiental - e as políticas para as mulheres. "[A expectativa é que as] políticas para as mulheres ganhem realce nesse Governo, principalmente pelo destaque na erradicação da pobreza. E sabemos que a pobreza é maior entre as mulheres", observa.

Programação

Durante os quatros dias, as feministas discutirão sobre questões como: "Expressões do Feminismo da AMB", "Atuação da AMB frente ao novo governo no contexto de crise global", "30 anos de feminismo transformando o mundo" e "Questões político-organizativas da AMB".

Segundo Sílvia Camurça, as atividades começarão na tarde de amanhã, com três atos de lançamento na capital federal. "Realizaremos atos públicos no Congresso Nacional, para ocupar o espaço político; na rua, para estabelecer diálogo com a sociedade; e no alojamento, entre as delegações", revela.

Na quinta-feira (31), as participantes debaterão sobre a linha de atuação da presidenta Dilma Rousseff no contexto de crise ambiental e social. No dia seguinte (1°), será feito um balanço das lutas da Articulação com destaque para os avanços e os desafios encontrados nas três principais linhas de luta da AMB: a antirracista, a anticapitalista e a antipatriarcalista.

O encerramento acontecerá no sábado (2), com trabalhos em grupos sobre questões político-organizativas da AMB, como alianças, ações e atuações. Segundo Silvia, as propostas serão organizadas e levadas ao Comitê Político da AMB.

Karol Assunção

Fonte: ADITAL

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava

Padre José Comblin morreu. Um bispo o criticou, como: "Comblin, homem cansado e pessimista". O pessoal das Comunidades por onde ele andava não o chamava de Comblin, mas sim de "Padre José". Padre Comblin incomodava as pessoas de poder, mas era amado pelos pobres que o acolhiam carinhosamente como Padre José.

Padre José Comblin nasceu na Bélgica nos anos 20 do século passado e nos anos 50 veio trabalhar e anunciar a Boa Nova aqui no Brasil. O profeta Amós era de Judá no Sul e foi trabalhar e anunciar a Boa Nova de Deus em Israel no Norte, no santuário de Betel. Amasias, o sacerdote de Betel, não gostou e denunciou o profeta junto ao rei Jeroboão, dizendo que já não se podia tolerar as palavras de Amós. E mandou dizer ao próprio Amós: "Ó, seu profeta, vá embora daqui. Retire-se para sua terra Judá. Vá ganhar sua vida por lá com suas profecias. Mas não me venha mais fazer suas profecias aqui em Betel, pois isto aqui é o santuário do Rei e o templo do Rei". Amós mandou dizer: "Eu não sou profeta nem filho de profeta. Sou camponês, criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé que me tirou de trás do rebanho e me ordenou, ‘Vá profetizar ao meu povo Israel'!" (Amós 7,10-15).

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava aos homens do poder no tempo da ditadura e foi expulso várias vezes. Incomodava também aos que exercem o poder na Igreja. Alguns deles chegaram a dizer que já não se podia tolerar as coisas que ele dizia, e eles proibiram a fala dele várias vezes em vários lugares.

Como o profeta Amós, Padre José, ele mesmo, nunca se apresentou como profeta. Ele se apresentava como ser humano cristão e sacerdote, cumpridor fiel do seu dever. Posso testemunhar: convidado para falar nas comunidades e nos grupos do CEBI, Padre José convencia as pessoas pela simplicidade do seu jeito de conversar e dialogar, pelo testemunho da sua sinceridade e profundidade de vida e pela quantidade enorme de informações de que dispunha para confirmar as coisas que dizia e as denúncias que fazia.

Mesmo ausente ele continua presente. Como o profeta Amós, "seu corpo foi sepultado em paz, mas o seu nome viverá através das gerações" (Eclo 44,14). Eternamente grato.

Frei Carlos Mesters

terça-feira, 29 de março de 2011

Tremores no Brasil não podem ser negligenciados...

O Brasil já sofreu diversos abalos sísmicos no século 21, como os registrados em São Paulo em 2008 e em Minas Gerais em 2007. Apesar de produzir tremores de baixa intensidade, a atividade sísmica no país não pode ser negligenciada, mostra o livro "Decifrando a Terra".

Segundo a obra, são os estudos sismológicos datados do início da década de 1970 que desfazem aquele discurso antigo de que o Brasil está livre de terremotos. O livro informa que, em 2007, foi registrada a primeira fatalidade por terremoto no país com um tremor que provocou desmoronamento de casas na zona rural de Itacarambi (Minas Gerais).

Em 624 páginas, "Decifrando a Terra" é uma referência no ensino atualizado das ciências geológicas em diversos cursos universitários em geologia, geofísica, geografia, biologia, química, oceanografia, física e engenharia.

Há capítulos sobre a origem do Universo, sismologia, placas tectônicas, atmosfera, mudanças climáticas, minerais e rochas, magma e seus produtos, ação da água na Terra, vulcanismo, processos fluviais, eólicos, oceânicos, entre outras áreas de interesse similar.


Um trecho do livro:

No dia 9 de dezembro de 2007, às 0h05, a comunidade rural de Caraíbas, a 32 km de Itacarambi, no norte de Minas Gerais, experimentou o gosto amargo da Tectônica Global. A terra tremeu, seis casas ruíram e outras 70 ficaram danificadas. Segundo os moradores, "teve um estrondo que parecia de baixo da terra. Foi um barulho que não tem filho de Deus que não ouviu. Saímos de casa correndo e nas ruas você só escutava choro, clamor." Mas o saldo trágico maior deste abalo sísmico de magnitude 4,9 na escala Richter foi a morte da menina Jesiqueli Oliveira da Silva, de 5 anos, o primeiro registro de morte por terremoto no Brasil.

Costuma-se ouvir que o Brasil é um país geologicamente estável, livre dos perigos da natureza como terremotos, vulcões e tsunamis, que ocorrem frequentemente nos países andinos vizinhos. Mas o evento relatado nos ensina que estabilidade é diferente de imobilidade e nos alerta a uma outra realidade, que envolve escalas de tempo e espaço fora da nossa perspectiva usual. Durante uma vida humana, por exemplo, pouco se notam as mudanças da Terra (planeta), assim como um inseto, cujo ciclo de vida é de apenas duas semanas, não pode acompanhar o crescimento da árvore onde habita. Guardadas as devidas proporções, assim se parece nosso planeta aos olhos humanos.

A Terra é um planeta dinâmico, em contínua transformação, resultado de processos que atuam em escala temporal de milhares, milhões e bilhões de anos e envolvem continentes, crosta e manto. Se ao longo de toda a sua história a Terrra tivesse sido fotografada do espaço a cada mil anos, e se estas imagens surrealistas fossem transformadas num filme, veríamos a superfície do planeta em constante mutação, com os continentes se deslocando, colidindo e se fragmentando, cadeias de montanhas se elevando e sendo erodidas e os mares avançando sobre os continentes para, logo em seguida, recuarem novamente.

(...)

Por ocupar grande parte da América do Sul com rochas muito antigas e sem vulcões ativos, e por não se conhecer a ocorrência de sismos destrutivos, o Brasil era considerado um território sem atividades sísmicas. Contudo, no início da década de 1970, estudos sismológicos mostraram que a atividade sísmica no Brasil, apesar de produzir tremores de baixa intensidade, não pode ser negligenciada;

A concentração de epicentros nas regiões sudeste e nordeste do Brasil reflete, em parte, o processo histórico de ocupação e distribuição populacional do país, porque muitos destes eventos foram estudados a partir de documentos antigos. Mesmo assim, sismos de destaque, como o de Mogi-Guaçu (SP) de 1922 com magnitude 5,1 mb (mb - outra maneira de calcular magnitude Richter, utilizando ondas P, que produz valores aproximadamente equivalentes aos de M5), têm sido registrados nestas regiões. Em 1980, um sismo com magnitude 5,2 mb, e intensidade máxima VII MM foi sentido em praticamente todo o Nordeste onde provocou o desabamento parcial de casas modestas na região de Pacajus (CE). O maior sismo conhecido do Brasil ocorreu em 1955 com magnitude Richter 6,2 mb a 370 km ao norte de Cuiabá, MT.

Epicentros de sismos ocorridos no Brasil de 1767 a 2006 com magnitude > 3,0 (*)

1- 1955
Magnitude (em mb): 6,2
Localidade: Porto dos Gaúchos, MT. Em Cuiabá, 370 km ao sul, pessoas foram acordadas

2- 1955
Magnitude: 6,1
Localidade: Epicentro no mar a 300 km de Vitória, ES

3- 1939
Magnitude: 5,5
Intensidade máxima: >VI
Localidade: Tubarão, SC, plataforma continental

4- 1983
Magnitude: 5,5
Intensidade máxima: VII
Localidade: Codajás AM, bacia Amazônica

5- 1964
Magnitude: 5,4
Localidade: NW de MS, bacia do Pantanal

6- 1990
Magnitude: 5,2
Localidade: no mar a 200 km de Porto Alegre, RS

7- 1980
Magnitude: 5,2
Intensidade máxima: VII
Localidade: Pacajus (CE)

8- 1922
Magnitude: 5,1
Intensidade máxima: VI
Localidade: Mogi-Guaçu, SP, Sentido em SP, MG e RJ

9- 1963
Magnitude: 5,1
Localidade: Manaus, AM

10 - 1986
Magnitude: 5,1
Intensidade máxima: VII
Localidade: João Câmara, RN

11- 1998
Magnitude: 5,2
Intensidade máxima: VI
Localidade: Porto dos Gaúchos, MT

12- 1998
Magnitude: 5,3
Localidade:Margem Continental, AP

13- 2005
Magnitude: 5,1
Intensidade máxima: VI
Localidade: Porto dos Gaúchos, MT

14- 2006
Magnitude: 5,2
Localidade: Oiapoque, AP, e Caiena (Guiana Francesa)

15- 2007
Magnitude: 4,9
Intensidade máxima: VI
Localidade: Itacarambi, MG. Desmoronamento de casas em zona rural; primeira fatalidade por terremoto no Brasil

(*) A cobertura é incompleta porque até os meados do século XX apenas sismos com magnitude acima de 4 foram registrados. Atualmente, na região Sudeste sismos com magnitudes acima de 2,5 já são registrados, mas na Amazônia o limite de detecção é de 3,5.

Fontes: USP, UnB, UFRN, IPT

O terremoto de São Paulo

Em 22 de abril de 2008, pouco depois das 21 horas, a cidade de São Paulo sofreu um terremoto que também foi percebido nas cidades do leste dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, em especial as litorâneas. Seu epicentro foi localizado no mar, a cerca de 215 km da cidade de São Vicente e seu hipocentro a 10 km de profundidade, abaixo da bacia de Santos. A magnitude desse sismo foi de 5,2 na escala Richter (energia liberada).

Fonte: Folha Online