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terça-feira, 31 de maio de 2011

CEBs repudiam execução de defensores da Amazônia - Colegiada CEBs Sul 1


CEBs repudiam execução de defensores da Amazônia
Durante Colegiada em SP, lideranças das CEBs de todo o Estado planejam atividades e refletem sobre desafios a serem enfrentados


Nos dias 28 e 29, a Comunidade Moisés Libertador, na região Episcopal Belém acolheu representantes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), dos oito sub-regionais que compõem o Regional Sul 1 para sua colegiada.

As lideranças contaram com a assessoria de dom Angélico Sândalo Bernadino que fez uma análise da atual conjuntura eclesial, apontando as CEBs como uma forma privilegiada de se viver a Igreja como comunidade. Apontando a necessidade de as lideranças persistirem nesse modelo de Igreja, que está atenta à realidade de seu povo e disposta a se organizar para conquistar a dignidade dos mais excluídos.

“As nossas identidades e missão se encontram e dão-se as mãos às causas do movimento popular, porque são as causas dos pobres, marginalizados, é a causa do reino de Deus”, disse Sérgio Coutinho, assessor do Setor CEBs da CNBB. Por isso, a manifestação das CEBs diante dos assassinatos ocorridos em Nova Ipixuna, no Pará. “Para nós a morte de uma liderança é uma tristeza enorme, defensores da natureza, da vida, foram assassinados covardemente, por essa direita que insiste em querer o Brasil para meia dúzia. Os nossos governantes não conseguem garantir a dignidade das nossas lideranças que estão ameaçadas de morte”, disse padre Severino Leite Diniz, da Diocese de Lins.

A vivacidade das CEBs está registrada em documentos da Igreja, como o de Aparecida, em 2007 - capítulo 5, números 178,179 e 180, e no Documento 92 da CNBB: “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs”, resultado do 12° Intereclesial das CEBs, realizado em julho de 2009, quando reuniu mais de 3 mil coordenadores de CEBs.

Segundo Sérgio Coutinho, as CEBs entrarão nas novas Diretrizes da Ação Evangelizadora no Brasil (2011 e 2015), que apontam cinco urgências: Igreja em Estado permanente de missão; Igreja casa da iniciação à vida cristã; lugar de animação bíblica e da vida pastoral; Igreja comunidade de comunidades; Igreja a serviço da vida plena. O assessor apontou ainda a necessidade das CEBs se atentarem à juventude. “Como atrair mais jovens e nos aproximarmos mais deles, em suas diversas realidades (campo, cidade, periferia...)? Essa deve ser também a nossa preocupação”, disse Sérgio.

Outro ponto discutido durante a assembleia foi a diminuição de vocações surgidas nas CEBs. Para Liz Marques, da coordenação estadual e membro da Comunidade Moisés Libertador afirmou que os padres precisam estar mais próximos da realidade do povo, como a que vive em sua comunidade com padre Omir Oliveira. Para ele, “as CEBs e a Moisés Libertador de modo especial, é uma comunidade que tem esse compromisso com a vida, é uma comunidade de pé no chão. As CEBs vêm do povo a partir de uma proposta evangélica, é um jeito todo próprio”, disse o padre avaliando que após ter acolhido a colegiada, à Moisés Libertador fica a certeza de que a CEB não está morrendo como tantos estão falando, pelo contrário, está bem viva”.


Karla Maria

Jornal O São Paulo

A Romaria dos Mártires aumentou!

Nota da CPT Ceará pelo assassinato de José Claudio Ribeiro da Silva, Maria do espirito Santo Silva e Adelino Ramos.

A Romaria dos Mártires aumentou!

“Se me matarem, ressuscitarei nas lutas do meu povo”
(D. Oscar Romero)

O ano de 2010 foi marcado por muitos assassinatos de lideranças camponesas. O Caderno de Conflitos no Campo Brasil, da CPT, registrou 34 assassinatos.
Recentemente, foi com profunda tristeza e igual indignação que recebemos a notícia do assassinato de mais três companheiros que, após várias ameaças, tiveram suas vidas ceifadas:
• No dia 24 de maio, os ambientalistas JOSÉ CLÁUDIO RIBEIRO DA SILVA e sua esposa MARIA DO ESPÍRITO SANTO SILVA, foram assassinados a tiros no interior do Projeto de Assentamento Extrativista, Praia Alta Piranheira, no município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará.
• No dia 27 de maio, foi ADELINO RAMOS, o Dinho, sobrevivente do massacre de Corumbiara, assassinado pela manhã, no distrito Ponta de Abunã, município de Porto Velho, em Rondônia.
Os motivos? A luta pela justiça, a defesa da floresta e dos direitos de seus povos. Preocupa-nos, cada vez mais, a ação de fazendeiros e madeireiros, bem como de outros grupos do grande capital, que ameaçam aqueles que levantam a voz contra as injustiças e preocupa-nos, ainda mais, a omissão e o descaso dos governos em garantir a segurança destas pessoas ameaçadas. Os representantes políticos, que ocupam os mais diversos cargos, em todas as instâncias, deveriam agir no sentido de coibir estes crimes e não o fazem. Assim, não são somente omissos, mas também coniventes, pois fazem concessões e criam leis favoráveis a latifundiários e madeireiros que desmatam, expulsam comunidades, perseguem e assassinam lideranças que se colocam ao lado dos mais pobres.
A violência Deus condena e, aqueles que a praticam, de maneira especial contra os mais pobres e indefesos, pagarão caro. A história de impunidade vai se repetindo. Somente numa semana, assassinaram três companheiros e, muito provavelmente, os mandantes e executores permanecerão impunes. Quando muito, serão condenados os executores, mas os mandantes, os “grandes do crime”, seguirão livres fazendo mais vítimas desta ganância por dinheiro e assalto às riquezas naturais.
Indigna-nos este fato e perguntamos até quando viveremos numa sociedade onde manda e desmanda quem tem dinheiro e, aqueles que detêm o poder político, não têm a mínina capacidade e vontade de promover a paz e a justiça.
A tristeza toma conta de nós, mas a morte destes companheiros fortalece a nossa indignação e o nosso compromisso com os camponeses e camponesas. Daremos continuidade à luta destes nossos irmãos e desta nossa irmã, exigindo justiça e punidade para os criminosos, para que outros/as companheiros/as não venham a ter suas vidas tiradas de forma tão brutal.
A Romaria dos Mártires aumentou... Seguem agora José Cláudio, Maria do Espírito Santo e Dinho. Seu martírio é fonte de testemunho vivo e vivificador, pois morreram defendendo a vida dos pobres, os preferidos de Deus, e a da natureza, a criação de Deus.
Fazemos nossas as palavras do Profeta Miquéias: “Escutem, líderes e autoridades do povo! Vocês que deviam praticar a justiça e, no entanto, odeia o bem e amam o mal. Vocês tiram a pele do meu povo e arrancam a carne dos seus ossos. Vocês devoram o meu povo: arrancam a pele, quebram os ossos e cortam a carne em pedaços, como se faz com a carne que vai ser cozinhada” (Mq, 3,1-3). Mesmo quando não o fazem diretamente, mas deixam de agir quando deveriam a fim de coibir e punir os criminosos do povo, trazem para si a mesma responsabilidade.
O sangue destes companheiros e desta companheira regou o chão e fará crescer a planta a justiça, cujo fruto é a paz (Is. 32,17). Eles permanecem vivos em nossas vidas, em nossas lutas.
A CPT Ceará se solidariza com os familiares de José Cláudio, Maria do Espírito Santo e Adelino Ramos, ao mesmo tempo em que se une na luta pela justiça.

Fortaleza, 30 de Maio de 2011
Comissão Pastoral da Terra


***
Declaração de repúdio ao assassinato do casal
de extrativistas no estado do Pará

“Como a terra faz desabrochar suas sementes, Deus fará germinar a justiça diante de todas as nações’ (cf. Isaias, 61,11).

A Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz - CNBB se une às inúmeras manifestações de repúdio ao brutal assassinato do casal Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva, líderes camponeses, ocorrido na manhã desta terça-feira, 24 de maio, em Nova Ipixuna, sudeste do Pará.
Conhecido por sua liderança no projeto de assentamento agroextrativista Praialta-Piranheira, criado em 1997, e na associação de camponeses da região, o casal ganhou o respeito e a admiração de todos na região por sua bravura na denúncia da ação de madeireiros ilegais na floresta amazônica.
A declaração feita, em novembro de 2010, diante de mais de 400 pensadores de diversas áreas do conhecimento sob o tema da qualidade de vida no planeta, nos dá uma dimensão da luta e do comprometimento de José Cláudio com a ecologia:
Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito, por isso vivo com a bala na cabeça a qualquer hora porque eu vou pra cima, eu denuncio. Quando vejo uma árvore em cima do caminhão indo pra serraria me dá uma dor. É como o cortejo fúnebre levando o ente mais querido que você tem, porque isso é vida pra mim que vivo na floresta e pra vocês também, que vivem nos centros urbanos.
O assassinato de Maria e José Cláudio, com repercussão internacional, traz à memória Chico Mendes e Ir. Dorothy, vítimas do mesmo poder econômico que avança sobre as florestas. A violência que mata estas lideranças em nosso país, evidencia a urgência de um modelo de desenvolvimento que respeite e promova a riqueza das culturas tradicionais na proteção, convivência e produtividade dos povos da floresta. Este pensamento foi expresso pela CNBB ao afirmar que:
“Organizar um processo produtivo que efetive a solidariedade e harmonize as sociedades atuais com as gerações futuras e com o meio ambiente é o desafio de um novo paradigma para a questão agrária no início do século XXI”. (cf. Doc. 99, Estudos da CNBB, nº 235-236).
Em nome das Pastorais Sociais e dos Organismos a ela vinculados, a Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz - CNBB manifesta sua solidariedade às comunidades da diocese de Marabá, ao povo de Nova Ipixuna e aos familiares do casal Maria e José Cláudio. Exige, ao mesmo tempo, a apuração imediata dos crimes com a consequente punição dos culpados, bem como a proteção a todas as lideranças camponesas ameaçadas de morte, para que floresça a justiça em nosso país.

Brasília, DF, 26 de maio de 2011.
Dom Guilherme Antônio Werlang - MSF
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral
para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz

8º Encontro Nacional de Fé e Política

Em Busca da Sociedade do Bem-Viver: Sabedoria, Protagonismo e Política


Esse é o tema central do 8º Encontro Nacional de Fé e Política, que acontecerá em 29 e 30 de outubro de 2011, em Embu das Artes, que pertence a Diocese de Campo Limpo, São Paulo, momento que se celebra os 32 anos do martírio de Santo Dias da Silva.

O Bem-Viver trata-se de um resgate histórico da sabedoria dos povos indígenas Aymara, Quétchua e Guarani, avançando num diálogo de novas iniciativas que apontam para criação de espaços de diálogo sobre a desmercantilização da vida e propõem outro projeto político para todos os povos. Esse debate favorece o protagonismo dos povos indígenas destacando várias iniciativas que apontam para um outro mundo possível, com a vida em plenitude e não o viver melhor e o viver bem, que prega o capitalismo.
A estimativa é que tenhamos 5.000 participantes no encontro.

Os encontros preparatórios estão acontecendo mensalmente na Paróquia Santos Mártires, no bairro Jardim Ângela e toda diocese está empenhada pra acolher bem a todos/as.

A princípio, a estrutura do encontro está assim:
Dia 29/10 – Manhã - Abertura e Plenária Geral com três assessorias
Tarde – 16 Plenárias Temáticas
Noite cultural

Dia 30/10 – Manhã – Plenária Geral
Ato Ecumênico de encerramento

O valor da inscrição será R$ 20,00.

Outros encaminhamentos serão informados posteriormente.

Contamos com todos/as vocês para uma ampla divulgação nos estados, grupos e entidades.

Organize sua caravana!!!

A Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política



Bem Viver - Hino do 8º Encontro Fé e Política

Presentes na história

Luzes para um novo dia

/: Nesse 8º encontro

A paz de novo irradia:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

Dos povos indígenas

Das experiências do tempo

/:Na grande metrópole

Um novo advento:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

De onde viemos

Aonde queremos chegar

/: Encontro Fé e Política

Nova terra, novo lar:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

Trabalho, esforços

E nas lutas sindicais

/:Retratos da vida

Conquistas sociais:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

Da terra extraímos

O alimento pras mesas

/:Mas sem desperdício

Ganância ou avareza:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

Embu das Artes
Arte expressão em cantar
/:Costumes e crenças
Da sabedoria popular:/

Do bem-te-vi o bem querer /

Do beija-flor o bem viver.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Febraban orienta a não aceitar notas manchadas de tinta



A Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), emitiu nota onde orienta a população a rejeitar as cédulas que estiverem manchadas de tinta. Isto porque, boa parte dos caixas eletrônicos está equipada com um dispositivo que mancha as cédulas com tinta rosa após a explosão do terminal por ladrões de banco.

A federação informa que as cédulas manchadas estão sendo tratadas da mesma forma que as notas falsificadas. A Febraban esclarece que o dinheiro não perde seu valor, mas diz em nota publicada em seu site que as pessoas podem se recusar a receber o dinheiro marcado.

Os bancos estão orientados a reter as notas marcadas, fazer a identificação do seu portador e encaminhar as cédulas suspeitas para análise do Banco central. A Febraban e o Banco Central têm se reunido constantemente para adotar procedimentos que ajudem a coibir os roubos a terminais e dificultar o uso do produto roubado.



Obs: QUEM MESMO DE BOA FÉ ACEITAR UMA NOTA MANCHADA, AO REPASSÁ-LA PODE SER SUSPEITO OU ATÉ MESMO PRESO ATÉ QUE PROVE SUA INOCÊNCIA. PARA ESTAR A SALVO DESSE PROBLEMA NUNCA ACEITE NOTAS MANCHADAS.

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Fonte: Andhrea Tavares / Rádioagência Nacional

CNBB depois da última Assembleia Geral - uma análise

Sergio Ricardo Coutinho


O mês de maio de 2011 foi marcado pela 49º Assembleia Geral da CNBB.

Além da mudança na presidência, os debates acerca dos caminhos que a Igreja Católica quer seguir no Brasil foram importantes.

Aliás, caminho é uma palavra significativa e marcante para o historiador Sergio Coutinho, ao analisar esse encontro dos bispos da CNBB. Segundo ele, as autoridades religiosas optaram durante a Assembleia pelo "caminho do meio”. "Esperamos que o encontro com os grandes problemas que a sociedade coloca não fique numa posição de neutralidade.

O caminho do meio não significa neutralidade. Significa, isto sim, um posicionamento em busca da justiça, do diálogo com a sociedade sem negá-la, sem dizer que ela está em um caminho errado.

Significa sempre estar caminhando com ela, buscando o caminho de diálogo, sem cair nos extremos”, afirmou ele durante a entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line.

A entrevista foi feita em parceria com o Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT.

Sérgio Ricardo Coutinho é mestre em História pela Universidade de Brasília. É professor de História da Igreja no Instituto São Boaventura em Brasília e na UnB. Atualmente faz parte da Associação Brasileira de História das Religiões – ABHR e preside o Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina – Cehila-Brasil.


Muitos afirmam que a CNBB recuou fortemente nos últimos anos em sua agenda social. O senhor concorda com essa avaliação? A que o senhor atribui esse recuo?

De fato, o movimento da redemocratização do país e a sociedade incorporando os valores democráticos de liberdades, assim como a busca pela igualdade, possibilitaram o surgimento de muitos movimentos sociais e organizações não governamentais em geral. Os próprios partidos políticos cresceram e se abriram muito. A sociedade civil passou a se organizar mais. Neste sentido, podemos dizer que a Igreja teve uma dificuldade de continuar no mesmo modelo que vinha desenvolvendo nos anos 1970 e 1980.
A redemocratização do Brasil também coincide com toda uma interferência maior por parte do Vaticano, visando principalmente a um maior controle sobre aqueles bispos, padres, religiosos, agentes pastorais que estavam mais inseridos no mundo político-social. Isto porque estes grupos tinham uma forte carga ligada à Teologia da Libertação. O Vaticano entendia essa teologia da mesma forma como pensava o marxismo.
Podemos dizer que aqueles famosos bispos que tinham uma atuação política mais efetiva foram desaparecendo por conta da idade, e no lugar deles foram colocados outros sem a mesma formação intelectual, sem a mesma percepção da realidade social. Foram postos aqueles que deixam sempre para os poderes públicos cumprirem com as questões sociais. Estes creem que a Igreja não deve se intrometer nisto. Por outro lado, a Igreja vai começando a dialogar com estes grupos, procurando encontrar forma de como apoiar estes movimentos, como estar junto, para ser solidária na caminhada por uma sociedade mais justa. Ela também passa a rever seu papel e o de suas pastorais sociais refletindo a respeito de como podem atuar na sociedade, principalmente naquelas áreas aonde o Estado não chega. Inclusive o próprio Estado solicita o apoio da CNBB nestes campos. Por exemplo, a Pastoral da Criança, a Pastoral do Menor Abandonado, Pastoral da Aids. Em todas essas áreas tem crescido muito a atuação da Igreja, e o Estado tem pedido constantemente que ela continue com este serviço, que, teoricamente, é função dele. Muitas vezes, é claro, falta vontade política para estas ações.

Qual a influência do Vaticano na Igreja Católica no país?

O historiador italiano Giuseppe Alberigo [1] diz que existe uma ideia segundo a qual a Cúria Romana tem uma forte intervenção nas Igrejas locais. Percebemos que, no cotidiano, muitas dessas igrejas locais têm sua autonomia. Então, não é tão gritante este tipo de intervenção. Parece-me que, nos últimos 25 anos, a intervenção do Vaticano no Brasil foi muito mais uma tentativa de retomar a sua identidade católica, e para isso precisaria de um clero mais obediente e de um episcopado mais firme em suas convicções doutrinárias, não muito inseridos no mundo. É preciso saber separar bem o mundo e a Igreja. Creio que é preciso intervir na formação do clero, dar maior ênfase no Código de Direito Canônico, na questão normativa, na nomeação de bispos e no próprio cuidado que vai ser dado para com os documentos sobre a Teologia da Libertação.
Um caso clássico de intervenção no Brasil é o de Leonardo Boff. Além disso, o Vaticano também já interveio em algumas dioceses. Lembro da diocese de Recife-Olinda, da diocese de Santíssima Conceição do Araguaia. Vários desses lugares receberam visitas apostólicas a fim de chamar a atenção dos bispos para que eles não regularizassem demais a sociedade. A intervenção não é tão absoluta. Porém, temos visto casos recentes de intervenção na Austrália ou no Equador, que nos deixam de "orelha em pé”, preocupados com práticas destes tipos, pois foram formas de intervenção muito violentas.

Num artigo, o senhor afirma que "os bispos, em sua grande maioria, optaram pelo ‘caminho do meio’”. O que quis dizer com isso?

O caminho do meio é uma expressão que está ligada à religião budista. O cristianismo, em seu início, era chamado de "caminho”. Neste caso, a intenção foi metafórica de não ficar em nenhuma das pontas, nenhum dos extremos, de encontrar um caminho de diálogo com a sociedade sem cair nos extremismos que poderiam ser alguma prática mais fundamentalista, de rejeição de qualquer diálogo com o mundo. A eleição do presidente, vice e secretário geral da CNBB, representa a grande maioria dos bispos brasileiros, principalmente os de uma ala mais moderada que tem uma visão do Concílio Vaticano II muito firme. Ou seja, um grupo de religiosos que procura fazer com que este momento continue presente na Igreja, sem radicalismos.
Esperamos que o encontro com os grandes problemas que a sociedade coloca não fique numa posição de neutralidade. O caminho do meio não significa neutralidade, mas sim um posicionamento em busca da justiça, do diálogo com a sociedade sem negá-la, sem dizer que a sociedade está em um caminho errado. Significa sempre estar caminhando com ela, buscando o caminho de diálogo, sem cair nos extremos. No ano passado, com toda a questão das eleições para a presidência da República, percebemos a presença forte de setores muito radicalizados, mais fundamentalistas, que veem a sociedade como pecaminosa. Este grupo tentou de alguma maneira falar alto. Não é esta posição que parece querer a CNBB seguir. Então, o caminho do meio tem a ver com equilíbrio – discernimento, na linguagem dos jesuítas – sem condenar, mas dialogando. Parece-me ser um caminho parecido com aquele assumido pelo Papa João XXIII: menos condenações e mais misericórdia.

O senhor pode pontuar quais foram as principais mudanças propostas nessa Assembleia?

A Assembleia teve como objetivo eleger a sua presidência e a das suas comissões de pastoral. Também objetivou elaborar as suas Diretrizes Gerais de Ação Evangelizadora, que é como uma espécie de central elétrica. É dela que parte toda a energia para a Igreja no Brasil, paróquias, movimentos, dioceses, comunidades que têm nessas diretrizes a inspiração para desenvolver o seu planejamento pastoral. Parece-me que a grande mudança é a de levar, de forma mais profunda possível, adiante o que saiu na Conferência de Aparecida, que é principalmente uma ideia de Igreja que seja, de fato, missionária. Para isso, ela precisa estar encarnada no mundo. Neste sentido, a Igreja precisa desenvolver todo um método próprio de diálogo com a sociedade, uma nova evangelização, que não só busca os católicos afastados, mas que também esteja em diálogo com a sociedade.
Também é necessária uma convenção pastoral. Para isso, são necessárias mudanças de estruturas. Uma destas que o documento das diretrizes aprovou é o tema da Igreja como "comunidade de comunidade”, ou seja, valorizar a vida comunitária e resgatar as práticas locais. Existem muitas experiências comunitárias nas cidades, nas periferias, no mundo rural. Também chama a atenção da sociedade revalorizar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Pensando de uma forma global, creio que, depois desta Assembleia, temos uma CNBB com um rosto mais missionário, com mais desejo de se aproximar da sociedade sem cair nas condenações. É claro que dentro da CNBB há muitas correntes que fazem pressão. E neste campo da moral, da moral sexual, isto vai mudar muito pouco. Neste campo, a CNBB vai se manter muito tradicional no seu posicionamento.

Quais temas sociais são ainda sensíveis ao colegiado de bispos brasileiros? Na última Assembleia da CNBB algum tema social ganhou destaque?

Alguns temas sociais foram tratados, sim. Primeiro, foi muito importante a votação unânime que decidiu que a CNBB vai apoiar a 5a Semana Social. Ainda que a votação tenha sido unânime, sabemos que existem muitos bispos que têm alguma preocupação com essa atividade [a Semana Social], porque envolve outros grupos e parceiros e, às vezes, eles ficam desconfiados em relação a esses outros grupos. Por exemplo: o MST e a Via Campesina. No entanto, essa foi um decisão muito importante. A CNBB vai agora trabalhar para esta Semana Social, que visa à construção de propostas concretas em defesa dos pobres e dos mais fracos, na busca pela justiça no trabalho e no campo, assim como na questão do trabalho escravo. Esta Semana Social vai ser muito importante para as pastorais sociais e para que a própria Igreja se aproxime da sociedade.
Outro elemento que apareceu foi o Movimento de Educação de Base – MEB, que comemora os seus 50 anos. Apesar de ter um grupo de 20% de bispos que acha que isto está ultrapassado, ainda há um grande apoio para a atuação do movimento. A Igreja foi, durante os anos 1960 e 1970, mais enfática nestes movimentos. Hoje, existem outras instituições que trabalham a educação. Porém, ainda é uma área muito carente de políticas públicas. A nossa educação continua patinando em muitos aspectos, e o apoio ao MEB continua sendo um apoio que a Igreja dá àqueles que estão mais distantes de uma educação formal nas escolas.
Outro tema que apareceu foi a questão indígena. Um grupo de bispos acha que a questão indígena é problemática e outros não concordam com posições como as de D. Erwin Kräutler, que questiona os grandes empreendimentos, uma vez que irão afetar as terras indígenas e a população local. Um dos grupos acha que este discurso impede o desenvolvimento do Brasil. Mas, de alguma maneira, existe um outro grupo questionando a respeito da forma como os missionários do Conselho Indigenista Missionário atuam com algumas culturas e assuntos. Por exemplo: o infanticídio, que é um tema espinhoso e é praticado em algumas culturas. Muitos bispos não entendem isso. Acreditam que esta é uma cultura da morte e que a Igreja não pode apoiar este tipo de ação. De um modo geral, nós tivemos um grupo muito grande da Assembleia que compreendeu ser a população indígena indefesa e vítima da violência.
Um último assunto é a reforma política. Nestes quatro anos da nova direção, a CNBB vai trabalhar formando a sua própria comissão para acompanhar e fazer uma proposta de reforma política. A presidência que encerrou agora emitiu um documento que se chama Por uma reforma do Estado com participação democrática. Este documento vai servir de base para esta comissão há pouco formada a fim de discutir com parlamentares e outras entidades da sociedade civil sobre a reforma política. A Igreja quer dar a sua opinião sobre este tema.

Como andam as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs? O que as diferenciam hoje dos anos 1970?

O contexto histórico é outro. De fato, as CEBs se desenvolveram dentro de um contexto de ditaduras militares, de falta de democracia, de abusos de poder e de violação dos direitos humanos, de fechamento de partidos, etc. Surgem como aquele espaço em que os vários grupos encontrarão um lugar para se respirar – é uma espécie de um balão de oxigênio. Neste momento, a Teologia da Libertação ajudou muito estas comunidades formadas por gente simples, pobre, que vem das periferias e do campo, pessoas que começam a se tornar sujeitos na vida política, assim como na vida eclesial. Como essa teologia sofreu muita intervenção, de uma certa forma as CEBs foram se resguardando, saindo da cena pública e da visibilidade das mídias. Atualmente, muitos falam que as CEBs acabaram porque elas não aparecem. Isso é falso, pois elas não estão na mídia, mas estão presentes no cotidiano das nossas paróquias e dioceses. A Lei contra a Corrupção Eleitoral, e agora recentemente a Lei da Ficha Limpa, só foi possível porque praticamente 85% das assinaturas vieram das bases da Igreja. Então, as CEBs continuam atuando. Com menos visibilidade, sim. Mas continuam presentes na vida da Igreja.

Nota:

[1] Giuseppe Alberigo foi um importante historiador da Igreja Católica. A sua obra mais importante foi a direção da iniciativa editorial Storia del Concilio Vaticano II. Seu caráter progressista, no entanto, não teve unânime acolhimento no âmbito católico.


Fonte: IHU

Re-encantar as Comunidades Eclesiais de Base



Pelo benefício ecológico em favor do meio-ambiente o catador por sua própria natureza e pelo seu trabalho, é já e no mínimo, um cristão anônimo neste início do século XXI, em que o nosso planeta está doente. Os catadores individualmente – mais de um milhão de pessoas no Brasil – exercem também as nobres funções de Médicos do Planeta e de Profetas da Ecologia", escreve Antonio Cechin.

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo.

Já se tornou lugar comum entre os formadores de consciência, exaltar biografias de pessoas guindadas que foram, pelo voto popular, ao posto mais alto em seu respectivo país. Os biografados são tanto mais dignos de encômios quanto mais humildes foram suas origens. Se a essa característica de nascimento em meio pobre é aliada a uma vida de grandes sofrimentos, tais personagens são duplamente glorificados. Assim no Brasil, um operário como Lula, sendo eleito presidente da república depois de várias tentativas, sempre frustradas por se tratar de um operário metalúrgico, sem nunca ter tido acesso a algum curso de nível superior. Quando finalmente conseguiu chegar aos píncaros da presidência, sua biografia virou livro e até roteiro de cinema.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, considerado o príncipe dos sociólogos brasileiros, quando concorrente de Lula, orgulhava-se pessoalmente de “ter tido um pé na cozinha”.

O fato de um negro como Obama, chegar à presidência dos Estados Unidos, mau grado todo o ranço racista daquela civilização necrófila, continua sendo considerado verdadeiro milagre a deixar todo o mundo boquiaberto.

Não menos surpreendente foi a escalada da primeira mulher à presidência do Brasil. Para essa façanha, tiveram que escoar 510 anos de história da nação. Dilma, se não é de origem humilde, ainda jovem optou pela causa dos pobres, arriscando a própria vida em favor dos oprimidos do país. Compensou suas origens de classe média com sobrecarga de sofrimentos que a fizeram passar pelos cárceres e pelas torturas. Ontem como guerrilheira, havia-se jogado de corpo inteiro contra a ditadura militar. Hoje, mais do que presidenta, Dilma ostenta também a gloriosa função de chefe suprema das forças armadas, instituição que a massacrou há tão poucos anos. A continência que lhe fazem coronéis e generais quase até nos arranca um sorriso quase a exclamar “quem te viu e quem te vê!”

Por que será que chegar ao posto mais alto, tendo como ponto de partida origem das mais humildes, somada a uma qualidade de vida em meio a grandes sofrimentos, acaba sendo motivo de glória com direito a reconhecimento universal?

Sou de opinião que, no fundo e por trás de tudo, está o fato paradigmático que aconteceu com o homem mais importante, de maior influência em toda a história da humanidade. Esse homem todo poderoso porque Filho do próprio Deus, é Jesus de Nazaré. Ele nasceu na miséria de um abrigo para animais. Foi numa gruta, nas periferias de Belém, em berço rodeado de esterco. Sua vida foi por demais sofrida, semeada de perseguições. Morreu pregado numa cruz erguida em cima de um monte, para escárnio de todos os passantes. Tudo isso apesar de ter vivido “só fazendo o bem”, expressão sempre repetida nos livros sagrados.

O Nazareno, numa de suas parábolas, a do filho pródigo, para descrever seu personagem em situação demiséria extrema, fê-lo exercer a profissão de guardador de porcos. Devorado pela fome, desejava até comer junto com os porcos, a mesma comida que estes, mas o patrão nem mesmo isso lhe permitia. A absoluta necessidade de saciar a fome o fez refletir e decidir o retorno à casa paterna.

Essa minha interpretação de que uma trajetória de vida iniciada com nascimento o mais humilde que se possa imaginar, e de uma vida semeada de sofrimentos incríveis, vejo agora corroborada pelo jornalista Marcos Rolim, num de seus comentários sobre o levante atual dos países árabes, acrescido do terrorismo em conseqüência da eliminação pura e simples de Bin Laden. Pinço do comentarista de apenas meia frase de um longo artigo: “a mensagem de Cristo carrega um potencial subversivo que explica, em parte, as razões pelas quais as sociedades que conheceram o cristianismo tiveram maiores chances de incorporar a noção de Direitos Humanos na modernidade” (Zero Hora, 8 de maio de 2011, pág.12)

Quem é que hoje não inveja ter uma trajetória de vida o mais próxima possível do Homem Jesus de Nazaré? No mundo ocidental o caldo cultural é profundamente cristão. Em conseqüência, o perfil de um herói e mesmo de um santo tem que se aproximar da trajetória de Cristo.

Apesar de fatos de políticos como os citados acima, terem sido badalados pela imprensa como inusitados e dignos dos maiores elogios, duvido que dentro do contexto nacional, haja itinerário biográfico mais glorioso e sensacional – excetuado Jesus Cristo – do que o do catador. Ontem ele individualmente era um papeleiro, um carrinheiro, um lixeiro. Se referiam a ele como sendo um “pária da civilização urbana”, muito próximo e quase sem diferenciação de um cão, de um gato, de um rato. Como esses três tipos de animais, nosso catador começou a fuçar nos depósitos de lixo, com eles disputando comida. E agora, não é que deu a louca no cinema quando há poucos dias atrás alçou à candidatura de seu maior prêmio – o “Oscar” – o filme “Lixo Extraordinário” consagrando definitivamente os catadores como heróis por excelência!...

Nem é nosso o apelo à dificuldade de, em certas circunstâncias, ter dificuldade na diferenciação de diferenciar um catador de um animal. É de Manuel Bandeira, clássico da poesia, quem o estigmatizou através deste poemeto:

“Vi ontem um bicho no fundo do pátio
catando comida entre os detritos
quando encontrava alguma coisa
não examinava nem cheirava
engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem!...

No apelo final ao próprio Deus vai todo o espanto do poeta – por ter sido obrigado pelas circunstancias a confundir um vivente “feito à imagem e semelhança do Criador” com os próprios animais. É uma espécie de pedido de perdão.

O filme “Ilha das Flores” de Jorge Furtado, cineasta da Casa de Cinema de Porto Alegre, curta-metragem catalogado entre os primeiros lugares na lista dos 100 melhores em toda a história do cinema, foi muito feliz ao documentar o catador de primeira jornada, disputando alimento com os porcos, com fama de os mais imundos dos mamíferos. Isso acontecendo logo ali, na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, onde até para as aves do céu sobra comida.

Como a natureza é sábia, ou melhor, como é sábio aquele que está por detrás da natureza, o Pai Criador! Ele que “tudo tem feito bem” segundo os livros sagrados, para garantir a continuidade da vida, criou todos os seres vivos atormentados desde o instante do nascimento pela fome, quer se trate de humanos, animais ou plantas. A fome é o motor que os faz correr em busca do alimento e assim a vida pode ir seguindo.

O catador sem fonte de renda, em sua busca desesperada para saciar a fome, não escolhe lugar para catar. Nem é de estranhar que privilegie, em meio à sociedade consumista, os depósitos de lixo. Como é uma criatura provida de razão, aos poucos vai descobrindo que, misturadas à comida, há outras coisas que podem ter ainda alguma utilidade.

Quando, em final de jornada, retorna a seu abrigo, em baixo de ponte ou viaduto, até seus próprios vizinhos, deitados ao relento, lhe solicitam algum tipo de descarte. É só mais um passo e inicia uma rotina de trocas. Outro passo mais e a troca começa a render um troco, isto é algum dinheiro.. Neste ponto ele, inconscientemente se torna um trabalhador. Vira “classe social” ainda que a mais baixa do planeta. Desperta então, dentro dele, uma fúria sagrada em busca dos lugares em que são atirados os resíduos, as sobras. Para ele, agora catador, lixo não é mais lixo, muda-lhe nome e definição. Passa a ser por ele chamado de rejeito ou resíduo e o define como matéria-prima acumulada com valor. Tudo o que tem valor se vende e se compra. É a inexorabilidade do mercado dentro do sistema capitalista.

Em conseqüência de suas descobertas vai conseguindo melhorias, quase sem perceber. Passa a se alimentar melhor, tem melhores roupas para se vestir, e mesmo lhe aparece pela frente algum cantinho para melhor se abrigar, nem que seja ainda embaixo de uma marquise. Sem se dar conta, vai se inserindo lentamente na sociedade consumista.

Chegado a essa etapa do seu itinerário de vida, ele começa a caminhada para a inserção de corpo inteiro no capitalismo. Ei-lo mais um pobre cooptado pelo consumismo. Pobre com cabeça de rico. Para aumentar um pouco mais seu ganho pode até virar carrinheiro ou carroceiro, conforme o tipo de tração de seu meio de transporte: humano ou animal. A poetisa Maria Carpi captou com grande felicidade o sonho de ascensão social que conseguiu ler nele:

“Lá vai Jesus da Silva
puxando seu carrinho
de lixo reciclável.
Acomodou no veículo
de trastes, câmaras
vazias para amortecer
as paradas cardíacas
do óbolo longe cuspido.
Um desperdício feito
cão que esmola seus calos.
Suando além do sobejo,
teria um cavalo que seria
um sobressair-se na vida
mendiga. Um alistar-se
além do semáforo e das
comportas e fugas d’água.
Mas ser Jesus é não ter
pressa e escrever a pé
a eternidade, arrastando
o sobrante da estreita porta’.

Até aqui o perfil individual da maioria dos catadores que conhecemos, sem nunca terem freqüentado uma escola, formados exclusivamente pela escola da vida. Faz parte da sua história, a marchinha de carnaval dos anos 50:

“Ai que vida triste, tão cruel,
Tem o homem que cata papel!
Sua profissão é um buraco
Só pode ir pra casa depois
De encher o saco.”

Apesar do mundo que o cerca fazê-lo objeto até de chacota, uma pessoa de fé que sabe ler os “sinais dos tempos” na expressão do Evangelho de Jesus Cristo, recuperada pelo bom papa João XXIII, neste ano em que “a terra geme em dores de parto” como preconiza a Campanha da Fraternidade deste ano de 2011, podemos envolver nosso carrinheiro com a áurea de um Bem-aventurado, proclamando: “Feliz de ti, catador, porque és um Profeta da Ecologia e um Médico do Planeta!” Temos certeza que a Terra agradece respondendo: Amém! Assim seja!

Se lhe dermos uma mãozinha, a partir desse momento de sua caminhada, ele pode dar o salto mais qualitativo da vida, transformando-se não só em autêntico cidadão mas também em perfeito cristão. Aliás pelo benefício ecológico em favor do meio-ambiente o catador por sua própria natureza e pelo seu trabalho, é já e no mínimo, um cristão anônimo neste início do século XXI, em que o nosso planeta está doente. Os catadores individualmente – mais de um milhão de pessoas no Brasil – exercem também as nobres funções de Médicos do Planeta e de Profetas da Ecologia.

Infinitamente melhor maiores são essas façanhas quando ele entra para um Coletivo de Catadores ou uma Comunidade Ecológica de Base. Nem a própria Bíblia minimiza a profissão de Catador. Jesus de Nazaré, a Mãe Maria, os Patriarcas e os Profetas, quando faziam suas orações, assim falavam de Deus e a Deus:

“O Senhor levanta da poeira o indigente
e do lixo ele retira o pobrezinho,
para fazê-lo assentar-se com os nobres,
assentar-se com os nobres do seu povo” (salmo 112)


Mas o que é mesmo uma Comunidade Ecológica de Base?

Diferentemente de uma fábrica ou de uma firma em que há um patrão e muitos empregados ou operários; diferentemente de uma associação em que os sócios têm apenas um elo jurídico que os liga em função de um mesmo objetivo; diferentemente de uma cooperativa em que os cooperativados têm apenas uma que outra relação de colaboração mútua, não necessitando trabalhar um ao lado do outro; a nossa Comunidade Ecológica de Base é antes de tudo e acima de tudo um Mutirão. Só o mutirão é porta de entrada para uma autêntica Comunidade.

Mutirão é coisa muito antiga, remonta à época em que os índios eram os únicos habitantes destas terras. Hoje já quase se perdeu o costume do Mutirão. Só gente pobre, quer do campo quer da cidade, de vez em quando ainda trabalha dessa forma. A própria palavra é mais conhecida através de corruptelas lingüísticas de tipo bem popular, como puxiru ou pexiru. É vocábulo de origem guarani que significa trabalho ou ato de trabalhar. As comunidades guarani dos Sete Povos das Missões só sabiam trabalhar em mutirão. Na Comunidade Indígena, a cuja frente está um cacique e a parte religiosa é dirigida por um pajé, todo mundo trabalha junto. Índio não conhece trabalho individual. Eram os guarani dos primórdios, um povo de agricultores já muito antes de chegarem os padres jesuítas para os evangelizar. O jeito sempre comunitário de trabalhar, o designavam com o vocábulo Tupãbaê, cuja tradução é “Trabalho de Deus” ou “Trabalho para Deus” querendo significar que pelo simples fato de todo mundo pegar junto, em todas as pontas, como Comunidade estão realizando o projeto de Deus na terra. Sem conhecer a Bíblia já “ganhavam todos o pão ao suor de seus rostos” expressão da Escritura Sagrada desde que Adão e Eva se exilaram a si próprios do Paraíso Terrestre em que viviam, porque não quiseram obedecer a Deus que os criou. Tomaram posição contrária às leis da natureza saída da mão do Criador.

Só trabalhando juntos, em mutirão, é que se refaz na Terra, o Paraíso Terrestre. Portanto é falsa a interpretação que se ouve por aí, de que Deus castigou os homens “expulsando-os do paraíso” e condenando-os ao trabalho às expensas de muito suor. Infelizmente essa interpretação acabou originando a expressão “comer o pão que o diabo amassou”.

O mutirão dos papeleiros inicia quando dois ou três decidem trabalhar juntos. Começa aí o “refazimento do Paraíso Terrestre”. É do Mestre Jesus esta frase:”quando dois ou mais se unem e se reúnem, aí estou Eu no meio deles”. Nós mais Deus na Comunidade, é a restauração do Paraíso inicial.

No Coletivo de Catadores, no Mutirão, todos melhoram em qualidade de vida e em alegria interior. Em qualidade de vida, porque juntos produzem mais e com isso ganham mais.Em alegria interior porque aprendem a partilhar entre todos dentro do princípio “de cada um de acordo com suas possibilidades para cada um de acordo com suas necessidades.” Nesse princípio está a base daquilo que os historiadores chamam de socialismo primitivo, eminentemente comunitário onde se criam relações interpessoais ricas, onde todo mundo conhece todo mundo, onde existe auxílio mútuo e onde as pessoas realmente se amam.

Antoine de Saint Exupéry, aviador e escritor, que escreveu o livro-poema intitulado “O pequeno Príncipe”, em seu outro livro “Terra dos Homens” prorrompe em determinado momento com a voz de comando: “Mete-os juntos a construir uma torre e os terás transformado em irmãos”. É o milagre realizado pelo MUTIRÃO, sempre comunitário em sua própria essência.

Conflitos na Comunidade de Catadores? Há até demais. Ainda mais quando reunimos, como aqui, os mais lascados da sociedade. Porém se criamos um bom ambiente de muita alegria, mesclado de muito canto porque “quem canta, seus males espanta.” Lembro de ter lido em Santo Agostinho: “Como é que posso brigar com o meu irmão se até a minha voz casei com a dele cantando um salmo”.

A fim de facilitar a organização dos mutirões, em nossas Comunidades Ecológicas de Base, garantindo-lhes uma arrancada correta, seguida de uma CAMINHADA sem retrocessos, nos falta, no Brasil, uma lei regulamentando aquilo que é eminentemente economia solidária de raiz porque inventada por gente da categoria mais lascada que existe.

Quatro coisas, extremamente simples, bastariam para essa lei nacional com sua devida regulamentação, funcionarem com a perfeição que se espera do Mutirão.

1) Um livro de atas. Sim, porque necessitamos, para a criação de uma Comunidade, que o grupo de catadores decididos a inaugurar um Mutirão, se reúnam debaixo de uma árvore ou ao redor de uma mesa, a fim de conversar e planejar juntos, desde o primeiro momento em que decidiram “pegar juntos”. Essas atas devem receber sempre as assinaturas de todos. Tudo no mutirão deve ser fruto de uma unanimidade.

2) Um Regimento Interno, que nada mais é do que o modus vivendi ou a rotina do trabalho cotidiano. Nele estão previstos os horários de início, pausas e término. Além disso deve também conter as regras ou mandamentos da Partilha, e as regras necessárias a uma boa Coordenação. Também se necessita estabelecer a sistemática das penas para quem não observar as convenções estabelecidas entre todos.. Ótimo seria que também fôssemos ao cartório registrar o nosso Regimento Interno. Com o documento assim registrado teríamos facilidade para parlamentar com todo e qualquer funcionário de poderes públicos que viesse bisbilhotar, quiçá em busca de trabalho escravo.

3) Transparência na contabilidade. Para isso, semanalmente ou quinzenalmente, depois de vendido o fruto da triagem, no mutirão não se pode esconder de ninguédm a prestação de contas para a Partilha do resultado do trabalho de todos e de cada um. Torna-se absolutamente necessário até que, num cartaz, seja exposta, sempre afixada na parede, a relação de todos os catadores com seu nome, horas trabalhadas e o respectivo pro labore.

A questão da transparência no manuseio do dinheiro, despesas e ganhos, é o calcanhar de Aquiles de um mutirão de catadores. Os índios Guarani que entre nós inventaram o mutirão, eram agricultores e repartiam os alimentos que produziam na roça. Nunca quiseram saber de dinheiro. Nunca caíram na tentação do roubo e do enriquecimento. Os romanos se referiam ao dinheiro como “auri sacra fames” (sagrada fome de ouro) e os antigos Padres da Igreja de “esterco do demônio”. Nós, nos mutirões dos catadores, no meio urbano, trabalhamos com resíduos sólidos que não têm absolutamente nenhum valor dentro da sociedade consumista em que vivemos, a não ser depois da triagem ou separação dos materiais. Só assim lixo vira matéria-prima à disposição das fábricas para a compra. Nesse momento em que trocamos materiais por dinheiro é o momento em que devemos acender a luz vermelha pois é chgegada “a ocasião em que pode nascer o ladrão” conforme o provérbio popular.

Também não podemos esquecer que a falta de transparência no manuseio do dinheiro na Comunidade dos 12 discípulos, animada por Jesus de Nazaré, foi a causa da desgraceira de Judas, apóstolo que se enforcou de tanto remorso, depois de ter traído seu Mestre, chegando ao cúmulo de negociá-lo, vendendo-o por um preço vil de 30 moedas, a inimigos sedentos de sangue, que acabaram com ele pregando-o numa Cruz.

Um Galpão de Reciclagem como se nomeia entre nós aqui no sul uma unidade de Triagem, tem a possibilidade ímpar de se tornar uma Comunidade não só Ecológica de Base, mas também Ecumênica de Base e Eclesial de Base. Começa o mutirão com, no mínimo duas pessoas, porque a Comunidade começa a partir de dois. Foi o próprio Jesus que estabeleceu o número mínimo quando disse: “onde dois ou mais estiverem unidos, lá estou Eu no meio deles”. Nesse Galpão teremos irmãos de ambos os sexos, de diversas religiões, conscientizados da nobreza do trabalho de despoluição do planeta doente, todos ecologistas, todos de fé, todos comunitários. Para orgulho de todos assim se expressava o maior ecologista dos Pampas, nosso saudoso José Lutzemberger: “Um único Catador faz mais, pelo meio-ambiente, no Brasil, do que o próprio ministro do meio ambiente.”

E se quisermos otimizar uma Comunidade de Catadores, temos que chegar a um máximo de 30. Só com este número garantir-se-á uma administração muito singela sem necessidade de duas categorias de funções: a administração ao lado da catação. Daí à origem de duas classes medeia apenas um pequeno passo. Como não nos cansamos de repetir: no mutirão todos fazem juntos desde a coleta, a separação dos materiais, a venda. a partilha, a limpeza, etc. etc.

Resumindo:

1) Para os que dizem que as CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – estão em crise, nós os convidamos a radicalizar a Opção pelos Pobres – através da inserção não somente em meio a gente pobre, mas junto aos mais pobres do Planeta, os que estão no meio do lixo porque para eles foi o único espaço que sobrou.

2) Dizíamos entre nós, animadores de CEBs, nos tempos áureos do grande entusiasmo que, se chegássemos ao número de 100.000 Comunidades, o Brasil realizaria a grande revolução social. Chegamos às cem mil e a tal revolução continua a caminho.

Os catadores no Brasil são hoje mais de um milhão mas com pouquíssimos grupos organizados, isto é, formando Comunidades na base do trabalho em Mutirão. E quem é que, neste mundo tem, a partir de Jesus de Nazaré, como Projeto, a construção de autênticas Comunidades mais do que a Igreja? Por isso, arregacemos as mangas e vamos ao trabalho de reconstrução do Paraíso Terrestre na Terra! Um milhão de catadores organizados em Comunidades de 30 pessoas, podem representar uma nova onda de mais de cem mil Comunidades Ecológicas-Ecumênicas-Eclesiais de Base (CEEE’s). Teremos ventos novos na Igreja e na Sociedade.Ao lado do MST que criamos a partir das CEBs e que nos enche de orgulho para as populações interioranas, pode surgir um movimento- réplica do MST para as cidades. Para o vôo da Revolução autêntica necessitamos de duas asas: a dos Profetas Ecológicos do Campo e a dos Profetas Ecológicos da Cidade.

Encerrando e para não dizer que não falei de flores, retorno ao começo deste texto para dizer que para além de nascimento humilde aliado a uma vida de muito sofrimento, o verdadeiro e decisivo critério valorativo de uma vida de qualquer pessoa, seja rica ou seja pobre, seja de alta ou baixa categoria social, seja homem ou mulher, é o critério estabelecido pelo Homem-Deus: “Pelos seus frutos os conhecereis”. È pelos atos, pelas obras que se revela grandeza humana ou mediocridade.

A propósito lembro que tivemos no Brasil um presidente da classe trabalhadora, um operário metalúrgico. Quando repórteres perguntavam a Lula, em seus últimos dias de governo, a respeito da Lei dos Resíduos Sólidos, divulgada popularmente como lei do lixo, e sobre Catadores, o presidente operário não conseguia sofrear a emoção, puxava o lenço do bolso e enxugava as lágrimas. Tive ocasião de contemplar essa cena através da televisão. Alguns dias depois do acontecido, tendo tido a rara oportunidade de chegar perto dele e de lhe apertar a mão pela primeira vez, ainda pude dizer-lhe: “Feliz é o Brasil que tem um presidente que chora sobre os catadores, a mais humilde categoria dos que constroem a nação!”

Lula, nos quatro últimos anos, foi celebrar seu Natal no meio dos Catadores do estado de São Paulo. No último natal, em 20 de dezembro do ano passado, como uma espécie de herança de governo, o presidente-operário deu um presentão aos últimos deste país. Presente só comparável em significado, ao dos magos ao Filho de Deus, quando este nasceu na cidade de Belém.

Lula não foi sozinho para o abraço de Natal aos catadores e de despedida. Levou a tiracolo os presidentes do Banco do Brasil, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, da Caixa Econômica Federal, da Petrobrás e outros mais. Numa mesa, postados à frente dos milhares de papeleiros presente, os administradores do dinheiro público assinaram investimentos para os recicladores do Brasil deixando de boca aberta os representantes, também papeleiros, de sete outros países da América Latina, desafortunados por não terem apoio algum em seus respectivos países, expressando em seus rostos uma inveja incontida dos colegas brasileiros.

Se o Mestre Jesus disse que o Reino de Deus é dos Pobres e que os últimos deste mundo tem que ser os primeiros em seu Reino, Lula já fez a sua parte. Organizar catadores em pequenas Comunidades Eclesiais de BaseEclesíolas – e pelo fato mesmo empoderá-los num grande Movimento Popular, é tarefa nossa, da Igreja. Porque não partir para juntar papeleiros em coletivos e te-los conosco, trabalhando juntos de seis a sete horas por dia? Haverá jeito mais eficaz de ajudá-los a serem Comunidade Ecológica, Eclesial e Ecumênica de Base?

Neste Re-encantamento das Comunidades, Lula coloca à nossa disposição, recursos em superabundância, bastando para tanto apenas bons projetos. Com tais recursos, com toda a certeza se tornará fácil mais fácil “despregar da Cruz em que estão milhões de pobres em nosso país” na linha do discurso do grande Sobrino, teólogo da Libertação.

Será que é possível aspirar a algo mais neste mundo em atenção à Oração Sacerdotal do Mestre Jesus:”Pai eles (os catadores) estão no mundo mas não são do mundo!. Peço-te que não os tires do mundo...” Construir Comunidades de Catadores na linha do Mutirão Guarani significa reconstruir o Paraíso Terrestre primitivo destas Terras de Santa Cruz. Será o penhor aqui e agora do Reino definitivo na pátria celeste. De dentro do projeto capitalista de nossa atual “terra de todos os males” assistir ao refazimento da “Terra Sem Males” da utopia guarani-missioneira


Fonte: Diocese de Caxias do Sul