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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como " estragamos" nossos cães



Amor é fundamental, mas mimos em excesso podem gerar problemas de comportamento.
Por não entenderem a mente dos cachorros, as pessoas são capazes de “estragar” um cão em pouco tempo de convivência. É importante observar que, naturalmente, os cães já nascem equilibrados. O convívio com os demais membros da matilha somente mantém a estabilidade de cada animal. Portanto, eles podem viver o resto de seus dias realizados e de modo estável. Para garantir esse equilíbrio, as cadelas educam seus filhotes conforme eles vão crescendo – por exemplo, ela pode pegar um filhote que esteja incomodando pela pele do pescoço como forma de correção. Já os adultos, corrigem uns aos outros o tempo todo, mostrando o que é ou não permitido naquela matilha. A busca constante pelo equilíbrio dos membros do grupo é algo extremamente natural para os cachorros – os que continuam instáveis são expulsos, de forma a assegurar a
sobrevivência do bando.

Porém, com a domesticação, o ser humano retira os cães de seu ambiente naturalmente equilibrado e os leva para dentro de casa. Nesse momento, as pessoas começam a fazer coisas pensando em garantir a felicidade plena dos animais – muita atenção, carinho,comida, brinquedos e roupinhas. Porém, isso é o que as pessoas pensam que os cães precisam para ser felizes. Essas necessidades são vista a partir do ponto de vista humano – psicologia humana, e não do animal. Os donos acreditam que os cães precisam das mesmas coisas que elas para viver plenamente realizados. Humanizar as necessidades dos animais é o maior erro que o dono de um cão pode cometer.

Humanizar um cão é a principal causa para os problemas comportamentais nos cachorros. Eles são capazes de se adaptar à forma como as pessoas os tratam e acabam desenvolvendo problemas de comportamento. É comum muitos donos criarem os problemas quando os cachorros ainda são filhotes. Ver um filhote latindo para cães adultos pode ser divertido no começo, pois o comportamento é humanizado e acabam dizendo que ele é corajoso e metido; porém, quando o cão cresce e fica realmente agressivo com outros animais, muitos acham que agora o cão está com problema. As pessoas não enxergam que o verdadeiro problema são elas mesmas, e não o animal.


Exercícios físicos são muito importantes para gastar a energia acumulada.
Na maioria das vezes, os problemas comportamentais dos cães são reflexos da criação dada pelos donos. Agressividade, por exemplo, não é algo natural entre os cães. De forma geral, só ocorre porque não cumprimos com as reais necessidades dos cães e deixamos acumular energia, o que gera frustração. Cachorros que são agressivos e dominantes, geralmente vivem com donos fracos que nunca demonstraram liderança firme durante a vida do cão – outra necessidade do animal. Animais agressivos por medo aprenderam a reagir assim porque os donos dão afeto no momento que o cão está instável – quando deveriam oferecer segurança, firmeza e tranquilidade.

De forma semelhante ocorre para todas as demais questões comportamentais caninas, que surgem devido a uma falha na criação dos donos. Agitação excessiva ocorre porque os cães não são exercitados diariamente, e não porque são cães felizes (visão humanizada do comportamento). Ansiedade por separação ocorre porque o cão fica agitado na ausência do dono – isso ocorre porque ele passa o dia trancado em uma área limitada sem ter como extravasar sua energia. As obsessões são resultados de energia acumulada - os cães têm fixação por algo como forma de liberar o excesso de energia. Todos esses problemas ocorrem porque os donos humanizam o comportamento dos cães – acham que eles são agitados porque são felizes ou têm obsessões porque é característica dele mesmo – e humanizam suas necessidades básicas – ao invés de oferecer exercícios, liderança e regras, oferecem carinho, comida, brinquedos e roupinhas.


Dr. Marcel Pereira


Medico Veterinário e Mestre em Medicina Veterinária pela USP
Atua como terapeuta canino, reabilitando cães com problemas comportamentais.
Escreve no Eu Amo Cães, sobre comportamento canino





O que a falácia da "ditabranda" revela

A escolha do termo "ditabranda" pela Folha de S. Paulo para caracterizar a ditadura militar brasileira não foi um descuido linguístico. Trata-se de uma profissão de fé ideológica embalada por uma falácia. O núcleo duro dessa falácia consiste em dissociar a ditadura brasileira das ditaduras em outros países do continente e do contexto histórico da época, como se não integrassem um mesmo golpe desferido contra a democracia em toda a América Latina. A ditadura brasileira apoiou política e materialmente uma série de outras ditaduras na região, sendo responsável por muitas torturas, mortes e desaparecimentos em outros países. "A gente não matava. Prendia e entregava", admitiu um general brasileiro.

Em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de S. Paulo utilizou a expressão “ditabranda” para se referir à ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Na opinião do jornal, que apoiou o golpe militar de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart, a ditadura brasileira teria sido “mais branda” e “menos violenta” que outros regimes similares na América Latina.

Como já se sabe, a Folha não foi original na escolha do termo. Em setembro de 1983, o general Augusto Pinochet, em resposta às críticas dirigidas à ditadura militar chilena, afirmou: “Esta nunca foi uma ditadura, senhores, é uma dictablanda”. Mas o tema central aqui não diz respeito à originalidade. O uso do termo pelo jornal envolve uma falácia nada inocente. Uma falácia que revela muita coisa sobre as causas e consequências do golpe militar de 1964 e sobre o momento vivido pela América Latina.

É importante lembrar em que contexto o termo foi utilizado pela Folha. Intitulado “Limites a Chávez”, o editorial criticava o que considerava ser um “endurecimento do governo de Hugo Chávez na Venezuela”. A escolha da ditadura brasileira para fazer a comparação com o governo de Chávez revela, por um lado, a escassa inteligência do editorialista. Para o ponto que ele queria sustentar, tal comparação não era necessária e muito menos adequada. Tanto é que pouca gente lembra que o editorial era dirigido contra Chávez, mas todo mundo lembra da “ditabranda”.

A falta de inteligência, neste caso, parece andar de mãos dadas com uma falsa consciência culpada que tenta esconder e/ou justificar pecados do passado. Para a Folha, a ditadura brasileira foi uma “ditabranda” porque teria preservado “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”, o que não estaria ocorrendo na Venezuela. Mas essa falta de inteligência talvez seja apenas uma cortina de fumaça.

O editorial não menciona quais seriam as “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça” da ditadura militar brasileira, mas considera-as mais democráticas que o governo Chávez que, em uma década, realizou 15 eleições no país, incluindo aí um referendo revogatório que poderia ter custado o mandato ao presidente venezuelano. Ao fazer essa comparação e a escolha pela ditadura brasileira, a Folha está apenas atualizando as razões pelas quais apoiou, junto com a imensa maioria da imprensa brasileira, o golpe militar contra o governo constitucional de João Goulart.

Está dizendo, entre outras coisas, que, caso um determinado governo implementar um certo tipo de políticas, justifica-se interromper a democracia e adotar “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”. A escolha do termo “ditabranda”, portanto, não é acidental e tampouco um descuido. Trata-se de uma profissão de fé ideológica.

Há uma cortina de véus que tentam esconder o caráter intencional dessa escolha. Um desses véus apresenta-se sob a forma de uma falácia, a que afirma que a nossa ditadura não teria sido tão violenta quanto outras na América Latina. O núcleo duro dessa falácia consiste em dissociar a ditadura brasileira das ditaduras em outros países do continente e do contexto histórico da época, como se elas não mantivessem relação entre si, como se não integrassem um mesmo golpe desferido contra a democracia em toda a região.

O golpe militar de 1964 e a ditadura militar brasileira alimentaram política e materialmente uma série de outras ditaduras na América Latina. As democracias chilena e uruguaia caíram em 1973. A argentina em 1976. Os golpes foram se sucedendo na região, com o apoio político e logístico dos EUA e do Brasil. Documentos sobre a Operação Condor fornecem vastas evidências dessa relação.

Recordando. A Operação Condor é o nome dado à ação coordenada dos serviços de inteligência das ditaduras militares na América do Sul, iniciada em 1975, com o objetivo de prender, torturar e matar militantes de esquerda no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

O pretexto era o argumento clássico da Guerra Fria: "deter o avanço do comunismo internacional". Auxiliados técnica, política e financeiramente por oficiais do Exército dos Estados Unidos, os militares sul-americanos passaram a agir de forma integrada, trocando informações sobre opositores considerados perigosos e executando ações de prisão e/ou extermínio. A operação deixou cerca de 30 mil mortos e desaparecidos na Argentina, entre 3 mil e 7 mil no Chile e mais de 200 no Uruguai, além de outros milhares de prisioneiros e torturados em todo o continente.

Na contabilidade macabra de mortos e desaparecidos, o Brasil registrou um número menor de vítimas durante a ditadura militar, comparado com o que aconteceu nos outros países da região. No entanto, documento secretos divulgados recentemente no Paraguai e nos EUA mostraram que os militares brasileiros tiveram participação ativa na organização da repressão em outros países, como, por exemplo, na montagem do serviço secreto chileno, a Dina. Esses documentos mostram que oficiais do hoje extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) ministraram cursos de técnicas de interrogatório e tortura para militares chilenos.

Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (30/12/2007), o general Agnaldo Del Nero Augusto admitiu que o Exército brasileiro prendeu militantes montoneros e de outras organizações de esquerda latino-americanas e os entregou aos militares argentinos. “A gente não matava. Prendia e entregava. Não há crime nisso”, justificou na época o general. Humildade dele. Além de prender e entregar, os militares brasileiros também torturavam e treinavam oficiais de outros países a torturar. Em um dos documentos divulgados no Paraguai, um militar brasileiro diz a Pinochet para enviar pessoas para se formarem em repressão no Brasil, em um centro de tortura localizado em Manaus.

Durante a ditadura, o Brasil sustentou política e materialmente governos que torturaram e assassinaram milhares de pessoas. Esconder essa conexão é fundamental para a Folha afirmar a suposta existência de uma “ditabranda” no Brasil. A ditadura brasileira não teve nada de branda. Ao contrário, ela foi um elemento articulador, política e logisticamente, de outros regimes autoritários alinhados com os EUA durante a guerra fria. O editorial da Folha faz eco às palavras do general Del Nero: “a gente só apoiava e financiava a ditadura; não há crime nisso”.

Não é coincidência, pois, que o mesmo jornal faça oposição ferrenha aos governos latino-americanos que, a partir do início dos anos 2000, levaram o continente para outros rumos. Governos eleitos no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai passam a ser alvos de uma sistemática oposição midiática que, muitas vezes, substitui a própria oposição partidária.

A Folha acha a ditadura branda porque, no fundo, subordina a continuidade e o avanço da democracia a seus interesses particulares e a uma agenda ideológica particular, a saber, a da sacralização do lucro e do mercado privado. Uma grande parcela do empresariado brasileiro achou o mesmo em 64 e apoiou o golpe. Querer diminuir ou relativizar a crueldade e o caráter criminoso do que aconteceu no Brasil naquele período tem um duplo objetivo: esconder e mascarar a responsabilidade pelas escolhas feitas, e lembrar que a lógica que embalou o golpe segue viva na sociedade, com um discurso remodelado, mas pronto entrar em ação, caso a democracia torne-se demasiadamente democrática.

Fonte: Carta Maior

"O grande estorvo para aqueles que querem apagar o passado são as vítimas"

"A ideia de não enfrentar a verdade é a de liquidar o passado. O problema é que as feridas não vão se fechar nunca para as vítimas". Por essa razão as leis de anistia não têm a capacidade de apagar com borracha o passado, diz, em entrevista concedida à Carta Maior e à revista Caros Amigos, o psicólogo costa-riquenho Ignacio Dobles Oropeza, autor do livro “Memórias da dor: Considerações acerca das Comissões da Verdade na América Latina”.

“A ideia de não enfrentar a verdade é a de liquidar o passado. O problema é que as feridas não vão se fechar nunca para as vítimas.” Por essa razão as leis de anistia não têm a capacidade de apagar com borracha o passado, segundo o psicólogo costa-riquenho Ignacio Dobles Oropeza, autor do livro “Memórias da dor: Considerações acerca das Comissões da Verdade na América Latina”. Em entrevista concedida à Carta Maior e à revista Caros Amigos, no último dia 21, depois de participar do seminário “Psicologia e Direitos Humanos: Direito à Memória e à Verdade”, concluiu que “o grande estorvo para aqueles que querem apagar o passado são as vítimas”.

O professor da Escola de Psicologia da Universidade da Costa Rica entende as comissões da verdade como um processo de negociação, cujo resultado depende da correlação de forças em cada país que passa por essa experiência. Mas, segundo ele, “se é possível a reconciliação, ela tem que passar pela verdade e pela justiça”. Oropeza insiste que o processo deve ser o mais público possível e, acima de tudo, devem estar referenciados nas experiências vividas pelas vítimas e seus aliados.

Se você fosse fazer um quadro geral das Comissões da Verdade e de Memória na América Latina hoje, o que destacaria?

Não me considero nenhum especialista no assunto. Simplesmente sou um interessado no campo da memória. Estudei, em 2008, as experiências do Chile, Argentina, El Salvador, Guatemala e Peru. Atualmente, o tema da Comissão da Verdade aparece em mais três lugares: Equador – uma experiência com suas particularidades, pois é fundamentalmente a repressão do governo contra a Alfaro Vive, organização armada dos anos 70 e 80; no Brasil, que conheço apenas os traços gerais; e como parte de uma proposta para resolver o impasse do golpe de Estado em Honduras, quando Oscar Arias, presidente da Costa Rica, mediou uma solução um pouco complicada porque implicava colocar na mesma mesa os golpistas e os setores democráticos. Mas parte de sua proposta era a Comissão da Verdade. Foi instalada, mas nunca foi aceita pela resistência hondurenha. Também sei que em algum momento o Instituto Interamericano de Direitos Humanos teve a intenção de apoiar a criação da Comissão da Verdade no Suriname, mas acho que não foi muito longe.

Qual a importância de uma Comissão da Verdade?

No campo da memória em geral, as Comissões da Verdade são ferramentas muito interessantes para trabalhar versões de memória pública, para resgatar o que aconteceu nesses países no sentido mais geral. Mas de nenhuma forma são as experiências mais importantes. O mais importante para verdade e a memória são as experiências que as vítimas e seus familiares têm relatado, nas diferentes condições de cada comissão. Para mim, as comissões da verdade são tão interessantes porque, em última instância, implicam em negociações a partir de uma dada correlação de forças. Numa Argentina saindo da ditadura militar depois da Guerra das Malvinas, com um exército derrotado e em retirada, a correlação de forças era muito diferente do caso do Pinochet, no Chile, que saiu em 1988. A correlação de forças em cada pais é fundamental.

Quais experiências você citaria e que grupos estão na vanguarda da discussão da memória desses períodos ditatoriais na América Latina?

Para mim, é bastante claro que o país com mais avanços neste campo é de longe a Argentina, no plano legal, governamental e pelo trabalho de organizações como as mães, avós, filhos, advogados, artistas, etc. E em outros lugares têm sido extremamente difíceis, como El Salvador.

Existem características comuns a essas Comissões da Verdade do continente?

No geral, o seu caráter. São comissões que estão tratando de dizer a toda a sociedade o que aconteceu, de criar uma espécie de memória pública. Tratam de períodos recentes determinados – não são comissões históricas para fazer, por exemplo, um pedido de desculpas do Estado com relação à escravidão. São coisas mais recentes. E, de alguma maneira, têm o apoio oficial do Estado. Fazem seus informes, têm um prazo para encerrar os trabalhos e geralmente criam muitas expectativas.

Em relação a este apoio do Estado, em vários países alguns representantes das ditaduras permanecem no poder político de alguma forma. Como isso influencia as Comissões? De certa forma, podem enfraquecê-las?

Sim, claro. Historicamente. Você pode ver que a direita salvadorenha, muito agressiva, que governou o país por 20 anos, assinou a criação da Comissão da Verdade como parte do acordo de paz com a FLMN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) nos anos 90. Imediatamente, outros setores da direita atacaram a comissão e aconteceu um grande conflito. Um ponto de discussão da primeira comissão do Chile era a de que um dos integrantes estava vinculado ao governo Pinochet. Mas é assim, não pode ser de outra forma. Se um dos grupos ganha totalmente, a Comissão da Verdade perde a características de negociação. Mas se os fatores conflitantes de alguma forma têm algum grau de força, em última instância ela é um processo de negociação.

Essa é a perspectiva para a comissão brasileira?

Eu não tenho dúvida de que, se a Comissão da Verdade começa a funcionar no Brasil, vai ter uma reação feroz, porque esta é a história peruana, equatoriana, argentina e salvadorenha. Isso, se for cumprida uma característica fundamental da comissões, que é dar espaço e trabalhar em função das vítimas, porque o sistema legal não está funcionando assim. Nas comissões da verdade, a ideia é que em primeiro lugar estejam as vítimas.

Você havia falado dos discursos utilizados geralmente, de tratar de maneira igual as vítimas e os vitimados, e do discurso dos “dois demônios” que consiste em culpar ambas as partes para justificar um processo de conciliação. Esses discursos são recorrentes nestas variadas experiências?

Sim, mas depende da situação. Ideologicamente é uma ideia muito forte porque é uma espécie de equilíbrio. É muito fácil que as pessoas aceitem essa posição de meio-termo, pra não serem consideradas extremistas. São os chamados extremo-centristas. É muito fácil vender essa ideia de que as lutas, as armas e as condições de cada um eram iguais. Essas são discussões pendentes, porque não se trata, tampouco, de romantizar a luta armada. Mas o fato é que este lado não pode ser colocado na mesma posição do outro. O terrorismo de Estado é infinitamente mais danoso que de grupos isolados e pequenos. E é o Estado, o que se pressupõe ser aquele que deve defender todos os habitantes. Isso não é dizer que não hajam responsabilidades.

Diante da prevalência do sistema capitalista, os setores que lutavam contra as ditaduras e também eram contrários ao próprio sistema estão em desvantagem hoje?

Depende. Falando das Comissões da Verdade, se você examina a África do Sul, é uma comissão negociada que passa por projetos políticos e militares dos dois lados: o Congresso Nacional Africano e o governo do Apartheid com suas forças repressivas. É uma negociação política que canalizava, em termos de estratégias de ambos os lados, o processo da comissão. É outra situação. No Peru, a pressão é tanta que, como forma de reação às pesquisas, o presidente Alejandro Toledo insistiu em retomar as investigações sobre o Sendero Luminoso, mas que não falava do Exército. Bastante desequilibrada. Tanto é que, se você examinar o informe da Comissão da Verdade, uma grande quantidade dos feitos descritos é do Sendero Luminoso. Em El Salvador, onde também consideram os crimes da FLMN, acho que estes eram 5% do total. No Peru, acredito que 47% eram do Sendero Luminoso. Então depende da conjuntura de cada país.

Falando dos conceitos, qual a diferença entre verdade, justiça e reconciliação?

Reconciliação é um termo muito complicado, justamente pelo que estava dizendo, pois há diferentes tipos. Existe o “brigamos no passado mas agora somos amigos” e “apagamos o passado”, ou aquela reconciliação com puro gesto simbólico onde os dois maiores líderes se encontram e se abraçam publicamente. Mas ambas não são reconciliações reais. Se é possível a reconciliação, ela tem que passar pela verdade e pela justiça.

Mas a verdade tampouco é suficiente porque cai na dinâmica da chantagem, como em algum momento faz a direita e o Exército, na mesa de diálogo e negociação. A proposta era “nós damos as informações mas vocês não nos processam”. É o mesmo que dizer “nós damos pra vocês a verdade, mas não a justiça”, que obviamente não foi aceito pelas organizações de direitos humanos.

Na África do Sul não foi um processo semelhante a isso? Os militares passavam informações em troca de sua anistia?

Tinha uma comissão de anistia com certos requisitos. Nem todos eram anistiados, mas havia essa linha de atuação. A anistia era tão negociada politicamente que as situações eram analisadas dentro do marco das estratégias políticas. Ou seja, o militar ou policial que saiu das forças repressivas e matou um monte de pessoas simplesmente porque quis, não recebe anistia. Muito do processo sul-africano está baseado nas organizações políticas, porque não considera os atos pessoais, mas estratégicos das forças consolidadas.

Em que país houve justiça de fato?

O que tem conseguido mais justiça é a Argentina, que inclusive processa os repressores. Não é assunto da Comissão da Verdade, pois ela não tem essa função legal. Mas ela influenciou o que veio a acontecer. A Argentina me impressiona pela vontade política. Os governos dos Kirchner mostraram uma posição política totalmente diferente de governos anteriores. Isso tudo com muitas travas. Um dos principais obstáculos são os juízes que apoiaram a ditadura e ainda estão no sistema judiciário, que atrasam processos e se espalham para complicar tudo. Interessante que no último ano tiveram algum juízes processados por isso, acusados. Claro que não são processos contra todos os membros da Igreja, empresários e meios que apoiaram a ditadura. Mas começam processos que sinalizam também para estes setores. Mesmo com uma tremenda reação, acho que a Argentina avançou mais por isso.

Existem diferentes desdobramentos das Comissões da Verdade, como os casos citados que geraram outras comissões e casos onde os torturadores foram anistiados logo em seguida. Qual a sua opinião sobre essas possibilidades abertas pelas comissões?

Minha opinião é que, com todas as limitações e contradições, as comissões da verdade são positivas simplesmente pelo fato de registrarem as experiências das vítimas. Se fosse por elas mesmas, por sua própria dinâmica, jamais aconteceria isso com os repressores. Eles nunca iriam criar uma Comissão da Verdade em função da experiência das vítimas. Então, a existência em si é positiva. Daí em diante, o que vai acontecer depende de muitas coisas.

O caso da Argentina é um referencial importantíssimo. De qualquer modo, as comissões da verdade retratam de alguma maneira a repressão nos contextos específicos. Ou seja, a repressão argentina não foi a uruguaia, não foi a chilena. Por isso, por exemplo, o resgate das crianças desaparecidas na ditadura de El Salvador é diferente da situação das avós da Praça de Maio, porque eram operações comunitárias de contra-insurgência e não desaparecimento de pessoas individuais. Não é o genocídio guatemalteco que está retratado em suas duas comissões.

O resultado depende de quê?

Depende do que outros setores sociais vão fazer com esta ferramenta, que não é a única. Eu não sabia da existência de várias comissões no Chile. Estava trabalhando com duas. E o caso chileno é importante porque a comissão de 91 que tratou das mortes e execuções mas não tanto das torturas. Em 2004, ela foi complementada pela comissão que trata de torturas. Mas nenhuma das duas nomeia os repressores. Nenhum. Ao mesmo tempo, existem processos contra militares por conta da repressão, porque o sistema legal chileno permitia fazer julgamentos.

Quais as conseqüências para um pais de negar a memória e a verdade, como no caso daqueles que usam uma lei de anistia para passar a borracha na história?

Eu acho que temos que falar das vítimas, seus familiares e seus aliados. A ideia de não enfrentar a verdade é a ideia de liquidar o passado. O problema é que as feridas não vão se fechar nunca para as vítimas. O grande estorvo para aqueles que querem apagar o passado são as vítimas. Neste caso, Hitler tinha uma certa lógica, embora perversa, porque seu projeto era eliminar não só os judeus, mas todo mundo. Porque se eliminasse todos, em sua cabeça, o futuro seria vitorioso. Existe um discurso famoso de Hitler onde ele fez referência ao genocídio de armênios na Turquia, ironizando que ninguém se lembrava do episódio, e era isso que importava. Os obstáculos, então, não são os técnicos em direitos humanos, e sim as vítimas, suas organizações, seus trabalhos, seus aliados. Então no imaginário. Por exemplo, na negociação chilena da Concertación – que muitos autores escrevem como uma espécie de negociação perversa da memória -, quando parecia que tudo estava pronto, que não existiam mais problemas, quando as vozes dos familiares estavam isoladas e o Chile caminhava para ser do Primeiro mundo, a prisão de Pinochet em Londres gerou uma crise de memória e das feridas não fechadas do país. Essa ilusão no imaginário de que foi tudo superado arrebenta no primeiro instante.

Esse imaginário também é responsável pela manutenção de algumas estruturas como no Brasil onde ainda existe a prática da tortura? Se houvesse uma memória verdadeira, ela poderia ajudar a corrigir essa herança maldita da ditadura?

Precisamos entender melhor a história, porque esses padrões de repressão não são novos. Eles já estavam de alguma maneira estabelecidos. Um exemplo interessante é o trabalho de Elizabeth Lira, uma das principais psicólogas que trabalha com vítimas da repressão no Chile. Em determinado momento de suas pesquisas, junto com um historiador estadunidense, ela chega à conclusão de que é preciso entender os padrões de respostas violentas e repressivas do sistema político chileno. Ela escreve então dois livros sobre os ciclos de repressão e suposta reconciliação que se repetem ao longo da história. Ela quer dizer também que não se trata apenas das invenções do Pinochet, mas que estão instalados na história chilena esses padrões repressivos. Coisa que qualquer camponês da América Latina sabe. Porque em determinados momentos a repressão atinge os setores médios, mas sempre atingiu os pobres. É preciso saber da história, porque ela está sempre mitificada. Na Costa Rica, nós temos dirigentes ambientalistas que morreram em circunstâncias muito sofridas, temos fuzilamento político. A principal figura de Honduras, Francisco Morazán, foi executado num porto da Costa Rica.

Assim como dirigentes sindicais e comunistas foram fuzilados na Guerra Civil de 1948. Eu participei de uma mesa de debate com um historiador conhecidíssimo, que afirmou que na Costa Rica nunca houve um assassinato político. A história é sempre mítica. Então, para responder, posso dizer que as ditaduras se refletem na sociedade de hoje, mas elas não inventaram a história.

Qual o papel da sociedade nessa relação com o Estado? Por que se cobra do Estado isso?

Porque essa é uma maneira mais universal e supostamente representativa de contar a história. Não é a mesma coisa os grupos de familiares, afetados e seus aliados contarem o que aconteceu, e o Estado cumprir essa função. E é importante porque também legitima o que aconteceu, pois a tendência é ficar muito marginalizado, reprimido, silenciado. Ainda que conte simbolicamente. Se não passar pelo Estado não estamos falando de comissões da verdade.

Qual a sua opinião sobre a Comissão da Verdade que está sendo debatida no Brasil?

Sinceramente, só tenho informações genéricas, sem saber muitos detalhes. A minha primeira impressão é a de que, depois de tantos anos, na perspectiva dos direitos humanos, é um feito positivo. Como vai ser, como será organizado, eu não sei. Imagino quais são as polêmicas, mas não tenho as informações precisas. Mas suspeito de que se caminhar na linha das demais comissões da verdade, vai causar uma reação muito forte.

Também criará muitas expectativas que não serão cumpridas, mas depende muito do que o processo da comissão ajude a gerar, incluindo as críticas. O importante é que não seja um assunto isolado, um assunto de especialistas ou políticos. Deve ser o mais público possível.

Fonte: Carta Maior

domingo, 30 de outubro de 2011

Brasileiros estão abandonando a Igreja Católica e indo para a Evangélica. Representação católica caiu para 65%

Brasileiros estão abandonando a Igreja Católica e indo para a Evangélica. Representação católica caiu para 65%

Os católicos correspondiam a 73,79% da população brasileira em 2000, mas vêm caindo, enquanto aumenta o número de evangélicos. A porcentagem de católicos, a ser confirmada pelo censo 2010 do IBGE, deve estar por volta de 65%.

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“A evasão de fiéis é talvez o problema mais grave que a Igreja sofre na sua consciência. Não é, mas ela se pôs como se fosse o problema mais grave. Evasão para onde? Para as igrejas pentecostais e neopentecostais”, analisa padre João Batista Libânio, professor da Faculdade de Teologia dos Jesuítas, em Belo Horizonte.

Recentemente uma das maiores revistas do País publicou uma série de matérias em que fazia previsões para o Brasil em 2020. Em uma dessas publicações, a revista aborda o crescimento evangélico. “Estima-se que 50% da população brasileira poderá ser evangélica” daqui a 11 anos, segundo estatísticas do Sepal (Servindo aos Pastores e Líderes).

Ainda de acordo com a revista, “a influência evangélica em 2020 contribuirá para a diminuição no consumo do álcool, o aumento da escolaridade e a diminuição no número de lares desfeitos, já que a família é prioridade para os evangélicos”.

Se a debandada não é maior, é porque a Igreja Católica reage com leigos envolvidos nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), movimentos carismáticos e instituições como o Opus Dei, de tendências diferentes, mas todos comprometidos com a fé.

As CEBs sobrevivem, mas estão em baixa, na avaliação do sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, professor de mestrado em Ciências da Religião, na PUC – MG. “O prestígio delas é pequeno na hierarquia, mas continuam sendo uma referência para a sociedade, nas associações de bairros e movimentos de trabalhadores”, afirma. Há bispos que resistem às CEBs, mas a resistência não impediu que 80% do episcopado votassem a favor delas na última assembleia-geral da CNBB, em Brasília.

“As CEBs estão muito fragilizadas, assim como a Teologia da Libertação, que tem nelas sua matéria-prima”, concorda Frei Betto, partidário e um dos teóricos da linha social que marcou a Igreja após as conferências episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979). “Nos seminários, não há mais interesse pela Teologia da Libertação, que é analisada nas universidades como um fenômeno do passado.” Frei Betto lamenta, “porque o fundamento da Teologia da Libertação não é o marxismo, mas a existência da pobreza, que continua na América Latina e no Brasil”.

Fonte: Estadão



São muitos, os céus

O céu estava enfarruscado. O vento soprava nuvens cinzentas desgrenhadas. Nem lua nem estrelas. Bem dizia minha mãe que em dia de chuva elas se escondem, por medo de ficar molhadas. Lembrei-me de Prometeu: foi ele quem roubou dos deuses o fogo - por dó dos mortais em noites iguais àquela. Se não fosse por ele, o fogo não estaria crepitando no fogão de lenha. O fogo fazia toda a diferença. Lá fora estava frio, escuro e triste. Na cozinha estava quentinho, vermelho e aconchegante. No fogo fervia a sopa: o cheiro era bom, misturado ao cheiro de fumaça. Comida melhor que sopa não existe. Se eu tivesse de escolher uma comida para comer pelo resto da vida não seria nem camarão, nem picanha, nem lasanha. Seria sopa. Sopa é comida de pobre, que pode ser feita com as sobras. Pela magia do fogo, caldeirão, água e qualquer sobra vira sopa boa. Tem até a estória da sopa de pedra.
O fogo é um poder bruxo. Tem o poder de irrealizar o real: os olhos ficam enfeitiçados pela dança das chamas, os objetos em volta vão perdendo os contornos, acabam por transformar-se em fumaça. Quando isso acontece, começam a surgir, do esquecimento em que estavam guardadas, as coisas que a memória eternizou. O fogo faz esquecer para poder lembrar. Dizia sempre para os meus clientes que, em vez do divã, que lembra maca de consultório médico, eu preferia estar sentado com eles diante de um fogão aceso. É diante do fogo que a poesia aparece melhor. Não admira que Neruda tivesse dito que a substância dos poetas são o fogo e a fumaça.
"- Antigamente eu costumava propor uma troca com Deus: um ano de vida por um dia só dia da minha infância. Hoje não faço isso. Tenho medo de que ele me atenda. Não acho prudente, na minha idade, dispor assim dos meus anos futuros, pois não sei quantos estão ainda à minha espera..." Assim falou a Maria Alice com voz mansa , saudade pura. O fogão de lenha é lugar de saudade. Porque os fogões de lenha, eles mesmos, são fantasmas de um mundo que não mais existe.
"- Quando eu era menino, lá em Mossâmedes, nas noites frias a gente se reunia na cozinha, todos assentados em volta de uma bacia cheia de brasas, os pés nos pauzinhos das cadeiras, era bom o calor do fogo nos pés frios..."
"... a mãe enrolava um pano na cabeça e dizia: 'Vou quintal apanhar umas folhas de laranjeira pra fazer um chá pra nós' - e virava a taramela para abrir a porta da cozinha. O pai dizia sempre a mesma coisa, todo dia: - 'Mulher, você vai é ficar estuporada, de boca torta. Faz mal tomar friagem com corpo quente de fogo...' Mas a mãe nem ligava. Com as canecas quentes de chá na mão - como era bom o cheiro de folha de laranja! Posso até sentir ele de novo" - a gente pedia ao pai pra contar estórias. Ele contava. Eram sempre as mesmas. A gente já sabia. Mas era como se ele tivesse contando pela primeira vez. vinha sempre o assombro, o medo, os arrepios na espinha."
Aí ele parou e começo a divagar. Lembrou-se de um tio.
"- Naquele tempo as pessoas eram diferentes. Pois esse meu tio tinha, na frente da casa dele, uma sala grande, vazia, que nunca era usada. Houve gente que quis alugar a sala - ele receberia um bom dinheirinho por ela. Recusou. E se explicou: - Não alugo, não. É dessa sala que eu vejo a chuva vindo, lá longe. Se eu alugasse, ficaria triste quando a chuva viesse...' É, as pessoas eram diferentes..."
Houve um silêncio. Aí a memória poética se transformou em imaginação teológica.

"- Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou..."

Rubem Alves

Memórias e Libertação - Arcelina Helena Públio Dias


Gente simples, fazendo coisas pequenas
em lugares sem importância,
consegue mudanças extraordinárias.

Dom Moacyr Grechi, bispo de Porto Velho,
XII Intereclesial em Porto Velho, Rondônia, 2009


De 1977 a 2001, em sete cidades da Prelazia de São Félix do Araguaia, no norte do Mato Grosso, oito igrejas e um memorial tiveram suas paredes pintadas com temas que falam do Reino de Deus e da luta do povo pelo direito à vida, à terra e à justiça. O mentor da ideia de preservar a história por meio de enormes murais foi do primeiro bispo da Prelazia, Dom Pedro Casaldáliga. Esse espanhol da Catalunha chegou ao povoado de São Félix em 1968, em plena ditadura militar. Dom Pedro enfrentou militares e grandes grileiros com instrumentos inspirados no Concílio Vaticano II e na Teologia da Libertação. A beleza e a força dos vitrais das centenárias catedrais da Europa, que fazem a memória da história da Salvação, também tocaram a sua alma de poeta.
Maximino Cerezo Barredo, sacerdote e artista plástico, reconhecido nos cinco continentes com obras espalhadas com obras espalhadas pelos cinco continentes, em sete estados brasileiros e em quase todos os países da América Latina, aceitou o desafio proposto por Dom Pedro. O bispo e o padre são da mesma congregação dos claretianos e já haviam trabalhado juntos na Espanha, na revista Iris. Maximino esteve na Prelazia dezenas de vezes ao longo desses 24 anos. Em pequenas e modestas igrejas das jovens cidades com poucos habitantes, majoritariamente pobres, Cerezo Barredo materializou nos murais o rosto dos povos e das culturas, suas lutas e suas vidas movidas pela fé no Deus dos pobres. Ele produziu também mosaicos na parte externa das igrejas.
Em 2004, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombou o conjunto dos 11 murais com o mesmo objetivo de preservar não só as obras de arte, mas também a história pouco conhecida desse povo que desbravou Brasil central. O encaminhamento para o tombamento dos murais foi uma das primeiras iniciativas do bispo Dom Leonardo Ulrich, que substituiu Dom Pedro neste mesmo ano de 2004: “O tombamento garante a preservação das obras e proporciona ganhos para região e consequente aumento do fluxo de pesquisadores e turistas”.
“O povo sem memória não merece viver”, afirma Casaldáliga, hoje com 80 anos, em São Félix do Araguaia, onde continua morando na condição de bispo emérito da Prelazia. Ele já decidiu que será enterrado no abandonado cemitério Karajá, à beira do Araguaia, “pois ali estão muitos índios desconhecidos que perderam a vida na defesa da Terra”.

Nós somos aquilo que amamos,
o que fazemos e o que sonhamos...
Somos teimosamente sonhadores, continua o bispo poeta.
A Unesco reconhece que o patrimônio cultural imaterial, transmitido de geração em geração e constantemente recriado pela comunidade, dá sentido de identidade. O Decreto 3551, de 2000, instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial como patrimônio cultural brasileiro.
Há dois mil anos, Jesus de Nazaré – quando provocado por fariseus exigindo que ele mandasse o povo se calar – replicou: “Se eles se calarem, as pedras gritarão!” (Lucas 19,40). No seu seguimento, os apóstolos Pedro e João responderam às autoridades dos judeus que os ordenavam não mais falar sobre o Mestre Jesus e suas obras: “Não podemos nos calar sobre tudo o que vimos e ouvimos” (Atos 4,20).
Na América Latina, manifestações culturais visando a preservação da memória da luta do povo durante os anos de ditadura são uma constante. A cineasta Carmem Castilho Echeverria, do Chile, que assistiu horrorizada queima de livros pela polícia de seu país, foi premiada pelo seu filme El tesoro de América - El oro de Pascua Luma. Convicta de que “os olhos sem memória não veem nada”, ela relembra a luta que seu povo iniciou pela ocupação da terra, em 1971, espontaneamente, todos movidos pela fome: “Mas, eu não tive direito à existência até que me organizei”, explica. Na Prelazia, ouvi depoimentos em diferentes cidades durante esta peregrinação de pessoas que viveram processos muito semelhantes. Algumas, principalmente as mulheres, transformaram suas experiências de vida em monografias para conclusão de cursos universitários.
Pedro Casaldáliga e seus colaboradores foram motores na organização do povo. Ele continua insistindo na importância da preservação da memória. Na última peregrinação ao Memorial da América Latina, em Ribeirão Cascalheira, em julho de 2011, com voz débil, reafirmou suas certezas: “Não se esqueçam dos nossos pobres... O desânimo também é pecado, não podemos desanimar... Lembrar é combater... Esquecer é permitir”.
Nos Estados Unidos, Martin Luther King afirmou: “O que me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem caráter, nem dos sem ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.
Quando me aposentei como jornalista e professora da Universidade de Brasília, fui morar na cidade de Goiás, movida pelo encantamento que me levou a conversão à radicalidade do Evangelho de Jesus e ao jeito de ser Igreja proposto pelo Mosteiro da Anunciação. Era o último ano do século XX, e no ano 2000 celebrava-se o Jubileu. Esse costume, inspirado nos textos bíblicos do Primeiro Testamento, repete-se a cada 50 anos. A Igreja Católica animava seus fiéis a peregrinar às grandes catedrais e aos lugares sagrados. Ao instalar-me na periferia da pequena cidade de Goiás, eu havia feito minha opção fundamental pelos pobres. Mas continuava jornalista. Por isso, decidi peregrinar no meio dos pobres e sofredores, onde eu acredito encontrar Jesus, o Nazareno, que nasceu de uma mulher pobre e morreu crucificado. Em 1999, dei início ao projeto de realizar cinco peregrinações pelos cinco continentes para escrever cinco livros, ao longo de 500 dias. Eu apenas dava os primeiros passos para entender o Reino de Deus pelos olhos da Teologia da Libertação.
O Concílio Vaticano II deixou muitas heranças que continuam a iluminar o caminho de muitos cristãos e a fortalecer teólogos, sacerdotes, leigos e leigas que vivem a sua Fé segundo a Teologia da Libertação. Para o teólogo e sacerdote Pablo Bonavia, duas são as principais heranças: "Fazer teologia é ler os sinais dos tempos, através da ação do Espírito. O povo de Deus é sujeito do fazer teológico e eclesial. Todos e todas, leigos e leigas, temos o mesmo carisma profético. A ‘hermenêutica dos pobres’ nos ensina que há coisas no mundo que só se veem a partir da perspectiva dos excluídos".
No primeiro livro de peregrinações, Sinais de Esperança, conheci os excluídos das três Américas – os sem teto dos Estados Unidos, os meninos de rua da Colômbia, os desempregados do México, que se arriscavam a viver sem documentos atravessando o Rio Grande, entre outros sofredores. Na segunda peregrinação à África e ao Oriente Próximo, convivi com os pobres, os sem paz, os sem pátria, os condenados a morrer de fome ou de AIDs, entre outras doenças. Escrevi Perdão, África, perdão! Em 2006, fui para a Europa peregrinar pelos mosteiros das diferentes igrejas e religiões. Entre monges e monjas que optaram pela autoexclusão do mundo, dedicando-se às orações, meditações e práticas de uma vida simples, longe do consumismo e dos agitos do nosso século, aprendi soluções simples para os problemas que criamos. Escrevi Além do Silêncio.
A presente peregrinação ao coração do Brasil durou 70 dias, no segundo semestre de 2010. Guiada pelos murais de Cerezo Barredo, mergulhei num mundo distante das realidades transmitidas pelos meios de comunicação. Pela força de seus traços e da trama dos personagens bíblicos e populares dos murais, encontrei o povo. O povo, os pioneiros, os índios, os que se organizaram em sindicatos e partidos políticos, os bem mais velhos e também os jovens que enfrentam novos problemas foram minhas fontes de informação.
Como sempre nas peregrinações, procurava entender a realidade iluminada pela espiritualidade dos tempos bíblicos e pela sabedoria acumulada pelos povos. Com profundo respeito por tudo e todos, assim como Abraão que conduziu o seu povo durante 40 anos no deserto. Deus lhe disse (Êxodo 3,5): “Tira teus sapatos dos pés porque a terra que você está pisando é sagrada”. Assim eu pisei na terra sagrada e abençoada da Prelazia de São Félix.
Em cada uma das cidades, encontrei semelhanças, vividas e contadas por diferentes pessoas. E também histórias que transformaram essas vivências semelhantes em realidades únicas que não podem ser esquecidas. Ou seja, os saberes, enraizados no cotidiano das comunidades, as celebrações, as festas, o trabalho em mutirão, as diferentes formas de expressões e os lugares onde se reproduzem essas práticas culturais coletivas – as ruas, praças, mercados, santuários. Com imenso cuidado, segui cada passo ao peregrinar e cada palavra ao redigir este livro.

Pelas mãos de Cerezo

O martírio é um tema forte na Prelazia. São milhares de índios massacrados, caboclos anônimos resistindo pela terra e lideranças organizando o povo para as lutas. O martírio tem sido, também na minha vida, um pensamento recorrente desde a infância. Quando me preparava para a primeira comunhão, encantava-me a ideia de que o batismo de sangue me levaria, como um foguete, para os braços de Jesus. Sem passagem pelo Purgatório, que me horrorizava.
Para partir peregrinando, reparo a mala com pouca roupa e muitos apetrechos: um laptop velho e pesado, câmera fotográfica e gravador digitais novos, celular velho, cadernos de contato e roteiros, documentos. Cuido de deixar a casa do Menino Jesus, onde moro desde que cheguei a Goiás, em 1999, e o Jardim da Transfiguração, de preservação ambiental, em mãos amigas. Vou me despedindo de amigos e das amigas e administrando as saudades. Junto com tudo isso, o sonho da infância e a ideia de uma despedida definitiva. Não temo a morte, nem a desejo. Mas me observo pensando nela com ternura. E o martírio? Para ser sincera, não me sinto merecedora. Nesta peregrinação desejo confirmar a razão da minha vida: a fé no Reino de Deus, na justiça e no respeito às diversidades, na paz, na solidariedade aos sofredores e na coragem da entrega total para deixar-me morrer quando chegar a minha hora. Seja lá como e quando for.
Como nas demais peregrinações, antes da partida, recebo a Bênção do Envio. Pensei realizá-la na Catedral de Goiás, onde há cinco enormes painéis de Cerezo Barredo. Mas os anjos me levaram por outro caminho. A presença das pessoas simples da nossa comunidade de base “Evangelho é Vida” são, para mim, de grande importância. Às quintas-feiras nos reunimos nas casas de diferentes famílias da comunidade para rezar, meditar o evangelho e partilhar as nossas vidas. Não foi difícil conseguir para aquela quinta-feira, 12 de agosto de 2010, antevéspera da minha partida, que o nosso encontro fosse na “Casinha do Menino Jesus”.
Dom Eugênio Rixen, nosso bispo, com a agenda sempre tão cheia, também estava disponível para aquela data. Data e local definidos para a bênção, passei a me ocupar das flores na Capelinha do Menino Jesus, no quintal de casa, e do texto do evangelho que iríamos meditar. Pedi à vizinha Domingas que me ajudasse, não para fazer bolo de arroz – sua especialidade –, a receber as pessoas. Um bolo já estava encomendado para comemorar meu aniversário e dos demais da comunidade que nasceram em agosto. Eu e Eliane nascemos, em anos bem distintos, no mesmo 25 de agosto, e Mário, no dia 29. Chamei também a Ivonete, amiga do grupo Fé e Luz – que reúne pessoas com necessidades especiais e suas famílias. Ela também é de agosto. O bolo de chocolate foi feito pela doceira Francisca, esposa da Ivorné, que concluíra sua passagem pela Chácara de Recuperação.
Ao final do nosso encontro, Dom Eugênio me chamou ao centro e, frente ao Santíssimo, deu-me a Bênção do Envio. Também recebi alegres bênçãos das pessoas que lotaram a capelinha. Entre elas, duas italianas que sempre nos visitam: Nádia, que nos acompanhou na excursão a São Félix em 2008, e Sônia, do projeto italiano Módena Terço Mundo. É costume da nossa comunidade terminar os encontros cantando “Esta casa será abençoada”, batendo palmas animadamente, para alegria das crianças, e enviando com os braços uma boa energia para os quatro cantos da casa. A canção vai se repetindo várias vezes para abençoar as famílias, as crianças, os vizinhos, as visitas... Fui dormir sentindo-me realmente uma pessoa abençoada em poder realizar mais essa peregrinação.
Parti no sábado, 14 de agosto, às 8h30, em direção à Barra do Garça, onde o Araguaia recebe as águas do rio Garça. O simples olhar pela janela do caudaloso Araguaia, rio que me acompanharia ao longo dessa peregrinação, emocionou-me. À Barra, cheguei às 14h30. Eu deveria pegar outro ônibus às 21h30 para São Félix, o primeiro destino da peregrinação. Devido às muitas paradas, só chegaria no domingo, às 9h30, a tempo de me instalar e participar do último dia da festa da padroeira, Nossa Senhora da Assunção.
Passei esse longo intervalo de tempo entre um ônibus e outro na casa das irmãs claretianas. Eu sabia que na singela capela da casa encontraria um mural pintado por Cerezo. Mas não contava em encontrar uma amiga entre as claretianas: a irmã Cida, companheira de Estudo Bíblico da IX Turma do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos). Ela morou dez anos em São José do Xingu e me deu muitas dicas e informações sobre essa cidade, parte do meu roteiro.
Bolo de milho bem quente e cafezinho me esperavam. Depois, na capela, demorei-me em oração. O mural do Cerezo ocupa todo o espaço da parede do altar, envolvendo o sacrário. Do lado esquerdo, Jesus tem, a seus pés, duas irmãs, vestidas como as mulheres do povo, levando cestas com os dois peixes e os cinco pães. No alto, a frase que diz respeito à missão das claretianas: “Dos pés de Jesus saí para evangelizar os pobres”. E do lado direito, homens, mulheres, crianças do povo, com características de negros, brancos e índios, suas enxadas e uma panela vazia, como se esperassem a multiplicação dos pães e peixes (Mateus 14). A frase escrita no alto completa a proposta claretiana: “E voltai para fortalecer o Espírito”. No centro do mural no alto, o Espírito Santo na forma de pomba, sobre o sacrário envolto em uma colorida mandala de temática indígena. Dois temas – a pomba e a arte indígena – que encontraria praticamente em todos os murais de Cerezo Barredo.
Eu estava feliz. As irmãs saíram para os seus afazeres, e eu aproveitei para ir até a margem do rio Araguaia, bem perto dali. Uma arara-azul me chamou a atenção com fortes grunhidos e voou até um cajueiro repleto de enormes frutos vermelhos. E ficou ali esperando a minha foto colorida.
No porto do Baé, assisti ao pôr do sol, com voo de garças, pombas, andorinhas e gaivotas. Cachorros nadavam na margem à minha frente. Do outro lado do rio, veranistas aproveitavam os últimos raios de sol, ao lado de barracas armadas na areia e dentro da água. Passavam alguns barcos, e tive direito até a um show de jet ski. Os carros estacionados nas proximidades das lanchonetes, com chapas de diferentes estados, mostravam que essa cidade cumpre bem a sua vocação turística.


Arcelina Helena Publio Dias

Jornalista desde 1968, foi repórter redatora no Jornal do Brasil e no Estado de S. Paulo. Durante 11 anos, dirigiu o Jornal do DIAP do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. Depois, foi assessora de imprensa no Senado Federal, no Governo de São Paulo e coordenadora da Comunicação do Ministério do Trabalho. Como professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, lecionou entre outras matérias jornalismo sindical e comunitário. Fez o seu mestrado na Sorbonne, em Paris, França. Em 1995, teve publicado o livro-reportagem sobre a sua experiência de viver com um salário mínimo na periferia de Belo Horizonte: a Crônica do Salário Mínimo, editora Record.

Os outros livros publicados fazem parte de um projeto de peregrinação ecumênica e inter-religiosa de 500 dias entre os excluídos dos cinco continentes: Sinais de Esperança, Vozes, 2000, livro-reportagem sobre a peregrinação entre os excluídos das três Américas; Perdão, África, Perdão, Editora Rede da Paz, 2002, sobre a peregrinação na África e no Oriente Próximo. Além do Silêncio, editora Ave Maria, peregrinação por mosteiros da Europa.

Na cidade de Goiás desde 1998, Arcelina tornou-se consagrada beneditina do Mosteiro da Anunciação.

sábado, 29 de outubro de 2011

Dia Mundial de Combate ao AVC, profissionais conscientizam população

A área em frente à administração da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, transformou-se nesta sexta-feira em local para vários consultórios médicos improvisados. Profissionais de diferentes áreas de saúde se revezavam para medir a glicose e a pressão arterial, além de fazer exames de colesterol e avaliar a circunferência abdominal de quem passasse pelo local. O objetivo é prevenir o Acidente Vascular Cerebral (AVC).

avc

O AVC é a doença que mais causa mortes no Brasil

Os especialistas advertem que o AVC é mais comum entre as pessoas sedentárias com hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, doenças do coração, além de fumantes e de quem consome bebidas alcoólicas. Depois dos testes, os profissionais orientaram sobre como pessoas com uma rotina corrida podem ter uma vida mais saudável.

Os principais sintomas que devem servir de alerta à ameaça de um Acidente Vascular Cerebral são fraqueza, sensação de formigamento em um dos lados do corpo, dificuldade súbita para falar, enxergar e caminhar. Há relatos ainda de pessoas que tiveram visão dupla e perda de equilíbrio, assim como tonturas e dor de cabeça intensa.

O aposentado José Gadelha, de 67 anos, aproveitou para fazer todos os exames. “Está tudo bem como minha saúde”, disse ele, demonstrando alívio. “O atendimento foi muito bom, rápido e com muitas explicações. Isso deveria ocorrer mais vezes. Acho que esses exames são caros e fazer assim, de graça, é maravilhoso até porque eu não teria dinheiro para pagar.”

A coordenadora do Setor de Neurologia da Secretaria de Saúde, Mirian Moura, alertou que é necessário estar atento a todos os sintomas que podem levar a um AVC. “É muito importante detectar os sintomas o quanto antes. Hoje as pessoas que sofrem um AVC podem ter um tratamento adequado e têm condições de se recuperar totalmente, mantendo a qualidade de vida”, disse ela.

Apenas nas primeiras horas do dia desta sexta-feira mais de 1.000 pessoas foram atendidas. O presidente da organização não governamental (ONG) Saúde até Você, Cláudio Rafael da Silva, lembrou que o AVC é uma doença silenciosa e que pode levar à morte.

- O AVC hoje é a doença que mais mata no Brasil. A cada seis segundos, alguém morre de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Esse dado é preocupante, devemos dar mais atenção a nossa saúde- , disse Rafael.

No próximo domingo, a partir das 9 horas, a campanha de prevenção ao AVC estará no Parque da Cidade, em Brasília, para promover a Caminhada Nacional do AVC. A concentração será em frente ao Quiosque do Atleta. As ações contam com o apoio de diversas entidades relacionadas à saúde, entre elas, a Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Rede Brasil AVC, equipes de neurologia de diversos hospitais do DF e o Programa de Educação e Controle da Hipertensão Arterial do DF.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jornadas Teológicas Andinas




Participei das Jornadas Teológicas Andinas em preparação dos 50 anos do Concilio Vaticano IIº e dos 40 anos do livro de Gutierrez sobre a teologia da libertação, eventos que serão celebrados no próximo ano na cidade de Porto Alegre. Foi a última etapa de uma série de encontro regionais que algumas instituições religiosas e universitárias organizaram para não deixar passar em branco eventos tantos importantes. Come di costume, quando participo de eventos culturais, não deixo de esboçar uma reflexão sublinhando e destacando idéias que podem servir como partilha.

1. O primeiro elemento que me chamou atenção das Jornadas Teológicas Andinas é o espaço dedicado as conjunturas. Foram conjunturas de todo tipo: cultural, sócio-política, religiosa. Num encontro teológico europeu ou americano nunca teria acontecido isso. Aqui vem o marco especifico da Teologia da Libertação, ou seja, uma maneira de pensar a Deus contextualizada, atenta à história, fiel ao projeto de Deus que se fez homem e veio a morar no meio de nós. No mundo Ocidental teologia é falar de Deus e pronto. São raciocínios puríssimos sobre Deus e a sua natureza, que são elaborados nos livros de teologia produzidos no Ocidente. Por isso acham estranha a maneira de fazer teologia da América Latina. A Teologia da Libertação tem como ponto de partida a realidade histórica, sobretudo, a realidade dos mais pobres que, no nosso querido continente são milhões. A teologia da Libertação acompanha o mistério revelado aos pequenos (cf. Mt 11,25s) e escondidos aos sábios do mundo. Durante as Jornadas foi salientado como muitos teólogos da libertação que escrevem livros, passam uma parte do próprio tempo morando em favelas, para partilhar com os pobres o peso da cruz dos oprimidos. Uma coisa, de fato, é falar e escrever de Deus dentro de um quartinho cheiroso; outra coisa é argumentar sobe Deus vivendo em favelas com o esgoto ao céu aberto e acompanhando a luta corriqueira dos mais pobres.

2. A segunda observação sobre estas jornadas é a tomada de consciência do contraste patente entre religião e vida. Foi impressionante escutar os dados da pobreza que está assolando os países andinos. A luta contra a corrupção política parece se agravar dias após dias, apesar dos esforços dos últimos anos. É o grito dos povos indígenas que parece cair no vazio perante a ganância das grande multinacionais que visam somente o lucro. Perante uma região com uma forte e expressiva presença da Igreja católica, chama atenção a lastimável situação social ladeada de problemas que assolam a população, deixando uma percentagem altíssima de pobres e miseráveis. E ai vem de imediato uma pergunta lancinante: que religião é essa? Que ritos celebramos se não modificam por dentro as estruturas injustas de poderes corruptos? Que fé vivemos se não produz uma vida digna, pelo menos conforme aquilo que nos ritos celebramos? Séculos de religião, de ritos e a desigualdade social em vez de diminuir parece crescer. Milhões de fieis em toda a região Andina e os pobres e miseráveis ainda estão ai, sofrendo, se lascando para conseguir um pedaço de pão para comer. Deve ter alguma coisa que não funciona.

3. Terceiro ponto que quero destacar das Jornadas Teológicas Andinas é a importância dada ao encontro pessoal com Jesus. Para quem é acostumado a ler livros de teologia da libertação se trata de uma novidade. Sem duvida é o fruto da reflexão que saiu de Aparecida e que está encontrando respaldo nas reflexões não apenas dos teólogos, mas também de tantos operadores pastorais. Talvez o motivo desta importância que está sendo atribuída ao encontro pessoal com Jesus é ligada aquilo que escrevi pouco acima. Se, de fato, a nossa vida de fé não é fruto do encontro pessoal com Jesus, a nossa ação se reduz a um puro ativismo e o nosso encontro com os pobres, ao longo da vida, pode se tornar interessado. Para o pobre ser caminho do encontro com Cristo, precisa ser disponíveis ao encontro com o mistério, ser abertos as novidades que o Transcendente leva consigo. Mais ainda: para que uma reflexão teológica sobre a pobreza evangélica, não vire sociologia de baixo nível, é necessário sempre manter a alma aberta ao mistério.

4. Uma última consideração. Em várias palestras nestes três dias de Jornadas Teológicas, foi destacada a importância das comunidades de base – CEBs – como novo jeito de ser Igreja e a tarefa delas desenvolvida no processo de libertação dos pobres. A chance de uma transformação da Igreja hoje e como precisa dessa transformação!- reside exatamente nas comunidades de base, na consciência que os pobres assumem sobre o próprio destino. Trabalhando há mais de doze anos nas CEBs sinto-me angustiado quando escuto este tipo de conversa. Os pobres que encontro e que encontrei não tem este tipo de consciência e nem a procuram. Os pobres reais que encontrei nas comunidades são diferentes dos pobres idealizados que são apresentados nos encontros eclesiais, nos debates teológicos. Sobretudo é diferente a maneira de abordar Deus e, com isso, os problemas da vida. É muito mais espontâneo, alegre, fora de raciocínios vazios a maneira dos pobres reais de se encontrar com Deus, comparado com as argumentações recheada de consciência social que emergem nos encontros eclesiais. Talvez esta diferença é devida ao fato que os pobres reais, aqueles que passam a vida se lascando para conseguir um pedaço de pão, entram em contato com Deus com aquele confiança que brota de uma vida desamparada, muito diferente das idéias teológicas que surgem na mente de quem está abastado, passando o tempo todo entro o escritório e uma sala de aula. A o meu ver, se a teologia da libertação quer ter um futuro deve escutar com mais atenção o grito dos pobres, mergulhar na vida deles, para sair de um falatório amiúde vazio, ideológico e pouco real. Talvez seguindo este caminho menos visível, mas mais evangélico, as elucubrações ficam bem mais reais e, por isso, mais aderentes à vida do povo.

Pe Paolo Cugini

Teologia da Libertação -

INSTRUÇÃO
SOBRE ALGUNS ASPECTOS
DA « TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO »

INTRODUÇÃO

O Evangelho de Jesus Cristo é mensagem de liberdade e força de libertação. Esta verdade essencial tornou-se, nos últimos anos, objeto da reflexão dos teólogos, com uma nova atenção que, em si mesma, é rica de promessas.

A libertação é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado. Seu objetivo e seu termo é a liberdade dos filhos de Deus, que é dom da graça. Ela exige, por uma consequência lógica, a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, económica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade. Discernir com clareza o que é fundamental e o que faz parte das consequências, é condição indispensável para uma reflexão teológica sobre a libertação.

Na verdade, diante da urgência dos problemas, alguns são levados a acentuar unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete. A apresentação dos problemas por eles proposta torna-se por isso confusa e ambígua. Outros, com a intenção de chegarem a um conhecimento mais exato das causas das escravidões que desejam eliminar, servem-se, sem a suficiente precaução crítica, de instrumentos de pensamento que é difícil, e até mesmo impossível, purificar de uma inspiração ideológica incompatível com a fé cristã e com as exigências éticas que dela derivam.

A Congregação para a Doutrina da Fé não pretende tratar aqui o vasto tema da liberdade cristã e da libertação em si mesmo. Propõe-se fazê-lo num documento posterior, no qual porá em evidência, de maneira positiva, toda a sua riqueza, tanto para a doutrina como para a prática.

A presente Instrução tem uma finalidade mais precisa e mais limitada: quer chamar a atenção dos pastores, dos teólogos e de todos os fiéis, para os desvios e perigos de desvio, prejudiciais à fé e à vida cristã, inerentes a certas formas da teologia da libertação que usam, de maneira insuficientemente crítica, conceitos assumidos de diversas correntes do pensamento marxista.

Esta advertência não deve, de modo algum, ser interpretada como uma desaprovação de todos aqueles que querem responder generosamente e com autêntico espírito evangélico à « opção preferencial pelos pobres ». Nem pode, de maneira alguma, servir de pretexto para aqueles que se refugiam numa atitude de neutralidade e de indiferença diante dos trágicos e urgentes problemas da miséria e da injustiça. Pelo contrário, é ditada pela certeza de que os graves desvios ideológicos que ela aponta levam inevitavelmente a trair a causa dos pobres. Mais do que nunca, convém que grande número de cristãos, com uma fé esclarecida e decididos a viver a vida cristã na sua totalidade, se empenhem, por amor a seus irmãos deserdados, oprimidos ou perseguidos, na luta pela justiça, pela liberdade e pela dignidade humana. Hoje mais do que nunca, a Igreja propõe-se condenar os abusos, as injustiças e os atentados à liberdade, onde quer que eles aconteçam e quaisquer que sejam seus autores, e lutar, com os seus próprios meios, pela defesa e promoção dos direitos do homem, especialmente na pessoa dos pobres.

I - UMA ASPIRAÇÃO

1. A poderosa e quase irresistível aspiração dos povos à libertação constitui um dos principais sinais dos tempos que a Igreja deve perscrutar e interpretar à luz do Evangelho.[1] Este fenómeno marcante de nossa época tem uma amplidão universal, manifesta-se porém em formas e em graus diferentes conforme os povos. È sobretudo entre os povos que experimentam o peso da miséria e entre as camadas deserdadas que esta aspiração se exprime com vigor.

2. Esta aspiração traduz a percepção autêntica, ainda que obscura, da dignidade do homem, criado « à imagem e semelhança de Deus » (Gên 1, 26-27), rebaixada e menosprezada por múltiplas opressões culturais, políticas, raciais, sociais e económicas, que muitas vezes se acumulam.

3. Ao revelar-lhes a sua vocação de filhos de Deus, o Evangelho suscitou no coração dos homens a exigência e a vontade positiva de uma vida fraterna, justa e pacífica, na qual cada pessoa possa encontrar o respeito e as condições da sua auto-realização espiritual e material. Esta exigência encontra-se, sem dúvida, na raiz da aspiração de que falamos.

4. Por consequência, o homem já não está disposto a sujeitar-se, passivamente ao peso esmagador da miséria, com suas sequelas de morte, doenças e depauperamento. Sente profundamente esta miséria como una intolerável violação da sua dignidade original. Muitos fatores, entre os quais é preciso incluir o fermento evangélico, contribuíram para o despertar da consciência dos oprimidos.

5. Já não se ignora, mesmo nos segmentos da população ainda dominados pelo analfabetismo, que, graças ao maravilhoso progresso das ciências e das técnicas, a humanidade, em constante crescimento demográfico, seria capaz de assegurar a cada ser humano um mínimo de bens exigidos pela sua dignidade de pessoa.

6. O escândalo das gritantes desigualdades entre ricos e pobres – quer se trate de desigualdades entre países ricos e países pobres, ou de desigualdades entre camadas sociais dentro de um mesmo território nacional – já não é tolerado. De um lado, atingiu-se uma abundância jamais vista até agora, que favorece o desperdício; e, de outro lado, vive-se ainda numa situação de indigência, marcada pela privação dos bens de primeira necessidade, de modo que já não se conta mais o número das vítimas da subnutrição.

7. A falta de equidade e de sentido de solidariedade nos intercâmbios internacionais reverte de tal modo em benefício dos países industrializados, que a distância entre ricos e pobres aumenta sem cessar. Daí o sentimento de frustração, entre os povos do Terceiro Mundo, e a acusação de exploração e de colonialismo económico lançada contra os países industrializados.

8. A recordação dos estragos causados por um certo tipo de colonialismo e de suas consequências aviva muitas vezes feridas e traumatismos.

9. A Sé Apostólica, na linha do Concílio Vaticano II, bem como as Conferências Episcopais, não têm cessado de denunciar o escândalo que constitui a gigantesca corrida armamentista que, além das ameaças que faz pesar sobre a paz, absorve enormes somas, uma parcela das quais seria suficiente para acudir às necessidades mais urgentes das populações privadas do necessário.

II - EXPRESSÕES DESTA ASPIRAÇÃO

1. A aspiração pela justiça e pelo reconhecimento efetivo da dignidade de cada ser humano, como qualquer outra aspiração profunda, exige ser esclarecida e orientada.

2. Com efeito, é um dever usar de discernimento acerca das expressões, teóricas e práticas, desta aspiração. Pois existem numerosos movimentos políticos e sociais que se apresentam como porta-vozes autênticos da aspiração dos pobres e como habilitados, mesmo com o recurso a meios violentos, a realizar as transformações radicais que poriam fim à opressão e à miséria do povo.

3. Deste modo, a aspiração pela justiça encontra-se muitas vezes prisioneira de ideologias que ocultam ou pervertem o seu sentido, propondo à luta dos povos para a sua libertação objetivos que se opõem à verdadeira finalidade da vida humana e pregando meios de ação que implicam o recurso sistemático à violência, contrários a uma ética que respeite as pessoas.

4. A interpretação dos sinais dos tempos à luz do Evangelho exige pois que se perscrute o sentido da aspiração profunda dos povos pela justiça, mas, ao mesmo tempo, que se examinem, com um discernimento crítico, as expressões teóricas e práticas que são componentes desta aspiração.

III - A LIBERTAÇÃO, TEMA CRISTÃO

1. Considerada em si mesma, a aspiração pela libertação não pode deixar de encontrar eco amplo e fraterno no coração e no espírito dos cristãos.

2. Assim, em consonância com esta aspiração, nasceu o movimento teológico e pastoral conhecido pelo nome de « teologia da libertação »: num primeiro momento nos países da América Latina, marcados pela herança religiosa e cultural do cristianismo; em seguida, nas outras regiões do Terceiro Mundo, bem como em alguns ambientes dos países industrializados.

3. A expressão « teologia da libertação » designa primeiramente uma preocupação privilegiada, geradora de compromisso pela justiça, voltada para os pobres e para as vítimas da opressão. A partir desta abordagem podem-se distinguir diversas maneiras, frequentemente inconciliáveis, de conceber a significação cristã da pobreza e o tipo de compromisso pela justiça que ela exige. Como todo movimento de ideias, as « teologias da libertação » englobam posições teológicas diversificadas; suas fronteiras doutrinais são mal definidas.

4. A aspiração pela libertação, como o próprio termo indica, refere-se a um tema fundamental do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, tomada em si mesma, a expressão « teologia da libertação » é uma expressão perfeitamente válida: designa, neste caso, uma reflexão teológica centrada no tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas. A convergência entre a aspiração pela libertação e as teologias da libertação não é pois fortuita. O significado desta convergência não pode ser compreendido corretamente se não à luz da especificidade da mensagem da Revelação, autenticamente interpretada pelo Magistério da Igreja.[2]

IV - FUNDAMENTOS BÍBLICOS

1. Uma teologia da libertação corretamente entendida constitui, pois, um convite aos teólogos a aprofundarem certos temas bíblicos essenciais, com o espírito atento às graves e urgentes questões que a atual aspiração pela libertação e os movimentos de libertação, eco mais ou menos fiel dessa aspiração, põem à Igreja. Não é possível esquecer, por um só instante, as situações de dramática miséria de onde brota a interpelação assim lançada aos teólogos.

2. A experiência radical da liberdade cristã[3] constitui aqui o primeiro ponto de referência. Cristo, nosso Libertador, libertou-nos do pecado e da escravidão da lei e da carne, que constitui a marca da condição do homem pecador. Ê pois a vida nova da graça, fruto da justificação, que nos torna livres. Isto significa que a mais radical das escravidões é a escravidão do pecado. As demais formas de escravidão encontram pois, na escravidão do pecado, a sua raiz mais profunda. É por isso que a liberdade, no pleno sentido cristão, caracterizada pela vida no Espírito, não pode ser confundida com a licença de ceder aos desejos da carne. Ela é vida nova na caridade.

3 As « teologias da libertação » recorrem amplamente à narração do Livro do Êxodo. Este constitui, de fato, o acontecimento fundamental na formação do Povo eleito. É preciso não perder de vista, contudo, que a significação específica do acontecimento provém de sua finalidade, já que esta libertação está orientada para a constituição do povo de Deus e para o culto da Aliança celebrado no Monte Sinai.[4] Por isso a libertação do Êxodo não pode ser reduzida a uma libertação de natureza prevalentemente ou exclusivamente política. É significativo, de resto, que o termo libertação seja ás vezes substituído na Sagrada Escritura pelo outro, muito semelhante, de redenção.

4. Jamais se apagará da memoria de Israel o episódio que originou o Êxodo. Ele é o ponto de referência quando, após a destruição de Jerusalém e o Exílio de Babilónia, o Povo eleito vive na esperança de uma nova libertação e, para além dessa, na expectativa de uma libertação definitiva. Nesta experiência, Deus é reconhecido como o Libertador. Ele estabelecerá com seu povo uma nova Aliança, marcada pelo dom do seu Espírito e pela conversão dos corações.[5]

5. As múltiplas angústias e desgraças experimentadas pelo homem fiel ao Deus da Aliança servem de tema para diversos salmos: lamentações, pedidos de socorro, ações de graças referem-se à salvação religiosa e à libertação. Neste contexto, a desgraça não se identifica pura e simplesmente com uma condição social de miséria ou com a sorte de quem sofre opressão política. Ela inclui também a hostilidade dos inimigos, a injustiça, a morte e a culpa. Os salmos nos remetem a uma experiência religiosa essencial: somente de Deus se espera a salvação e o remédio. Deus, e não o homem, tem o poder de mudar as situações de angústia. Assim, os « pobres do Senhor » vivem numa dependência total e confiante na providência amorosa de Deus.[6] Aliás, durante toda a travessia do deserto, o Senhor nunca deixou de prover à libertação e à purificação espirituais de seu povo.

6. No Antigo Testamento, os profetas, desde Amos, não cessam de recordar, com particular vigor, as exigências da justiça e da solidariedade e de formular um juizo extremamente severo sobre os ricos que oprimem o pobre. Tomam a defesa da viúva e do órfão. Proferem ameaças contra os poderosos: a acumulação de iniquidades acarretará necessariamente terríveis castigos. Isto porque não se concebe a fidelidade à Aliança sem a prática da justiça. A justiça em relação a Deus e a justiça em relação aos homens são inseparáveis. Deus é o defensor e o libertador do pobre.

7. Semelhantes exigências encontram-se também no Novo Testamento. Ali são até radicalizadas, como demonstra o discurso das Bem-aventuranças. Conversão e renovação devem operar-se no mais íntimo do coração.

8. Já anunciado no Antigo Testamento, o mandamento do amor fraterno estendido a todos os homens constitui agora a suprema norma da vida social.[7] Não há discriminações ou limites que possam opor-se ao reconhecimento de todo e qualquer homem como o próximo.[8]

9. A pobreza por amor ao Reino é exaltada. E na figura do Pobre, somos levados a reconhecer a imagem e como que a presença misteriosa do Filho de Deus que se fez pobre por nosso amor.[9] Este é o fundamento das inexauríveis palavras de Jesus sobre o Juízo, em Mt 25, 31-46. Nosso Senhor é solidário com toda desgraça; toda desgraça leva a marca de sua presença.

10. Contemporaneamente as exigências da justiça e da misericórdia, já enunciadas no Antigo Testamento, são aprofundadas a ponto de revestirem no Novo Testamento uma significação nova. Aqueles que sofrem ou são perseguidos são identificados com Cristo.[10] A perfeição que Jesus exige de seus discípulos (Mt 5, 18) consiste no dever de serem misericordiosos « como vosso Pai é misericordioso » (Lc 6, 36).

11. É à luz da vocação cristã ao amor fraterno e à misericórdia que os ricos são severamente admoestados para que cumpram o seu dever.[11]São Paulo, perante as desordens na Igreja de Corinto, acentua vigorosamente a ligação que existe entre tomar parte no sacramento do amor e repartir o pão com o irmão que se encontra em necessidade.[12]

12. A Revelação do Novo Testamento nos ensina que o pecado é o mal mais profundo, que atinge o homem no cerne da sua personalidade. A primeira libertação, ponto de referência para as demais, é a do pecado.

13. Se o Novo Testamento se abstém de exigir previamente, como pressuposto para a conquista desta liberdade, uma mudança da condição política e social, é sem dúvida, para salientar o caráter radical da emancipação trazida por Cristo, oferecida a todos os homens, sejam eles livres ou escravos politicamente. Contudo a Carta a Filêmon mostra que a nova liberdade, trazida pela graça de Cristo, deve necessariamente ter repercussão também no campo social.

14. Não se pode portanto restringir o campo do pecado, cujo primeiro efeito é o de introduzir a desordem na relação entre o homem e Deus, àquilo que se denomina « pecado social ». Na verdade, só uma adequada doutrina sobre o pecado permitirá insistir sobre a gravidade de seus efeitos sociais.

15. Não se pode tampouco situar o mal unicamente ou principalmente nas « estruturas » económicas, sociais ou políticas, como se todos os outros males derivassem destas estruturas como de sua causa: neste caso a criação de um « homem novo » dependeria da instauração de estruturas económicas e socio-políticas diferentes. Há, certamente, estruturas iníquas e geradoras de iniquidades, e é preciso ter a coragem de mudá-las. Fruto da ação do homem, as estruturas boas ou más são consequências antes de serem causas. A raiz do mal se encontra pois nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo, para viverem e agirem como criaturas novas, no amor ao próximo, na busca eficaz da justiça, do auto-domínio e do exercício das virtudes.[13]

Ao estabelecer como primeiro imperativo a revolução radical das relações sociais e ao criticar, a partir desta posição, a busca da perfeição pessoal, envereda-se pelo caminho da negação do sentido da pessoa e de sua transcendência, e destroem-se a ética e o seu fundamento, que é o caráter absoluto da distinção entre o bem e o mal. Ademais, sendo a caridade o princípio da autêntica perfeição, esta não pode ser concebida sem abertura aos outros e sem espírito de serviço.

V - A VOZ DO MAGISTÉRIO

1. Para responder ao desafio lançado à nossa época pela opressão e pela fome, o Magistério da Igreja, com a preocupação de despertar as consciências cristãs para o sentido da justiça, da responsabilidade social e da solidariedade para com os pobres e os oprimidos, relembram repetidamente a atualidade e a urgência da doutrina e dos imperativos contidos na Revelação.

2. Limitamo-nos a mencionar aqui apenas algumas destas intervenções: os pronunciamentos pontifícios mais recentes, Mater et Magistra e Pacem in terris, Populorum progressio e Evangelii nuntiandi. Mencionemos ainda a carta ao Cardeal Roy, Octogésima adveniens.

3. O Concílio Vaticano II, por sua vez, tratou as questões da justiça e da liberdade na Constituição pastoral Gaudium et spes.

4. O Santo Padre insistiu em diversas oportunidades neste tema, particularmente nas encíclicas Redemptor hominis, Dives in Misericórdia e Laborem exercens. As numerosas intervenções que relembram a doutrina dos direitos do homem tocam diretamente nos problemas da libertação da pessoa humana em face dos diversos tipos de opressão de que é vítima. É preciso citar, especialmente neste contexto, o discurso proferido diante da XXXVI Assembleia geral da ONU, em New-York, no dia 2 de outubro de 1979.[14] No dia 28 de janeiro do mesmo ano, João Paulo II, ao abrir a Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Puebla, havia recordado que a verdade completa sobre o homem é a base da verdadeira libertação.[15] Este texto constitui um documento de referência direta para a teologia da libertação.

5. Por duas vezes, em 1971 e 1974, o Sínodo dos Bispos tratou de temas que se referem diretamente à concepção cristã da libertação: o tema da justiça no mundo e o tema da relação entre a libertação das opressões e a libertação integral ou a salvação do homem. Os trabalhos dos Sínodos de 1971 e de 1974 levaram Paulo VI a esclarecer, na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, a relação que existe entre a evangelização e a libertação ou a promoção humana.[16]

6. A preocupação da Igreja pela libertação e pela promoção humana traduziu-se também no fato da constituição da Pontifícia Comissão Justiça e Paz.

7. Numerosos Episcopados, de acordo com a Santa Sé, têm lembrado também eles a urgência e os caminhos para uma autêntica libertação humana. Neste contexto convém fazer menção especial dos documentos das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de Medellin, em 1968, e de Puebla, em 1979. Paulo VI esteve presente na abertura de Medellin, João Paulo II na de Puebla. Ambos os Papas trataram do tema da conversão e da libertação.

8. Seguindo as pegadas de Paulo VI, insistindo na especificidade da mensagem do Evangelho,[17] especificidade que deriva da sua origem divina, João Paulo II, no discurso de Puebla, lembrou quais são os três pilares sobre os quais deve assentar una autêntica teologia da libertação: a verdade sobre Jesus Cristo, a verdade sobre a Igreja e a verdade sobre o homem.[18]

VI - UMA NOVA INTERPRETAÇÃO DO CRISTIANISMO

1. Não se pode esquecer a ingente soma de trabalho desinteressado realizado por cristãos, pastores, sacerdotes, religiosos e leigos que, impelidos pelo amor a seus irmãos que vivem em condições desumanas, se esforçam por prestar auxílio e proporcionar alívio aos inumeráveis males que são frutos da miséria. Entre eles, alguns se preocupam por encontrar os meios eficazes que permitam pôr fim, o mais depressa possível, a uma situação intolerável.

2. O zelo e a compaixão, que devem ocupar um lugar no coração de todos os pastores, correm por vezes o risco de se desorientar ou de serem desviados para iniciativas não menos prejudiciais ao homem e à sua dignidade do que a própria miséria que se combate, se não se prestar suficiente atenção a certas tentações.

3. O sentimento angustiante da urgência dos problemas não pode levar a perder de vista o essencial, nem fazer esquecer a resposta de Jesus ao Tentador (Mt 4, 4): « Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus » (Dt 8, 3). Assim, sucede que alguns, diante da urgência de repartir o pão, são tentados a colocar entre parênteses e a adiar para amanhã a evangelização: primeiro o pão, a Palavra mais tarde. É um erro fatal separar as duas coisas, até chegar a opô-las. O senso cristão, aliás, espontaneamente sugere a muitos que façam uma e outra.[19]

4. A alguns parece até que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido económico e político, constitua o essencial e a totalidade da salvação. Para estes, o Evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre.

5. É em relação à opção preferencial pelos pobres, reafirmada com vigor e sem meios termos, após Medellin, na Conferência de Puebla[20] de um lado, e à tentação de reduzir o Evangelho da salvação a um evangelho terrestre, de outro lado, que se situam as diversas teologias da libertação.

6. Lembremos que a opção preferencial, definida em Puebla, é dupla: pelos pobres e pelos jovens.[21] É significativo que a opção pela juventude seja, de maneira geral, totalmente silenciada.

7. Dissemos acima (cf. IV, 1) que existe uma autêntica « teologia da libertação », aquela que lança raízes na Palavra de Deus, devidamente interpretada.

8. Mas sob um ponto de vista descritivo, convém falar das teologias da libertação, pois a expressão abrange posições teológicas, ou até mesmo ideológicas, não apenas diferentes, mas até, muitas vezes, incompatíveis entre si.

9. No presente documento tratar-se-á somente das produções daquela corrente de pensamento que, sob o nome de « teologia da libertação », propõem uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé.

10. Conceitos tomados por empréstimo, de maneira a-crítica, à ideologia marxista e o recurso a teses de uma hermenêutica bíblica marcada pelo racionalismo encontram-se na raiz da nova interpretação, que vem corromper o que havia de autêntico no generoso empenho inicial em favor dos pobres.

VII - A ANÁLISE MARXISTA

1. A impaciência e o desejo de ser eficazes levaram alguns cristãos, perdida a confiança em qualquer outro método, a voltarem-se para aquilo que chamam de « análise marxista ».

2. Seu raciocínio é o seguinte: uma situação intolerável e explosiva exige uma ação eficaz que não pode mais ser adiada. Uma ação eficaz supõe uma análise científica das causas estruturais da miséria. Ora, o marxismo aperfeiçoou um instrumental para semelhante análise. Bastará pois aplicá-lo à situação do Terceiro Mundo e especialmente à situação da América Latina.

3. Que o conhecimento científico da situação e dos possíveis caminhos de transformação social seja o pressuposto de uma ação capaz de levar aos objetivos prefixados, é evidente. Vai nisto um sinal de seriedade no compromisso.

4. O termo « científico », porém, exerce uma fascinação quase mítica; nem tudo o que ostenta a etiqueta de científico o é necessariamente. Por isso tomar emprestado um método de abordagem da realidade é algo que deve ser precedido de um exame crítico de natureza epistemológica. Ora, este prévio exame crítico falta a várias « teologias da libertação ».

5. Nas ciências humanas e sociais, convém estar atento antes de tudo à pluralidade de métodos e de pontos de vista, cada um dos quais põe em evidência um só aspecto da realidade; esta em virtude de sua complexidade, escapa a uma explicação unitária e unívoca.

6. No caso do marxismo, tal como se pretende utilizar na conjuntura de que falamos, tanto mais se impõe a crítica prévia, quanto o pensamento de Marx constitui uma concepção totalizante do mundo, na qual numerosos dados de observação e de análise descritiva são integrados numa estrutura filosófico-ideológica, que determina a significação e a importância relativa que se lhes atribui. Os a priori ideológicos são pressupostos para a leitura da realidade social. Assim, a dissociação dos elementos heterogéneos que compõem este amálgama epistemologicamente híbrido torna-se impossível, de modo que, acreditando aceitar somente o que se apresenta como análise, se é forçado a aceitar, ao mesmo tempo, a ideologia. Por isso não é raro que sejam os aspectos ideológicos que predominem nos empréstimos que diversos « teólogos da libertação » pedem aos autores marxistas.

7. A advertência de Paulo VI continua ainda hoje plenamente atual: através do marxismo, tal como è vivido concretamente, podem-se distinguir diversos aspectos e diversas questões propostas à reflexão e à ação dos cristãos. Entretanto, « seria ilusório e perigoso chegar ao ponto de esquecer o vínculo estreito que os liga radicalmente, aceitar os elementos da análise marxista sem reconhecer suas relações com a ideologia, entrar na prática da luta de classes e de sua interpretação marxista sem tentar perceber o tipo de sociedade totalitária à qual este processo conduz ».[22]

8. É verdade que desde as origens, mais acentuadamente porém nestes últimos anos, o pensamento marxista se diversificou, dando origem a diversas correntes que divergem consideravelmente entre si. Na medida, porém, em que se mantêm verdadeiramente marxistas, estas correntes continuam a estar vinculadas a um certo número de teses fundamentais que não são compatíveis com a concepção cristã do homem e da sociedade. Neste contexto, certas fórmulas não são neutras, mas conservam a significação que receberam na doutrina marxista original. É o que acontece com a « luta de classes ». Esta expressão continua impregnada da interpretação que Marx lhe deu e não poderia, por conseguinte, ser considerada, como um equivalente, de caráter empírico, da expressão « conflito social agudo ». Aqueles que se servem de semelhantes fórmulas, pretendendo reter apenas certos elementos da análise marxista,, que de resto seria rejeitada na sua globalidade, alimentam pelo menos um grave mal-entendido no espírito de seus leitores.

9. Lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana,, de sua liberdade e de seus direitos, encontram-se no centro da concepção marxista. Esta contém de fato erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas. Ainda mais: querer integrar na teologia uma « análise » cujos critérios de interpretação dependam desta concepção ateia, significa embrenhar-se em desastrosas contradições. O desconhecimento da natureza espiritual da pessoa, aliás, leva a subordiná-la totalmente à coletividade e deste modo a negar os princípios de uma vida social e política em conformidade com a dignidade humana,

10. O exame crítico dos métodos de análise tomados de outras disciplinas impõe-se de maneira particular ao teólogo. É a luz da fé que fornece à teologia seus princípios. Por isso a utilização, por parte dos teólogos, de elementos filosóficos ou das ciências humanas tem um valor « instrumental » e deve ser objeto de um discernimento crítico de natureza teológica. Em outras palavras, o critério final e decisivo da verdade não pode ser, em última análise, senão um critério teológico. É à luz da fé, e daquilo que ela nos ensina sobre a verdade do homem e sobre o sentido último de seu destino, que se deve julgar da validade ou do grau de validade daquilo que as outras disciplinas propõem, de resto, muitas vezes à maneira de conjectura, como sendo verdades sobre o homem, sobre a sua história e sobre o seu destino.

11. Aplicados à realidade económica, social e política de hoje, certos esquemas de interpretação tomados de correntes do pensamento marxista podem apresentar, à primeira vista, alguma verosimilhança na medida em que a situação de alguns países oferece analogias com aquilo que Marx descreveu e interpretou, em meados do século passado. Tomando por base estas analogias, operam-se simplificações que, abstraindo de fatores essenciais específicos, impedem, de fato, uma análise verdadeiramente rigorosa das causas da miséria, mantêm as confusões.

12. Em certas regiões da América Latina, a monopolização de grande parte das riquezas por uma oligarquia de proprietários desprovidos de consciência social, a quase ausência ou as carências do estado de direito, as ditaduras militares que conculcam os direitos elementares do homem, o abuso do poder por parte de certos dirigentes, as manobras selvagens de um certo capital estrangeiro, constituem outros tantos fatores que alimentam um violento sentimento de revolta junto àqueles que, deste modo, se consideram vítimas impotentes de um novo colonialismo de cunho tecnológico, financeiro, monetário ou económico. A tomada de consciência das injustiças é acompanhada por un pathos que pede muitas vezes emprestado ao marxismo seu discurso, apresentado abusivamente como sendo um discurso « científico ».

13. A primeira condição para uma análise é a total docilidade à realidade que se pretende descrever. Por isso, uma consciência crítica deve acompanhar o uso das hipóteses de trabalho que se adotam. É necessário saber que elas correspondem a um ponto de vista particular, o que tem por consequência inevitável sublinhar unilateralmente certos aspectos do real, deixando outros na sombra. Esta limitação, que deriva da natureza das ciências sociais, é ignorada por aqueles que, à guisa de hipóteses reconhecidas como tais, recorrem a uma concepção totalizante, como é o pensamento de Marx.

VIII - SUBVERSÃO DO SENSO DA VERDADE E VIOLÊNCIA

1. Esta concepção totalizante impõe assim a sua lógica e leva as « teologias da libertação » a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. Com efeito, o núcleo ideológico, tomado do marxismo e, que serve de ponto de referência, exerce a função de princípio determinante. Este papel lhe é confiado em virtude da qualificação de científico, quer dizer, de necessariamente verdadeiro, que lhe é atribuída. Neste núcleo podem-se distinguir diversos componentes.

2. Na lógica do pensamento marxista, a « análise » não é dissociável da praxis e da concepção da história à qual esta praxis está ligada, A análise é pois um instrumento de crítica e a crítica não passa de uma etapa do combate revolucionário. Este combate é o da classe do Proletariado investido de sua missão histórica.

3. Em consequência, somente quem participa deste combate pode fazer uma análise correta.

4. A consciência verdadeira é pois uma consciência « partidarista ». Pelo que se vê, é a própria concepção da verdade que aqui está em causa e que se encontra totalmente subvertida: não existe verdade – afirma-se – a não ser na e pela praxis « partidarista ».

5. A praxis e a verdade que dela deriva, são praxis e verdade partidaristas, porque a estrutura fundamental da história está marcada pela luta de classes. Existe pois uma necessidade objetiva de entrar na luta de classes (que é o reverso dialético da relação de exploração que se denuncia). A verdade é a verdade de classe – não há verdade senão no combate da classe revolucionária.

6. A lei fundamental da história, que é a lei da luta de classes, implica que a sociedade esteja fundada sobre a violência. À violência que constitui a relação de dominação dos ricos sobre os pobres deverá responder a contra-violência revolucionária, mediante a qual esta relação será invertida.

7. A luta de classes é pois apresentada como uma lei objetiva e necessária. Ao entrar no seu processo, do lado dos oprimidos, « faz-se » a verdade, age-se « cientificamente ». Em consequência, a concepção da verdade vai de par com a afirmação da violência necessária e, por isso, com a do amoralismo político. Nesta perspectiva, a referência a exigências éticas, que prescrevam reformas estruturais e institucionais radicais e corajosas perde totalmente o sentido.

8. A lei fundamental da luta de classes tem um caráter de globalidade e de universalidade. Ela se reflete em todos os domínios da existência, religiosos, éticos, culturais e institucionais. Em relação a esta lei, nenhum destes domínios é autónomo. Em cada um esta lei constitui o elemento determinante.

9. Quando se assumem estas teses de origem marxista é, em particular, a própria natureza da ética qui é radicalmente questionada. De fato, o caráter transcendente da distinção entre o bem e o mal, princípio da moralidade, encontra-se implicitamente negado na ótica da luta de classes.

IX - TRADUÇÃO « TEOLÓGICA » DESTE NÚCLEO IDEOLÓGICO

1. As posições aqui expostas encontram-se às vezes enunciadas com todos os seus termos em alguns escritos de « teólogos da libertação ». Em outros, elas se deduzem logicamente das premissas colocadas. Em outros ainda, elas são pressupostas em certas práticas litúrgicas (como por exemplo a « Eucaristia » transformada em celebração do povo em luta), embora quem participa destas práticas não esteja plenamente consciente disso. Estamos pois diante de um verdadeiro sistema, mesmo quando alguns hesitam em seguir a sua lógica até o fim. Como tal, este sistema é uma perversão da mensagem cristã, como esta foi confiada por Deus à Igreja. Esta mensagem se encontra pois posta em xeque, na sua globalidade, pelas « teologias da libertação ».

2. Não é o fato das estratificações sociais, com as conexas desigualdades e injustiças, é a teoria da luta de classes como lei estrutural fundamental da história que é recebida por estas « teologias da libertação », na qualidade de princípio. A conclusão a que se chega é que a luta de classes, entendida deste modo, divide a própria Igreja e em função dela se devem julgar as realidades eclesiais. Pretende-se ainda que afirmar que o amor, na sua universalidade, é um meio capaz de vencer aquilo que constitui a lei estrutural primária da sociedade capitalista, seria manter, de má fé, uma ilusão falaz.

3. Dentro desta concepção, a luta de classes é o motor da história. A história torna-se assim uma noção central. Afirmar-se-á que Deus se fez história. Acrescentar-se-á que não existe senão uma única história, na qual já não é preciso distinguir entre história da salvação e história profana. Manter a distinção seria cair no « dualismo ». Semelhantes afirmações refletem um imanentismo historicista. Tende-se deste modo a identificar o Reino de Deus e o seu advento com o movimento de libertação humana e a fazer da mesma história o sujeito de seu próprio desenvolvimento como processo da auto-redenção do homem por meio de luta de classes. Esta identificação está em oposição com a fé da Igreja, como foi relembrada pelo Concílio Vaticano II.[23]

4. Nesta linha, alguns chegam até ao extremo de identificar o próprio Deus com a história e a definir a fé como « fidelidade à história », o que significa fidelidade comprometida com uma prática política, afinada com a concepção do devir da humanidade concebido no sentido de um messianismo puramente temporal.

5. Por conseguinte, a fé, a esperança e a caridade recebem um novo conteúdo: são « fidelidade à história », « confiança no futuro », « opção pelos pobres ». É o mesmo que dizer que são negadas em sua realidade teologal.

6. Desta nova concepção deriva inevitavelmente uma politização radical das afirmações da fé e dos juízos teológicos. Já não se trata somente de chamar a atenção para as consequências e incidências políticas das verdades de fé que seriam respeitadas antes de tudo em seu valor transcendente. Toda e qualquer afirmação de fé ou de teologia se vê subordinada a um critério político, que, por sua vez, depende da teoria da luta de classes, como motor da história.

7. Apresenta-se por conseguinte o ingresso na luta de classes como uma exigência da própria caridade; denuncia-se como atitude desmobilizadora e contrária ao amor pelos pobres a vontade de amar, de saída, todo homem, qualquer que seja a classe a que pertença, e de ir ao seu encontro pelas vias não-violentas do diálogo e da persuasão. Mesmo afirmando que ele não pode ser objeto de ódio, afirma-se com a mesma força que, pelo fato de pertencer objetivamente ao mundo dos ricos, ele é, antes de tudo, um inimigo de classe a combater. Como consequência, a universalidade do amor ao próximo e a fraternidade transformam-se num princípio escatológico que terá valor somente para o « homem novo », que surgirá da revolução vitoriosa.

8. Quanto à Igreja, a tendência é de encará-la simplemente como uma realidade dentro da história, sujeita ela também às leis que, segundo se pensa, governam o devir histórico na sua imanência. Esta redução esvazia a realidade específica da Igreja, dom da graça de Deus e mistério da fé. Contesta-se, igualmente, que a participação na mesma Mesa eucarística de cristãos que, por acaso, pertençam a classes opostas, tenha ainda algum sentido.

9. Na sua significação positiva, a Igreja dos pobres indica a preferência, sem exclusivismo, dada aos pobres, segundo todas as formas de miséria humana, porque eles são os prediletos de Deus. A expressão significa ainda que a Igreja, como comunhão e como instituição, assim como os membros da mesma Igreja, tomam consciência, em nosso tempo, das exigências da pobreza evangélica.

10. Mas as « teologias da libertação », que têm o mérito de haver revalorizado os grandes textos dos profetas e do Evangelho acerca da defesa dos pobres, passam a fazer um amálgama pernicioso entre o pobre da Escritura e o proletariado de Marx. Perverte-se deste modo o sentido cristão do pobre e o combate pelos direitos dos pobres transforma-se em combate de classes na perspectiva ideológica da luta de classes. A Igreja dos pobres significa então Igreja classista, que tomou consciência das necessidades da luta revolucionária como etapa para a libertação e que celebra esta libertação na sua liturgia.

11. É necessário fazer uma observação análoga a respeito da expressão Igreja do povo. Do ponto de vista pastoral, pode-se entender com essa expressão os destinatários prioritários da evangelização, aqueles para os quais, em virtude de sua condição, se volta primeiro que tudo o amor pastoral da Igreja. É possível referir-se também à Igreja como « povo de Deus », ou seja, como o povo da Nova Aliança realizada em Cristo.[24]

12. As « teologias da libertação », a que aqui nos referimos, porém, entendem por Igreja do povo a Igreja da luta libertadora organizada. O povo assim entendido chega mesmo a tornar-se, para alguns, objeto de fé.

13. A partir de semelhante concepção da Igreja do povo, elabora-se uma crítica das próprias estruturas da Igreja. Não se trata apenas de uma correção fraterna dirigida aos pastores da Igreja, cujo comportamento não reflita o espírito evangélico de serviço e se apegue a sinais anacrónicos de autoridade que escandalizam os pobres. Trata-se, sim, de pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor. São denunciados na Hierarquia e no Magistério os representantes objetivos da classe dominante, que é preciso combater. Teologicamente, esta posição equivale a afirmar que o povo é a fonte dos ministérios e portanto pode dotar-se de ministros à sua escolha, de acordo com as necessidades de sua missão revolucionária histórica.

X - UMA NOVA HERMENÊUTICA

1. A concepção partidarista da verdade, que se manifesta na praxis revolucionária de classe, corrobora esta posição. Os teólogos que não compartilham as teses da « teologia da libertação », a hierarquia e sobretudo o Magistério romano são assim desacreditados a priori, como pertencentes à classe dos opressores. A teologia deles é uma teologia de classe. Os argumentos e ensinamentos não merecem pois ser examinados em si mesmos, uma vez que refletem simplesmente os interesses de uma classe. Por isso, decreta-se que o discurso deles é, em princípio, falso.

2. Aparece aqui o carácter global e totalizante da « teologia da libertação ». Por isso mesmo, deve ser criticada não nesta ou naquela afirmação que ela faz, mas a partir do ponto de vista de classes que ela adopta a priori e que nela funciona como princípio hermenêutico determinante.

3. Por causa deste pressuposto classista, torna-se extremamente difícil, para não dizer impossível, conseguir com alguns « teólogos da libertação » um verdadeiro diálogo, no qual o interlocutor seja ouvido e seus argumentos sejam discutidos objetivamente e com atenção. Com efeito estes teólogos mais ou menos conscientemente, partem do pressuposto de que o ponto de vista da classe oprimida e revolucionária, que seria o mesmo deles constitui o único ponto de vista da verdade. Os critérios teológicos da verdade, vêem-se, deste modo, relativizados e subordinados aos imperativos da luta de classes. Nesta perspectiva substitui-se a ortodoxia como regra correta da fé pela ideia da ortopráxis, como critério de verdade. A este respeito, é preciso não confundir a orientação prática, própria à teologia tradicional, do mesmo modo e pelo mesmo título que lhe é própria também a orientação especulativa, com um primado privilegiado, conferido a um determinado tipo de praxis. Na realidade esta última é a praxis revolucionária que se tornaria assim critério supremo da verdade teológica. Uma metodologia teológica sadia toma em consideração, sem dúvida, a praxis da Igreja e nela encontra um de seus fundamentos, mas isto porque essa praxis é decorrência da fé e constitui uma expressão vivenciada dessa fé.

4. A doutrina social da Igreja é rejeitada com desdém. Esta procede, afirma-se, da ilusão de um possível compromisso, próprio das classes médias, destituídas de sentido histórico.

5. A nova hermenêutica inserida nas « teologias da libertação » conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura. É assim que se atribui a máxima importância ao acontecimento do Êxodo, enquanto libertação da escravidão política. Propõe-se igualmente una leitura política do Magnificat. O erro aqui não está em privilegiar uma dimensão política das narrações bíblicas; mas em fazer desta dimensão a dimensão principal e exclusiva, o que leva a uma leitura redutiva da Escritura.

6. Quem assim procede, coloca-se por isso mesmo na perspectiva de um messianismo temporal, que é uma das expressões mais radicais da secularização do Reino de Deus e de sua absorção na imanência da história humana.

7. Privilegiar deste modo a dimensão política, é o mesmo que ser levado a negar a radical novidade do Novo Testamento e, antes de tudo, a desconhecer a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, bem como o caráter específico da libertação que Ele nos traz e que é fundamentalmente libertação do pecado, fonte de todos os males.

8. Aliás, pôr de lado a interpretação autorizada do Magistério, denunciada como interpretação de classe, é afastar-se automaticamente da Tradição. É, par isso mesmo, privar-se de um critério teológico essencial para a interpretação e acolher no vazio assim criado, as teses mais radicais da exegese racionalista. Retoma-se, então, sem espírito crítico, a oposição entre o « Jesus da história » e o « Jesus da fé ».

9. Conserva-se, sem dúvida, a letra das fórmulas da fé, especialmente a de Calcedônia, mas atribui-se a essas fórmulas uma nova significação, que constitui uma negação da fé da Igreja. De um lado, rejeita-se a doutrina cristológica apresentada pela Tradição, em nome do critério de classe; e de outro lado, pretende-se chegar ao « Jesus da história » a partir da experiência revolucionária da luta dos pobres pela sua libertação.

10. Pretende-se reviver uma experiência análoga à que teria sido a de Jesus. A experiência dos pobres lutando por sua libertação, que teria sido a de Jesus, e só ela, revelaria assim o conhecimento do verdadeiro Deus e do Reino.

11. É claro que a fé no Verbo encarnado, morto e ressuscitado por todos os homens, a Quem « Deus fez Senhor e Cristo »[25] é negada. Toma o seu lugar uma « figura » de Jesus, uma espécie de símbolo que resume em si mesmo as exigências da luta dos oprimidos.

12. Propõe-se assim uma interpretação exclusivamente política da morte de Cristo. Nega-se desta maneira seu valor salvífico e toda a economia da redenção.

13. A nova interpretação atinge assim todo o conjunto do mistério cristão.

14. De um modo geral, ela opera o que se poderia chamar de inversão dos símbolos. Assim, em lugar de ver no Êxodo com São Paulo, uma figura do batismo,[26] se tenderá ao extremo de fazer deste um símbolo da libertação política do povo.

15. Pelo mesmo critério hermenêutico, aplicado à vida eclesial e à constituição hierárquica da Igreja, as relações entre a hierarquia e a « base » tornam-se relações de dominação que obedecem à lei da luta de classes. A sacramentalidade, que está na raiz dos ministérios eclesiásticos e que faz da Igreja uma realidade espiritual que não se pode reduzir a uma análise puramente sociológica, é simplesmente ignorada.

16. Verifica-se ainda a inversão dos símbolos no domínio dos sacramentos. A Eucaristia não é mais entendida na sua verdade de presença sacramental do sacrifício reconciliador e como dom do Corpo e do Sangue de Cristo. Torna-se celebração do povo na sua luta. Por conseguinte, a unidade da Igreja é radicalmente negada. A unidade, a reconciliação, a comunhão no amor não mais são concebidas como um dom que recebemos de Cristo.[27] É a classe histórica dos pobres que, mediante o combate, construirá a unidade. A luta de classes é o caminho desta unidade. A Eucaristia torna-se, deste modo, Eucaristia de classe. Nega-se também, ao mesmo tempo a força triunfante do amor de Deus que nos é dado.

XI - ORIENTAÇÕES

1. Chamar a atenção para os graves desvios que algumas « teologias da libertação » trazem consigo não deve, de modo algum, ser interpretado como uma aprovação, ainda que indireta, aos que contribuem para a manutenção da miséria dos povos, aos que dela se aproveitam, aos que se acomodam ou aos que ficam indiferentes perante esta miséria. A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça[28] e deseja responder com todas as suas forças.

2. Um imenso apelo é assim dirigido à Igreja. Com audácia e coragem, com clarividência e prudência, com zelo e força de ânimo, com um amor aos pobres que vai até ao sacrifício, os pastores, como muitos já fazem, hão-de considerar como tarefa prioritária responder a este apelo.

3. Todos aqueles, sacerdotes, religiosos e leigos que, auscultando o clamor pela justiça, quiserem trabalhar na evangelização e na promoção humana, fá-lo-ão em comunhão com seu bispo e com a Igreja, cada um na linha de sua vocação eclesial específica.

4. Conscientes do carácter eclesial de sua vocação, os teólogos colaborarão lealmente e em espírito de diálogo com o Magistério da Igreja. Saberão reconhecer no Magistério um dom de Cristo à sua Igreja[29] e acolherão a sua palavra e as suas orientações com respeito filial.

5. Somente a partir da tarefa evangelizadora, tomada em sua integralidade, se compreendem as exigências de uma promoção humana e de uma libertação autênticas. Esta libertação tem como pilares indispensáveis, a verdade sobre Jesus Cristo, o Salvador, a verdade sobre a Igreja, a verdade sobre o homem e sobre a sua dignidade.[30] É à luz das bem-aventuranças, da bem-aventurança dos pobres de coração em primeiro lugar, que a Igreja, desejosa de ser no mundo inteiro a Igreja dos pobres, quer servir a nobre causa da verdade e da justiça. Ela se dirige a cada homem e, por isso mesmo, a todos os homens. Ela é a « Igreja universal. A Igreja do mistério da encarnação. Não é a Igreja de uma classe ou de uma só casta. Ela fala em nome da própria verdade. Esta verdade é realista ». Ela leva a ter em conta « cada realidade humana, cada injustiça, cada tensão, cada luta ».[31]

6. Uma defesa eficaz da justiça deve apoiar-se na verdade do homem, criado à imagem de Deus e chamado à graça da filiação divina. O reconhecimento da verdadeira relação do homem com Deus constitui o fundamento da justiça, enquanto regula as relações entre os homens. Esta é a razão pela qual o combate pelos direitos do homem, que a Igreja não cessa de promover, constitui o autêntico combate pela justiça.

7. A verdade do homem exige que este combate seja conduzido por meios que estejam de acordo com a dignidade humana. Por isso o recurso sistemático e deliberado à violência cega, venha essa de um lado ou de outro, deve ser condenado.[32] Pôr a confiança em meios violentos na esperança de instaurar uma maior justiça é ser vítima de uma ilusão fatal. Violência gera violência e degrada o homem. Rebaixa a dignidade do homem na pessoa das vítimas e avilta esta mesma dignidade naqueles que a praticam.

8. A urgência de reformas radicais que incidam sobre estruturas que segregam a miséria e constituem, por si mesma, formas de violência, não pode fazer perder de vista que a fonte da injustiça se encontra no coração dos homens. Não se obterão pois mudanças sociais que estejam realmente ao serviço do homem senão fazendo apelo às capacidades éticas da pessoa e à constante necessidade de conversão interior.[33] Pois na medida em que colaborarem livremente, por sua própria iniciativa e em solidariedade, nestas necessárias mudanças, os homens, despertados no sentido de sua responsabilidade, crescerão em humanidade. A inversão entre moralidade e estruturas é própria de uma antropologia materialista, incompatível com a verdade do homem.

9. É pois igualmente ilusão fatal crer que novas estruturas darão origem por si mesmas a um « homem novo », no sentido da verdade do homem. O cristão não pode desconhecer que o Espírito Santo que nos foi dado é a fonte de toda verdadeira novidade e que Deus é o senhor da história.

10. A derrubada, por meio da violência revolucionária, de estruturas geradoras de injustiças não é pois ipso facto o começo da instauração de um regime justo. Um fato marcante de nossa época deve ocupar a reflexão de todos aqueles que desejam sinceramente a verdadeira libertação dos seus irmãos. Milhões de nossos contemporâneos aspiram legitimamente a reencontrar as liberdades fundamentais de que estão privados por regimes totalitários e ateus, que tomaram o poder por caminhos revolucionários e violentos, exatamente em nome da libertação do povo. Não se pode desconhecer esta vergonha de nosso tempo: pretendendo proporcionar-lhes liberdade, mantêm-se nações inteiras em condições de escravidão indignas do homem. Aqueles que, talvez por inconsciência, se tornam cúmplices de semelhantes escravidões, traem os pobres que eles quereriam servir.

11. A luta de classes como caminho para uma sociedade sem classes é um mito que impede as reformas e agrava a miséria e as injustiças. Aqueles que se deixam fascinar por este mito deveriam refletir sobre as experiências históricas amargas às quais ele conduziu. Compreenderiam então que não se trata, de modo algum, de abandonar uma via eficaz de luta em prol dos pobres em troca de um ideal desprovido de efeito. Trata-se, pelo contrário, de libertar-se de uma miragem para se apoiar no Evangelho e na sua força de realização.

12. Uma das condições para uma necessária retificação teológica é a revalorização do magistério social da Igreja. Este magistério não é, de modo algum, fechado. É, ao contrário, aberto a todas as novas questões que não deixam de surgir no decorrer dos tempos. Nesta perspectiva, a contribuição dos teólogos e dos pensadores de todas as regiões do mundo para a reflexão da Igreja é hoje indispensável.

13. Do mesmo modo, a experiência daqueles que trabalham diretamente na evangelização e na promoção dos pobres e dos oprimidos é necessária à reflexão doutrinal e pastoral da Igreja. Neste sentido é preciso tomar consciência de certos aspectos da verdade a partir da praxis, se por praxis se entende a prática pastoral e uma prática social que conserva sua inspiração evangélica.

14. O ensino da Igreja em matéria social proporciona as grandes orientações éticas. Mas para que possa atingir diretamente a ação, ele precisa de pessoas competentes, do ponto de vista científico e técnico, bem como no domínio das ciências humanas e da política. Os pastores estarão atentos à formação destas pessoas competentes, profundamente impregnadas pelo Evangelho. São aqui visados, em primeiro lugar, os leigos, cuja missão específica é a de construir a sociedade.

15. As teses das « teologias da libertação » estão sendo largamente difundidas, sob uma forma ainda simplificada, nos cursos de formação ou nas comunidades de base, que carecem de preparação catequética e teológica e de capacidade de discernimento. São assim aceitas, por homens e mulheres generosos, sem que seja possível um juízo crítico.

16. É por isso que os pastores devem vigiar sobre a qualidade e o conteúdo da catequese e da formação que devem sempre apresentar a integralidade da mensagem da salvação e os imperativos da verdadeira libertação humana, no quadro desta mensagem integral.

17. Nesta apresentação integral do mistério cristão, será oportuno acentuar os aspectos essenciais que as « teologias da libertação » tendem especialmente a desconhecer ou eliminar: transcendência e gratuidade da libertação em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; soberania de sua graça; verdadeira natureza dos meios de salvação, e especialmente da Igreja e dos sacramentos. Tenham-se presentes a verdadeira significação da ética, para a qual a distinção entre o bem e o mal não pode ser relativizada; o sentido autêntico do pecado; a necessidade da conversão e a universalidade da lei do amor fraterno. Chame-se a atenção contra uma politização da existência, que, desconhecendo ao mesmo tempo a especificidade do Reino de Deus e a transcendência da pessoa, acaba sacralizando a política e abusando da religiosidade do povo em proveito de iniciativas revolucionárias.

18. É frequente dirigir aos defensores da « ortodoxia » a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações. A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza, são exigidos a todos, especialmente aos pastores e aos responsáveis. A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação de dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido, através de uma vida teologal integral. Pelo testemunho de sua capacidade de amar, dinâmica e construtiva, os cristãos lançarão, sem dúvida, as bases desta « civilização do amor » de que falou, depois de Paulo VI, a Conferência de Puebla.[34] De resto, são numerosos os sacerdotes, religiosos ou leigos, que se consagram de um modo verdadeiramente evangélico à criação de uma sociedade justa.

CONCLUSÃO

As palavras de Paulo VI, na Profissão de fé do povo de Deus, exprimem, com meridiana clareza, a fé da Igreja, da qual ninguém pode afastar-se sem provocar, juntamente com a ruína espiritual, novas misérias e novas escravidões.

« Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar a seus filhos que eles não têm aqui na terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, suas alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços, nada mais é do que seu grande desejo de lhes estar presente para os iluminar com a luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador. Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno ».[35]

O Sumo Pontífice João Paulo 11, no decorrer de uma Audiência concedida ao Cardeal Prefeito que subscreve este documento, aprovou a presente Instrução, deliberada em reunião ordinária da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, e ordenou que a mesma fosse publicada.

Roma, Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de Agosto de 1984, na Festa da Transfiguração do Senhor.

Joseph Card. Ratzinger
Prefeito

SB Alberto Bovone
Arcebispo tit. de Cesárea de Numidia
Secretário


Notas

[1] Cf. Gaudium et spes, n. 4.

[2] Cf. Dei Verbum, n. 10.

[3] Cf. Gál 5, 1 ss.

[4] Cf. Êx 24.

[5] Cf. Jer 31, 31-34; Ez 36, 26 ss.

[6] Cf. Sof 3, 12 ss.

[7] Cf. Deut 10, 18-19.

[8] Cf. Lc 10, 25-27.

[9] Cf. 2 Cor 8, 9.

[10] Cf. Mt 25, 31-46; At 9, 4-5; Col 1, 24.

[11] Cf. Tg 5, 1 ss.

[12] Cf. 1 Cor 11, 17-34.

[13] Cf. Tg 2, 14-26.

[14] Cf. AAS 71, 1979, pp. 1144-1160.

[15] Cf. AAS 71, 1979, p. 196.

[16] Cf. Evangelii nuntiandi, nn. 25-33: AAS 68, 1976, pp. 23-28.

[17] Cf. Evangelii nuntiandi, n. 32: AAS 68, 1976, p. 27.

[18] Cf. AAS 71, 1979, pp. 188-196.

[19] Cf. Gaudium et spes, n. 39; Pio XI, Quadragesimo anno: AAS 23, 1931, p. 207.

[20] Cf. nn. 1134-1165 e nn. 1166-1205.

[21] Cf. Doc. de Puebla, IV, 2.

[22] Paulo PP. VI, Octogesima adveniens, n. 34: AAS 63, 1971, pp. 424-425.

[23] Cf. Lumen gentium, nn. 9-17.

[24] Cf. Gaudium et spes, n. 39.

[25] Cf. At 2, 36.

[26] Cf. 1 Cor 10, 1-2.

[27] Cf. Ef 2, 11-12.

[28] Cf. Doc. de Puebla, I, 2, n. 3. 3.

[29] Cf. Lc 10, 16.

[30] Cf. João Paulo PP. II, Discurso na abertura da Conferência de Puebla: AAS 71, 1979, pp. 188-186.

[31] Cf. João Paulo PP. II, Discurso na Favela « Vidigal», no Rio de Janeiro, 2 de Julho de 1980: AAS 72, 1980, pp. 852-858.

[32] Cf. Doc. de Puebla, II, 2, n. 5. 4.

[33] Cf. Doc. de Puebla, IV, 3, n. 3. 3.

[34] Cf. Doc. de Puebla, IV, 2, n. 2. 4.

[35] Paulo PP. VI, Profissão de Fé do Povo de Deus, 30 de Junho de 1968: AAS 60, 1968, pp. 443-444.