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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Viver Bem - Sumak Kawsay – Reino de Deus

Na última reflexão apontei para três tarefas missionárias: somar forças (unidade interna e externa do cristianismo), puxar o freio de emergência do projeto desgovernado em curso (análise crítica do projeto de aceleração e acumulação sem futuro) e construir um novo projeto civilizatório cujos eixos são “redistribuição” dos bens e “reconhecimento" do outro, um projeto que contemple a todos em sua dignidade fundamental:
- a dignidade dos pobres;
- a dignidade dos outros (culturas, religiões, sexualidade, pluralismo)
- a dignidade da terra (território, nação, agronegócio, questão energética)
- a dignidade do povo de Deus na Igreja (participação dos leigos, ser adulto, transparência)
- dignidade da vida (bioética, paradigma planetário).

Hoje, este projeto radicalmente novo, não é respaldado na academia nem nos programas partidários/sindicais ou nas agências de cooperação solidária.

No atual projeto, na aceleração da produção e na acumulação do capital, não se trata apenas de uma manipulação de objetos mortos. Capital e produção representam relações sociais mediadas por exploração, alienação e reificação. A relação utilitarista “custo-benefício” não é uma mera relação comercial com sua lógica própria. Nela está embutida uma relação social.

Nestes contextos, nos quais as relações sociais são coisificadas, nós missionários(as) que anunciamos uma Boa Nova, e somos zeladores da dignidade humana, nós somos interpelados para impedir a degradação do ser humano em objeto. A comunicação da Boa Nova é peneirada nesses processos concretos da vida e do trabalho que representam um desafio para a nossa criatividade missionária. É o desafio cotidiano da construção do mundo novo que é um projeto de vida para todos.

Nós não podemos antecipar a construção desse mundo novo descritivamente, mas podemos vivê-la, realisticamente palpável, em alguns momentos de graça na vida cotidiana, e, simbolicamente, por antecipação. Como transformar a Boa Nova do Reino em proposta e projeto alternativo?

No discurso público, o projeto de vida plena real para todos, desapareceu completamente. Vivemos não só num mundo pós-moderno, mas também num mundo pós-utópico. Exatamente neste momento pós-utópico emergiu em países latino-americanos muito pequenos e economicamente frágeis, a proposta de um projeto sócio-político alternativo.

Enquanto Brasil está competindo com os países com economias fortes, nas discussões constitucionais da Bolívia e do Equador irrompeu uma proposta que procura superar as políticas alinhadas com os projetos de hegemonia competitiva. Essa proposta, de origem kechwa, se articula em torno de um novo paradigma do “viver bem”, em kechwa, “sumak kawsay”.

O “sumak kawsay” é uma utopia política não muito distante da nossa utopia do Reino. Ambos são precedidos ou representam um pachakuti, uma reviravolta em dimensões cósmicas. O pachakuti restabelece o equilíbrio perdido e abre o caminho para “viver em plenitude”.

Na “Conferencia de los Pueblos sobre El Cambio Climático y los Derechos de La Madre Tierra”, num “Acordo dos Povos” do dia 22 de abril em Cochabamba, o “sumak kawsay” foi novamente consagrado como paradigma planetário.

1. A proposta do “viver bem” equatoriano
Em oposição à lógica do capitalismo neoliberal que propõe “viver melhor” com mais mercadorias que ameaçam o equilíbrio ecológico e social, o conceito do “sumak kawsay” propõe repartir os bens para que todos possam “viver bem”. A vida humana de todos em harmonia com a natureza é o eixos central dessa proposta.

O Plano Nacional Para El Buen Vivir (2009-2013) do Equador me parece o resumo melhor deste paradigma do “viver bem”. O significado profundo desse Plano está na ruptura conceitual do Consenso de Washington (1989, era neoliberal) e dos conceitos ortodoxos do desenvolvimento de hoje (crescimento, rapidez, exportação). O paradigma do “viver bem” representa a busca, em longo prazo, de um novo pacto social, que é construído continuamente.

1.1. Cinco rupturas
a) A ruptura constitucional e democrática, para sentar as bases de uma comunidade política inclusiva e reflexiva, que aposta à capacidade do país para definir outro rumo como sociedade justa, diversa, plurinacional, intercultural e soberana. Para o projeto do “viver bem” é indispensável a construção de uma cidadania radical, que estabelece as condições materiais de um projeto nacional inspirado na igualdade em diversidade.

b) A ruptura ética para garantir a transparência, a prestação de conta e o controle social que favorecem o reconhecimento mutuo entre as pessoas e a confiança coletiva.

c) A ruptura econômica, produtiva e agrária para superar o modelo de exclusão herdado e para orientar os recursos do Estado para a educação, saúde, investigação científica, tecnologia, para o trabalho e a reativação produtiva, em harmonia e complementaridade entre zonas rurais e urbanas. Essa ruptura deve concretizar-se através da democratização do acesso à água e terra, ao crédito e conhecimento.

d) Ruptura social para que, através de uma política social articulada a uma política econômica inclusiva e mobilizadora, o Estado garante os direitos fundamentais.

e) Ruptura pela construção de dignidade, soberania e integração latino-americana.

1.2. Identidade ética do “buen vivir”
A definição do Buen Vivir implica reconhecer que se trate de um conceito complexo, vivo, não linear, porém historicamente construído e que está em constante resignificação. Por Buen Vivir os autores entendem “a satisfação das necessidades, o alcance de uma qualidade de vida e morte dignas, a convivência social e ecológica em harmonia. O Buen Vivir pressupõe ter tempo livre para contemplação e emancipação, e que as liberdades, oportunidades e capacidades reais dos indivíduos sejam ampliados.
As rupturas conceituais têm orientações éticas e princípios que se expressam em cinco dimensões:
- justiça social e econômica
- justiça democrática participativa,
- justiça intergeneracional e interpersonal,
- justiça transnacional.
- justiça como imparcialidade

1.3. Desafios do projeto de mudanças
a) Construir uma sociedade que busque e reconheça a unidade na diversidade;
b) Promover a igualdade, a integração e coesão social como agenda de convivência;
c) Garantir progressivamente os direitos universais e a proteção das capacidades humanas;
d) Construir relações sociais e econômicas em harmonia com a natureza;
e) Edificar uma convivência solidária, fraterna e cooperativa;
f) Consolidar relações de trabalho e lazer libertadoras;
g) Reconstruir a esfera pública;
h) Aprofundar a construção de uma democracia representativa, participativa e deliberativa;
i) Consolidar um Estado democrático, pluralista e laico.

1.4. Medidas práticas
Precisamos um novo modo de geração de riquezas e redistribuição numa sociedade pós-petrólifero.
a) Democratização dos meios de produção, redistribuição das riquezas e diversificação da propriedade;
b) Aumento de produtividade real e diversificação das exportações;
c) Inserção estratégica e soberana no mundo e na América-Latina;
d) Conectividade e telecomunicações para construir a sociedade da informação;
e) Mudança da matriz energética;
f) Bien Vivir no marco de uma macroeconomia sustentável;
g) Sustentabilidade, conservação, conhecimento do patrimônio natural;
h) Desenvolvimento e ordenamento territorial, desconcentração e decentralização;
i) Poder cidadão e protagonismo social;
Dessas medidas práticas emergem 12 Objetivos Nacionais

2. O Bien Vivir boliviano
O “buen vivir” é um conceito de vida longe dos parâmetros do crescimento econômico, longe do individualismo, da relação custo-benefício, da relação utilitarista entre os seres humanos e natureza, longe da mercantilização de todas as esferas da vida e da violência culturalmente não mais controlada. O “buen vivir” expressa uma relação diferente entre os seres humanos.
O “sumak kawsay” propõe a incorporação da natureza na história, não como fator produtivo nem como força produtiva, mas como parte inerente ao ser social. Os seres humanos fazem parte da natureza. O “buen vivir” supera as dicotomias cartesianas, entrelaça o tempo linear com o tempo circular, o mito com a história e a objetividade da produção com a subjetividade da “mãe terra”.
“Buen vivir”, que é possível quando o ser humano vive em comunidade com a natureza, representa uma re-união “fraternal” entre a esfera da política e a esfera da economia. No “buen vivir” o valor de uso da mercadoria está acima do valor de troca (fraudado pela mais-valia expropriada). O ser individualizado da modernidade tem que reconhecer a existência ontológica de outros seres que têm direito a existir e viver com sua alteridade.
Podemos lembrar alguns princípios, que o ministro das Relações Exteriores e especialista em cosmovisão andina, David Choquehuanca, em entrevista recente elencou como essência do “viver bem”:

2.1. Priorizar a vida e os direitos cósmicos
Viver Bem significa buscar a vivência em comunidade, onde todos os integrantes se preocupam com todos. O mais importante não é o ser humano (como afirma o socialismo) nem o dinheiro (como postula o capitalismo), mas a vida com mais simplicidade possível. Viver bem signnifica dar prioridade aos direitos cósmicos antes que aos Direitos Humanos. É mais importante falar sobre os direitos da Mãe Terra do que falar sobre os direitos humanos.

2.2. Nas discussões se constrói o consenso
Viver Bem significa buscar o consenso entre todos. Na hora de conflitos se procura chegar a um ponto de neutralidade em que todos coincidam. Procura-se aprofundar a democracia para que não haja submissão. Submeter a minoria à maioria não é “viver bem”.

2.3. Respeitar as diferenças
Para viver em harmonia é necessário respeitar a diferença. O respeito se estende a todos os seres que habitam o planeta (animais, plantas). O respeito vai além da tolerância. Aceitar a diferença significa também aceitar a semelhança.

2.4. Buscar ver na diferença a complementaridade
Nas comunidades, a criança se complementa com o avô, o homem com a mulher, a terra com a água, a humanidade com os vegetais.

2.5. Equilíbrio (não-exclusão)
Viver bem significa levar uma vida equilibrada com todos os seres dentro de uma comunidade e com a natureza. Vivemos atualmente num projeto que exclui. Democracia, justiça, meios de comunicação, terra, natureza – em tudo se mostram mecanismos de exclusão

2.6. Valorizar a identidade
Viver bem significa valorizar e recuperar a identidade. Esta identidade tem como base valores que resistiram mais de 500 anos e que foram transmitidos pelas famílias e nas comunidades que viveram em harmonia com a natureza e o cosmos.

2.7. Saber comer, beber, dançar, trabalhar
Em tudo prevalece o equilíbrio e os aprendizados ancestrais. O trabalho é algo comunitário e festivo e não produção de mais-valia.

2.8. Reincorporar a agricultura
Viver Bem significa reincorporar a agricultura às comunidades, recuperar as formas de vivência em comunidade, como o trabalho na terra, cultivando produtos para cobrir as necessidades básicas para a subsistência. Se aguarda a devolução das terras às comunidades, de maneira que se produzam as economias locais.

2.9. Proteger as sementes
Viver bem exige proteger e guardar as sementes. No novo modelo social vamos preservar a riqueza agrícola ancestral com a criação de bancos de sementes que evitem a utilização de transgênicos.

2.10. Saber se comunicar
Viver bem é saber se comunicar. Rezar significa comunicar (cacique Babau). O diálogo é o resultado desta boa comunicação ancestral nas comunidades (oralidade!).

2.11. Soberania
Viver bem significa construir, a partir das comunidades, o exercício da soberania no país. Deve-se construir a unidade e a responsabilidade a favor do bem comum, em harmonia com os indivíduos, a natureza e o cosmos. Soberania significa soberania de terra e água.

2.12. Escutar os anciãos
Viver bem significa ler as rugas dos avós para poder continuar o caminho. “Nossos avôs são bibliotecas ambulantes”.

O discurso do “buen vivir” já encontramos na “Nueva corónica y buen gobierno” de Felipe Guaman Poma de Ayala (1535-1616?). Colonização e civilização não o venceram. O sumak kawsay (“buen vivir”) emerge novamente como tarefa, imperativo e salva-vida; faz parte daquela sabedoria divina que a humanidade recebeu por muitos caminhos. Ela age, como a sabedoria do Reino, como cunha nas rachaduras da sociedade alienada.

3. Do buen vivir ao viver como cidadãos do Reino
O sumak kawsay é a prova de que resistência sapiencial é possível. Temos também notícia de resistências extraordinárias de outros povos. No Brasil, nos últimos 30 anos surgiram mais de 50 povos indígenas que estavam desaparecidos da memória nacional e do mapa etnográfico do país. Por um momento, a sabedoria deles venceu a avalanche de integração e de todos os aliciamentos disfarçados de sabedoria e bem-estar da sociedade dominante.

Os cristãos fazem a leitura do “buen vivir” como uma expressão da sabedoria do Reino, como desapego em benefício de todos. Em nossa sociedade, a sabedoria como núcleo de uma nova civilização exige despojamento como exercício cotidiano que envolve todas as dimensões da vida. Despojamento pode significar desapegar-se de privilégios e soltar ao vento desejos, saberes e objetos que criam dependências. O desapego é central para a construção de uma vida inteira, livre, integral. O desapego como ascese, como exercício de se livrar do desnecessário para que todos possam usufruir o necessário, ultrapassa a esfera do privado e do individual.

O desapego como exercício ascético tem uma função social que desestabiliza o sistema.

O mundo de hoje destaca o empreendedor, que mostra que é possível escapar do desemprego, do ócio improdutivo e do fatalismo daqueles que vivem na miséria. A estes faltaria o espírito empreendedor. Nesse mundo, parece estranho situar o desprendimento no centro da vida ativa, vivida como vida inteira. O desprendimento como sabedoria é um pressuposto da justiça distributiva e da pedagogia, economia e mística que o grande pedagogo Comenius (Jan Amos Komensky) resumiu em poucas palavras: tudo para todos integralmente: os saberes, os bens materiais e os dons espirituais. A vida de cada dia se dá a quem se deu.

Desprender-se de algo não significa, simplesmente, abrir mão de algo; significa deixar algo ser, deixar algo livremente existir – algo que estava ameaçado pelos apegos a desejos e objetos. O desprendimento não é privação, mas libertação e purificação. Dessa purificação, caracterizada pela recusa a práticas possessivas de acumulação, emergem energias novas. Como livramos animais e árvores de parasitas, que lhes roubam a energia vital, assim nós também temos necessidade de nos livrarmos de apegos parasitários que nos roubam a energia. Sem liberdade e energia, a vida começa a murchar. O apego cerceia a liberdade e o fluxo energético da vida. O desprendimento em sua forma individual pode ser compreendido como conversão e ascese, em sua forma comunitária ou sociopolítica, como ruptura e solidariedade.

A cada momento, o desprendimento recoloca Deus, o pobre Deus do pão e da cruz, no centro da humanidade. Essa centralidade de Deus orienta os cristãos para a igualdade e a liberdade dos seres humanos. Todos são igualmente criaturas de Deus. Nessa perspectiva de uma igualdade radical não há lugar para apropriações privadas dos bens da terra. Em consequência disso, os místicos se encontram sempre na contra-mão dos sistemas e na mira dos administradores das instituições e das palavras. A existência dos místicos, dos verdadeiros sábios, denuncia as acomodações administrativas das instituições religiosas e a marginalização dos pobres através de práticas políticas e sociais rotineiras de exclusão.

Desprendimento é ruptura. Isso quer dizer retomar a vida das mãos daqueles que nos educaram para morrer. Nós precisamos a cada dia nos reeducar para viver e romper com a lógica alienante do senso comum que, muitas vezes, é a perversão do bom senso e da possibilidade do “buen vivir”. Ruptura significa intervenção em situações que impedem parte significativa da humanidade de viver a sua vida com dignidade. O desprendimento como descontentamento profético emerge da consciência de que “remendos novos em roupas velhas” não mudarão o curso da História.

Paulo Suess

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Tribo dos lançadores da Agenda Latino Americana



Companheiros e companheiras da causa da Agenda Latino Americana se reuniram hoje, 13/02, na Escola Dominicana de Teologia em São Paulo com Frei José Fernandes e Frei João Xerri.


Participaram pessoas de São Paulo, Jacareí, São Roque, Uberaba, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Goiania, Porto Nacional.


Um momento muito forte, de partilha, de inteirar-se dos diversos lançamentos que acontecem Brasil afora, dos retrocessos, dificuldades e avanços de cada realidade.


Foram apresentadas carta de Dom Pedro Casaldaliga e Pe. José Maria Vigil, para este momento.




sábado, 12 de fevereiro de 2011

13º Intereclesial das CEBs sera em 2014





A comissão organizadora do 13º intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) decidiu modificar a data do evento. Marcado para julho de 2013, o encontro foi transferido para os dias 7 a 11 de janeiro de 2014, em Crato (CE), por causa da Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá também em julho de 2013, no Rio de Janeiro (RJ).

A decisão foi tomada no final de semana, durante a 2ª reunião da Equipe Ampliada das CEBs, responsável pela organização dos Intereclesiais. Em carta divulgada no final da reunião, a equipe comunica também a escolha do cartaz de divulgação do próximo encontro, cujo tema é “Justiça e profecia a serviço da vida”.

Participaram da reunião cerca de 50 pessoas representando os 17 Regionais da CNBB; os membros do Secretariado do 13º Intereclesial; o bispo da diocese do Crato (CE), dom Fernando Panico; o bispo referencial das CEBs pela CNBB, dom Adriano Vasino; além dos assessores, padre Benedito Ferraro, padre Nelito Dornelas e o professor Sérgio Coutinho, do setor CEBs da CNBB.

Outra decisão da Ampliada foi a realização de um seminário, em janeiro de 2012, para aprofundar a discussão sobre a identidade e papel do Conselho Nacional para o Laicato. “No último dia de nosso encontro, foi alertado sobre a necessidade de continuarmos a discussão sobre a nossa relação com o Conselho Nacional de Leigos. A Ampliada decidiu realizar uma discussão mais aprofundada sobre a sua identidade e papel”, lembra a carta.

Na carta, os participantes relatam as grandes preocupações das CEBs em relação ao 13º Interecleisal. “A plenária mostrou grandes preocupações das CEBs rumo ao 13º: ecumenismo nos Intereclesiais, a discussão sobre o mundo urbano, a nova fala profética das CEBs na pós-modernidade, a ausência das bandeiras de luta, a militância político-partidária, a questão de gênero, a pouca presença da juventude nas CEBs”, diz a carta.

Fonte: CNBB

Violência contra a mulher aumentam mais que o dobro no Brasil

Denúncias de violência contra a mulher aumentam mais que o dobro no Brasil em apenas um ano

As pessoas estão denunciando mais casos de violência contra as mulheres.

O Ligue 180, serviço da Secretaria Nacional de Política para as Mulheres, registrou no ano passado aumento de 128% no total de denúncias deste tipo na comparação com 2009.

Levantamento da Central de Atendimento à Mulher revela que foram 615.791 registros entre janeiro e outubro do ano passado contra 269.258 casos no mesmo período de 2009.

A maioria das denúncias foi feita por mulheres com idades entre 20 e 49 anos, casadas e com ensino médio completo.

Mais da metade das denunciantes são agredidas todos os dias. O Estado que mais recebeu denúncias foi São Paulo, seguido por Bahia e Rio de Janeiro.

Fonte: Agência Radio


Irmã Dorothy Stang, um sorriso que contagia



O assassinato de Ir. Dorothy Stang, no dia 12 de fevereiro de 2005, na área onde se desenvolvia um projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), o PDS Esperança, que aliava a produção familiar com a defesa do meio ambiente, como a missionária propugnava e defendia, provocou uma gigante onda de indignação nacional e internacional. Qual uma verdadeira tsunami, esta tragédia invadiu o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Tomou conta das redações dos jornais e dos estúdios das TV’s e das rádios. E seus abalos se sentiram em todo o mundo. A pequena e desconhecida Anapu passou a ocupar um lugar de destaque na geografia mundial.

Os envolvidos na morte da missionária foram presos, julgados e condenados, fato incomum no Pará. O último julgado, cinco anos depois do assassinato, Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como "Taradão”, foi condenado em maio de 2010, a 30 anos de prisão, como um dos mandantes do assassinato. Dezoito dias depois de sua condenação, uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, lhe concedeu habeas corpus pondo-o em liberdade. O que não é incomum no estado.

Outras medidas governamentais anunciadas no ambiente da repercussão da morte de Irmã Dorothy não foram implementadas ou o foram só parcialmente, de tal forma que as tensões e conflitos continuam. No mês passado, janeiro de 2011, assentados do PDS Esperança bloquearam as estradas que dão acesso à área, para impedir a retirada ilegal de madeira, mostrando a ausência e inoperância dos órgãos públicos que deviam garantir o cumprimento das normas legais. Pior que isso. Madeireiras envolvem e cooptam organizações de trabalhadores e, para atingir seus objetivos, jogam trabalhadores contra trabalhadores.

Mas, apesar de tudo, Dorothy continua presente. Passados seis anos, o que impressiona é que sua presença, antes confinada a Anapu, multiplicou-se. A irradiação do seu sorriso contagia pessoas no mundo todo. Sua morte irrompeu com a força da ressurreição. Sua ação, humilde e desconhecida, pequena e quase isolada, expandiu-se por todos os cantos do Brasil, conquistando corações e mentes e ganhou as dimensões do mundo. Dom Erwin Kräutler, o bispo do Xingu, em cuja diocese Dorothy exercia seu trabalho pastoral, disse na missa do quarto aniversário de sua morte: "O sangue derramado engendrou uma luta que nunca mais parou. Sepultamos os mártires, mas o grito por uma sociedade justa e pela defesa do meio-ambiente tornou-se um brado ensurdecedor.”.

Hoje a voz de Dorothy se soma às vozes que se levantam para defender o Xingu contra a sanha desenvolvimentista que quer construir a hidrelétrica de Belo Monte, com todas as consequências nefastas que decorrem desta obra e em defesa dos povos que do rio dependem e da beleza e da riqueza da biodiversidade lá existentes.


Antônio Canuto
Jornalista e secretário da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Assembleia dos Movimentos Sociais reafirma lutas em declaração final do FSM

Foto: FSM 2011


Terminou nesta sexta-feira (11), o Fórum Social Mundial (FSM) que se desenvolvia em Dacar, no Senegal, localizado no continente africano. Após seis dias repletos de atividades autogestionadas, marcha, assembleias de convergência e mobilizações, os participantes de mais de 120 países se despediram do evento que, desde 2001, reúne grandes contingentes de ativistas sociais para concretizar a construção de ‘outro mundo possível'.

Reunidos na Assembleia dos Movimentos Sociais, os membros das organizações participantes divulgaram a declaração, fruto de vários momentos de debate, troca de experiências e aprendizado. Muitas das demandas presentes no documento já estão na pauta dos movimentos desde o primeiro fórum, realizado em Porto Alegre. A intenção é mostrar que os povos continuam preparados e motivados para a luta por uma civilização humana livre até que ela se concretize verdadeiramente.

A realização do FSM em Dacar foi uma oportunidade de reafirmar o apoio à luta dos povos da África e do Costa do Marfim por democracia soberana e participativa. O direito à autodeterminação dos povos de Tunes, na Tunísia, do Egito e do mundo árabe também foi lembrado, já que recentemente estas nações despertaram e iniciaram uma luta pela democracia real e pela construção do poder popular.

Em sua declaração, os movimentos ressaltam que a luta contra o capitalismo continuará sendo priorizada. Por consequência, também segue firme a batalha contra as transnacionais que "sustentam o sistema capitalista, privatizam a vida, os serviços públicos e os bens comuns como a água, o ar, a terra, as sementes e os recursos naturais”.

"Exigimos a soberania dos povos na definição de nosso modo de vida. Exigimos políticas que protejam as produções locais que dignifiquem as práticas no campo e conservem os valores ancestrais da vida. Denunciamos os tratados neoliberais de livre comércio e exigimos a livre circulação de seres humanos”, manifestam.

Desde já, os movimentos sociais chamam a uma união e mobilização especialmente do continente africano durante a Conferência do Clima das Nações Unidas - COP 17 em Durban, na África do Sul e na conferência Rio +20, no próximo ano, para que se possa exigir mais uma vez respeito aos direitos da Mãe Terra e o fim do acordo de Cancun, considerado ilegítimo. Desde a Cúpula dos Povos Contra as Mudanças Climáticas e pelos Direitos da Mãe Terra, os acordos firmados em Cochabamba, na Bolívia, são considerados a melhor saída para desacelerar o aquecimento global e garantir a justiça climática e a soberania alimentar.

Dentro da agenda unificada de lutas, a violência contra a mulher também é citada como um mal que deve ser combatido para garantir o desenvolvimento integral dos povos e nações. Ainda hoje, mulheres e meninas são abusadas em territórios ocupados militarmente e criminalizadas quando participam de lutas sociais. Com o mesmo intuito de defesa, os movimentos manifestam que também defendem a diversidade sexual e repudiam a violência sexista.

Deste FSM também saiu fortalecida a luta contra a criminalização do protesto social, as ocupações militares e em prol de uma comunicação livre, alternativa e democrática. E por tudo isso, desde já, todos e todas são chamados a fazer do dia 20 de março um dia mundial de solidariedade com o levantamento do povo árabe e africano, assim como fortalecer o 12 de outubro como dia de ação global contra o capitalismo.


Natasha Pitts

Fonte: Adital

FSM: Movimentos sociais definem duas datas de luta comum para 2011

Mobilização em solidariedade às rebeliões no mundo árabe e jornada contra o capitalismo acontecerão em março e outubro, respectivamente

Em um auditório da Universidade de Dacar lotado e em clima de festa pela queda iminente do ditador egípcio Hosni Mubarak, organizações populares de todo o mundo, reunidos na Assembleia dos Movimentos Sociais, definiram nesta quinta-feira (10) duas datas comuns de luta para 2011.

No dia 20 de março, está prevista uma mobilização global em solidariedade justamente às rebeliões no mundo árabe. Em 12 de outubro, dia já vinculado à resistência indígena na América Latina, ocorrerá uma jornada global de luta contra o capitalismo.

"A Assembleia dos Movimentos Sociais convoca as forças e atores populares de todos os países a desenvolver duas grandes mobilizações, coordenadas a nível internacional, a participar na emancipação e autodeterminação do povo e fortalecer a luta contra o capitalismo”, diz um trecho da declaração lançada durante a assembleia.

O encontro teve início com a fala e a música de um grupo de cinco cantores senegaleses de hip hop, que discursaram contra os problemas do país, seu presidente e o capitalismo. Em seguida, cantaram músicas de protesto, que foram ovacionadas pela plateia. Alguns minutos depois, chegou ao auditório a notícia equivocada de que o ditador do Egito havia caído, informação que foi corrigida posteriormente. Mesmo assim, a saída de Mubarak em questão de tempo foi muito comemorada pelos movimentos sociais, que aplaudiam e gritavam palavras de ordem em favor da população egípcia.

Um dos integrantes de organizações sociais egípcias presente pediu a palavra para pedir o apoio imediato das forças populares de todo o mundo. "O que está acontecendo não é algo pequeno. É um verdadeiro terremoto. Há exatamente seis dias, eu estava no meio da mobilização na praça Tahrir, no Cairo. O povo mudará a cara feia das ditaduras árabes. O povo egípcio fez um buraco no imperialismo. Provou que é corajoso o suficiente para pagar o preço de sua liberdade”.

Em seguida, o intelectual egípcio Samir Amin subiu ao púlpito para afirmar que a mobilização no seu país é uma revolução democrática. "O povo tem o direito de transformar o sistema econômico, político e social e manter uma política internacional independente”, referindo-se ao alinhamento de Mubarak com os interesses dos Estados Unidos.

Declaração

Além de definir as duas datas de mobilização global conjunta para 2011, a declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais enfatizou a luta dos povos de todos os continentes contra "o domínio do capital, oculto atrás de promessas ilusórias de progresso econômico e estabilidade política”. O texto lembra o 10º aniversário do Fórum Social Mundial e que, na última década, as articulações entre os movimentos resultaram em alguns avanços, especialmente na América Latina. No entanto, o documento chama a atenção que no período, também "testemunhamos a erupção de uma crise sistêmica que se expandiu para crises alimentar, ambiental, financeira e econômica, o que têm levado para um aumento da migração e do deslocamento forçado, da exploração, do nível das dívidas e das desigualdades sociais”.

Nesse sentido, a declaração denuncia o papel desempenhado pelos diversos atores do sistema, como bancos, grande mídia, instituições internacionais e transnacionais. Em relação a essas últimas, o texto alerta para a privatização de serviços públicos e bens comuns, como a água, o ar, a terra, as sementes e os recursos minerais. "As corporações transnacionais promovem guerras por meio de seus contratos com corporações privadas e mercenárias; suas práticas extrativistas põem em perigo a vida e a natureza, expropriando nossa terra e desenvolvendo sementes e alimentos geneticamente modificados, tirando do povo o direito à alimentação e destruindo a biodiversidade”.

Outro ponto que ganhou destaque na declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais foi o tema do clima e das preparações para as cúpulas de Durban (COP-17, a ser realizada em Durban, na África do Sul, no fim de 2011) e Rio + 20, que acontecerá no Rio de Janeiro em maio de 2012. "A mudança climática é um produto do sistema capitalista de produção, distribuição e consumo. As corporações transnacionais instituições financeiras internacionais e governos que os servem não querem reduzir as emissões. Denunciados o ‘capitalismo verde’ e rechaçamos as falsas soluções para a crise climática, como os agrocombustíveis, os transgênicos e mecanismos de mercado de carbono como os REDD, que iludem os pobres com falsas promessas de progresso enquanto se privatiza ou se transforma em commodities as florestas e territórios onde essa população tem vivido por milhares de anos”.

Quando o microfone foi disponibilizado para a participação da plateia, um dos que falaram foi Pablo Solón, embaixador da Bolívia na Organização das Nações Unidas (ONU). Ele garantiu aos movimentos sociais que levará a debate no organismo as conclusões incluídas na declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais.

Igor Ojeda

Fonte: Brasil de Fato


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Paraísos turísticos," construídos sim direitos"

Durante os últimos anos, a área compreendida entre o sul do México, América central e Caribe converteu-se em um dos principais destinos turísticos mundiais.

Esse forte crescimento tem se dado sob a liderança e controle estratégicos do capital transnacional e dos grandes grupos empresariais da própria região que têm transitado nesse novo nicho de negócio, procedentes de outros setores que, tradicionalmente, haviam dominado sua economia, fortemente vinculada à agroexportação.

O modelo tem tido um intenso caráter segregador e gerador de desigualdade social, através dos complexos hoteleiros "tudo incluído” ou por meio de novas formas de promoção imobiliária de segundas residências, o que conhecemos como "turismo residencial”.

Com maior ou menor intensidade, segundo os países e em função do momento no qual se encontra o setor em sua particular evolução, esse tipo de turismo tem gerado um processo de transformação histórica radical para essas sociedades. E muitas vezes nem nos damos conta disso.

Alguns dos impactos que sua expansão tem provocado começam a chamar a atenção: comunidades camponesas despossuídas de recursos essenciais, como a terra, a água; restrições da população local a praias privatizadas ou degradação ambiental devido a urbanização da faixa costeira. São parte dessa profunda mutação em curso.

No entanto, um dos grandes fenômenos da ‘turistização' e que até o momento não tem sido suficientemente dimensionado é a mobilização massiva de trabalhadores de diferentes partes da região para a construção desses equipamentos.

Espaços turísticos emblemáticos, como Punta Cana – Bávaro, na República Dominicana; Cancun e Riviera Maya, no México; ou o litoral de Guanacaste, na Costa Rica, têm sido criados após a erradicação de atividades ali pré-existentes.

Na lógica da agroexportação tradicional, essas áreas haviam sido destinadas ao cultivo da cana de açúcar e outros monocultivos, à pecuária, ou eram zonas de selva exploradas comercialmente em menor fração, como é o caso da Península de Yucatán (México), com a extração de chicle. Ao mesmo tempo, alguns desses lugares não estavam tão inseridos na dinâmica do mercado internacional e haviam ficado em mãos de comunidades camponesas e pesqueiras com economias orientadas fundamentalmente para o autoconsumo e os mercados locais.

Quando esses novos centros de desenvolvimento turístico começaram a ser construídos, - em alguns casos de forma planejada por parte do Estado (como no caso do México e da Costa Rica); em outros, através da iniciativa privada, porém com diversos tipos de acordo com os respectivos governos-, nesses territórios não existia mão de obra para a construção das infraestruturas necessárias.

De forma generalizada, isso tem requerido atrair trabalhadores procedentes de outras zonas, fundamentalmente população camponesa de áreas mais empobrecidas: haitianos, na República Dominicana; nicaragüenses, na Costa Rica e centro-americanos (e chiapanecos), no México.

Esse processo de mobilização social, apesar de suas particularidades, reveste-se de certas características comuns:

- Os Estados não têm atendido à gestão das necessidades da força de trabalho para essa nova atividade que, por outro lado, sim, planejaram e promoveram como destinos turísticos, deixando que imperasse o "laissez-faire” em matéria trabalhista, que somente tem beneficiado aos grandes empresários, conferindo-lhes maior poder de fato sobre os trabalhadores.

Desse modo se impõe o recurso sistemático à mão de obra imigrante de origem estrangeira, que se mobiliza sem contratos prévios e, em muitas ocasiões, em situação de ilegalidade. Estar em outro país sem a documentação legal exigida submete os trabalhadores a todo tipo de arbitrariedades e abusos, reduzindo as margens legais de sua defesa e proteção. Isso provoca um estado de permanente vulnerabilidade frente aos empregadores.

- Por norma geral, esses trabalhadores ganham baixos salários, segundo o mínimo previsto como referência e em dependência do trabalho realizado; porém, salários maiores do que os que recebiam no setor agropecuário, em seus lugares de origem.

Mas, deve-se considerar também que têm que enfrentar custos de vida mais elevados do que àqueles do lugar de procedência, o que reduz o hipotético benefício desses salários mais altos. Dada sua debilidade frente à empresa, motivada por múltiplos fatores, frequentemente são demitidos sem seus direitos garantidos, inclusive, sem seus salários pagos.

Oportunamente, as autoridades policiais fazem operações contra a imigração ilegal, o que mantém os trabalhadores em um estado de permanente insegurança. Frequentemente, os contratos são verbais e segundo as necessidades pontuais das empresas e não se dispõe de nenhum tipo de prestações sociais.

Some-se a isso condições de trabalho especialmente duras, inseguras e insalubres. Tanto os acidentes quanto as enfermidades são habituais no setor devido às escassas condições de vigilância e proteção em segurança e higiene no trabalho.

A origem camponesa de muitos desses trabalhadores, não acostumados a esse tipo de atividade ou à altura das obras, e a própria precariedade em suas condições de vida (má alimentação, lugares para descansar não apropriados, estresse... ) colocam sua saúde e sua vida em risco.

- Quando os trabalhadores migrantes chegam ao seu destino, verificam que praticamente não existem condições para seu alojamento e acabam vivendo nas obras nas quais trabalham ou em acampamentos informais com um elevado grau de precariedade, isolamento e sem infraestruturas básicas necessárias.

Isso gera o aparecimento de novas aglomerações urbanas insalubres. Em sua maioria são homens sozinhos, que se deslocaram sem suas famílias.

Nesse ambiente social e trabalhista é muito difícil o arraigo nos novos territórios, o que dá margem ao incremento dos níveis de alcoolismo e uso de outras drogas, como forma de superar a situação ou fugir da realidade.

Essa falta de integração no território se evidencia mais com o crescimento da crise econômica internacional a partir dos anos 2007-2008,e que supôs a paralisação ou redimensionamento dos projetos construtivos em curso, provocando o desaparecimento de muitos desses assentamentos, especialmente em Guanacaste.

- A teia de subcontratações em que se encontram as grandes cadeias hoteleiras e os projetos imobiliários limitam os trabalhadores que tentem demandar qualquer benefício ou acusar representantes do grande capital.

Para a construção de um determinado projeto, ou, inclusive, partes dele, costumam contratar diferentes empresas locais (terceirizar). Esse tipo de prática empresarial consegue segmentar aos trabalhadores e, em caso de qualquer incidente, não se responsabilizam.

E se isso acontece durante a construção, se agrava ainda mais a fase de gestão do desenvolvimento turístico: as tendências internacionais do setor hoteleiro apontam a uma crescente separação entre a "marca” com a qual opera um determinado estabelecimento e a propriedade de seus imóveis.

Em conjunto, essa evolução dificulta qualquer ação coletiva por parte dos trabalhadores. Inclusive, quando as cadeias transnacionais adotam estratégias de Responsabilidade Social Corporativa (RSC), essa lógica de subcontrato lhes permite evadir responsabilidades.

- As medidas de proteção por parte do Estado são mínimas. É especialmente significativo o pobre papel que desempenham os Ministérios do Trabalho, responsáveis pelas inspeções nesse tipo de empresas, que, na realidade, não respondem aos interesses dos trabalhadores.

Inclusive, quando existe vontade política em alguns funcionários, os orçamentos disponíveis fazem com que sua capacidade de incidência seja mínima em relação aos interesses das grandes corporações.

No mesmo sentido, a capacidade de organização sindical nesse setor é muito limitada, com o qual as possibilidades de salvaguarda e defesa coletiva são escassas. E, se bem é certo que a tradição e características do sindicalismo mexicano é muito distinta à existente na Costa Rica ou na República Dominicana, onde há escassa e débil presença sindical, nesse caso a existência de sindicatos de pedreiros não significa necessariamente que os trabalhadores disponham de estruturas para sua organização e defesa.

Desse modo, as formas de proteção existente se reduzem fundamenalmente a organizações sociais com presença nos territórios, majoritariamente igrejas, como no caso da Cáritas e da Pastoral Social de Liberia, na cabeceira da província de Guanacaste.

Todos esses fatores configuram um cenário caracterizado pela precariedade e pela vulneralização dos direitos humanos sobre os quais se assenta a indústria turística, em conivência com os respectivos Estados da região, para rebaixar custos na construção.

Uns paraísos turísticos construídos sem levar em consideração os direitos fundamentais dos trabalhadores que os tornam possíveis.

Ernest Cañada

Fonte: Adital

‘Comemos o que as grandes empresas agroalimentícias querem'

Entrevista a Esther Vivas

co-autora do livro "Do Campo ao Prato”

(Ed. Icaria, 2009)

Comprar um quilo de açúcar, um litro de leite ou um pacote de bolachas pode parecer um ato bem cotidiano. Porém, sob essa aparência inócua subjaz a relevância política de nossas ações, inclusive as mais inocentes.

Esther Vivas, ativista social pela soberania alimentar e militante do movimento antiglobalização, alerta sobre a primazia do capital privado na hora de impor gostos, marcas e produtos. Juntamente com Xavier Montagut publicou os livros "Do campo ao Prato”, "Para onde vai o comércio justo?” e "Supermercados? Não, obrigada!”.

Você é co-autora do livro "Do Campo ao Prato”. Acreditas que nos estão envenenando?

Esther: O modelo de produção de alimentos antepõe interesses privados e empresariais às necessidades alimentícias das pessoas, à sua saúde e ao respeito ao meio ambiente. Comemos o que as grandes empresas do setor querem. Hoje, há o mesmo número de pessoas no mundo que passam fome do que o de pessoas com problemas de sobrepeso, afetando, em ambos casos, aos setores mais pobres da população, tanto nos países do Norte quanto nos do Sul. Os problemas agrícolas e alimentícios são globais e são o resultado de converter os alimentos em uma mercadoria.

925 milhões de pessoas no mundo passam fome. Isso é uma prova do fracasso do capitalismo agroindustrial?

Sim. A agricultura industrial, quilométrica, intensiva e petrodependente tem se mostrado incapaz de alimentar à população, ao mesmo tempo em que teve um forte impacto ambiental, reduzindo a agrodiversidade, gerando mudança climática e destruindo terras férteis. Para acabar com a fome no mundo não é preciso produzir mais, como afirmam os governos e as instituições internacionais. Pelo contrário; faz falta democratizar os processos produtivos e fazer com que os alimentos estejam disponíveis para o conjunto da população.

As empresas multinacionais, a ONU e o FMI propõem uma nova "revolução verde”, alimentos transgênicos e livre comércio. Que alternativa pode ser proposta pelos movimentos sociais?

Esther: É preciso recuperar o controle social da agricultura e da alimentação. Não pode acontecer que umas poucas multinacionais, que monopolizam cada uma das etapas da cadeia agroalimentar, acabem decidindo o que comemos. A terra, a água e as sementes devem estar nas mãos dos camponeses, daqueles que trabalham na terra. Esses bens naturais não devem servir para fazer negócio, para especular. Os consumidores temos que poder decidir o que comemos, se queremos consumir produtos livres de transgênicos. Definitivamente, temos que apostar na soberania alimentar.

Poderias definir o conceito de "soberania alimentar”?

Esther: Consiste em ter a capacidade de decidir sobre tudo aquilo que faça referência à produção, distribuição e consumo de alimentos. Apostar no cultivo de variedades autóctones, de temporada, saudáveis. Promover os circuitos curtos de comercialização, os mercados locais. Combater a competição desleal, os mecanismos de dumping, as ajudas à exportação. Conseguir esse objetivo implica uma estratégia de ruptura com as políticas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Porém, reivindicar a soberania alimentar não implica em um retorno romântico ao passado, mas, ao contrário, trata-se de recuperar o conhecimento das práticas tradicionais e combiná-las com as novas tecnologias e saberes. Da mesma forma, não consiste em uma proposta localista, mas de promover a produção e o comércio local, no qual o comércio internacional funcione como um complemento do anterior.

A Vía Campesina afirma que comer, hoje, converteu-se em um "ato político”. Estás de acordo?

Esther: Completamente. O que comemos é resultado da mercantilização do sistema alimentar e dos interesses do agronegócio. A mercantilização que está sendo realizada na produção agroalimentar é a mesma que atinge a muitos outros âmbitos de nossa vida: privatização dos serviços públicos, precarização dos direitos trabalhistas, especulação com a habitação e com o território. É necessário antepor outra lógica e organizar-se contra o modelo agroalimentar atual no marco do combate mais geral contra o capitalismo global.

Estamos em mãos das grandes cadeias de distribuição? O que isso implica e que efeitos nos traz esse modelo de consumo?

Esther: Hoje, sete empresas no Estado Espanhol controlam 75% da distribuição dos alimentos. E essa tendência cresce cada vez mais. De tal maneira que o consumidor cada vez mais tem menos portas de acesso à comida e o mesmo passa ao produtor ao buscar acesso ao consumidor. Esse monopólio outorga um controle total aos supermercados na hora de decidir sobre nossa alimentação, o preço que pagamos pelo que comemos e como foi elaborado.

As soluções individualistas servem para romper com essas pautas de consumo?

Esther: A ação individual tem um valor demonstrativo e aporta coerência; porém, não gera mudanças estruturais. Faz falta uma ação política coletiva; organizar-nos no âmbito do consumo, por exemplo, a partir de grupos e cooperativas de consumo agroecológico; criar alternativas e promover alianças amplas a partir da participação em campanhas contra a crise, em defesa do território, fóruns sociais etc.

Também é necessário sair às ruas e atuar politicamente, como, por exemplo, por ocasião da campanha da Iniciativa Legislativa Popular contra os transgênicos, impulsionada por "Som lo que siembrem”, porque, como vimos em múltiplas ocasiões, os que estão nas instituições não representam nossos interesses, mas os interesses privados.

Kyoto, Copenhague, Cancún... Que balanço geral pode ser feito sobre as diferentes cúpulas sobre a mudança climática?

Esther: O balanço é muito negativo. Em todas essas cúpulas os interesses privados e o curto prazo têm pesado mais do que a vontade política real para acabar com a mudança climática. Não foram feitos acordos vinculantes que permitam uma redução efetiva dos gases de efeito estufa. Pelo contrário, os critérios mercantis têm sido uma vez mais a moeda de troca e o mecanismo de comércio de emissões é, nesse sentido, o seu máximo expoente.

Em Cancun fez sucesso a ideia de "adaptação” à mudança climática. Por detrás disso escondem-se os interesses das companhias multinacionais e de um suposto "capitalismo verde”?

Esther: Sim. El vez de dar soluções reais, opta-se por falsas soluções, como a energia nuclear, a captação de carbono da atmosfera para seu armazenamento, ou os agrocombustíveis. Trata-se de medidas cujo único resultado é agravar ainda mais a crise atual social e ecológica e, isso sim, proporcionar grandes benefícios a umas poucas empresas.

O Movimento pela Justiça Climática tenta oferecer alternativas. Como nasceu e quais são seus princípios?

Esther: O Movimento pela Justiça Climática faz uma crítica às causas de fundo da mudança climática, questionando o sistema capitalista e, como muito bem diz seu lema, tenta "mudar o sistema, não o clima”. Desse modo, expressa essa relação difusa que existe entre justiça social e climática, entre crise social e ecológica.

O movimento tem tido um forte impacto internacional, sobretudo por ocasião dos protestos na cúpula do clima em Copenhague e, mais recentemente, nas mobilizações de Cancún. Isso tem contribuído para visualizar a urgência de atuar contra a mudança climática. O desafio é ampliar sua base social, vinculá-lo às lutas cotidianas e buscar alianças com o sindicalismo alternativo.

A solução é mudar o clima ou mudar o sistema capitalista?

Esther: Faz falta uma mudança radical de modelo. O capitalismo não pode solucionar uma crise ecológica que esse próprio sistema criou. A crise atual apresenta a necessidade urgente de mudar o mundo pela base e fazer isso desde a perspectiva anticapitalista e ecologista radical.

Anticapitalismo e justiça climática são dois combates que devem andar estreitamente unidos.


Fonte: Adital

O perfil das CEBs

A comunidade eclesial de base é uma assembléia de cristãos e cristãs aberta onde se pode experimentar, de forma espontânea e direta, relações pessoais mais livres e autênticas (sem máscaras), mais igualitárias (sem tratamento “VIP” para alguns privilegiados) e mais fraternas (ajuda mútua, “ágape”). Tal experiência é considerada, simultaneamente, como dom gratuito de Deus e fruto da construção humana.

A comunidade eclesial de base é uma assembléia orante e celebrante onde, a partir da meditação lúcida da Palavra Sagrada, as três grandes virtudes do cristianismo – a Fé, a Esperança, o Amor – são constantemente invocadas, renovadas, realimentadas, face aos desencantos cotidianos com a descrença, o desespero, o desamor. Cultiva-se uma atitude básica de gratidão diante da existência.

A comunidade eclesial de base é uma assembléia combativa e engajada nas pequenas lutas locais por melhoria de vida e emancipação que, de alguma forma, estão ligadas às grandes questões humanitárias. Tal diaconia cristã tem como meta final a libertação/redenção do ser humano todo e de todos os seres humanos de tudo que os diminui, desfigura, amarra, escraviza ou vicia.

Nos serviços e na atenção prestados aos demais, os “últimos” devem ocupar o primeiro lugar, aqueles que da sociedade humana recebem menos atenção e cuidados. Aqueles que a sociedade coloca à margem, devem estar no centro das atenções da comunidade cristã. Aqueles que o sistema ora vigente tenta esquecer devem ser constantemente lembrados pelos cristãos. Nisto se expressa a opção profética de Jesus de Nazaré.


Tal promoção humana não consiste, primordialmente, na distribuição gratuita de bens aos necessitados (um fazer pelos pobres que pode acentuar ainda mais a desigualdade social), mas sobretudo na vivência solidária de uma comunidade de destino com os pobres, despertando-lhes o senso de dignidade, capacidade e responsabilidade próprias. Mais importante, em uma comunidade de destino o “dar” e o “receber” mudam constantemente de lugar, o enriquecimento é recíproco, não unilateral. Por isso, a promoção humana não é um apêndice à ou mera conseqüência da evangelização, mas é inerente a ela, uma vez que na comunidade “de irmãos e irmãs” as pessoas se libertam, umas as outras, dos seus papéis sociais prescritos e prefixados.


Carlo Tursi
Coordenação Arquidiocesana das CEBs de Fortaleza

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Consumo Responsável: Apesar dos avanços, nível de consciência ecológica é baixo

A redução da pobreza e a maior escolarização são fatores estratégicos para despertar a consciência ecológica, principalmente nas questões envolvendo o lixo urbano. A conclusão é da pesquisa "Sustentabilidade Aqui e Agora", recém-concluída pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), com entrevistas em 11 capitais brasileiras sobre hábitos de consumo, descarte e reciclagem.

O estudo revelou que apenas 17% da população deixa de comprar produtos pelos impactos ao meio ambiente - restrição que prevaleceu nas classes de maior poder aquisitivo. Embora 74% dos entrevistados estejam motivados a considerar o quesito ambiental no consumo, a maioria não está disposta a pagar mais caro por isso. Em geral, de acordo com a pesquisa, os consumidores estão mais abertos a doar tempo e trabalho comunitário, mas não dinheiro.

Separar resíduos recicláveis nas residências é um hábito para 47% da população, sobretudo a atendida pela coleta municipal, revelou o estudo. Existe a consciência de que embalagens vazias e outros produtos pós-consumo podem ser deixados em estações de coleta nos supermercados. Mas a maior parte dos moradores mistura esses materiais no lixo comum, dificultando a reciclagem. Há um abismo entre o maior nível de informação sobre meio ambiente e a mudança efetiva de comportamento no consumo. O Brasil está atrás de países como Chile, México, África do Sul e Colômbia no hábito de reciclar o lixo doméstico, segundo dados colhidos globalmente pela empresa de consultoria Synovate Brasil, autora da pesquisa brasileira encomendada pelo governo, em parceria com o Walmart.

"Apesar desse desafio, o nível de consciência ambiental é crescente no país", garante Samyra Crespo, diretora de qualidade ambiental do MMA, responsável pela coordenação de estudos sobre o tema desde 1991. Ela informa que o grupo dos "engajados" e dos "influenciáveis" compõe 64% dos consumidores, com destaque para os mais jovens e de maior nível de educação e renda. "Essa disposição do brasileiro indica um terreno fértil para atuarmos com campanhas nos próximos anos", analisa Samyra.

A pesquisa mostrou que bens intangíveis, mais que dinheiro, são o principal motivo de felicidade para a população brasileira. "Isso demonstra que nossa sociedade ainda não é tão consumista e que, por conta disso, há espaço para políticas voltadas ao consumo responsável", completa Samyra, com uma ressalva: "diante do crescimento econômico do país, a estratégia não é reduzir o consumo, mas melhorar sua qualidade."

Economia de água é a principal atitude ecológica do dia a dia, de acordo com o levantamento. Em segundo lugar, está a separação do lixo doméstico e, em terceiro, a redução no consumo de energia. Apesar dessa preocupação, 75% jogam óleo de cozinha usado pelo ralo da pia. Além disso, quase um quinto dos consumidores guardam resíduo eletrônico em casa porque não sabem o que fazer com ele e 50% descartam pilhas e baterias no lixo comum. Para fazer frente a esse cenário e contribuir para que a logística reversa dos aparelhos fora de uso seja realizada conforme determinada a lei, o governo estabeleceu acordo com o Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma), em parceria com entidades do setor eletroeletrônico, para montar no país um programa de conscientização.

Os entrevistados apontaram a escola como sendo principal foco para trabalhos de educação visando o consumo sustentável, o que indica a aposta nas gerações futuras. "Mas jogar a responsabilidade no ombro dos jovens pode também servir de justificativa para inércia dos mais velhos", diz Samyra. Para 59% dos entrevistados, a preservação dos recursos naturais deve estar acima das questões econômicas. A maioria acredita que os problemas ambientais só podem ser resolvidos com grandes mudanças no hábito de consumo, como no transporte e alimentação.

Os dados mostram a disposição dos brasileiros em aderir a políticas públicas que serão implementadas a partir da legislação, sancionada em agosto, que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Pela nova lei, o consumidor precisará mudar atitudes dentro do conceito de responsabilidade compartilhada, que envolve também governo e empresas. Segundo a pesquisa, 60% da população reconhece os catadores como agentes da coleta seletiva em seus bairros. O assunto é alvo do programa Pró-Catador, lançado no fim dezembro. "O objetivo é fortalecer as cooperativas e criar mecanismos de crédito e de capacitação, ressaltando a importância dessa força de trabalho para a reciclagem."

Mais da metade dos consumidores brasileiros (60%) é a favor de uma nova lei para eliminar o uso de sacolas plásticas, de acordo com a pesquisa do MMA. Somente 23% é contra a proibição. Os números revelaram que os supermercados são vistos como parceiros para a redução desses resíduos: 27% da população indica essa medida como a ação ambiental mais urgente que esses estabelecimentos deveriam empreender. O resultado da pesquisa norteará novas políticas do governo, que recentemente fechou acordo com o setor supermercadista para diminuir 40% das sacolas até 2015. Dependendo da adesão dos consumidores, uma legislação específica sobre o tema poderá ser proposta pelo Executivo. Segundo o estudo, no mundo sem sacos plásticos, 70% das pessoas carregariam as compras em modelos de sacola reutilizáveis, enquanto 25% utilizaram caixas de papelão.

Sergio Adeodato

A América Latina diante do Egito

O primeiro-ministro da França François Fillon admitiu nesta terça-feira que usou o avião do presidente Hosni Mubarak para suas férias de Natal. François Fillon é ligado à direita em seu país e foi escolhido pelo atual presidente Nicolas Sarkozy. A denúncia foi feita pelo jornal LE CANNARD ENCHAINÉ, que para muitos analistas, foi o inspirador para os criadores de O PASQUIM, linha de frente na mídia alternativa e como um todo contra a ditadura militar no Brasil.

A cumplicidade das chamadas grandes nações com a ditadura do general egípcio é óbvia e está na natureza das políticas desses países que, pouco a pouco, vão se transformando em grandes conglomerados agrupando empresas, bancos, latifundiários e especuladores. O povo, nessa nova Idade Média vive no entorno e o conceito de soberania vai para o espaço.

Nas grandes potências européias (todas em vias de falência), essa característica de conglomerado já é realidade. Integram o EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A. Governos como o da França, Grã Bretanha, Alemanha, Suécia, Itália e outros são colônias cercadas de bases por todos os lados.

Mubarak é produto desse modelo e sua permanência no poder a despeito das grandes manifestações em todo o Egito pedindo sua saída se deve exclusivamente à ação do conglomerado norte-americano e suas filiais européias.

Governos de países da América Latina devem estar atentos ao discurso que o primeiro-ministro inglês pronunciou na Conferência Européia de Segurança, semana passada. David Cameron enterrou o multiculturalismo, ressuscitou as práticas de pureza racial e recolocou nas bancas de jornais, revistas e nas principais livrarias o MEIN KAMPF de Adolf Hitler. Edição revista e atualizada em Washington e Wall Street.

A Europa é branca e nela não há lugar para a integração com outros povos, os imigrantes, principalmente muçulmanos, negros e latinos, nessa ordem.

O anti-semitismo está presente no discurso de Cameron, é disfarçado em colônias norte-americanas no velho mundo e o apoio a Israel é na verdade apenas apoio aos negócios e à garantia do controle do petróleo existente em países do Oriente Médio.

Da mesma forma que Washington compra governos como o de Mubarak, o de David Cameron, o francês, o sueco, compra o de Israel. Os israelenses parecem estar despertando para essa realidade.

Egípcios, britânicos, franceses, suecos e israelenses, tanto quanto muçulmanos são adereços. Latinos são "porcos” na visão de boa parte dos europeus, acostumados a cultuar figuras como Elizabeth II, o rei Juan Carlos, múmias que sobrevivem no mundo contemporâneo.

A crise no Egito traz essa lição para os países da América Latina, alvo de Barack Obama (o branco disfarçado de negro) e o Brasil é o objetivo principal. Por ser um país de dimensões continentais, a maior potência econômica da região é estratégico para o conglomerado. As características neoliberais do governo Dilma Rousseff e um chanceler sem nenhuma expressão, dócil aos interesses dos EUA, devem servir para acender a luz laranja entre as forças populares do País.

As políticas de estratégia e segurança nacional serão formuladas por Moreira Franco, assaltante de cofres públicos que substituiu Samuel Pinheiro Guimarães (pensador respeitado em todo o mundo), por conta das pressões de Washington.

Um dos paladinos da reforma política é José Sarney. Tem sua própria pirâmide em seu estado natal, o Maranhão, vítima de saques constantes por parte de sua família.

A máscara do terrorismo neoliberal caiu. Cameron (os EUA usam sistematicamente os britânicos como porta-vozes, caso de Blair na guerra do Iraque) deu a palavra de ordem.

A ação política do conglomerado EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A na América Latina, num curto prazo (dia 23 o arremedo de chanceler brasileiro encontra-se com Hilary Clinton), deve começar ações efetivas e concretas para desestabilizar governos independentes como os da Venezuela, da Bolívia, do Uruguai, da própria Argentina, Equador, Nicarágua e Cuba.

O dilema do Brasil é simples aos olhos de Washington. Ou aceita as regras, ou é considerado inimigo e fica fora do Conselho de Segurança da ONU (a ditadura das grandes potências na Organização).

Se não temos ditaduras como a de Mubarak, temos governos dóceis e quebrar resistências é fundamental, antes que a brancura europeia seja contaminada por imigrantes latinos. Essa, pelo que disse Cameron, nem OMO e nem nenhum tira manchas limpa. Que o diga o brasileiro Jean Charles.

É questão de gosto. Uns preferem tomar banhos todos os dias; outros preferem perfumes franceses.

A descoberta de novas reservas petrolíferas que transformam a Venezuela no maior depósito de petróleo do mundo transformam o Brasil em ponte necessária para que o conglomerado possa tomar conta dessas reservas e das reservas brasileiras do pré-sal.

A base Colômbia é insuficiente e o temor que o Brasil continue avançando e sendo protagonista da história contemporânea (Lula, Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães), vai resultar na tentativa de domar o governo Dilma levando em conta seu pragmatismo econômico (políticas neoliberais) e sua busca de afirmação que a tornem algo mais que produto de Lula.

A América Latina é alvo do terrorismo internacional norte-americano (novo código florestal, semente terminator, etc. todos projetos oriundos da base do governo) e o Brasil é o diamante desse alvo.

Não é por outra razão que a principal rede de tevê do País, a GLOBO, começa a tratar Dilma Rousseff como uma espécie de Dilma Serra. Com mimos e agrados.

A GLOBO é o mais importante canal de informações do conglomerado ISRAEL/TERRORISMO S/A, agora inclusive dedicada à prática de lenocínio a partir do BBB-11.

Faz parte do processo de alienação.

A continuar desse jeito, breve, uma loja Mcdonalds em cada esquina e o inglês vira a língua pátria.

A propósito, nos países latino-americanos governados por aliados de Washington as forças armadas são parte do conglomerado em sua esmagadora maioria. Em troca de bom comportamento (como em 1964), recebem brinquedinhos de guerra para usar nas banheiras. Navios de papel e aviões que não voam.

São sinais que precisam ser percebidos e teriam sido entendidos por figuras como Amorim.


Laerte Braga

Fonte: Adital


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Brasil, um país de todos?

Carta aberta dos Missionários Combonianos da Provincia Brasil Nordeste sobre o Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes.


O Ano 2011 foi declarado pela ONU Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes. Neste ano os vários países do mundo deverão fortalecer o compromisso político de erradicar a discriminação contra os descendentes de africanos. A iniciativa também quer promover o respeito a diversidade e herança culturais, ainda não oficialmente integradas nas identidades das várias nações americanas!

A nossa experiência pastoral no Brasil mostra como a população afrodescendente ainda hoje sofre o preconceito e a discriminação racial. Mesmo tendo contribuído enormemente com suor e criatividade na construção da matriz social e cultural dessa imensa nação pluricultural e pluriétnica, os afro-descendentes continuam ignorados. Mesmo representando mais da metade da população brasileira, os afrodescendentes vivem à margem da sociedade que eles mesmos têm ajudado a construir. De fato, são eles que encontramos morando nas periferias sem esgoto e sem infraestruturas. Apertados nos sistemas de transporte publico e sobrevivendo com salário mínimo. Lotando os sistemas prisionais do país, nas filas dos hospitais e mortos por atividades ilícitas e ações policiais.

Sabemos que eles vêm ocupando novos e legítimos espaços, mas graças à sua iniciativa e persistência, e não por serem reconhecidos como cidadãos/ãs com iguais direitos e oportunidades. Suas conquistas e lutas não ganham nem a visibilidade da mídia e nem se tornam um sinal sócio-educativo para as atuais e futuras gerações. O próprio lema que marcou o governo passado: "O Brasil, um país de todos”, parece reforçar mais a ideologia de que neste país foi alcançada definitivamente a suposta "democracia racial”, do que um efetivo reconhecimento de direitos universais respeitados. Não há como negar que, infelizmente, as estatísticas nas Américas e no Brasil demonstram que os afrodescendentes não têm tido as mesmas oportunidades que outros cidadãos/ãs. Ao contrário, temos assistido a verdadeiras formas de negação de direitos e acesso à justiça formal Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do DIIESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos) demonstram que nas regiões metropolitanas entre os negros e negras existe uma média de desemprego 50% maior do que entre a população branca. Além disso, os negros recebem, em média, somente cerca de 60% do valor dos salários oferecidos aos não-negros. Outro dado alarmante é a diferença entre a taxa de homicídios de negros e brancos. Dados da pesquisa "Mapa da Violência" revelam que as taxas brasileiras de homicídios têm como principal vítima a população negra de sexo masculino: de cada dez jovens assassinados, 7 são afrodescendentes.

Não é difícil perceber que nas grandes cidades brasileiras existe uma linha divisória imaginária, mas real entre os "brancos” e os "Afrobrasileiros”. Ela se torna visível pela localização e pela estrutura da moradia de uns e de outros. Nos lugares de classe alta, nos prédios altos e bonitos da cidade, os negros só aparecem para trabalhar! Para estes, a residência continua sendo nas longínquas periferias, nos amontoados de casas, nos cortiços, nas favelas, nos lugares de desmoronamento e enchentes.

Diante de tudo isso, nós Missionários Combonianos do Brasil Nordeste sentimo-nos provocados pelo testemunho de Jesus de Nazaré e pelo exemplo do nosso fundador Daniel Comboni, que doou sua vida para a vida da África. Queremos reforçar nossa causa comum com quantos são humilhados e discriminados pela cor da sua pele, pela vivacidade de seus costumes e celebrações e pelo seu modo de falar e de ser. Nos empenhamos a continuar nossa luta ao lado dos afrodescendentes do nosso País, do Continente e do Planeta inteiro, para que juntos possamos quebrar as barreiras históricas dos preconceitos e da exclusão em todos os espaços sociais.

Somos cientes que um ano não será suficiente para superar essas barreiras históricas, mas sabermos que o mundo todo estará lutando e conscientizando-se para combater o racismo nos anima a continuar a caminhar ao lado de nossos irmãos-ãs afrodescendentes!

Uma esperança: A Era do Ecozóico

Leonardo Boff

Quem leu meu artigo anterior 'O antropoceno: uma nova era geológica' deve ter ficado desolado. E com razão, pois, quis intencionalmente provocar tal sentimento. Com efeito, a visão de mundo imperante, mecanicista, utilitarista, antropocêntrica e sem respeito pela Mãe Terra e pelos limites de seus ecossistemas só pode levar a um impasse perigoso: liquidar com as condições ecológicas que nos permitem manter nossa civilização e a vida humana neste esplendoroso Planeta.

Mas, como tudo tem dois lados, vejamos o lado promissor da atual crise: o alvorecer de uma nova era, a do Ecozóico. Esta expressão foi sugerida por um dos maiores astrofísicos atuais, diretor do Centro para a História do Universo, do Instituto de Estudos Integrais da Califórnia: Brian Swimme.

Que significa a Era do Ecozóico? Significa colocar o ecológico como a realidade central a partir da qual se organizam as demais atividades humanas, principalmente a econômica, de sorte que se preserve o capital natural e se atenda as necessidades de toda a comunidade vida presente e futura. Disso resulta um equilíbrio em nossas relações para com a natureza e a sociedade no sentido da sinergia e da mútua pertença deixando aberto o caminho para frente.

Vivíamos sob o mito do progresso. Mas este foi entendido de forma distorcida como controle humano sobre o mundo não-humano para termos um PIB cada vez maior. A forma correta é entender o progresso em sintonia com a natureza e sendo medido pelo funcionamento integral da comunidade terrestre. O Produto Interno Bruto não pode ser feito à custa do Produto Terrestre Bruto. Aqui está o nosso pecado original.

Esquecemos que estamos dentro de um processo único e universal –a cosmogênese– diverso, complexo e ascendente. Das energias primordiais chegamos à matéria, da matéria à vida e da vida à consciência e da consciência à mundialização. O ser humano é a parte consciente e inteligente deste processo. É um evento acontecido no universo, em nossa galáxia, em nosso sistema solar, em nosso Planeta e nos nossos dias.

A premissa central do Ecozóico é entender o universo enquanto conjunto das redes de relações de todos com todos. Nós humanos, somos essencialmente, seres de intrincadíssimas relações. E entender a Terra com um superorganismo vivo que se autorregula e que continuamente se renova. Dada a investida produtivista e consumista dos humanos, este organismo está ficando doente e incapaz de "digerir” todos os elementos tóxicos que produzimos nos últimos séculos. Pelo fato de ser um organismo, não pode sobreviver em fragmentos mas na sua integralidade. Nosso desafio atual é manter a integridade e a vitalidade da Terra. O bem-estar da Terra é o nosso bem-estar.

Mas o objetivo imediato do Ecozóico não é simplesmente diminuir a devastação em curso, senão alterar o estado de consciência, responsável por esta devastação. Quando surgiu o cenozóico (a nossa era há 66 milhões de anos) o ser humano não teve influência nenhuma nele. Agora no Ecozóico, muita coisa passa por nossas decisões: se preservamos uma espécie ou um ecossistema ou os condenamos ao desaparecimento. Nós copilotamos o processo evolucionário.

Positivamente, o que a era ecozóica visa, no fim das contas, é alinhar as atividades humanas com as outras forças operantes em todo o Planeta e no Universo, para que um equilíbrio criativo seja alcançado e assim podermos garantir um futuro comum. Isso implica outro modo de imaginar, de produzir, de consumir e de dar significado à nossa passagem por este mundo. Esse significado não nos vem da economia, mas do sentimento do sagrado face ao mistério do universo e de nossa própria existência. Isto é a espiritualidade.

Mais e mais pessoas estão se incorporando à era ecozóica. Ela, como se depreende, está cheia de promessas. Abre-nos uma janela para um futuro de vida e de alegria. Precisamos fazer uma convocação geral para que ela seja generalizada em todos os âmbitos e plasme a nova consciência.

[Leonardo Boff é autor de ‘Cuidar da Terra - Proteger a vida’. Record, 2010].


Carta da Segunda Ampliada das CEBs rumo ao 13º Intereclesial

"Os pés dos romeiros são como lápis. Nós pobres, somos de poucas letras. Mas a gente também escreve com os pés. Só que pra ler essa escrita precisa de conhecer os chãos da vida e das estradas duras. E é preciso curtir o couro dos pés. Pezinhos de pele fina não deixam quase nada escrito nos caminhos da vida”. (Depoimento de um romeiro)


Irmãs e irmãos das CEBs do Brasil, Paz e Bem!

Nas terras do sertão do Cariri na cidade do Crato, os 17 regionais da CNBB, assessores, representante do CIMI, equipes de serviço, D. Adriano Ciocca - bispo referencial nacional das CEBs, Dom Fernando Panico, bispo do Crato, fomos acolhidos/as pela Diocese do Crato, anfitriã do 13º Intereclesial para a segunda ampliada das CEBs.

Iniciamos nossa reunião com a celebração do Ofício Divino das Comunidades e apresentação dos regionais, onde constatamos uma imensa alegria pela presença nesta ampliada. Em seguida tivemos uma análise de conjuntura sócio-politico-econômica animada pelo Pe. Manfredo Oliveira. Ele nos propôs 4 pontos: 1) situar o Brasil no mundo hoje; 2) quais os desafios; 3) como saímos das eleições; 4) o nascimento da nova classe média como preocupação para as CEBs. Pe. Manfredo nos alertou que há uma nova configuração do capitalismo rumo ao uma civilização técnico-científica, um novo modo de interpretar a vida e o próprio ser. E ainda que há um agente político novo, o conservadorismo religioso na política. Dessa conversa fica o desafio para nossas comunidades de como, diante dessa nova classe média, surgida dos projetos sociais do governo Lula, pensar um projeto de sociedade que não passe pelo neodesenvolvimentismo e pelo consumismo.

Na segunda parte do primeiro dia ouvimos Ir. Anette que nos falou sobre o tema "Religiosidade Popular e Romarias em Juazeiro do Norte”. Destacou que a romaria é sempre um ato de penitencia que dá sentido ao sofrimento do romeiro. Salientou ainda que a romaria é sempre animada por leigos/as e que os romeiros/as criam sua própria liturgia nos caminhos de Juazeiro. Lembrou que somos a religião do Caminho. Jesus disse: "Eu sou o Caminho”. Neste sentido os romeiros dão continuidade a esta tradição cristã.

Fizemos um trabalho por grande região onde retomamos a análise de conjuntura, estudando também um texto orientador sobre cristianismo de libertação. A plenária mostrou grandes preocupações das CEBs rumo ao 13º: ecumenismo nos intereclesiais, a discussão sobre o mundo urbano, a nova fala profética das CEBs na pós-modernidade, a ausência das bandeiras de luta, a militância político-partidária, a questão de gênero, a pouca presença da juventude nas CEBs, etc.

O segundo dia teve seu início com uma bonita celebração eucarística, onde colocamos no altar do Senhor nossos anseios por um mundo novo e a comunhão entre os diversos regionais na partilha da amizade e do pão eucarístico. Discutimos o texto-base, recolocando-o como um importante instrumento para estudo nas comunidades e campo de pesquisa para estudiosos que se interessam pela nossa caminhada. Vimos o Plano Pastoral da Diocese do Crato, rumo ao Intereclesial e ao centenário da diocese em 2014.

Zé Vicente, poeta popular cujas canções têm embalado nossa caminhada, nos propôs uma reflexão sobre a arte na vida das CEBs. Deixou-nos o desafio de pensar melhor nossas expressões artísticas sejam na culinária, nas canções, nas vestimentas, cartazes, poesias, etc. Ficamos com a questão: porque não criar um centro de acolhida e irradiação dessas diversas expressões artísticas que esteja sob a coordenação da própria organização das CEBs? Escolhemos o cartaz que divulgará o intereclesial em todo o Brasil e América Latina.

Tivemos uma bonita confraternização que expressou a cultura local e muito nos animou. No último dia de nosso encontro, foi alertado sobre a necessidade de continuarmos a discussão sobre a nossa relação com o Conselho Nacional de Leigos. A Ampliada decidiu realizar uma discussão mais aprofundada sobre a sua identidade e papel. Foi proposta a data de 23 a 29/01/12 para a realização do seminário e da 3ª Ampliada, partindo das reflexões feitas nos regionais. Tendo em vista os 100 anos da Diocese de Crato em 20 de outubro de 2014, decidimos mudar a data do 13º Intereclesial para os dias 07 a 11 de janeiro dando início ao ano de celebração do centenário. Solidários/as às vítimas das chuvas em todo o Brasil e em especial com as pessoas da cidade do Crato, que também sofreram com as fortes chuvas caídas durante nosso encontro, nos despedimos na certeza de que o Senhor que é nosso Caminho, continua conosco na caminhada de "Romeiros/as do Reino no campo e na cidade”

Em Crato no Ceará, realizou-se nos dias 27 a 30 de Janeiro 2011, uma grande plenária em preparação ao 13º Intereclesial, que acontecerá em 2014. Contou com a participação de representantes de todo o Brasil .

CALDEIRÃO DAS CEBs É O NOME DA GRANDE PLENÁRIA DO 13º

Durante os últimos Intereclesiais de CEBs a dinâmica vem sendo um dos fatores responsáveis pelo o êxito na transmissão da mensagem do Cristo Libertador. No rol de ações, a inculturação e o ecumenismo são assuntos que permeiam constantemente os encontros das CEBs Brasil a fora. A introdução da vida do povo nas liturgias e no processo organizacional do Intereclesial, vem sendo para a diocese Anfitriã, Crato, um trabalho de profunda dedicação, pois concentram-se em seu entorno a força de uma religiosidade popular, expressa através das romarias, que segundo Irmã Anette, só é compreendida por um olhar apurado do espaço e de espacialidade, que revela algo que não se confunde com alienação religiosa ou com práticas extremamente devocionais e supérfluas.

Foi sobre a compreensão da vertente sociocultural, religiosa e ecumênica que a Ampliada escolheu os nomes dos locais onde acontecerão os momentos de encontros do 13º Intereclesial no Crato. O local da grande plenária será ‘Caldeirão das CEBs’, aludindo a história da Comunidade do Caldeirão do Beato Zé Lourenço. ‘Rancho’ (escolas, ginásios etc.)será o local das mini-plenárias. Rancho é o local onde os romeiros ficam hospedados nos tempos de romarias em Juazeiro. ‘Chapéu’ (salas) foi o nome escolhido para os locais onde pequenos grupos se reunirão para discutirem e trabalharem os assuntos sugeridos durante o encontro.

2° DIA DA AMPLIADA DAS CEBs

A celebração eucarística marcou o inicio das atividades do terceiro dia da Ampliada Nacional das CEBs que está acontecendo na diocese de Crato, Ce. A equipe do secretariado apresentou uma proposta para elaboração do texto base do Intereclesial contendo a metodologia do Ver, Julgar e Agir, sugerindo artigos escritos por várias personalidades relacionadas com os trabalhos das CEBs, contemplando assuntos de grande relevância e de consonância com o tema e o lema do evento.
O cantor e poeta Zé Vicente, no período da tarde dissertou sobre a importância da arte na nas comunidades e apresentou uma proposta de construção de um projeto sobre “Arte nas CEBs”, para ser trabalhado de forma permanente. Trata-se de um conjunto de ações que visam o resgate da memória das CEBs e dinamização das mesmas através da pluralidade artística, a produção de novas músicas, a valorização do artista da caminhada dentre outros pontos.
No final da tarde os membros da Ampliada elegeram o cartaz do 13º Intereclesial e durante a noite participaram da confraternização com comidas típicas, apresentações artísticas culturais e o tradicional forró pé de serra.

AMPLIADA DAS CEBs INCIA COM ANÁLISE DE CONJUNTURA E A MÍSTICA DAS ROMARIAS EM JUAZEIRO

O Centro de Expansão da diocese de Crato no Ceará esta sendo mais uma vez o centro das atenções para as Comunidades Eclesiais de Base do Brasil, em virtude da realização de mais uma Ampliada Nacional de CEBs, que teve inicio ontem , quinta-feira, 27, e se encerrará no próximo domingo, 30.
Ontem pela manhã houve uma análise de conjuntura, feita pelo Padre Manfredo Oliveira, da Arquidiocese de Fortaleza. Na análise, foi destacado pontos norteadores para a compreensão da atual situação do Brasil. “Somos um pais com vários problemas, porém o problema atual de fundo é a relação homem e meio ambiente”, sublinhou Manfredo, que destacou o fenômeno ‘Lulismo’ como uma experiência política de forte ligação com o pobre.
No período da tarde, Irmã Annette Dumollium falou sobre os romeiros e a mística das romarias de Juazeiro do Norte, colocando em sua apresentação depoimentos fortes de expressões de fé dos romeiros.
“A romaria é penitencial, mas não é um sofrimento, é muito leve, não é um sofrimento imposto como a quele que vem do patrão para oprimir o empregado. Ela é uma terapia que dá sentido ao sofrimento", explica Irmã Annette, respostando as indagações sobre a relação da mística das romarias com a teologia da libertação.
As atividades de quinta-feira foram finalizadas na noite com a exibição de um vídeo sobre o Caldeirão do Beato Zé Lourenço.

Em Brasília, movimentos preparam ato contra construção da Usina de Belo Monte


O Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte ou de "Belo Monstro”, como também ficou conhecido, enfrentará amanhã uma nova manifestação contrária a sua construção. Após notícias de que o Governo brasileiro liberou a limpeza de uma grande área no coração da Amazônia para dar espaço à construção do canteiro de obras da hidrelétrica, indígenas, ambientalistas e demais populações afetadas decidiram apertar o cerco contra o Governo para exigir que parem Belo Monte.

Brasília, Distrito Federal, será o palco do grande ato contra Belo Monte e as mega-hidrelétricas na Amazônia. A manifestação está marcada para as 9h, no entanto, a concentração começa às 8h em frente ao Congresso Nacional. De acordo com Antonia Melo, coordenadora das mulheres do movimento Xingu Vivo Para Sempre, cerca de 200 pessoas deverão estar amanhã em Brasília para o ato.

No final da manifestação, após as intervenções de artistas, lideranças, indígenas e ambientalistas, um grupo será recebido por um representante da Presidência da República. Na ocasião, será entregue a agenda de reivindicações e as mais de 500 mil assinaturas presentes nas petições contra Belo Monte.

"Também será entregue uma carta direcionada a presidente Dilma em que estará explicada a inviabilidade do projeto, a violação aos direitos da população da Volta Grande do Xingu e das demais populações. Além disso, também vamos reivindicar que a matriz energética seja discutida conosco. A energia não é privatizada e por isso não pode ficar apenas nos gabinetes”, manifestou Antonia.

De acordo com a ativista, ainda é possível reverter a situação de Belo Monte, pois tudo o que foi feito até agora esteve a margem da legalidade. "A sociedade está sendo violada nos seus direitos, mesmo assim o Judiciário faz de conta que nada está acontecendo. Até agora, tudo o que foi realizado é ilegal. As condicionantes não foram cumpridas. Temos o direito de reivindicar o que está na legislação e acreditamos que caminhando na legalidade conseguiremos impedir Belo Monte”.

No dia 26 de janeiro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), liberou uma "Licença de Instalação Específica” que autoriza a construção dos primeiros canteiros e acampamentos da usina de Belo Monte. Um informe liberado pela Ibama dava conta de que a licença permitia ainda que a Norte Energia realizasse obras como a melhoria das estradas de acesso e a terraplanagem. Além disso, estava permitida a "supressão de vegetação de 238 hectares para a implantação do canteiro e acampamento do sítio Belo Monte”.

A nota provocou indignação nas populações afetadas e nos ambientalistas que lutam há mais de 20 anos contra a construção de Belo Monte. A rasteira dada pelo Governo não ficou sem resposta. De imediato, o Ministério Público Federal no Pará foi acionado e entrou em ação declarando que o início das obras é ilegal sem o cumprimento das condicionantes.

Com a mobilização de amanhã, será feita mais uma tentativa de reverter o processo de destruição de, pelo menos, 400.000 hectares da floresta, e a expulsão de mais de 40.000 pessoas, entre indígenas e ribeirinhos, que dependem do rio Xingu para sua sobrevivência.

"Convocamos todos os nossos parceiros e amigos, e todos aqueles que se sensibilizam com a luta dos povos do Xingu, a se juntar a nós, porque, mais que o nosso rio, está em jogo o destino da Amazônia”, manifesta a Convocatória dos movimentos sociais.

Natasha Pitts


Movimentos protestam contra a Usina Belo Monte nesta terça-feira

Centenas de indígenas, ribeirinhos, ameaçados e atingidos por barragens, lideranças e movimentos sociais da Bacia do Xingu e de outros rios amazônicos farão, nesta terça-feira, 8, em Brasília (DF), uma manifestação contra o Complexo Belo Monte e outras mega-hidrelétricas destrutivas na região. Os manifestantes exigem que o governo rediscuta a política energética brasileira, abrindo um espaço democrático para a participação da sociedade civil nos processos de tomada de decisão.

A concentração para o ato de protesto começa às 9hs, em frente ao Congresso Nacional. Após o protesto, uma delegação do movimento entregará à Presidência da República uma agenda de reivindicações e as petições contra Belo Monte.

O ato é organizado pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Instituto Socioambiental (ISA).


Fonte: CNBB

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Egito, gendarmes e revoluções populares

A onda de movimentos populares antiditatoriais, iniciada no Irã há 32 anos, reaparece de forma inesperada – como em 1979 – em uma região que o Ocidente tentou manter, até agora com êxito, à margem de qualquer contágio democrático. Washington, Tel Aviv e Riad movem agitadamente seus peões para evitar que o Egito se “extravie” ou, pior, se “perca”, como ocorreu com o Irã em 1979. Está certa a cadeia de televisão Al Jazeera ao qualificar o que está ocorrendo como “a batalha pelo Egito”. Nada poderia ser pior para certas potências estrangeiras que um renascimento do nacionalismo árabe e do espírito antiisraelense egípcio. O artigo é de Augusto Zamora.

No dia 1° de fevereiro de 1979, após meses de revoltas populares reprimidas brutalmente, o aiatolá Ruhollah Khomeini regressou ao Irã. Sua chegada assinalava a derrocada do regime ditatorial e pró-ocidental da família Pahlevi, instaurado no país após o golpe de Estado organizado pela CIA contra o governo nacionalista de de Mossadeq. No dia 1° de abril, depois de um referendum, Khomeini proclamava a República Islâmica do Irã, de caráter antiestadunidense. Poucos meses depois, em 19 de julho do mesmo ano de 1979, outra revolução popular, esta encabeçada por guerrilheiros sandinistas, derrubava a ditadura mais antiga da América, imposta também pelos EUA em 1934.

Na contramão das análises de seus serviços secretos e oficiais políticos, Washington contemplava impotente a derrubada de dois de seus regimes gendarmes, em regiões consideradas de vital importância: Golfo Pérsico e América Central. A “perda” do Irã rompia o cerco estratégico em torno da região do petróleo, formado por Turquia, ao norte, Israel, no centro, Arábia Saudita, no sul, e Irã, a oeste.

A reação não tardou. O temor de que o exemplo iraniano se estendesse por toda a região foi neutralizado com uma guerra de agressão. O regime de Sadam Hussein, armado até os dentes pelos EUA e Europa Ocidental e financiado pelas petromonarquias do Golfo, invadiu o Irã em setembro de 1980. Saddam era, então, o aliado do Ocidente dos regimes reacionários árabes. O objetivo da agressão bélica era destruir a república islâmica. Isso não ocorreu. Os oito anos de guerra fortaleceram a República Islâmica e assentaram as bases para que Sadam quisesse cobrar o inútil sacrifício do Iraque, anexando o Kuwait. A guerra fracassou, mas o “efeito islâmico” foi, efetivamente, neutralizado por décadas. Os EUA, por sua vez, fez do Egito o gendarme substituto do Irá e de Mubarak o novo Xá.

Na Nicarágua, os EUA organizaram um movimento contrarrevolucionário baseado na Costa Rica e Honduras, iniciando uma guerra criminosa – condenada pela Corte Internacional de Justiça, em 1986 – que acabou determinando o fracasso da Revolução Sandinista.

Não obstante, Washington tirou uma lição daquelas duas revoluções: entendeu que as ditaduras militares já não garantiam o controle de países chave. Podiam provocar o oposto, ou seja, servir de elemento aglutinador e mobilizador contra essas tiranias.

Iniciou-se, assim, uma nova política na América Latina, cujo núcleo central era a substituição das ditaduras militares por democracias controladas (pelos EUA). Ditadores e ditaduras foram caindo sem pressa, mas sem interrupção, na Argentina (1982), Chile e Paraguai (1989, onde o ditador Stroessner foi derrubado por seu genro), passando pelo Brasil (1985). No repique, acabou caindo também a ditadura de Ferdinand Marcos, nas Filipinas, em 1986, substituído por Cory Aquino, viúva do assassinado líder Benigno Aquino (fórmula seguida na Nicarágua, em 1990, contra o sandinismo, transformando em candidata a viúva do assassinado Pedro Joaquín Chamorro).

Estes acontecimentos vêm à tona porque a onda de movimentos populares antiditatoriais, iniciada no Irã há 32 anos, reaparece de forma inesperada – como em 1979 – em uma região que o Ocidente tentou manter, até agora com êxito, à margem de qualquer contágio democrático. Enquanto na América Latina se derrubavam as ditaduras, dando lugar a poderosos movimentos de mudança e ao ressurgimento da esquerda, no mundo árabe ocorria o contrário. Na Argélia, a vitória democrática da Frente islâmica de Salvação (FIS), em 1992, foi abortada por um golpe de Estado e uma sangrenta guerra civil, com 200 mil mortos. O triunfo legal e legítimo do Hamas, em Gaza, em 2006, foi respondido com um bloqueio imoral, seguido da criminosa agressão israelense de 2008.

Os tempos mudaram e, sem Guerra Fria, ninguém pode justificar golpes de estado ou invasões estrangeiras para sufocar com sangue revoltas populares, como a triunfante na Tunísia ou a que está em marcha no Egito e que começa a se espalhar por outros países.

Mas o Egito não é a Tunísia. País gendarme na região mais volátil do planeta e contraponto muçulmano ao crescente poder e influência do Irã, o Egito é a peça mais estratégica da região, depois de Israel. Por isso, o levante popular egípcio não seguirá a rota relativamente fácil do tunisiano. Por trás das massas rebeladas, Washington, Tel Aviv e Riad movem agitadamente seus peões para evitar que o Egito se “extravie” ou, pior, se “perca”, como ocorreu com o Irã em 1979. Está certa, portanto, a cadeia de televisão Al Jazeera ao qualificar o que está ocorrendo como “a batalha pelo Egito”.

O retorno de Mohamed Al Baradei foi uma jogada dirigida com o objetivo de ter disponível um eventual substituto moderado (um “Cory Aquino” egípcio), caso se torne urgente a saída de Mubarak, como ocorreu nas Filipinas, em 1986, ou no Paraguai, em 1989. Al Baradei reúne bons requisitos para sucedê-lo. É moderado, respeitado, de direita, próximo ao Ocidente. Um personagem gatopardiano, que mudaria tudo sem mudar nada, sobretudo o papel de policial desempenhado pelo Egito na região.

Nada poderia ser pior para certas potências estrangeiras que um renascimento do nacionalismo árabe e do espírito antiisraelense egípcio, em cujo sepultamento Mubarak teve um papel essencial.

O estabelecimento de sistemas verdadeiramente democráticos, por mais que se fale deles, tira o sono de várias potências ocidentais, porque, parafraseando a frase de Kissinger sobre o Chile, em 1973, os povos tendem demasiadas vezes a atuar irresponsavelmente, elegendo personagens duvidosos (como Allende). O caso da FIS, na Argélia, e o êxito do Hamas, em Gaza, demonstram que, deixados ao seu livre arbítrio, os povos podem votar perigosamente. Olhem a América Latina, que, após uma onda de sucessivas revoltas populares nos anos 90, se cobriu de um encantador – e incômodo – tom vermelho-rosado democrático, com povos que são, afinal, donos de seus países.

(*) Autor de Ensayo sobre el subdesarrollo: Latinoamérica, 200 años después.

(**) Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.


Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior