Loading...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Reconhecido como morto político pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Nativo Natividade de Oliveira

Natividade e sua mulher, Maria de Fátima, faziam parte das comunidades
eclesiais de base, CEBs, e eram taxados de "subversivos" e "causadores de
agitação"



A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), deferiu, por unanimidade, em votação simbólica durante reunião no último dia 13 de dezembro o caso de Nativo Natividade de Oliveira, líder sindical dos trabalhadores rurais assassinado em Carmo do Rio Verde (GO) em 1985. Com isso, Nativo Natividade ganhou o status de morto político e sua família terá direito à indenização, conforme prevê a lei 9.140/95.

O caso chegou a ser previamente indeferido em 26 de agosto em 2004. A reanálise foi possível a partir de novos documentos enviados pela família. Na análise de 2004, já estava claro que Nativo Natividade exerceu atividade de militância política desde o ano de 1973 até sua morte em 1985. Os novos documentos obtidos pelas diligências realizadas pela família comprovam as circunstâncias de sua morte, que se deu por motivações políticas.

Atuação política - Nativo Natividade de Oliveira foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carmo do Rio Verde, estado de Goiás, de 1982 a 1985. Foi assassinado em 23 de outubro de 1985 no mesmo município depois de sofrer inúmeras ameaças de morte. De acordo com depoimento de Dom Tomás Balduíno, bispo de Goiás Velho em 2004 e cuja diocese abrange Carmo do Rio Verde, Nativo Natividade e sua mulher, Maria de Fátima, faziam parte das comunidades eclesiais de base e eram taxados de "subversivos" e "causadores de agitação".

O relatório do caso consta do livro Direito à Memória e à Verdade, lançado em 2007 pela SDH/PR. Também é um dos casos relatados no livro "Retrato da Repressão Política no Campo - Brasil 1962-1985", lançado hoje (30) e produzido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos.

30/12/2010

“DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA MAIS PROFÉTICA E DIALOGAL"


Dom Aloísio Lorscheider, cardeal franciscano falecido em 23 de dezembro de 2007, alertava em suas reflexões sobre a necessidade de a Igreja Católica ser preferencialmente "dialógica" e "atualizadora". Há explícito, nas palavras do bispo, uma crítica ao retorno centralizador de Roma pelas mãos do papa João Paulo II e o então cardeal Joseph Ratinzinger. O religioso brasileiro, no último ano de vida, reafirmava sua extrema decepção com o sufocamento dos avanços conquistados no Concílio Vaticano II(...)

"Nós de fato achamos que nestes últimos anos voltamos para a era pré-conciliar. E há toda uma tendência nesta linha. E, às vezes, a gente sente isto até na celebração da eucaristia. Há uma tendência de querer voltar a celebrar até de costas para o povo. O motivo que se alega para tanto é que o celebrante estaria se dirigindo a Deus e que o outro modo (conciliar) seria muito horizontal", reclamava dom Aloísio.

O recrudescimento à linha de atuação "vertical" de Roma (pós João XXIII e Paulo VI), segundo Lorscheider, trouxeram de volta o erro da supervalorização da Igreja como estrutura e do culto aos títulos honoríficos. O retorno ao "institucionalismo" em desfavor do incentivo ao protagonismo dos leigos precisa ser mais discutido e analisado pelas forças vivas da Igreja. Poderíamos nos perguntar: Que modelo de Igreja queremos construir? Uma Igreja essencialmente comunitária, missionária e profética ou uma Igreja tradicionalista, alienante e desvinculada das lutas populares?

Em entrevista ao jornal "O Povo", dom Aloísio não poupa críticas a pelo menos três documentos da Igreja, ao medo de Roma em permitir o ensino da teologia a leigos (principalmente leigas) e à formação precária de padres no Brasil. "Predomina muito mais o perfil tradicional, o padre que sempre existiu. Não existe, por exemplo, um perfil mais missionário. Existe o padre de sacristia, sacramentalista. Sacerdócio como fermento de massa, sal para o mundo, luz da terra, este se vê pouco presente".

Sete aspectos devem ser levados em conta, segundo as palavras do cardeal, para que a Igreja exerça com eficácia a sua missão evangelizadora neste mundo secularizado:

1 – “Nós ainda não conseguimos formar pessoas livres, responsáveis, conscientes. A ideia de que nós criamos a história e de que cada um contribui para escrever esta história é sumamente importante para ajudar as pessoas a crescerem. Pessoas livres, pessoas francas – isso deveria existir também na Igreja: no meio da comunidade eclesial deveria haver mais possibilidade de ser franco e de opinar, de não ter medo. Existe um certo analfabetismo que não consiste apenas em não saber ler e escrever, mas em não possuir um senso crítico da vida.”

2 – “Devo mencionar uma das grandes tendências mundiais que é o do ‘secularismo’, que é a visão do mundo e do homem que exclui a necessidade de recorrer à transcendência ou à religião para fundamentar as instituições sócio-políticas. Devemos manter a noção cristã de ‘encarnação’, isto é, a crença de que nós contemplamos a graça, a verdade e a glória da divindade ligada à humanidade, de que Deus mesmo armou sua tenda em nosso meio.”

3 – “Outra tendência mundial é a do ‘relativismo ético’: inúmeras pessoas hoje consideram as noções de ‘certo’ e ‘errado’, de ‘bem’ e ‘mal’ passíveis de interpretações subjetivas. Alguns chegam a negar qualquer possibilidade de afirmar valores universais. Devemos procurar visar melhor o equilíbrio, a harmonia entre a normatividade objetiva – válida para os coletivos humanos – e as máximas subjetivas, válidas para a minha conduta particular.”

4 – “Estamos diante do desafio de repensar, na América Latina, a tal da globalização. Pois, simultaneamente à globalização das estruturas econômicas ocorre a imposição global de uma única cultura materialista e consumista que está suplantando, lentamente, as diversas culturas tradicionais dos povos.”

5 – “Ao invés de um consumismo acrítico a desenfreado, necessitaremos promover uma distribuição eqüitativa dos bens deste mundo. Este desafio nos remete à doutrina social da Igreja, a qual poderá fornecer alguns princípios básicos para um engajamento nesta direção. Paz e tranquilidade serão frutos de um esforço maior por justiça social. Devemos ser capazes de globalizar a solidariedade, de fazer das necessidades dos que mais sofrem a pauta principal dos grandes encontros políticos. Lemos em Atos, cap. 4: ‘Não havia necessitados entre eles’, o que poderia ser um princípio ético muito precioso, uma meta para toda a humanidade perseguir rumo a uma maior unidade e integração.”

6 – “Nós, católicos, devemos ser muito mais divulgadores do evangelho social! É claro que a situação econômica social tão discriminatória depende, em grande parte, dos governos, dos empresários, dos banqueiros etc., mas depende – talvez em escala menor – também de nós, da Igreja Católica! Os cristãos católicos não evangelizam como deveriam evangelizar.”

7 – “Precisamos refletir – filosoficamente, teologicamente, não importa! – contanto que nossa reflexão seja guiada por problemas e realidades bem concretas. Devemos ser capazes de perceber e interpretar os sinais dos tempos. Consequentemente a nossa maneira de evangelizar deve ser a do engajamento e do diálogo (escutar mais e falar menos), que, no fundo, significa testemunho. Evangelizar quer dizer dar testemunho de uma vida mais autêntica – a vida em Cristo, a vida na Graça.”

À luz do Evangelho de Jesus Cristo e das palavras de dom Aloísio Lorscheider, construamos um novo modelo de ser Igreja, cada vez mais comprometida com os pobres e excluídos desta sociedade, aberta a ação do Espírito Santo e firme na luta pela construção do Reino de Deus.


Fonte: Conselho do Laicato da Diocese de Tianguá

Vaticano: Nova lei contra reciclagem e financiamento ao terrorismo

As posições do Papa e da Santa Sé são divulgadas poucas semanas depois de os tribunais italianos terem ordenado “sequestro” de 23 milhões de Euros do Instituto para as Obras Religiosas (IOR), instituição bancária do Vaticano, considerando que o mesmo teria omitido a identificação dos beneficiários e a razão para as movimentações de capital.

Foi publicada nesta quinta-feira a Carta Apostólica sob forma de "Motu Proprio" para a prevenção e o contraste das atividades ilegais em campo financeiro e monetário.

"Infelizmente, em nossos dias, numa sociedade sempre mais globalizada, a paz é ameaçada por diversas causas, entre as quais, a de um uso impróprio do mercado e da economia; e a causa – terrível e destruidora – da violência que o terrorismo perpetra, causando morte, sofrimentos, ódio e instabilidade social" – escreve Bento XVI.

Por isso, a Santa Sé "aprova" o empenho da comunidade internacional ao dotar-se de "princípios e instrumentos jurídicos" contra "o fenômeno da reciclagem e do financiamento ao terrorismo", e "pretende fazer suas essas regras na utilização dos recursos materiais que servem para a realização da sua missão e das tarefas do Estado da Cidade do Vaticano" – afirma o Papa.

As novas medidas, emanadas com a execução da Convenção Monetária entre o Estado da Cidade do Vaticano e a União Européia de 17 de dezembro de 2009, são quatro: a lei contra a reciclagem de dinheiro oriundo de atividades criminosas e o financiamento ao terrorismo; a lei sobre a fraude e falsificação de cédulas e moedas em euro; e duas leis em matéria de cédulas e moedas em euro.

"O processo de elaboração" dessas leis – refere um comunicado da Secretaria de Estado – "foi conduzido com a assistência do Comitê misto... composto por representantes do Estado da Cidade do Vaticano e da União Européia."

As normativas – precisa o comunicado – não dizem respeito "meramente ao Estado da Cidade do Vaticano", mas também à Santa Sé, "ordem distinta da do Estado da Cidade do Vaticano – à qual pertencem entidades e organismos que operam em vários campos", entre os quais também o Ior, o Instituto para as Obras de Religião, reconfirmando, desse modo, o compromisso deste último "a agir segundo os princípios e os critérios internacionalmente reconhecidos".

Ademais, o comunicado ressalta a constituição da Autoridade de Informação Financeira (Aif), "Organismo autônomo e independente com incisivas tarefas de prevenção e contraste da reciclagem e do financiamento ao terrorismo em relação a todo sujeito, pessoa física ou jurídica, entidade e organismo de qualquer natureza do Estado da Cidade do Vaticano, dos dicastérios da Cúria Romana e de todos os organismos e entidades dependentes da Santa Sé.

A Aif, cujo presidente com os membros do Conselho diretor são nomeados pelo Papa, é chamada a vigiar sobre o respeito das "novas e importantes obrigações de antirreciclagem e de antiterrosismo a partir de 1º de abril de 2011, data da entrada em vigor da Lei.

A nova normativa – conclui o comunicado da Secretaria de Estado – se inscreve no compromisso da Sé Apostólica na edificação de uma convivência civil justa e honesta. Por isso, de modo algum podem ser deixados de lado ou atenuados os grandes "princípios da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade" (cfr. Bento XVI, Encíclica Caritas in veritate, n. 36)

Fonte: Rádio Vaticano

PJ - Projeto de vida - À procura de um tesouro

"Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável" (Sêneca). Convidamos você a navegar, em algumas linhas da vida, para uma conversa sobre como temos recebido os ventos que a vida nos oferece. Que rumos minha vida tem tomado de acordo com o curso, a rota, ou melhor, conforme o projeto de minha existência?

O mundo globalizado, motivado pelos interesses pessoais, enfraquece as relações sociais, as instituições e, também, os compromissos duradouros. Nesse contexto reina o individualismo, o consumo, o prazer subjetivo de uma sociedade midiática, norteada pelos reality shows que se espalham nos meios de comunicação, baseada na imagem, no que você aparenta. Talvez por esses e outros motivos encontramos tantos(as) jovens em depressão, envolvidos(as) com a violência, o tráfico, e com o extermínio de jovens.

O mapa

Queremos convidá-lo(a) para o desafio de navegar com um destino. Imagine que encontrou um mapa e este o leva a navegar até um tesouro escondido em uma ilha desconhecida. O tesouro transformará sua vida, irá organizá-la para a felicidade e fazer com que outras pessoas sejam felizes. Contribuirá com a organização dos diversos aspectos de sua vida, sejam eles pessoais, profissionais, sociais, afetivos...

O tesouro escondido chama-se Projeto Pessoal de Vida (PPV). Iremos ao encontro de uma proposta que busca a profundeza do ser humano, um caminho de opções processuais e de constante discernimento. Com a certeza de tomar decisões com liberdade, responsabilidade e compromisso. Contudo um caminho dinâmico e que necessita de revisão e reelaboração, sempre que necessário. O PPV fará com que navegue por um curso reflexivo a partir do corpo (nosso ser material), do espírito (o existencial e o psíquico) e a relação com mundo interior. Na relação com essas três dimensões, teremos a possibilidade de dialogar e relacionar-se conosco mesmos(as), com o outro, o ecossistema, o transcendente, buscando o sentido e o horizonte de nossa vida.

Os passos

Decisão: momento de refletir e analisar se realmente quero ter um projeto pessoal de vida, se quero navegar contra a correnteza, com posturas diferenciadas.

Elaboração: momento de colocar a "mão na massa", escrever minha história, para que possa ter-me em minhas próprias mãos. Descrever: Onde e como estou? Quais são os meus sonhos (pessoais, sociais, familiares, acadêmicos, profissionais...)? Que decisões e ações efetivas são necessárias para que esses sonhos se concretizem? Onde e como devo atuar no cotidiano para alcançar meus sonhos? É um momento de olhar o caminho, de fazer o encontro com você mesmo, de clarear o processo a ser feito, em vista de uma missão que propõe a doação e a entrega da vida em prol da felicidade plena - sua e dos que o cercam.

Acompanhamento: ao elaborar seu projeto de vida, é importante que escolha uma pessoa com mais idade, que tenha uma história e uma relação com você. Seja alguém em quem confie e a quem você esteja disposto a entregar sua vida, sua história, para que ele(a) possa contribuir no processo de acompanhamento e escuta do caminho que está trilhando.

Revisão: o projeto de vida só será eficaz se for revisto de tempos em tempos, revisitado sempre que a vida passar por mudanças e, se necessário, ser elaborado levando em consideração o contexto vivido.

É necessário esclarecer que o projeto de vida pode ser feito da maneira que achar melhor, sendo criativo e simples, ao mesmo tempo. Faça da forma como seu coração mandar. Utilize apenas papel e caneta. Faça algo com fotografias, recortes, desenhos. Mescle os dois, enfim, fique à vontade!

Não podemos deixar de dizer que muitos ventos tentarão levá-lo para outros destinos. Citamos a superficialidade, a dificuldade de entrar em nossa vida, o consumo enraizado que nos faz colocar na balança os valores de nossa existência, a falta de tempo e dificuldade de ter prioridades, a falta de horizontes, a ausência de espaços para atuar e fazer acontecer o nosso projeto e a escassez de pessoas dispostas a nos acompanhar.

Os desafios gerarão em nós diversas crises. Momentos que podemos chamar de ostra, nos quais nos recolheremos para olhar fundo em nosso ser. É nessa dinâmica que serão geradas as pérolas para enriquecer a nossa vida, transformar nosso projeto e embelezar o nosso navegar. Faz-se necessário, cada vez mais, a existência de pessoas conscientes e comprometidas com a vida.

Verbo ser


(Carlos Drummond de Andrade)

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?

Ser; pronunciado tão depressa,
E cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Questões para debate:

1 - Você concorda com os autores de que há momentos em que parecemos "ostras"? Você já passou por isso?
2 - Que sentimento a poesia de Carlos Drummond de Andrade desperta em você?
3 - Por que há necessidade de se fazer um projeto de vida?

Raquel Pulita Andrade Silva,
Comissão Nacional de Assessores(as) da Pastoral da Juventude e Analista Pastoral da Província Marista Brasil Centro-Norte.
Endereço eletrônico: rp0706@gmail.com
e
Joaquim Alberto Andrade Silva,
Assessor da Equipe Nacional do Teias de Comunicação da Pastoral da Juventude, analista da UMBRASIL.
Endereço eletrônico: joaquimaasilva@gmail.com
Teias da Comunicação - www.pj.org.br
Msn: joaquimaasilva@hotmail.com
Skype: joaquimaasilva
Twitter: @joaquimaasilva
Celular: (61) 9214-7664
Chega de Violência e Extermínio de Jovens! - www.juventudeemmarcha.org

[Artigo publicado no jornal Mundo Jovem, edição nº 413, fevereiro de 2011, página 7.
http://www.mundojovem.com.br/artigo-projeto-de-vida-a-procura-de-um-tesouro.php
http://www.pj.org.br/artigos.php?op=ExibeArtigo&idArt=37]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tema de samba enredo provoca ira dos racistas em São Paulo

Apenas por que a Escola de Samba Academicos do Tucuruvi optou por um samba enredo cujo titulo é: “Oxente, o que seria da gente sem essa gente? São Paulo: a capital do Nordeste!” a escola recebeu oito emails ofensivos e ameaçadores de xenófobos paulistas que parecem não ter aprendido nada com a repercussão negativa de atitude parecida de Mayara Petruso a infeliz que resolveu recomendar que matem nordestinos.

Dessa vez os xenófobos imbecis chegam ao ponto de ameaçar a escola e o texto de um dos emails diz o seguinte: “Vou dar um aviso: na primeira ameaça que alguém receber de qualquer verme dessa escola de samba, a coisa vai ficar preta".

Um outro xenófobo menos belicoso - como se existisse - consegue vomitar o seguinte: "Eu, como paulistano, tenho nojo dessa escola de samba e seu samba enredo. Assim como vários paulistas e paulistanos, repudio este enredo nojento e absurdo. Querem exaltar o Nordeste, desfilem por lá”.

Observem que o idiota diz ter nojo por ser paulistano, talvez não o tivesse se ele fosse goiano ou gaucho, donde se deduz que esse luminar da sabedoria humana restringe apenas aos abençoados nascidos em solo paulista a exclusividade do saber, da cultura, da riqueza e da diversão, ou seja, o mundo não pode existir se tudo não for uma exaltação à São Paulo. Talvez quem sabe ele faça uma exceção aos Estados Unidos da América do Norte, com quem ele deve estar acostumado a falar fino.

Triste e parodoxal esse nosso mundo. Nos dias atuais em que tantos esforços se fazem na busca de soluções que caminhem na direção do justo usufruto da vida, das benesses da natureza, justo quando mais se discute meios de preservar o planeta, exatamente por que cada vez mais se entende que tudo que existe por aqui além de vital é de direito de todos, ainda existem idiotas desse naipe - e que não são poucos - que não param de olhar para os próprios umbigos a julgarem-se o centro do universo. É de dar dó. Nunca sairão de seus quintais, por medo de descobrirem que o Brasil e o mundo podem perfeitamente funcionar sem São Paulo. Aliás podem funcionar não, funcionam de verdade.

Ainda bem que os dirigentes da escola já tomaram providencias para reprimir essa idiotice encaminhando as mensagens para a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

E se por acaso no próximo carnaval eu estiver em São Paulo quem sabe vou até o Sambodromo enrolado na bandeira paulista só para aplaudir de pé o desfile dessa escola!

Jonas de Carvalho

do Blog do Miro




Tucanos privatizam a saúde em São Paul



Na véspera do feriado de Natal e usando o velho método do rolo-compressor, a bancada governista da Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou em 21 de dezembro, por 55 votos a 18, o projeto de lei 45/10, que permite às chamadas Organizações Sociais (OS) a venda de 25% dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo até os leitos hospitalares, para os planos privados de saúde e os hospitais particulares. Votaram contra as bancadas do PT e do PSOL, um deputado do PDT e outro do PR.

Instinto privatista dos tucanos

O projeto representa mais um passo no rumo da privatização do setor. Com sua política ortodoxa do “ajuste fiscal”, o tucanato reduziu drasticamente os investimentos na área. Pelo firmado no Sistema Único de Saúde (SUS), uma conquista da sociedade – consagrada na Constituição de 1988 e que passou a vigorar somente em 2000 –, os estados devem aportar, no mínimo, 12% das suas receitas líquidas no. São Paulo, apesar de ser o estado mais rico da federação, não cumpre este obrigação.

Para driblar os 12% fixados na Constituição, os governos tucanos baixaram decreto ampliando o conceito sobre investimentos na saúde, incluindo gastos na Agricultura, Gestão Pública e até na Justiça. No orçamento de 2010, os investimentos específicos na saúde foram de apenas 9,6% da receita. Com esta manobra contábil, os recursos são desviados para outros fins. Entre 2001 e 2009, o governo deixou de aplicar R$ 4,1 bilhões na saúde pública. Esse montante seria o suficiente para construir 82 hospitais.

Terceirização criminosa

Os tucanos também inventaram as chamadas OS. Sem licitação pública ou mecanismos rígidos de fiscalização, o que abre brechas para maracutaias, estas estranhas “organizações sociais” administram hoje 23 hospitais, todos os laboratórios e mais de uma dezena de ambulatórios especializados. Em 2010, elas receberão R$ 1,96 bilhão (51,2% da verba total do setor), enquanto todo o restante gerido diretamente pelo estado receberá R$ 1,87 bilhão (48,8% da verba pública).

Não há qualquer garantia de que estes recursos públicos sejam usados integralmente no atendimento à população. Parte é utilizada para engordar os lucros dos novos capitalistas do setor e, suspeita-se, outra parte serve para financiar as campanhas tucanas. Enquanto isto, a população sofre com o péssimo atendimento e os servidores têm os seus salários arrochados. A piora dos indicadores na área da saúde em São Paulo é a prova desta tragédia tucana.

Piora nos indicadores

Em 2001, 2002 e 2006 ocorreram epidemias de dengue e a infecção pelo mosquito foi registrada em 75% das cidades – em 249 municípios. A própria Secretaria de Saúde estima a existência de 580 mil portadores crônicos do vírus da hepatite B e 420 mil de hepatite C. Há também deficiências nos programas de vigilância sanitária, vacinação, combate às endemias e no controle e uso do sangue. Já o número de leitos hospitalares teve queda de 11,5% na sua ocupação entre 2003 e 2006.

Ao mesmo tempo, cresce o número de doenças decorrentes da falta de saneamento, em especial na região metropolitana. As doenças diarréicas passaram de 403 mil, em 2004, para 617 mil, em 2007. A piora geral nas condições de saúde decorre do baixo investimento neste setor. São Paulo até possui uma extensa rede do SUS de serviços ambulatoriais e hospitalares, com mais de 4 mil unidades básicas, 1.277 unidades de atendimento de especialidades e 680 hospitais. Mas toda ela tem sido sucateada nos últimos anos, o que ocasiona a redução dos atendimentos.

A cumplicidade da mídia

Esse processo acelerado de privatização, que agora será agravado com a venda de até 25% dos serviços do SUS, é criminoso. Como afirma o deputado estadual Adriano Diogo (PT), integrante da Comissão de Higiene e Saúde da Assembléia Legislativa, “a nova lei das OS reduzirá mais o já precário atendimento hospitalar da população pobre. É a expansão da quarteirização dos serviços públicos de saúde no Estado de São Paulo”.

A mídia burguesa, a maior parte dela sediada na capital paulista e que mama nas tetas dos governos tucanos que há mais de 16 anos mandam em São Paulo, deu pouco destaque a esse golpe de enorme gravidade. O assunto não foi manchete nos jornalões e revistonas conservadores e nem mereceu comentários dos “colunistas” das TV. Não é para menos que a mídia apoiou o “vampiro” José Serra. Caso fosse eleito, ele poderia tentar implantar o projeto de privatização da saúde em todo o Brasil – para alegria dos neoliberais.


Altamiro Borges

Balanço 2010 : Cenário Mundial de incertezas



I- O fantasma da crise econômica

1- Os trabalhadores do mundo inteiro acompanharam, tensos e temerosos, a crise que se abateu sobre a economia capitalista desde a falência do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Afinal, em todas as recessões econômicas, sejam nas mais suaves ou nas mais profundas, os que vivem do trabalho são sempre as principais vítimas, com a explosão do desemprego, o arrocho dos salários e a precarização trabalhista.

No caso desta crise, ela teve um agravante. Ela começou no coração do sistema capitalista, nos EUA – e não na sua periferia. Detonada a partir do estouro da bolha especulativa no setor imobiliário, o chamado subprime, ela logo atingiu o setor financeiro, levando à falência centenas de bancos. Na sequência, indústria e comércio sentiram seu impacto, cuja concordata da GM foi o caso mais grave. Diferente das crises cíclicas anteriores, esta foi e ainda é uma crise estrutural e sistêmica, cujos efeitos deverão ser mais prolongados e destrutivos.

2- No rastro devastador da crise, que logo contaminou as economias “avançadas” da Europa e do Japão, cerca de 16 milhões de trabalhadores foram sumariamente demitidos e inúmeros governos reduziram investimentos nas áreas sociais e impuseram leis de precarização trabalhista. Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que apenas nas 20 maiores economias do planeta o desemprego ceifou 6 milhões de postos na indústria, 3 milhões na construção civil e 2,3 milhões no comércio.

Culpados pela crise, os capitalistas novamente jogaram seu ônus nas costas dos assalariados. Numa prova de cinismo, eles rasgaram os dogmas neoliberais, que pregavam o desmonte do Estado, da nação e do trabalho e que foram os culpados pela eclosão da recessão. O poder público, antes satanizado e reduzido a “estado mínimo”, foi acionado para salvar avarentos capitalistas. George W. Bush e Barack Obama saquearam dos cofres públicos trilhões de dólares para socorrer bancos, indústrias e comércio. Para os ricaços, tudo e com célere urgência; para os trabalhadores, o brutal ônus da crise – como sempre ocorreu no sistema de exploração capitalista.

3- A grave retração mundial confirmou que o capitalismo é um sistema de crises periódicas. Elas fazem parte da sua dinâmica, com todas suas chagas sociais. Mas também revelou que o sistema não cai de maduro. Ele desenvolveu mecanismos para se safar do completo colapso. No auge da crise, em meados de 2009, muitos analistas sonharam com reformas do sistema, com a adoção de medidas de controle de agiotagem financeira e de maior justiça social. Mas isto não ocorreu. O capitalismo mantém a sua dinâmica de exploração do trabalho, de concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e de especulação rentista.

A crise não foi terminal, como muitos previam. Mas ela também ainda não está superada, como os apologistas do capital agora bravateiam. Nas potências capitalistas, ela continua causando instabilidade política e enorme insegurança para os trabalhadores. Na maior parte da periferia do sistema, seus efeitos ainda são sentidos, inclusive nos países da América Latina mais dependentes do mercado externo. Os sinais de novos repiques da crise mundial ainda assombram os povos, como um fantasma que ronda o mundo capitalista.

4- No livro “A queda livre”, ainda não traduzido no Brasil, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz demonstra que a elite capitalista ainda está distante de enfrentar os gargalos que levaram a mais brutal crise do sistema das últimas décadas. Na prática, o egoísmo capitalista encara como “uma nova normalidade” o desemprego alto, o baixo crescimento da economia e o desmonte dos serviços públicos. Eles já tratam como natural a chamada “doença japonesa”, que afeta este país há vários anos, explica o ex-economista-chefe do Banco Mundial.

Para manter seus privilégios, os ricaços exigem cortes nos gastos sociais para que sobre mais dinheiro dos tributos na salvação desta minoria de parasitas. Stiglitz analisou as medidas adotadas nos primeiros oito meses deste ano e chegou à conclusão que a crise capitalista vai ser prolongada, com enormes prejuízos aos trabalhadores – cortes de salários, demissões em massa, retirada de direitos trabalhistas, redução de investimentos nas áreas sociais. A anarquia capitalista cobra seu preço no coração do sistema.

5- Nos EUA, epicentro da crise, o desemprego alcançou o recorde histórico de 10% em 2009 – o dobro de 2008. O déficit público, decorrente do salvamento aos poderosos, já engoliu US$ 12,36 trilhões do erário e o Orçamento para 2011 prevê cortes de US$ 1,6 trilhão nos gastos sociais – o que agravará o drama de milhões de miseráveis deste país símbolo do capitalismo. O socorro até agora dispensado às poderosas corporações ainda não surtiu efeito. Em abril último, a comissão de valores mobiliários dos EUA (SEC) acusou os 19 maiores bancos do país de usarem artifícios contábeis para desviar fortunas dos cofres públicos. Já a auditoria federal teme pela capacidade de sobrevivência da GM, apesar dos US$ 13,4 bilhões que garfou da União.

Na Europa, o quadro é ainda mais grave. A Grécia faliu e outros primos pobres da continente, como Portugal, Irlanda e Espanha, estão no buraco. Para o Banco Central Europeu, há forte risco de “novas turbulências econômicas”. “Podemos já ter entrado na próxima fase da crise”, afirma Jürgen Stark, executivo do BCE. Algumas economias inclusive já ameaçam abandonar a moeda única da região, o Euro.

6- Já nos países mais frágeis do sistema, na África e na maior parte da Ásia e da América Latina, o impacto da crise mundial é devastador. A miséria é uma tragédia social que se alastra. Recente relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) comprova que o número de pessoas que passam fome no mundo beira um bilhão em decorrência da crise capitalista.

“Nunca houve tanta gente passando fome no mundo”, garante Gustavo Chianca, representante da FAO. Crianças com menos de dois anos compõem a metade do contingente que padece na subnutrição. Dos 122 países pesquisados, 29 deles, principalmente no Sul da Ásia e na África Subsaariana, têm níveis de fome descritos como “extremamente alarmantes”. Enquanto o dinheiro público escoa para salvar os ricaços, os pobres são abandonados pelo capitalismo – sem comida, sem saneamento básico, sem trabalho... sem perspectiva de futuro.

7- Como em outros momentos históricos, a grave crise das maiores economias capitalistas abriu espaço para o crescimento de alguns países da periferia do sistema – o que reforça a tese de que, na lógica do desenvolvimento combinado e desigual do capitalismo, a crise pode se tornar uma janela de oportunidades. Isto é que explicaria a situação distinta do chamado Bric, que reúne as economias do Brasil, Rússia, Índia e China.

Segundo previsões do Banco Mundial para 2010, a China terá um crescimento de quase 10% no seu PIB; a Índia pode beirar os 7%; e o Brasil deve superar os 6%. A Rússia, que foi destruída pela restauração capitalista, é que apresenta maiores dificuldades – mesmo assim, ela está em melhores condições do que várias potências capitalistas. Um dos segredos desta situação favorável dos Bric é que estas nações não seguiram o receituário neoliberal imposto pela ditadura financeira – de desmonte do estado, da nação e do trabalho. Elas ainda possuem empresas estatais fortes, bancos públicos de peso, maior capacidade dos governos de regulação e indução econômica e mercados internos protegidos. A negação do neoliberalismo foi decisiva para que estes países fossem os últimos a entrar em crise e os primeiros a sair dela.

II- Instabilidade política e ofensiva belicista

8- A grave crise promoveu alterações no quadro político mundial, o que tem reflexos na luta dos trabalhadores. Nos EUA, a retração econômica e a agressiva política externa de George W. Bush foram responsáveis pela eleição do primeiro presidente negro desta nação racista. Barack Obama foi eleito com a promessa de mudança, mas até agora só causou decepção. Tanto que seu índice de popularidade já despencou – de 72% na posse para menos de 50% na atualidade.

Vacilante, ele não enfrentou o poderoso complexo financeiro/industrial/militar, bancou trilhões de dólares para os rentistas e abrandou até a sua reforma do sistema de saúde. No campo externo, Obama segue os passos genocidas de Bush. Ele reforçou a ocupação militar do Afeganistão, apóia Israel contra os palestinos e, o mais preocupante, dá fortes sinais de uma nova escalada militar – com o risco de guerras contra Irã e Coréia do Norte, o que pode lançar a humanidade numa completa barbárie de conseqüências desastrosas. Historicamente, as guerras sempre foram um instrumento usado pelo capitalismo para superar suas graves crises econômicas. Obama vai virando um refém dos setores mais direitistas dos EUA, alojados no Partido Republicano, que ameaçam desestabilizar o seu governo e exigem uma política mais militarizada e expansionista.

9- Já a Europa, continente envelhecido, presencia o crescimento de forças nitidamente fascistas, que utilizam o discurso xenófobo para jogar a sociedade contra os imigrantes. A maior parte dos governos do continente está sob controle de partidos de direita, que promovem contra-reformas da Previdência, impõem medidas de precarizaçao do trabalho, arrocham brutalmente os salários e desmontam o estado de bem-estar social construído no pós-guerra. A situação dos trabalhadores europeus é de acelerada regressão dos direitos.

Ângela Merkel (Alemanha), Nicolas Sarkozy (França) e Silvio Berlusconi (Itália) estão na linha de frente desta onda direitista na Europa. Seus governos também reforçam os traços imperialistas e belicistas, almejando principalmente maior expansão no Leste Europeu, destruído pelo tsunami capitalista, e no sofrido continente africano. A Europa, sob a hegemonia de forças de caráter fascista, abandona a bandeira da paz e reforça o discurso guerreiro dos EUA, o que agrava a situação de instabilidade no mundo atual.

10- Diante deste triste cenário, os trabalhadores europeus resistem, mas ainda numa correlação de forças adversa. As oito greves gerais na Grécia são a resposta às tentativas de regressão dos direitos trabalhistas e previdenciários. Em Portugal, prestes a cair no desfiladeiro, também foram realizadas três greves gerais neste ano.

Na França, que sofre a pior recessão desde o pós-guerra – o PIB recuou 2,2% em 2009 –, desde março ocorrem sucessivas paralisações contra o pacote de maldade do governo direitista de Nicolas Sarkozy, que visa congelar salários e elevar o tempo de aposentadoria dos franceses. Na mais recente greve geral, realizada em outubro passado, o país quase entrou em colapso com o fechamento de dez das doze refinarias de petróleo e a escassez de combustível. Desde a sua chegada ao poder, em maio de 2007, Sarkozy tem sofrido gradual perda de popularidade e corre sério risco de derrota nas eleições de 2012. Ele prometera “mais trabalho”, mas a taxa de desemprego na França bate recorde – atingindo 10% em setembro. Já na Itália, Silvio Berlusconi é hostilizado devido ao seu projeto regressivo de reforma da Previdência Social. Na Inglaterra, a ocupação de fábricas falidas prossegue. A luta de classes deve se aguçar na Europa, que vive a tensa disjuntiva: progresso social ou fascismo!

III- Riscos de retrocesso na América Latina

11- Na América Latina, o cenário também não é dos mais tranqüilos. Após a heróica luta contra as ditaduras militares, o continente oprimido virou o principal laboratório mundial das políticas neoliberais. A partir do Consenso de Washington, firmado pelas elites empresariais em 1989, um tsunami devastou os países da região com a privatização das empresas estatais, redução do papel do estado, abertura de fronteiras contrária à soberania nacional, corte de investimentos públicos e retirada de direitos trabalhistas.

A taxa de desemprego bateu recordes históricos; a informalidade superou os índices de trabalho formal; os salários perderam peso no Produto Interno Bruto (PIB); a miséria e a barbárie se alastraram na América Latina. O neoliberalismo se tornou hegemônico, elegendo e reelegendo presidentes comprometidos com os seus dogmas, afinados com a ditadura financeira e alinhados servilmente com os EUA. Uma parcela dos trabalhadores, inclusive, foi seduzida pelos slogans midiáticos contra os servidores públicos, os direitos previdenciários e trabalhistas e a soberania das nações. A manipulação neoliberal, porém, não durou muito tempo.

12- De continente laboratório das políticas neoliberais, a América Latina se transformou, a partir do final da década de 1990, na vanguarda da luta contra o neoliberalismo. Apesar da devastação do trabalho, que fragmentou e tornou mais complexa a classe trabalhadora, o sindicalismo não se curvou e resistiu à brutal ofensiva do capital. Novos movimentos sociais passaram a jogar papel de maior protagonismo no hemisfério.

Fruto desta resistência ativa, onze presidentes neoliberais foram depostos e os candidatos identificados com esse receituário destrutivo e regressivo foram rechaçados nas urnas. Com concepções distintas e ritmos diferenciados, reflexos da realidade da luta de classes em cada país, novos governantes passaram a adotar políticas de fortalecimento do estado, de reversão do processo de privatização, de maior investimento em programas sociais e de diálogo mais democrático com os movimentos sindicais e populares. A hegemonia neoliberal deu lugar a uma guinada à esquerda na América Latina.

Os novos governos também perceberam que precisavam investir na integração regional; divididos diante do império estadunidense, estes países se desintegrariam. Em curto espaço de tempo, o sonho de uma América Latina mais unida ganhou contornos mais nítidos. A proposta dos EUA da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que transformaria todo o continente numa colônia escravizada, foi enterrada pela luta dos povos. Houve a retomada do Mercosul, que agora deixa de ser uma mera união aduaneira e passa a ter maior papel político – inclusive com a eleição para o parlamento do Sul (Parlasul). Criou-se a Unasul, unindo toda a América do Sul, e avançam as articulações da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas). A integração também dá passos no terreno econômico, com a construção do gasoduto regional, e no campo militar, com a constituição do Conselho de Defesa Militar do Sul. Neste aspecto, mesmo a polêmica presença de soldados do Brasil no Haiti – país devastado por ditaduras e desastres naturais – representa um revés da ação militarista dos EUA no continente.

13- Estes expressivos avanços, porém, não estão imunes a risco. Ainda campeia a desigualdade social nesta região devastada pelo colonialismo, ditaduras e neoliberalismo. As experiências em curso também revelam limitações, não conseguindo enfrentar os seus problemas estruturais. Para agravar o cenário, os EUA tentam retomar a ofensiva no seu “quintal”, após uma fase de sensível perda de influência política e econômica. Não dá para subestimar a agressividade deste império, que tem muitos interesses em jogo na região.

Um breve balanço confirma que ele obteve recentes vitórias e recupera terreno no continente, seja através de golpes, ocupações militares e até mesmo pela via eleitoral. Ainda na gestão de George Bush, os EUA reativaram a 4ª Frota, composta por navios nucleares que vigiam os mares do hemisfério sul, ameaçando os governos progressistas da região e a cobiçando as riquezas do pré-sal. Em maio de 2009, o empresário direitista Ricardo Martinelli venceu as eleições no Panamá; em junho, o “democrata” Barack Obama foi cúmplice do golpe em Honduras, o que fez ressurgir o fantasma das ditaduras; no mesmo período, os EUA anunciaram a criação de seis bases militares na Colômbia; já no Haiti, o trágico terremoto serviu de pretexto para o envio de milhares de soldados ianques.

Na eleição do Chile, Michele Bachelet, apesar da sua popularidade, não conseguiu transferir votos para o seu candidato Eduardo Frei. A direita saiu unificada e as forças de centro à esquerda apresentaram três candidaturas. Resultado: o barão midiático Sebastián Piñera, totalmente servil à política externa dos EUA, venceu o pleito para o delírio da direita latino-americana. Agora, no final de setembro, forças militares tentaram um golpe no Equador. Treinados e financiados pelos EUA, os golpistas deram um baita susto, mas foram barrados pelo povo nas ruas, que garantiu o retorno do presidente Rafael Correa.

14- Estes reveses indicam que a guinada progressista na América Latina corre perigo. A opção por programas sociais distributivos, pela retomada do papel indutor do estado e pela integração latino-americana, entre outros avanços, pode ser abortada com o regresso de gestores neoliberais, que pregam o “alinhamento automático” com os EUA. Há sinais de alerta na Argentina, onde a direita ruralista e rentista joga na desestabilização do governo Cristina Kirchner; na Venezuela, onde ressurgem conspirações golpistas e a direita avançou nas eleições de setembro; na Bolívia, sempre sob a ameaça da divisão territorial; e principalmente nos países da América Central, agora sob o espectro assustador do retorno dos golpes e ditaduras militares.

Mas, como apontou recente artigo do jornal britânico Guardian, a aposta decisiva para os rumos da América Latina se dá no Brasil devido ao seu peso geopolítico na região. “Embora as autoridades do Departamento de Estado sob Bush e Obama tenham mantido postura amigável, é obvio que se ressentem das mudanças na política externa brasileira que aliaram o país a outros governos social-democratas do hemisfério e se ressentem da posição independente do Brasil em relação ao Oriente Médio, ao Irã e a outros lugares”. O destino da América Latina será decidido no Brasil, garante o Guardian. Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidente do país, terá muitos desafios pela frente

Altamiro Borges

Brasileiros participam da Peregrinação da Confiança no Chile

Peregrinacao_da_Confianca

Cerca de 7 mil jovens de vários países participaram da Peregrinacion de Confianza, coordenada pelos Irmãos de Taizé, na cidade de Santiago, no Chile, nos dias 8 a 12 de dezembro. Esta foi a segunda Jornada realizada na América Latina; a primeira foi em Cochabamba, na Bolívia, em 2007.

O assessor da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB, padre Elias Wolff, participou da peregrinação com um grupo de 40 jovens brasileiros. “A Jornada foi uma ocasião privilegiada para aprofundar a espiritualidade do diálogo e da reconciliação, caminho imprescindível para a unidade dos cristãos e a convivência pacífica entre as religiões”, disse o assessor.

“Os Irmãos de Taizé buscam desenvolver um estilo de vida e uma espiritualidade que se caracterizam pelo esforço de reconciliar as pessoas, os povos, as tradições religiosas”, explica padre Elias. “Em várias partes do mundo realizam as Jornadas da Confiança, sempre ecumenicamente, promovendo o diálogo e a convivência pacífica entre Igrejas e Religiões”, acrescenta.

Durante os dias da Jornada, os participantes têm momentos de reflexão, de celebração e de convivência. Esses momentos acontecem tanto nas paróquias onde os participantes ficam hospedados. “São momentos oportunos para o conhecimento mútuo, o estudo de desafios do mundo atual, e a descoberta de como a juventude pode contribuir para um mundo melhor”, esclarece padre Elias.

“Num continente fortemente marcado pelo sofrimento e pela dor causados por tantos fatores, sócio-políticos e naturais, os jovens latino americanos foram chamados a mostrar o caminho da reconstrução de uma Terra habitável por todos, uma Terra de solidariedade e de paz”, concluiu o padre

"PREFIRO MORRER PELA VIDA DO QUE VIVER PELA MORTE!”

PADRE GABRIEL MAIRE

Padre Gabriel Félix Roger Maire, missionário e profeta francês, entrou para a história no mundo no dia 01/08/1936 e entrou para a galeria dos mártires no dia 23/12/1989, entre o município de Cariacica e Vila Velha-ES.


Na Arquidiocese de Vitória trabalhou por nove anos, sempre gastando sua vida a favor dos pobres deste Estado. Junto com os Grupos de Mulheres, a Pastoral Operária, o Grupo "Fé e Política", a Juventude Operária Católica, a Pastoral da Juventude, e muitas outras pastorais e lutas populares, como o movimento "PAZ E DEMOCRACIA EM CARIACICA, respeitem o voto do povo", Gabriel sempre esteve presente. Sua vida, seu serviço, seu sacerdócio, seu trabalho com as Comunidades Eclesiais de Base, e seu sangue, testemunha o seu amor a Deus na pessoa dos mais pobres. Eis uma de suas frases que marca este testemunho:

"PREFIRO MORRER PELA VIDA DO QUE VIVER PELA MORTE!”

Natal com sangue de mártir



“Buscamos a verdade. Verdade em relação ao crime que tirou a vida do Padre Gabriel e em relação a todos os outros crimes que pelo nosso Estado e em todo o Brasil continuam sem solução”.
“Queremos manifestar nosso repúdio a todo aquele que no Poder Executivo, Legislativo e Judiciário não cumpre seu papel de cidadão, servidor do povo. Também queremos afirmar que continuaremos lutando pela Justiça, nas organizações populares, na Comunidade, no Sindicato e na Política".
O apelo de Justiça contido nesse manifesto de organizações populares e religiosas do Estado do Espírito Santo continua sem ser ouvido. Deve ser lembrado e meditado no aniversário do assassinato do Padre Gabriel Maire. O crime aconteceu no território da Grande Vitória, em 23 de dezembro de 1988.
Pouco antes de sua morte, o Padre Gabriel prestou declarações, reduzidas a termo, perante a Comissão “Justiça e Paz” da Arquidiocese. Declarou que estava sofrendo ameaças de morte, que tinha medo de ser assassinado, mas que, não obstante esse medo, estava disposto a prosseguir na sua luta, em nome de seu compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo.
Tenho gravada na retina, com nitidez absoluta, a imagem de seu rosto, na noite em que nos deu conta das ameaças que estava recebendo.
É mesmo possível que alguém se comprometa com causas populares, com transformação das estruturas políticas e sociais, em nome do Evangelho?
Muitos negam qualquer vinculação entre Evangelho e Política. Chegam mesmo a recorrer a uma frase bíblica para argumentar pela ilegitimidade do engajamento político, sob a luz da Fé Cristã. O texto invocado com freqüência é muito conhecido: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".
As teses que contradizem a pretendida separação entre Fé e Política também são muitas. Essas teses querem que a Fé ilumine a Política. Que a Fé faça desabrochar valores éticos e sociais e dê sustentação aos Direitos Humanos.
Jean-François Collange, professor de Teologia Protestante da Universidade de Strasbourg, mostra que, fundamentalmente, o traço de união indissociável entre Cristianismo e Direitos Humanos resulta de que o valor do homem diante de Deus não está nem na cor de sua pele, nem no seu sexo, nem no seu estatuto social, nem muito menos na sua riqueza, mas no fato de que em Cristo ele é aceito como filho de um mesmo Deus.
Isto de cada um, de sua parte, reconhecer-se como filho de um mesmo Pai conduz a uma fraternidade autêntica, base dos Direitos Humanos.
Na Epístola de Paulo aos Romanos, Collange vê expressa, de maneira particularmente incisiva, a afirmação da igualdade e da dignidade de todos os homens.
Não podemos nos esquecer de uma outra passagem bíblica, quando Paulo coloca o homem como templo do Espírito Santo. Esta afirmação é rica de conseqüências. Como um ser que é templo do Espírito Santo, ou seja, que é morada do próprio Deus, pode ser torturado, pode morrer de fome, pode ficar ao desabrigo, pode ser discriminado? Nenhuma violação dos direitos da pessoa humana será coerente com a proclamação do homem como casa de Deus.
Na linha da mais plena filiação cristã dos Direitos Humanos, colocam-se diversos pensadores: João de Oliveira Filho (Origem Cristã dos Direitos Fundamentais do Homem), J. E. Martins Terra (Direitos de Deus e Direitos Humanos), Hubert Lepargneur (A conquista dos Direitos Humanos), Jacques Maritain (Os direitos do homem) e Jean-Marie Aubert (Direitos do Homem e libertação evangélica).
Gustavo Gutiérrez, teólogo latino-americano, num dos seus livros mais famosos, argumenta que é no poço da espiritualidade legada pela tradição judaico-cristã que a Teologia da Libertação encontra suas justificações doutrinárias. Esse poço fundamenta a libertação pela Fé, segundo coloca Gutiérrez. A nosso ver, esse poço dá transcendente consistência aos Direitos Humanos.
Mas não é só nos arraiais cristãos que se pode encontrar uma base religiosa para os Direitos Humanos.
Os maiores troncos religiosos e filosóficos da Humanidade comungam com a idéia de Direitos Humanos. O Judaísmo, o Islamismo, o Budismo, o Taoísmo, o Confucionismo fecham com as concepções essenciais de Direitos Humanos. O mesmo acontece com o Marxismo, na pureza de suas propostas, e com as tradições religiosas dos povos indígenas da América Latina, que nos interessam particularmente, como latino-americanos que somos.
Por todas estas razões, celebramos a morte do Padre Gabriel como o holocausto de um mártir. No Natal de 2010, vinte e dois após seu assassinato, rememoramos sua vida e a luta que nos legou como herança.
João Baptista Herkenhoff, 74 anos, Professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES), palestrante e escritor

Não haverá paz no mundo sem teologia do pluralismo religioso

Em 2011, no dia 8 de fevereiro, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL) irá celebrar, dentro do Fórum Social Mundial (FSM), em Dakar, no Senegal, uma oficina sobre “Religiões e Paz: A visão/teologia necessária para tornar possível uma Aliança de Civilizações e de Religiões para o bem comum da humanidade e a vida no planeta”.

A oficina está sendo organizada pela Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT/EATWOT), por meio de sua Comissão Teológica.

Para compreender a importância desse debate na atual conjuntura mundial e eclesial, a IHU On-Line entrevistou por e-mail o responsável pela Comissão Teológica da ASETT na América Latina, o teólogo espanhol José María Vigil.

A constatação do teólogo é clara: “As religiões não dialogam; coexistem simplesmente”. Por isso, a oficina será um espaço para abordar “o próprio coração das religiões”, a “mudança interna que elas têm que realizar na sua ‘visão’ (ou teologia, no vocabulário cristão) para poder superar o bloqueio que atualmente as paralisa”, explica Vigil. Segundo ele, “isso se chama ‘teologia do pluralismo religioso’”, ou seja, “teologizar” sobre o significado da pluralidade de religiões.

Para facilitar a participação e o debate, a ASETT disponibilizou as conferências resumidas de vários especialistas que serão apresentadas sobre a temática proposta na oficina do ano que vem. O sítio do IHU, em suas Notícias do Dia, está disponibilizando as principais conferências a respeito da temática.

José María Vigil é teólogo espanhol claretiano, naturalizado nicaraguense e que vive atualmente no Panamá. É o responsável pela Comissão Teológica na América Latina da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT/EATWOT) e colabora com o sítio Servicios Koinonía, além de coordenar todos os anos a edição da “Agenda Latino-Americana Mundial”. Estudou teologia em Salamanca e em Roma, e psicologia em Salamanca, Madri e Manágua. Dentre seus livros, destacamos Teología del pluralismo religioso. Curso sistemático de Teología Popular (El Almendro, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em 2011, será realizada a oficina “Religiões e Paz: A visão/teologia necessária para tornar possível uma Aliança de Civilizações e de Religiões para o bem comum da humanidade e a vida no planeta”, dentro da programação do FSM. Qual o objetivo de fundo para propor este debate hoje?

José María Vigil – Em Dakar, o FSM terá duas frentes de atividades. Uma será pública e aberta, organizando e realizando “atividades autogestionadas” como as que farão outras muitas entidades e movimentos. E outra frente será um “seminário de elaboração teológica”, uma atividade própria e interna, com a participação de teólogos e teólogas vindos de todo o mundo, representando entidades, movimentos, universidades, associações, para dar uma contribuição de produção teológica mesmo, que versará desta vez sobre o futuro da teologia.

A oficina “Religiões e Paz” pertence à primeira frente de atividades do FMTL no FSM, e é uma das mais de dez oficinas semelhantes, sobre temáticas diferentes, devidas à iniciativa do FMTL. A realização concreta dessa oficina foi encomendada à ASETT ou EATWOT e já começou na sua fase que podemos chamar de “telemática”.

O objetivo de fundo é fazer avançar o aprofundamento da consciência que todos nós temos cada vez mais clara a urgência de pôr as religiões a trabalhar juntas pela paz do mundo e pelo bem-estar da vida no planeta. É um tema que já se tornou lugar-comum nas últimas décadas: as religiões não dialogam; coexistem simplesmente, não conseguem apagar os muitos focos de conflitos inter-religiosos que ainda ardem no mundo atual e não se dão conta de que a emergência ecológica na qual estamos é provocada por um sistema social, por ideologias e por concepções sobre a nossa relação com a natureza, elementos que, em boa parte, têm sido criados pelas religiões. Essa oficina programada pelo FMTL quer questionar, em um foro tão amplo como o FMS, a necessidade de conscientizar sobre essa problemática, de elaborar a “visão ou teologia necessárias”, e não de nos acostumar à falta atual de diálogo.

IHU On-Line – E qual seria a conjuntura concreta ou o aspeto concreto ao qual ela se dirige?

José María Vigil – Dentro desse grande objetivo, a oficina “Religiões e Paz” quer se concentrar no aspeto profundo e interno, diríamos teológico. Não quer ser uma conversa sobre as condições sociopolíticas conjunturais atuais das possibilidades do diálogo e da paz, mas das condições internas que permitem ou bloqueiam o diálogo das religiões, além ou antes de as condições sociopolíticas permitirem. Quer dizer: o grande problema ou obstáculo para as religiões se falarem, dialogarem, se unirem… não é externo, mas sim interno. É ideológico, teológico, epistemológico até.

Mesmo que duas religiões estejam em boa vizinhança, com frequência não dialogam, nem podem dialogar. Podem se levar bem e, no máximo, como se viu claramente em Assis, podem se convocar para rezar juntas em uma mesma cidade, mas em separado, e fazer depois uma fotografia todas juntas, mas só até aí. Diálogo religioso mesmo – perguntarem-se mutuamente a respeito do que pensam de si e das outras, tentar encontrar os elementos “homeomórficos” (que têm uma função semelhante) em cada uma delas e que talvez compartilham, se estudarem mutuamente, se perguntarem sobre o que poderiam e deveriam fazer juntas para animar a humanidade a se superar e a superar o momento atual –, isso, infelizmente, não está sendo feito. Estão paralisadas. Nenhuma sabe como se poderia fazer.

E têm alguma coisa dentro que as continua paralisando: o complexo de superioridade, a convicção de ter a verdade total e não poderem apreender nada das outras, a consciência de serem cada uma “a única religião verdadeira” ou “a melhor”, ou aquela à qual todas as outras devem vir a se converter… Não podem dialogar mais do que em aparência formal.

IHU On-Line – Isso se deve a algum medo?

José María Vigil – Sim, mas não só, nem principalmente. Nós achamos que o principal fator é, como dizia, interno, ideológico, epistemológico. As religiões têm vivido a sua história toda sobre a convicção de serem, cada uma, a única, a verdadeira, a universal, a perfeita, a que sabe tudo e não tem nada a aprender de ninguém… (Não todas da mesma maneira, obviamente. As religiões não são iguais nem dizem a mesma coisa, como o igualitarismo pretenderia).

“Por que existem religiões e não só a minha religião que eu fui ensinado que era a ‘única verdadeira’? As outras têm valor?”

Sendo essa tradição histórica, milenar até, as religiões não podem mudar de uma hora para a outra. (Há algumas poucas décadas o mundo virou mundializado e irreversivelmente multicultural e multirreligioso.) Precisam digerir, processar em uma outra forma aquela autocompreensão tradicional, que já não é sustentável no mundo atual. Mas o que fazer com aquela herança que as religiões receberam como intocável, por ser revelada e imutável? Eis aí o problema, que é interno, independentemente da boa ou má relação com a religião vizinha, independentemente das boas ou más propostas da ONU para uma Aliança de Civilizações e religiões… É outro nível.

IHU On-Line – Para esse debate, parte-se das propostas da teologia pluralista ou da teologia do pluralismo religioso – TdPR. Em que consiste, em linhas gerais, essa teologia?

José María Vigil – Sim, esse é o foco, a perspectiva formal da oficina: não vamos falar de conjuntura internacional, de condições sociopolíticas nem interculturais (mesmo sendo tudo isso muito importante). Mas falaremos do próprio coração das religiões, da mudança interna que elas têm que realizar na sua “visão” (ou teologia, no vocabulário cristão) para poder superar o bloqueio que atualmente as paralisa.

Isso se chama “teologia do pluralismo religioso”: consiste em “teologizar”, ou seja refletir sobre o significado que pode ter o pluralismo religioso, a pluralidade de religiões: por que existem religiões e não só a minha religião que eu fui ensinado que era a “única verdadeira”? As outras têm valor? Têm valor por si mesmas ou o recebem da minha? Posso reconhecê-las como válidas, ou tenho que procurar convertê-las? E se posso reconhecê-las, como ficam então a unicidade e “absoluticidade” que a minha religião sempre proclamou? Nessa reflexão toda consiste a teologia do pluralismo religioso.

Como se vê, não é a mesma coisa que o “diálogo inter-religioso”. Uma coisa é refletir sobre a pluralidade religiosa (”teologia do pluralismo religioso”), e outra, dialogar mesmo com outra religião. Sem a transformação de mentalidade que essa reflexão vai provocar, não será possível “dialogar” verdadeiramente com outra religião, porque será um diálogo de surdos, aparente diálogo daqueles que pensam – cada um – que só eles têm a verdade e que o outro não é interlocutor religioso válido. Por isso nós dizemos que a teologia do diálogo inter-religioso é um “intradiálogo”, um diálogo que uma religião deve fazer consigo mesma antes de dialogar com outra, para que o diálogo possa ser viável e frutífero.

IHU On-Line – De que forma a TdPR se relaciona com a Teologia da Libertação – TdL?

José María Vigil – Não é que se relacionam, senão que têm que ser relacionadas. Em princípio, são teologias independentes, estão em paradigmas diferentes, diríamos que não têm nada a ver. Pode-se ter uma teologia muito libertadora e nada pluralista… De fato, a TdL clássica, a que conhecemos, está no paradigma inclusivista, que era comum na época; não é teologia pluralista.

Eis aqui a tarefa a ser desenvolvida: cruzar, confrontar a TdL clássica – que é inclusivista – com a TdPR, quer dizer, repensar, refazer a TdL além do pressuposto inclusivista. Ou seja, elaborar uma TdL pluralista, não mais inclusivista. E isso não é fácil, nem fica garantido pelo fato de sermos teólogos/as da TdL. É como no caso do paradigma feminista: um teólogo/a pode ser muito libertador/a… e ter mentalidade patriarcalista. Uma visão não implica a outra, estão em paradigmas ou níveis diferentes. Deve-se dar um salto de consciência e assumir o novo paradigma, uma nova forma de ver – a pluralista –, o que irá causar uma verdadeira comoção…

A ASETT assumiu no ano 2000, na sua Assembleia Geral ocorrida em Quito, o desafio de provocar esse cruzamento entre a TdL e a TdPR, e decidiu aquele projeto de pesquisa e elaboração teológica que deu como fruto a coletânea de cinco volumes chamada Pelos muitos caminhos de Deus, felizmente completada neste mesmo ano de 2010.

IHU On-Line – Em sua opinião, o que as religiões precisam abandonar, retomar ou construir juntas para chegar à paz?

José María Vigil – Devem deixar muitas coisas, algumas delas muito queridas e que sempre fizeram parte do seu patrimônio simbólico. Devem abandonar o complexo de superioridade que as fazia considerar que extra me nulla salus, que só elas eram “a religião verdadeira”. Devem deixar as pretensões de “unicidade”, tanto a respeito da sua natureza como da sua revelação. Devem retirar o “mapa teológico geocêntrico”, que as punha no centro do mundo religioso, e devem aceitar um novo mapa teológico “heliocêntrico”, com só Deus no centro, e elas, todas as religiões, girando sororalmente companheiras ao serviço da humanidade para aquilo que tem a ver com a relação com o Mistério Divino. Devem atualizar sua epistemologia: muitas estão ainda em uma epistemologia mítica, que interpreta como literalmente históricas as crenças tradicionais, sem aceitar a visão hermenêutica crítica ou suas consequências todas… e superar aquele “modelo de verdade” objetivista, metafísico, fixista, de verdades eternas “claras e distintas” (Aristóteles e Descartes), por um modelo mais concorde com o que a humanidade sabe e pensa hoje. E aí, reconstruir a “outra religião possível”.

IHU On-Line – É uma meta factível?

José María Vigil – A curto prazo não, obviamente. As dificuldades são profundas. A mudança que está sendo exigida é epocal. O que está em jogo é uma verdadeira releitura, uma reelaboração, um novo nascimento. E estamos apenas abrindo a porta. Não só as religiões (instituições), mas também a teologia, e os teólogos e as teólogas.

É por isso que o tema é urgente: não haverá paz entre as religiões, e no mundo, enquanto não tivermos uma visão pluralista. (No contexto inter-religioso, falamos de “visão” como sinônimo de fato de “teologia”, palavra com a qual algumas religiões têm dificuldades; para nós, de nominibus non est quaestio.)

Nesse sentido, é uma tarefa a ser realizada por todos, e em toda parte, e por toda a teologia. Quer dizer: se a teologia da libertação não chegar a ser teologia pluralista da libertação, não vai estar à altura histórica atual da libertação hoje necessária. A libertação que não é pluralista e que não liberta os povos dos ancestrais preconceitos exclusivistas (existem regiões inteiras do mundo com religiosidade exclusivista) é uma libertação opressora. E a libertação que ainda fica presa do inclusivismo ainda está em conivência com visões que não liberam integralmente ao ser humano.

A tarefa não é só dos teólogos e das teólogas do pluralismo: toda a teologia tem que se confrontar com o paradigma pluralista, tem que se transformar em teologia pluralista e tem que fazer passar com que as pessoas que atende passem da velha visão inclusivista para a visão pluralista, a visão que permitirá o outro mundo possível.

IHU On-Line – Que limites e possibilidades podem ser encontrados em meio à pluralidade de visões a respeito da Divindade?

José María Vigil – Esse é um problema concreto; não é o grande problema ou o problema estruturalmente central. Tem teólogos que estão refletindo a superação do teísmo, tido até agora como indubitável no cristianismo. Sim, assim tem sido nossa tradição – teísta –, ao menos grosso modo. Mas, hoje, quando conhecemos melhor os limites do conceito de theos (fundamentalmente grego), conhecendo outras religiões não teístas e escutando suas críticas e seu testemunho, fica cada dia mais claro que não podemos fazer do teísmo um “modelo” insuperável, essencial, imprescindível…

Mas esse é um dos problemas concretos, ou setoriais, eu diria. A TdPR quer se confrontar sobretudo ou em primeiro termo com a problemática estrutural, de base, epistemológica.

IHU On-Line – Muito se tem falado a respeito de uma “aliança de civilizações”, termo tão caro à ONU, defendido também por Bento XVI e às vezes utilizado como contraponto ao “choque de civilizações” de Samuel Huntington [1]. Qual a concepção da EATWOT a respeito desse conceito? Quais são seus fundamentos centrais?

José María Vigil – Nós não somos políticos, nem temos influência nesses âmbitos, mas estamos convencidos de que a teologia do pluralismo religioso tem muito a dizer ao mundo atual, às religiões e aos políticos, sobretudo neste momento de mundialização e de interculturalidade e inter-religiosidade conflitiva. Se as instituições mundiais e as forças sociais não contarem com a teologia, explicitamente com a TdPR, terão que fazer teologia leiga, ou civil, ou com outro nome, mas “não haverá paz no mundo sem teologia do pluralismo religioso”, sem uma teologia pluralista mesmo, atrevo-me a dizer.

Cada dia vemos mais clara a pertinência dessa teologia. Assim como o mundo necessitava da TdL para lutar melhor pela justiça e defender os pobres, o mundo precisava e ainda precisa da teologia feminista, que está transformando aos poucos mas sem pausa o mundo patriarcal que herdamos. E temos que acrescentar: o mundo precisa, necessita da TdPR. Sem ela não serão removidos os preconceitos que arrastamos ancestralmente, que foram elaborados em um mundo totalmente diferente do mundo mundializado e plural em que hoje vivemos. Sem ela, vivida no interior de cada religião, não será possível que as religiões sejam parceiras sinceras em uma Aliança pelo Bem Comum da vida e da humanidade. A ONU deveria estar muito interessada na TdPR.

IHU On-Line – Por outro lado, muito se fala de paz hoje, muitas vezes apenas como a não existência de conflitos. Nesse sentido, como o senhor definiria essa “paz” possível por meio das religiões?

José María Vigil – É claro, sabemos todos que a paz não é só a ausência de guerra… A paz não é um conceito negativo, mas extremamente positivo. Poderíamos dizer que a paz seria o shalom (judeu), ou o shalam (árabe), que não são conceitos negativos. Pelo contrário, são conceitos de plenitude: a paz é o resumo de todos os bens salvíficos.

Isso também se reflete na teologia do pluralismo religioso, que teria como funções ou tarefas: uma primeira, negativa, de desconstrução, de desmonte dos obstáculos, dos preconceitos geradores de conflitos, dos axiomas superados que hoje viraram daninhos inclusive no mundo mundializado atual; e uma segunda tarefa, positiva, a de reconstrução, o encontro prazeroso das convergências religiosas, da muita riqueza comum, das inesgotáveis peculiaridades que cada religião tem como lampejos únicos da luz única e eterna do Mistério, a função mesma de “religação” por cima da imensa “hierodiversidade” ou “diversidade do sagrado”.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os pressupostos básicos para que seja possível estabelecer um verdadeiro e rico diálogo entre as religiões? Existem âmbitos acadêmicos, políticos, culturais ou sociais necessários para isso?

José María Vigil – As “palestras e falas” da oficina em Dakar, antecipadas no livreto que elaboramos e colocamos antecipadamente na internet, respondem a essa mesma pergunta: quais são os pressupostos básicos, os mínimos, os mais comuns, que poderíamos elaborar e consensualizar, a fim de que sirvam de base comum para o diálogo inter-religioso e para a colaboração entre as civilizações e entre as religiões?

Nessas palestras – textos muito breves –, os autores fazem as suas propostas. Mediante o livreto, a ASETT quer abrir a todo o mundo interessado a possibilidade de acompanhar e inclusive de participar nessa reflexão. A pessoa interessada, a comunidade que sintoniza, pode fazer essa reflexão por sua conta, talvez se ajudando com essas “palestras”, expressadas em um estilo que visa precisamente a provocar um debate. E podem, se quiserem, partilhar a sua reflexão enviando-a para ser levada em conta na oficina de Dakar. Podem responder a essa mesma pergunta que você me faz. É a própria pergunta da oficina.

Mas, veja, não vamos nos perguntar pelos âmbitos acadêmicos, políticos, culturais ou sociais necessários para isso. É a temática costumeira nos diálogos e nas falas sobre diálogo inter-religioso. Mas nós, como dizíamos, queremos nos concentrar no aspeto propriamente teológico, só, que é o aspecto normalmente esquecido nas falas desses níveis dos fóruns internacionais. Somos teólogos e teólogas, e mesmo sabendo que a teologia não é tudo, somos conscientes de que ela é muito necessária, imprescindível até, e queremos levar essa fala a esse fórum. E estendemos a mão para que muitas das inumeráveis pessoas que não poderão viajar a Dakar nos acompanhem. A época das comunicações permite isso. Queremos tentar um jeito novo de realizar uma oficina em um fórum internacional, aberta para todos os que não podem viajar.

IHU On-Line – Em um período de crise ambiental em que “a natureza geme em dores de parto”, como propõe a Campanha da Fraternidade 2011 no Brasil, como as religiões podem contribuir para a defesa e a proteção da Criação?

José María Vigil – No objetivo da oficina diz-se: “para o bem comum da humanidade e da Vida no planeta”. Já não podemos ter só o objetivo da humanidade, como o antropocentrismo religioso nos educou. O bem comum da humanidade ficaria absolutamente curto e mal-entendido se deixasse de buscar o bem comum da vida no planeta (além dele é pretensioso dizer que podemos fazer alguma coisa, hoje ao menos).

Mas nesta última década (a consciência da emergência da ameaça climática não tem dez anos), a situação mudou tanto que as prioridades se deslocaram todas. Todos os serviços tradicionalmente feitos à humanidade ficaram curtos diante da urgência planetária. Se “a caridade começa pela própria pessoa”, hoje a caridade realista deveria começar pelo planeta: todos os nossos objetivos estão ameaçados de morte, ante o que está vindo. Em rigor, estamos caminhando para a extinção da nossa espécie. Se não mudarmos – e já tem quem duvide que seja possível mudar a tempo – o sistema atual de vida (economia, produção, consumo, contaminação ambiental, destruição da ecologia…), estamos nos aproximando a cada dia do nosso fim. Não é exagero, é literalmente real, e mais provável do que o contrário.

“Como é possível que as religiões ainda não tenham pedido perdão por terem permanecido cegas ao ecológico?”

Nessa conjuntura, como é possível que as religiões ainda não tenham pedido perdão por terem permanecido cegas ao ecológico? Como não levantaram a sua voz profética contra os que se opõem egoistamente às medidas urgentes para o salvamento do planeta e da humanidade? E como ainda não convocaram um concílio verdadeiramente “ecumênico” (de todas as religiões que habitam a ecumene, a “casa habitada”) para se unirem e se concentrarem na única prioridade verdadeiramente prioritária?

Sabe por que isso é ainda possível? Porque algumas religiões ainda têm visões espiritualistas, sobrenaturalistas, que pretendem salvar o mundo “das almas”, fazendo prosélitos para si mesmas, esquecendo que a missão é outra. A TdPR também tem muito a ver com isso.

IHU On-Line – Um dos teólogos que vem propondo debate sobre as religiões e a paz é Hans Küng, a partir do seu Projeto de Ética Mundial, para quem “não há paz entre as nações sem paz entre as religiões” e “não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões”. Como o senhor analisa as contribuições de Hans Küng nesse sentido?

José María Vigil – Entendo que essa frase é de Gandhi, sendo Küng quem a tornou conhecida, sim. Mas acho que, a partir dessa perspectiva sobre a qual estamos falando, ela fica curta em todo caso. Deveria ser completada assim: “e não haverá diálogo entre as religiões, sem uma visão pluralista”, ou seja sem TdPR. De fato, Küng coloca esse debate, como você bem diz, “a partir da ética mundial”, de uma ética que acharíamos comum a toda a humanidade, a todas as religiões… mas não a partir de uma visão teológica comum (não digo de uma teologia única).

Com a ética mundial, Küng não entra no campo propriamente teológico, não entra na TdPR, e de fato penso que ele não entrou ainda em uma visão “pluralista” (estou dizendo isso como termo técnico, equivalente a “superadora do inclusivismo”). O professor confessa-se inclusivista, até onde eu conheço – gostaria de ser corrigido se estiver errado. Têm teólogos, como Paul Knitter [2], que dizem que Küng ainda não cruzou o Rubicão…

Bom, não quero dizer que o Projeto de Ética Mundial não seja muito bom, importantíssimo. Digo que ele não chega a entrar no nível teológico mesmo. E não tem por que fazê-lo. É um projeto no nível da ética. É legítimo. E é legítimo também tentar ir além da ética, entrando no nível propriamente teológico. Como teólogos, nós estamos nisso, mesmo admirando e agradecendo o Projeto de Ética Mundial. Tudo o que contribui para o diálogo e a convivência entre as religiões é bom, necessário e urgente mesmo.

IHU On-Line