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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Congresso Continental de Teologia Latino-Americana

Reflexões a propósito de um duplo aniversário
Volto de São Leopoldo, noRio Grande do Sul, após uma viagem relâmpago. Não podia ficar mais por causa das aulas.  Mas não podia deixar de ir ali – peregrina humilde e jubilosa –  celebrar um duplo aniversário.  O Congresso Continental de Teologia Latino-Americana celebrava dois acontecimentos centrais em minha vida: 50 anos do Concílio Vaticano II e 40 anos da publicação do livro de Gustavo Gutierrez, Teologia da libertação.
Fui esperando encontrar uma bela organização, séria, bonita e emocionante.  Mas sinceramente não esperava tanta gente: 600 pessoas.  E tantos jovens.  E tantos velhos amigos.  E tantos queridos e respeitados mestres. E cantar outra vez Canción com todos, de Mercedes Sosa, e sentir que o auditório inteiro cantava e vibrava. Pensei que eu fosse a única pessoa ainda viva que soubesse cantar esta canção.
Foi belo ver a consagração imorredoura de um método: ver-julgar-agir.  A teologia latino-americana não renuncia ao seu modo de ser e de fazer-se.  Insiste em olhar a realidade e examiná-la e interpretá-la com o olhar da fé.  Ainda que o mundo tenha evoluído, ainda que as utopias hajam caído, ver para depois julgar e descobrir pistas para a ação transformadora continua sendo o leit motiv para a inteligência da fé em nosso continente.
Em cada rosto que vislumbrava havia uma história: uma luta compartilhada, uma esperança sentida, um sonho sonhado, uma tarefa realizada.  Ou também uma frustração chorada, uma decepção, uma derrota.  Mas vida.  Muita vida vivida, celebrada, aprendida.  Somos muitos os que andamos há décadas por estes caminhos da América.  Trazemos pó nas sandálias, rugas no rosto, mas sempre juventude e sonho no coração. E ver aquela assembleia vibrando, cantando e refletindo junta mostrou que o sonho é maior que todas as tentativas de sufocá-lo e brilha vencedor na vida dos que creem, esperam e amam.
Andando pela enorme universidade do Vale do Rio dos Sinos recordei minha vocação e minha iniciação, ainda jovem, pelos caminhos da teologia.  E era emocionante encontrar aqueles jovens de ambos os sexos, leigos/as ou religiosos/as, chamando-me “professora” e dizendo-me haver lido artigos meus, ouvido conferências e aulas que andei dando por esse continente afora. E pediam para tirar fotos com eles.  E pediam para autografar livros meus que haviam comprado. Vê-los, ouvi-los, dava esperança e alegria: a teologia latino-americana tem futuro.  As novas gerações tomam em suas mãos o bastão e não deixam apagar-se a chama frágil da fé que caminha de mãos dadas com a justiça.
Depois a emoção de encontrar e abraçar os mestres de ontem e de hoje.  Ali estavam, testemunhas de uma luta que tem sido árdua, mas cuja beleza sobrepuja os percalços. Seus cabelos brancos, o andar às vezes combalido, ressoava em meu coração enquanto eu dava graças por “aqueles e aquelas que me precederam no caminho da fé”. Gustavo Gutiérrez, pai do livro que aniversariava, quebrou o joelho em Notre Dame e teve que fazer videoconferência.  Mas Jon Sobrino falou ao vivo.
Foi uma experiência espiritual de rara profundidade ouvir uma vez mais o querido e admirável Jon repetindo seu mote irrenunciável de que só há dois absolutos:  Deus e a fome.  E que o único absoluto é Deus e o coabsoluto são os pobres. E recordar monsenhor Romero, Ellacuria e os mártires da UCA, Rutilio Grande e todos aqueles e aquelas que derramaram seu sangue para defender os pobres.
Se uma das missões das testemunhas é confirmar os irmãos, ali no Congresso Continental isso aconteceu sobejamente.  O duplo aniversário nos confirmava a todos na convicção de que, apesar de nossa finitude e imperfeição, o Senhor se servira de nós para realizar seu desejo em determinado momento da história deste continente. A presença dos jovens nos sinalizava que nossa teologia ainda podia ser alimento sólido para as novas gerações.
Ainda é possível cantar Canción com todos!  A teologia latino-americana está viva e cheia de saúde.  E isso porque se alimenta do Evangelho, da Boa-Nova daquele que proclamou bem-aventurados os pobres e os injustiçados, porque Deus os ama, está com eles e os quer sentados nos melhores lugares do banquete que oferece a seu povo.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer

Fonte: Jornal do Brasil

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