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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

“O Reino de Deus deve ser perseguido também aqui na terra”

Adital - “Religião e fé não podem se limitar ao ambiente da Igreja; precisam enxergar a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais”. Este foi o lema que conduziu a vida religiosa do bispo emérito de Juazeiro, Dom José Rodrigues de Souza, que atuou no Nordeste, falecido na madrugada do último domingo (09), relembra Haroldo Schistek, coordenador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA.  Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, após retornar do enterro de Dom José, Schistek recorda a atuação do bispo junto aos excluídos do Nordeste e as iniciativas desenvolvidas para conscientizar e ajudar as pessoas diante dos problemas sociais evidenciados na região. “Para os pobres, pequenos agricultores, criadores de animais na Caatinga, pescadores, ameaçados de grilagens, ele era o endereço certo. As cartas enviadas ao bispo, assinadas pelos lavradores, eram lidas no programa ‘Semeando a Verdade’, causando sempre grande repercussão”. Durante os 27 anos em que foi bispo de Juazeiro, destaca, “deixou claro que a pobreza não se elimina dando esmola, mas se engajando na derrubada de estruturas injustas. E cada cristão precisa se engajar nesta empreitada”.

Dom José Rodrigues encontrava-se entre os bispos que deram e dão apoio às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sendo o pioneiro “na maneira como reagir a projetos governamentais, ao exemplo da Barragem de Sobradinho”. Segundo Schistek, sua atuação junto das comunidades foi “uma aula para o movimento popular, como exemplo de luta por seus direitos em outras novas obras e resultou no Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens”. Também foi uma figura central no desenvolvimento de um “novo paradigma da convivência com o semiárido”. “Utilizou-se do rádio e outros instrumentos de comunicação para levar ao povo a mensagem de libertação através da convivência com o clima e com nossa região, evidenciando os aspectos políticos que sustentavam a famigerada indústria da seca no semiárido brasileiro, que possui, no paradigma ilusório do ‘combate à seca’, a sua maior fonte de renda”, destaca.

Haroldo Schistek é teólogo pela Universidade de Salzburgo, Áustria, agrônomo pela Universidade de Agricultura em Viena e da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco em Juazeiro, na Bahia. É idealizador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, com sede em Juazeiro, fundado em 1990. Trabalha com assessoria relacionada a recursos hídricos, desenvolvimento rural, beneficiamento de frutas nativas, questões agrárias, entre outras áreas. É elaborador de apostilas, livros, relatórios. Além disso, acompanha e coordena programas junto de agricultores, dentro do conceito da Convivência com o Semiárido. Integra a Coordenação Coletiva do IRPAA como coordenador administrativo. Confira a entrevista.

Conte-nos um pouco da trajetória, na Igreja, de Dom José Rodrigues de Souza, bispo emérito de Juazeiro?

Dom José Rodrigues de Souza C.SS.R (Congregação do Santíssimo Redentor, ou seja, redentorista) (foto) nasceu em Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, em 1926. Ingressou na Congregação do Santíssimo Redentor e foi ordenado sacerdote em 1950. Por longos anos ele atuou na equipe dos missionários itinerante dos redentoristas. Fez especialização em Catequese e Pastoral, na Bélgica. Foi professor de Português. Por quatro anos foi superior vice-provincial de Brasília (hoje, Província de Goiás). Em 1974, foi nomeado pelo papa Paulo VI como bispo de Juazeiro, Bahia, sucedendo o primeiro bispo da Diocese de Juazeiro, D. Tomás Murphy, também redentorista. Era famoso por suas pregações e palestras claras e bem estruturadas. Os seus programas de rádio eram ouvidos com assiduidade por todos – muito além dos limites da diocese, seja pelo povo simples, seja pelos “coronéis”, de todas as colorações (estes últimos com preocupação). Grande também era a sua capacidade de escrever. O jornal diocesano “Caminhar Juntos” era todo mês um retrato muito fiel dos problemas, conflitos e avanços, sejam do âmbito da Igreja ou da sociedade civil. Pode-se dizer que D. José Rodrigues foi nomeado bispo no momento certo: a construção da Barragem de Sobradinho estava ainda no começo e os grandes projetos de irrigação a serem iniciados.

Como ele era visto e reconhecido pela comunidade local? Ele tinha muitos conflitos com os “coronéis” da região? Dom José ficou conhecido como o bispo dos excluídos. Quem eram os excluídos que ele apoiava?

Dom José Rodrigues expressava bem claro: religião e fé não podem se limitar ao ambiente da Igreja; precisam enxergar a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais. Deixou claro que a pobreza não se elimina dando esmola, mas se engajando na derrubada de estruturas injustas. E cada cristão precisa se engajar nesta empreitada. Para os pobres, pequenos agricultores, criadores de animais na Caatinga, pescadores, ameaçados de grilagens, ele era o endereço certo. As cartas enviadas ao bispo, assinadas pelos lavradores, eram lidas no programa “Semeando a Verdade”, causando sempre grande repercussão. Mas ele não deixou só na divulgação: mantinha paróquias atuantes e uma equipe da Comissão Pastoral da Terra – CPT eficiente, que procuravam junto à população saídas e estratégias.

Não é de estranhar que políticos, grupos e famílias tradicionais viam nele logo o oponente que tocava no seu poder de mando e perturbava a aparente “paz” social. Mas D. José Rodrigues não tinha receio de colocar as mãos nas chagas da sociedade: no auge dos anos da construção da barragem, Juazeiro e Sobradinho atraiam muitas “mulheres da vida”. Mulheres muitas vezes jovens demais, pobres mesmo, exploradas e condenadas por todos por serem “pecadoras”. O bispo montou uma pastoral específica para elas, com a finalidade de serem respeitadas como gente e sentirem sua dignidade como pessoa. Montou a Pastoral da Mulher Marginalizada. Celebrou com elas a Santa Missa. Ao protesto da sociedade, na pregação da missa, não hesitou em citar a Bíblia onde diz: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

A partir de sua atuação no Nordeste, como ele chamou a atenção da Igreja para a situação do povo local? Como o senhor descreve a relação dele com os fiéis, especialmente com aqueles que ele chamava de as “vítimas do desenvolvimento”, atingidos pela barragem de Sobradinho e pelos projetos de irrigação?

Não era novidade que os direitos à posse de terra para os pequenos agricultores constituíam-se como sendo muito voláteis perante o poder dominante. Mas reconheceu a gravidade da situação e foi um dos fundadores da CPT Regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Nordeste III (Bahia/Sergipe), já em 1976, da qual foi bispo acompanhante por muitos anos. Logo em seguida criou a CPT na diocese como resposta pastoral ao sofrimento do povo expulso pela barragem de Sobradinho e aos camponeses vítimas da grilagem de terra, em consequência à implantação de grandes projetos de irrigação.

A ação profética dele dedicou também atenção específica a outros grupos sociais que pouca atenção recebia: criou mais sete pastorais sociais (juventude do meio popular, pescadores, a já mencionada mulher marginalizada, saúde, reassentados, carcerária, criança), “círculos de cultura” (com Paulo Freire), um setor diocesano de comunicação que revolucionou a comunicação e o fluxo de informações entre os municípios da diocese. Implantou uma biblioteca de 45 mil volumes, realizou uma campanha pioneira pelas cisternas familiares de água de chuva, pilar da Convivência.

A Pastoral da Juventude do Meio Popular tinha como meta formar jovens com “os dois pés” na fé e na vida, para dar um sentido novo à vida deles e transformar a sociedade. Não eram raras as ocasiões, e ocorrem até hoje, em que, num ambiente de reunião ou encontro, quando uma pessoa se destacava pela visão boa dos problemas e pelo jeito envolvente de conduzir a discussão, ela se revelava como tendo sido membro da Juventude do Meio Popular nos anos anteriores.

E as barragens?

Pioneiro foi na maneira como reagir a projetos governamentais, ao exemplo da Barragem de Sobradinho. Até então, o governo, militar ou não, fazia o que bem entedia com os moradores que residiam próximos à obra. No nosso caso, tantas vezes se ouvia um porta-voz da Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco – executora da obra) afirmar na televisão, a repórteres, que o tratamento com as populações residentes acontece de maneira absolutamente justa, que ninguém ficará sem as devidas indenizações. Uma breve visita às comunidades evidenciava bem o contrário. O acompanhamento destes conflitos, por ele e sua equipe, causou recuo da Chesf, processo ganhos ou conciliações, indenizações pagas ou entrega de parcelas de terra para famílias atingidas. A luta contra a construção da barragem foi, pode-se dizer, uma aula para o movimento popular, como exemplo de luta por seus direitos em outras novas obras e resultou no Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens.

Dom José foi um dos incentivadores da convivência com o semiárido. Como ele contribuiu para repensar o desenvolvimento na região?

Para nós do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, a partida de D. José Rodrigues é penosa e triste, pois a história da entidade e a sua pessoa estão intimamente ligadas. Ele foi uma figura central na fundação do IRPAA, sendo inclusive o primeiro presidente da entidade. Em suas caminhadas pela diocese de Juazeiro, divulgava o novo paradigma da convivência com o semiárido, em suas pregações, de forma contextualizada com as passagens bíblicas. Utilizou-se do rádio e outros instrumentos de comunicação para levar ao povo a mensagem de libertação através da convivência com o clima e com nossa região, evidenciando os aspectos políticos que sustentavam a famigerada indústria da seca no semiárido brasileiro, que possui, no paradigma ilusório do “combate à seca”, a sua maior fonte de renda.

Dom José também foi um dos grandes apoiadores das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. O que destacaria de sua atuação junto às comunidades pobres da caatinga e das periferias urbanas, especialmente no período da ditadura?

A época não foi fácil politicamente. Todos tinham medo de expressar sua opinião nas universidades, em reuniões e em lugares públicos. Os quatro municípios atingidos pela barragem de Sobradinho foram declarados área de segurança nacional. Mas ele não se intimidou. Sua casa foi invadida e vasculhada por agentes da ditadura, os muros e portas da catedral foram pichados pelo Comando de Caça aos Comunistas. Por toda parte podia de se ler em letras grafais “O bispo de Juazeiro é comunista”, o que perante os olhos da ditadura era o maior crime imaginável.

Quando a população se revoltava contra desmandos públicos e privados, atribuíram isso à “agitação” do bispo. Certa vez, dois fazendeiros no vale do Salitre foram mortos pela população revoltada que queria defender seu direito à água, perante as eletrobombas potentes que sugavam toda água do pequeno rio. Seguiu uma campanha de difamação contra o bispo, dizendo que ele seria o mandante destas mortes. A organização eclesial (CEBs), sindical e política do povo sertanejo teve grande impulso sob sua inspiração e incomodou os coronéis locais e os donos do poder na Bahia. Por conta de seu destemor na defesa dos pobres, explorados e oprimidos, esteve por várias vezes sob risco de violência e morte, mas não retrocedeu, impávido, às vezes contra nossa vontade.

Dom José costumava dizer que era fiel a Jesus de Nazaré. Como a história e o legado de Jesus se manifestaram no seu dia a dia?

 Dom José Rodrigues era a simplicidade em pessoa. Era de grandeza em personalidade, impressionava pela palavra, pelos conhecimentos, pela informação. Falava com firmeza inquestionável perante a Assembleia Legislativa, na Câmara Federal e em viagens pela Europa. Aliás, numa época em que, no Brasil, valia a lei do silêncio, as várias viagens para Europa foram de grande valia para os pobres. Ganhava aliados nas pessoas de lá que protestavam junto às Embaixadas do Brasil na Europa, e enviavam abaixo-assinados para autoridades brasileiras. Importante foi também conseguir informações sobre o Brasil, sobre projetos e as fontes internacionais de financiamentos que aqui, na época, eram mantidos em sigilo. Numa contra-ação das pichações difamatórias, jovens lançaram mão de pichações a favor do bispo. Uma que lembro vivamente dizia: “Dom Rodrigues, o pequeno grande bispo”. Isso porque ele era de baixa estatura. A simplicidade e o desapego aos bens materiais se mostram também no vestuário. A sua camisa lavava toda noite de mão própria e pendurava na varanda da casa, virada para a rua, para usar no próximo dia. Nunca usava ar condicionado, quando alguém passava de madrugada, ao lado da casa, ouvia, pela janela aberta, ele escrevendo na pequena máquina datilográfica, já os artigos e publicações dos últimos acontecimentos.

Para encerrar a entrevista, qual destacaria como sendo o legado do bispo emérito de Juazeiro, Dom José Rodrigues de Souza?

O legado? O Reino de Deus deve ser perseguido também aqui na terra, através da luta pela justiça, começando com cada um de nós. À Igreja e à sociedade faltam novos Dom José Rodrigues.

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