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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Latinoamericanamente

11 setembro de 1973. Eu era então um jovem estudante de teologia, frade franciscano que mal conhecia as coisas e o mundo. Mas a América Latina já pulsava nos corações dos estudantes em meio à ditadura militar brasileira. A morte, o suicidamento, de Salvador Allende foi um choque. Eram tempos em que os jovens, no meu caso, e muitos militantes das antigas sonhavam com uma frente guerrilheira que viria dos morros para derrubar os poderosos e o regime. Muitos estavam na cadeia – foi quando tivemos contato com as Cartas do cárcere, depois Cartas da prisão, de Frei Betto, e outros – outros tantos no exílio, outros eram torturados e mortos, outros tantos desaparecidos. Mas surgiam as Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais populares, quase na surdina, no silêncio, onde os espaços da Igreja permitiam ou eram tolerados.
O Chile e sua primavera eram o refúgio político preferido de muitos militantes exilados, além de Cuba e Europa, querendo conhecer e compartilhar da experiência chilena, além de não ficarem tão distantes dos seus e da pátria amada. Aí vem o golpe de Pinochet, assassinatos como o de Victor Jara, expulsão de brasileiros como Paulo Freire para mais longe.
Nos encontros de formação de jovens cristãos, cantávamos a plenos pulmões, com a alma e o coração, as canções de Victor Jara, preso e assassinado no Estádio Nacional com as mãos esmagadas para nunca mais tocar violão e cantar, e outras tantas canções latino-americanas, embalados pela voz de La Negra, a grande Mercedes Sosa. Sabíamos as letras de cor, em espanhol. Quem não lembra de Te recuerdo, Amanda? –  “Te recuerdo, Amanda/ la calle mojada/ corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel./ La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo,/ no importaba nada/ ibas a encontrarte con el,/ com el, con el, com el./ Son cinco minutos/ la vida es eterna/en cinco minutos./ Suena la sirena,/ de vuelta al trabajo/ y tu caminhando lo iluminas todo/ los cinco minutos/ te hacen florecer (...) Que partió a la sierra/ que nunca hizo daño/ que partió a la sierra/ y en cinco minutos/ quedó destrozado./Suenan las sirenas/ de vuelta al trabajo/ muchos no volvieram/ tampoco Manuel.” (Tantos anos depois, arrepio-me todo e canto baixinho ao transcrever a letra).
Ou Plegaria a um labrador: “Levántate y mira la montaña/ de donde viene/ el viento, el sol y el agua (...) Levántate y mirate las manos/ para crecer, estréchala a tu hermano,/ juntos iremos unidos en la sangre,/ hoy es el tempo que puede ser manãna./ Libranos de aquel que nos domina em la miséria:/ traenos tu reino de justicia e igualdad;/ sopla como el viento la flor de la quebrada,/ límpia como el fuego el cañón de mi fusil (...) /Levántate y mirate las manos/ para crecer, estréchala a tu hermano,/ juntos iremos unidos en la sangre,/ ahora en la hora de nuestra muerte. Amén.”
Eram os cantos da libertação e do despertar da primavera latino-americana, espelhada naquele momento no Chile. A esperança estava presente e nos animava na luta.
Veio o golpe de Pinochet, o fim da liberdade e da democracia, o suicidamento de Salvador Allende. Foi a inspiração para o poema que escrevi em 11 de setembro de 1973, afixado no Mural do Instituto de Teologia da PUC-RS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, também homenagem a Victor Jara e outros cantantes latino-americanos. Ei-lo: “ALLENDE VIVE!/Uma bala mata o homem./Uma bala não mata a ideia./Os dias são muitos,/ incandescentes./Ardem na poeira do tempo./Nada como as horas que se sucedem,/os minutos e segundos,/as batidas do coração que abraçam milhões./Sonhos são para serem sonhados./Sonhos iluminam o horizonte./Sonhos são eternos./Há um tempo para cada coisa./Há um tempo para a morte./ Há um tempo para a vida./Latinoamericanamente,/sobrevivemos. Brasileiramente, vivemos e ressuscitamos Allende”.
Os tempos passaram, são outros. Os sonhos, pelo menos no meu caso, permanecem, continuam vivos. Não são mais os sonhos de guerrilheiros descendo dos morros, "tomando de assalto o poder", à la Fidel, Raul e Che. Esse tempo e sua possibilidade passaram, embora continuem urgentes e necessários. O capitalismo financeiro, destrutivo e sem alma, tomou conta do mundo e elimina a esperança e o futuro de jovens e trabalhadores, especialmente na crise europeia.
O sentimento latino-americano, bolivariano, de Victor Jara, de Che, de Mercedes, tantas e tantos, porém, está vivo nos movimentos sociais e populares, na Teologia da Libertação, nas Comunidades Eclesiais de Base que ainda resistem, nas mobilizações e organizações dos de baixo, nos governos populares e democráticos.
Como cantava Jara, "hoy es el tempo que puede ser manãna", na América do Sul e na América Latina. Feliz e finalmente, o tempo que está-se fazendo hoje não é mais apenas futuro. É unidade sul e latino-americana, como pregava o Che, com democracia popular, com soberania, com igualdade e justiça. Há muito a fazer, coletiva e solidariamente, é verdade. Mas o tempo chegou, a história está sendo feita pelos pobres, pelos trabalhadores, pelos de baixo, quase 40 anos depois do suicidamento do socialista Salvador Allende.
Allende vive!

Selvino Heck 
assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

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