Loading...

terça-feira, 31 de julho de 2012

Opus Deu no que deu


 

Por Fábio Py Murta de Almeida

“Após passar os primeiros anos de seu mandato de papa escrevendo encíclicas, textos e documentos, ocupado com doutrinas que baseiam seu governo religioso passou mais recentemente à prática: caça aos desafetos”

Após alguns anos de papado Bento XVI começa a colocar as “mangas de fora”. Já era de esperar, pois se sabe quão conservador se tornou após assumir a posição de cardeal, e à cadeira do Santo Ofício como doutrinador da Santa Fé. Algo complicado para um eminente teólogo que é. Enfim, escrevo nesse espaço a fim de indicar dificuldades que vem sofrendo na maior tradição religiosa brasileira, com o governo do pontífice. Sim, primeiro quero destacar que o papado é um governo, pois o Vaticano é um estado religioso. Localizado em Roma e espalhado pelo Globo em suas Paróquias. Nesse caso, após passar os primeiros anos de seu mandato de governador/papa escrevendo encíclicas, textos e documentos, ocupado com doutrinas que baseiam seu governo religioso passou mais recentemente à prática: caça aos desafetos.
Leia mais artigo do articulista:

Uma introdução ao problemático conceito da caridade

O ato de caçador tem o rosto dos governos locais que assumem o gatilho no enquadramento de sujeitos em descontinuidade com a reta doutrina da Igreja. Eles são os responsáveis pelas punições. Entre as últimas ações desse poderoso estado de caça chefiado pelo papa de tentáculos nos governos locais, as mais significativas ações retaliadoras recentes foram: primeiro, junto às Irmãs da Misericórdia dos EUA, retalhando o livro da professora de Yale, Margaret Farley, com titulo “Just Love”, considerado de conteúdo “desobediente” pelos bispos dos EUA; segundo, junto ao teólogo André Torres Queiruga pela notificação dos bispos espanhóis, pois as obras dele tematizam o “repensar” teológico (que para a atual cúpula da Santa Fé não se tem necessidade de repensar por que tudo já se é conhecido); terceiro a indicação que docentes de teologia das “PUCs” sejam cléricos e não mais leigos como antes na

América Latina; quarto e última indisposição foi a de após de anos de conflitos se retirou da importante Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) a nomeação de “Pontifícia” e “Católica”. O Judas da universidade foi o cardeal de Lima, Juan Luis Cipriani. E, nesse último detalhe gostaria de me deter, pois aflige diretamente os da América Latina.

“É a tentativa de retalhar não só a universidade do Peru, mas indispor a Teologia da Libertação”

Em Jogo

Penso que o que esteja em jogo nessa deliberação é a tentativa de retalhar não só a universidade, mas indispor a Teologia da Libertação. O estopim para tal deposição veio da tentativa do cardeal de Lima (da Opus Dei) Juan Cipriani em tentar indicar o nome do novo reitor da universidade. Fato, que não foi devidamente acatado pela direção e alunos da universidade. Alegaram falta de autonomia universitária. Como estou dizendo não acho que seja algo apenas esporádico preso a Lima, Peru. Não mesmo; não acho que seja uma indisposição qualquer numa universidade. Até por que a PUCP tem relevância no meio religioso na América Latina. Foi nela que o padre Gustavo Gutierrez, escrevera a primeira sistematização da Teologia da Libertação, em 1961.

Origem da TdL

“A PUCP foi o espaço que permitiu academicamente aflorar os enredos da libertação; sendo não só lembrada como berço dessa produção teológica, mas também, a partir dela se abriu ao diálogo com a sociedade”

Nela, efetivamente, o padre publicou o livro “Teologia da Libertação” e seu “A força histórica dos pobres”, entre outras obras. Nelas, parte da ideia de “Igreja dos Pobres”, conceituando como as exigências que se apresentam a Igreja em um mundo marcado pela pobreza e injustiça e a famosa designação: opção preferencial dos pobres; fragmentos que simbolizam o pensamento teológico da corrente. Nesse sentido, a PUCP foi o espaço que permitiu academicamente aflorar os enredos da libertação; sendo não só lembrada como berço dessa produção teológica, mas também, a partir dela se abriu ao diálogo com a sociedade. O que se vê em eventos como a Jornada de Reflexão Teológica chegando a reunir cerca de 1.800 pessoas em torno da teologia, preferencialmente leigos. Evento encabeçado por Gutierrez.
Aviso para o Brasil?
Nesse sentido, é a primeira retaliação desse novo governo à corrente latinoamericana. Achei até que demorou a ocorrer. Mas, quando veio, pegou direto no Calcanhar de Aquiles. Afinal, de bobos nada têm os lobos da Opus Dei, que preenchem as principais cadeiras do governo de Bento XVI. Agora, fico me perguntando se a mordedura da cúpula conservadora do Vaticano na PUCP pode ser encarada como um aviso às universidade católicas daqui? Isso, só no futuro saberemos. Mas, de fato, será que já não está ocorrendo ao se retirar (gradualmente) a posição dos leigos dos locais, cargos e atividades católicas
Infelizmente, por isso, se percebe que o que era antes a Igreja dos pobres, hoje é da Opus Dei.

Fonte: Caros Amigos

Um comentário:

PE. ADEMIR FARIAS disse...

É lamentável a maneira com que o sr. Fábio Py Murta de Almeida se refere ao santo padre. Em primeiro lugar, o papa não é somente (é também) um chefe de Estado, mas pela fé sabemos que é a cabeça visível da Igreja e sucessor do apóstolo Pedro. Pelo menos assim devem crer os católicos de fé. Em segundo lugar, uma das funções que caracterizam a missão dos bispos, e em primeiro lugar do papa, é garantir que a fé e a moral sejam preservados do erro. Se o sr. Fábio Py Murta de Almeida leu a obra da referida religiosa, deve saber muito bem que existem inúmeras questões morais que nao condizem com aquilo que é seguro afirmar, sem ferir o ensinamento de Nosso Senhor, sobretudo em matéria de ética sexual. Outro pensador citado é o de sobrenome Queiruga, que sem dúvida traz em sua obra muitas coisas interessantes que ajudam a reflexão teológica, porém, existem pontos da sua teologia que nao favorecem a vivência da fé ensinada pela Igreja e preservada por dois mil anos; ou seja, muitas afirmações cheiram heresia.
Pois bem, uma coisa que se deve ter bem presente (o que normalmente os críticos da Igreja e defensores destes teólogos não dizem) é que quando a Igreja chama um individuo para se explicar, ou explicar sua teoria teológica, a Igreja nao condena toda a obra daquele pensador. Mas, pelo contrário, pede que este possa esclarecer os pontos que causam dúvida ou pode levar ao erro. O que acontece é que muitos destes pensamentos nao são compatíveis com a fé, e estes teólogos nao conseguem com suas argumentações torná-las compatíveis. Vejam: a Igreja pode sim censurar uma parte, alguns pontos, e pedir esclarecimentos com relação à algumas obras, mas nao significa que rejeite toda a obra de um autor. Também acontece que muitos destes autores não têm a humildade de escutar a Igreja e querem que nós aceitemos como verdade seus posicionamentos.
É uma pena que tantos que criticam o jeito de ser da Igreja e de seus líderes sejam tão magoados ao ponto de apegar-se a meias verdades e para defender seu partido, sua ideologia, seu ponto pessoal de vista, feche os olhos para a necessidade da ordem e a responsabilidade do ensino coerente do conteúdo da fé.
Pe. Ademir Farias