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terça-feira, 3 de julho de 2012

Papa nomeia bispo 'atípico' como guardião do dogma católico


Arcebispo Gerhard Ludwig Muller celebrou na Alemanha, em 2005, missa em homenagem à nomeação do novo papa. Foto: AFP Arcebispo Gerhard Ludwig Muller celebrou na Alemanha, em 2005, missa em homenagem à nomeação do novo papa

O papa Bento XVI nomeou como novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Santa Inquisição), entidade encarregada de corrigir os desvios teológicos, o arcebispo alemão Gerhard Ludwig Muller, um catedrático que colaborou com um dos principais nomes da Teologia da Libertação.
Muller, bispo de Regensburg (Alemanha), de 64 anos, substitui o cardeal americano William Levada, que se aposentou e pediu para voltar ao seu país. O novo prefeito, renomado teólogo como o próprio Papa, especialista em diálogo ecumênico e teologia da Idade Moderna, ocupará o posto que por 23 anos foi de Joseph Ratzinger, o atual pontífice.
Considerado em seu país um ortodoxo por suas posições ante as reivindicações da Igreja de base, Muller é conhecido por sua amizade e atitude aberta em relação a um dos principais inspiradores da Teologia da Libertação na América Latina, o peruano Gustavo Gutiérrez, censurado pela Santa Sé na década de 80 por seus princípios marxistas.
O perfil de Muller como hierarca da Igreja é atípico. Duramente criticado em seu país pelo movimento liberal "Somos Igreja", por suas posições conservadoras e por sua defesa da chamada "doutrina sã" em temas como a eucaristia e a virgindade de Maria, ele é, por outro lado, amigo de Gutiérrez, um dos pais da teologia revolucionária contra as injustiças sociais na América Latina.
Muller também tem uma longa história com a América Latina, para onde viaja todos os anos desde 1988 para seguir os cursos de Gutiérrez. Segundo observadores de assuntos vaticanos, Muller é uma pessoa de diálogo e em várias ocasiões chegou a defender a Teologia da Libertação, embora do ponto de vista teórico e abstrato, considerando que a defesa dos pobres é um modo justo de atuar de um cristão.
O posto de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé é chave na Cúria Romana, o governo central da Igreja, por ser a guardiã do dogma e o encarregado de corrigir os desvios teológicos na Igreja.



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CIDADE DO VATICANO - Depois de passar boa parte de seu mandato como prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé combatendo a Teologia da Libertação, o Papa Bento XVI nomeou para o cargo alguém que foi aluno de um dos criadores do movimento. O bispo alemão Gerhard Ludwig Müller, de 64 anos, assume o comando da antiga Inquisição também com o histórico de ter participado ativamente em diversos comitês ecumênicos, inclusive atuando como negociador-chefe dos católicos junto aos luteranos.
Ao mesmo tempo em que é um velho amigo de Bento XVI - tendo fundado um instituto para publicar 16 volumes de escritos do Pontífice - Müller escreveu com o padre peruano Gustavo Gutiérrez, de quem foi aluno, o livro "Do lado dos pobres - a Teologia da Libertação", publicado em 2004. Em um discurso em 2008, Müller defendeu o movimento como uma interpretação correta dos ensinamentos da Igreja sobre os pobres, e não um chamado à revolução - argumento central da crítica do então cardeal Joseph Ratzinger. O próprio Bento XVI, diz o bispo, estaria de acordo com alguns aspectos da Teologia da Libertação.
- Uma questão importante é se seu contato duradouro com os teologistas da libertação sul-americanos, em particular com seu pai espiritual Gustavo Gutiérrez, vai levar a uma nova interpretação da teologia - diz o grupo reformista católico alemão Nós Somos a Igreja.
À frente da Congregação, Müller terá de lidar com os escândalos sexuais envolvendo a Igreja Católica. Nessa questão, ele foi criticado pela Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres por permitir que o prelado americano Peter Kramer, condenado por crime sexual envolvendo crianças, voltasse a prestar serviços paroquiais após terapia.
O bispo herda uma outra questão não concluída envolvendo religiosos dos EUA. Seu antecessor, o cardeal americano William Levada - que deixa o cargo por limitação de idade - foi alvo de críticas por abrir uma investigação contra a Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas, a maior organização de freiras do país reconhecida pelo serviço social, por suposto distanciamento da doutrina católica.

 

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