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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O excesso de confiança no setor nuclear

Um dos responsáveis da Agência Internacional de Energia Atômica teria advertido em 2008 o governo japonês para o risco de fortes sismos poderem pôr em causa a segurança das centrais japonesas. A central de Fukushima foi desenhada para resistir a sismos de escala 7, o sismo da passada sexta atingiu o grau 8,9. Aliás têm-se alimentado muitos fantasmas sobre as virtudes da organização da sociedade japonesa, mas a realidade é que o Japão apresenta um dos piores registos de acidentes graves na indústria nuclear.

O segredo em torno dos programas nucleares soviético e americano e o clima de competição da Guerra Fria explicam a falta de transparência tanto dos EUA como da URSS sobre os problemas e os acidentes que iam ocorrendo nas centrais nucleares. Inclusive em nível interno, pequenos incidentes eram prontamente abafados, sobretudo na URSS. Antes de Chernobyl, os engenheiros soviéticos tinham muito pouca informação sobre os acidentes ocorridos noutras centrais do país, logo na prática estavam convencidos que a probabilidade de ocorrência de acidentes era próxima de zero. Gerou-se assim um clima de excesso de confiança que foi uma das principais causas do acidente de Chernobyl, quer no desleixo na implementação o projeto durante a construção da central, como na negligência dos engenheiros durante o teste de segurança que ironicamente desencadeou o acidente.

No entanto, o excesso de confiança estende-se às sociedades mais abertas, sobretudo quando a lógica de mercado é aplicada aos programas nucleares civis, como adverte Georges Charpak (Nobel da Física e um dos responsáveis do programa nuclear francês) no livro "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005. O acidente de 1999 em Tokaimura no Japão ocorreu porque a lógica do lucro de uma empresa privada se sobrepôs às regras mais elementares de segurança. Para poupar, foi guardada no mesmo recipiente demasiada quantidade de uma solução com material radioativo, tendo-se atingido a massa crítica para desencadear uma reação em cadeia. A reação emitiu fortes doses de radiação que provocou a morte de dois trabalhadores e sérios problemas de saúde em um terceiro.

A opção de construção de 55 reatores no arquipélago japonês, em permanente risco sísmico, insere-se na mesma lógica de lucro que se sobrepõe à segurança. Não é de estranhar a revelação feita pela Wikileaks (divulgada no Daily Telegraph) de que um dos responsáveis da Agência Internacional de Energia Atômica teria advertido em 2008 o governo japonês para o risco de fortes sismos poderem pôr em causa a segurança das centrais japonesas. A central de Fukushima foi desenhada para resistir a sismos de escala 7, o sismo da passada sexta atingiu o grau 8,9. Aliás têm-se alimentado muitos fantasmas sobre as virtudes da organização da sociedade japonesa, mas a realidade é que o Japão apresenta um dos piores registos de acidentes graves na indústria nuclear. Aos referidos junta-se ainda o acidente de Mihama em 2004.

O excesso de confiança surge ainda nos debates domésticos sobre o nuclear (não apenas em Portugal) quando se reduz o número de acidentes a Chernobyl (nível 7), quando se esquece o acidente de Three Mile Island em que o puro acaso não produziu outro Chernobyl (nível 4), quando se ignora Tokaimura (nível 4) e Mihama no Japão ou os recentes acidentes nas centrais de Sellafield no Reino Unido (nível 3) e de Forsmark na Suécia (nível 2).

A indústria nuclear é mais segura do que a generalidade das indústrias químicas, mas não é uma indústria imaculada, não é uma indústria de risco zero nem nada que se pareça. E como os acidentes da indústria nuclear são potencialmente muito mais perigosos e muito mais caros de remediar, na hora de tomar decisões deve-se oferecer às populações toda a informação disponível, deve-se usar da máxima transparência. Claramente não foi isso que aconteceu no Japão.

Rui Curado Silva Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra


Fonte: Carta Maior

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