quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

“Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”


Com a música se aprende, com ela se ensina. Nela está registrada a memória e a partir dela se faz história. E em meio estrofes e refrãos, que quero dedicar algumas linhas a quem (re)produz acordes e sons, numa cadência libertadora. Peço licença à Elis Regina para expressar, em algumas palavras, o que vem a seguir: “Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar...”

Antes de tudo, a música é identidade. A partir dela e nela, conseguimos reconhecer e nos encontrar. Não é por acaso que em encontro de CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – é comum ouvir músicas de Zé Martins, assim como num grupo de base ou grandes atividades da Pastoral da Juventude ouvir canções de Zé Vicente. Mas, se fores a estes espaços e não encontrar uma música pastoral¹ na mesma linha que destes dois artistas, estranhe.

A música na história da salvação tem um papel fundamental. Além de ser louvor e/ou de súplica, ela também tem um caráter pedagógico. Não é a toa que de geração em geração, a caminhada de libertação se fortaleceu na medida em que as pessoas iam percebendo que a presença de profetas/profetizas, era a presença de Deus caminhando com seu povo. Com isto, saia-se do abstrato, desmistificando a idéia ilusionista sobre o Divino. No antigo e novo testamento, homens e mulheres vivem uma liturgia que une fé e vida, louvor-ação: louvação!

E por falar em liturgia, como estamos cantando nossas missas, nossos ofícios, nossas romarias? Como a vida de nossas comunidades está sendo celebrada em todos os elementos, inclusive a música que tem importante função no rito? Silencio e reflito... Me vem então uma nostalgia do salmodiar de Amanda Borges, jovem do Jurunas (Belém/PA), das cordas em movimentos pelos dedos de Arleth Gonçalves, Murilo Araújo, Andriele Costa, Emanuel Cardoso... das vozes em harmonia de Sidnei Rodrigues, Carol e dos(as) demais PJoteiros(as) reunidos(as) para viver/celebrar...

Em todos os cantos surgem melodias e letras diversas. No ambiente religioso também se faz presente esta diversidade musical. Grandes compositores como Pe. Zezinho, Reginaldo Veloso, Ir. Miria Kolling, além dos supracitados e demais nomes, fizeram da música católica instrumentos potenciais de evangelização. Sabem que “uma canção religiosa é mais do que aleluia, glória e assim seja, é muito mais que por um verso numa melodia pra cantar na Igreja”.

Todavia, numa era neoliberal, até mesmo (ou principalmente) nos cenários eclesiais se faz necessário a pergunta “que Deus é meu Deus?” para que possamos entender que música reflete a minha/nossa fé. Ainda que se busque a valorização da individualidade de cada pessoa, não se pode perder de vista a dimensão comunitária. E neste remar na contramão das “modas cristãs”, enfrenta-se até mesmo músicas que tendem reforçar o individualismo frente aos grandes problemas sociais, resumindo a dimensão mística-teologal em psicoafetiva.

Lembro-me com alegria da grande marcha do DNJ 2011, realizado em outubro deste ano na periferia de Belém. No entoar das músicas, crianças empobrecidas subiram na sacada de uma casa com panelas, paus e latas e começaram acompanhar os(as) jovens que cantavam nas ruas do bairro da terra firme, a luta em defesa da vida das mulheres. Enquanto isto, os(as) moradores(as) daquela comunidade ficavam nas portas e janelas, acompanhando a caminhada. Aquele momento, aquelas músicas junto a atitude das crianças e dos(as) jovens, fez da música católica realmente algo universal, refletindo as lutas do povo e o Projeto de Deus. Fez das músicas sementes no caminho...

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¹ Numa breve definição, música pastoral é toda aquela canção que tem na sua essência o profetismo e a missão, além da valorização da cultura popular e da pessoa na sua integralidade. Elementos fundamentais para um trabalho pastoral.
² Trecho da música “Cantor Religioso” de Pe. Zezinho.

Fonte: Blog do Eduardo da Amazônia

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