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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

40 anos da Teologia da Libertação

Há 40 anos, começava uma nova maneira de fazer teologia, que repercutiu notavelmente na sociedade e na Igreja. Com seu livro, o peruano Gustavo Gutiérrez cunhou esta nova maneira de fazer teologia: Teologia da Libertação. Aos 40 anos, alguns a dão como acabada e outros a felicitam pela tarefa desenvolvida e os desafios que coloca de cara com o futuro.

Mas a Teologia da Libertação não começava nos anos 70. Em 1492 se dá o chamado descobrimento da América Latina e em 1511, um frei dominicano, Montesinos, em nome de sua comunidade e diante das autoridades da Ilha Espanhola (hoje República Dominicana), disse, referindo-se aos indígenas e ao trato que recebiam: “Estes, por acaso, não são homens?”. Primeira pergunta de uma história da libertação, como muito bom explicou o professor Reyes Mate, em conferência sobre este tema.

A história da Teologia da Libertação pode-se dizer que começou no dia 11 de dezembro de 1511, portanto há 500 anos.

Sem dúvida, não faltaram cristãos que, desde sempre e desde a experiência de sua fé, viam a teologia subordinada a imperativos colonizadores opressivos. Mas, sua experiência não chegava a se formular em novas categorias teológicas e tornar-se pública na sociedade. A partir dos anos 60, vão se produzindo no mundo grandes expectativas de mudança, mas os cristãos pareciam carecer de criatividade e não incidir nesta mudança com alternativas próprias de transformação.

Nesta época Gustavo Gutiérrez lança um enfoque teológico novo a partir do contexto latino-americano. Como apresentar Deus num mundo bipolar de ricos e pobres, onde por lógica sua relação é de injustiça e de exclusão, e como, aí, a fé é capaz de provocar mudanças radicais? Essas mudanças apontam no sentido de que os pobres, os excluídos, os discriminados deixem de sê-lo, o que não é possível sem mudar o sistema.

Se os cristãos têm como base e medida o Evangelho, encontramos nele uma declaração, que soa a Manifesto, na parábola do bom samaritano. Nela se partem todos os esquemas de vãs teologias e se marca o estilo a seguir. Pergunta Jesus: “Na sua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. “Aquele que praticou misericórdia para com ele”, respondeu o especialista em leis. Ao que Jesus respondeu: “Vá e faça a mesma coisa” (Lc 10, 30-37).

Sentir misericórdia e agir em consequência é condição prévia para aquele que quiser fazer Teologia da Libertação. Antes que uma reflexão fria e abstrata, a Teologia da Libertação é uma vivência, uma prática de amor, dentro da qual brota naturalmente uma maneira nova de fazer teologia.

Obviamente, a Teologia da Libertação não acaba em si mesma, não se contenta em dar explicações do que está acontecendo, mas avança até realizar práticas de mudança e libertação. Explicar a realidade contraditória existente e deixá-la como está não é Teologia da Libertação. A realidade, injustamente interpretada e configurada, necessita ser mudada para ser conformada com o projeto de Deus, que Jesus chamava de Reino de Deus, e que se constrói na base da igualdade, justiça, fraternidade e liberdade. Viver a libertação em mudanças e práticas libertadoras é um imperativo para o cristão, caso quiser ser fiel ao plano do Deus libertador.

Para a mudança da realidade, os cristãos têm que contar com uma análise dessa realidade tecida em torno do binômio riqueza/pobreza, Norte/Sul e que demonstrará que essa situação não é fruto da casualidade nem da vontade dos deuses, mas do egoísmo e cobiça dos homens, do domínio que os mais fortes estabelecem sobre os mais fracos e necessitados.

Esta análise é necessária para descobrir as causas reais da opressão e seus sujeitos responsáveis e evitar o idealismo. O marxismo, não como filosofia ou visão global da realidade, mas como ciência, pode ajudar muito para o conhecimento dessas causas e as funestas consequências derivadas. Vale enquanto sua análise se mostrar verídica para assinalar a gênese e os efeitos do capitalismo. Nunca os teólogos da libertação assumiram o marxismo como visão filosófica da realidade nem o utilizaram acriticamente.

Precisamente porque a Teologia da Libertação aponta para a mudança do que é opressão e injustiça, foi caluniosamente atacada. Esta teologia reclama para a Igreja inteira, o lugar próprio que lhe atribui sua fé desde o seguimento de Jesus: ser pobre, viver com os pobres e comprometer-se com sua libertação.

Este reposicionamento da Igreja é perigosa para os opressores e para uma Igreja-Poder, acostumada a viver em aliança com os poderosos. Nada se dá nesta teologia que não traduza com fidelidade a mensagem radical de Jesus e seu Evangelho. Mas, os “questionados” pela Teologia da Libertação e seu domínio e “meios gigantescos” se encarregaram de espalhar que a Teologia da Libertação era heterodoxa por sua marxistização, seu afastamento do magistério eclesiástico, seu fomento da guerrilha, seu conceito meramente temporal da salvação, por reduzir o Jesus histórico a um líder terreno...

Posteriormente, não poucos vinham associando a sorte da Teologia da Libertação ao socialismo real. A queda deste os fez crer que, paralelamente, estava caindo a Teologia da Libertação. Duplo engano: porque o socialismo não se identificava com o socialismo de Estado e a Teologia da Libertação não era subordinada sua, mas tinha origem e base própria no Evangelho. Como muito bem disse o bispo Pedro Casaldáliga: “A Teologia da Libertação não tem Marx como padrinho, mas Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”.

A queda do socialismo real não canonizava a maldade intrínseca do capitalismo, mas que incitava antes a aprofundar as causas de sua opressão, hoje globalizada. Como sempre, as estruturas econômicas contam na marcha da sociedade, e sem elas não se pode entender o funcionamento do sistema neoliberal. Mas, não são determinantes nem afogam a influência de outros fatores da sociedade, sendo o protagonismo dos cidadãos o maior de todos. A consciência atual pode reverter a visão eurocêntrica dominadora que, há mais de 400 anos, governa a Terra. O homem não é, em relação à Terra, dono e depredador, nem pode continuar a explorá-la de maneira ilimitada e egoísta.

Hoje, a Teologia da Libertação atua nas frentes mais necessitadas de libertação: mulher/varão, religiões confrontadas, indígenas encurralados, povos secularmente submetidos...

O novo paradigma da Teologia da Libertação ultrapassa todas as subordinações do mundo moderno, plasmadas na sociedade e sistema capitalista. A sociedade atual, com o protagonismo dos cidadãos – assim como aparece no movimento M-15 dos indignados – está marcando um novo giro frente à relação de domínio, estabelecido ao longo de séculos.

É um fato que a Teologia da Libertação parece não proporcionar, como em anos anteriores, pensadores eminentes. Seguramente, porque sua seiva viva e transformadora circulou por debaixo, mais horizontalmente, permeando e impulsionando diretamente o pensamento e a ação dos “sem voz”.


Benjamín Forcano

Fonte: IHU

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