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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Das Comunidades Eclesiais de Base para o Tráfico de Drogas: a transição da juventude brasileira


Quando eu era mais jovem minha subjetividade encontrou amparo para além da família. É que quando a gente é mais jovem fica um pouco mais solto que de costume e o mundo oferece muitas de suas caixas para que a mão insatisfeita, imprudente e apressada abra a caixa de pandora, de onde sonhos maravilhosos e pesadelos horrendos podem emergir. O mundo da juventude, povoado de sonhos e esperanças cheias de vigor, alimenta o mundo do viço fortalecedor das ações, das atitudes, dos valores, das utopias que impedem o mundo de sucumbir definitivamente na barbárie. Um dos meus amparos na juventude mais viçosa foi a Igreja Católica, através das comunidades eclesiais de base, que nos ensinavam valores e crenças para transformar o mundo da desesperança no mundo da esperança perene no ser humano renovado pela fé num Deus comprometido com os injustiçados, com os mais pobres, com os desesperados, com os mais humildes humanos que compartilham as datas da história.

Na Comunidade formávamos grupos jovens, orientados por freiras, padres e pessoas mais experientes da comunidade, onde construíamos nossas subjetividades compartilhadas por valores cristãos dirigidos por uma perspectiva teológica da libertação. Não rezávamos para Deus e contra o mundo. Rezávamos no mundo, pelo mundo e com Deus, que nos ensinou que o pão e a oração andam juntos, que fé e vida constituem o mesmo processo de existir em nome de princípios, valores, utopias de transformar as velhas estruturas desse mundo em estruturas a serviço da vida, da verdade e do amor. Isso fazia um efeito poderoso em nossa formação de jovens da periferia. Não era uma formação qualquer.

Era um processo vivo de aprender fazendo algo que dava resultados benéficos e deixava pessoas que mais necessitavam bem mais felizes. Os mutirões provocavam esses efeitos. Vinham homens e mulheres e consertavam pingueiras, derrubavam e reerguiam paredes, trocavam telhados, consertavam camas, sanavam infiltrações e vazamentos. Depois tomávamos cerveja, suco, pinga e comíamos feijoada, bolinhos, pãezinhos feitos pela bondade de todos e todas. Olhávamos uns para os outros e descobríamos as potencialidades de cada um através das ações solidárias que empreendíamos.

Foi um tempo tão bonito da minha vida! Não tínhamos tempo para as drogas nem para as lamentações. Pensávamos sempre a esperança e a utopia. Ninguém era menos entre nós. Cada um fazia a sua parte no todo e cada um era todo nas partes. A nossa totalidade orgânica traçava a rede onde cada um era tecido enquanto tecia, não propriamente a si mesmo, mas a todos em si mesmo e o si mesmo, inevitavelmente, era tecido em todos. Uma rede de gente pescando gentilezas, humanidades reconciliadas com o cosmos e com Deus no mar da história humana.

Os encontros da juventude promovidos pela comunidade eram fundamentais para a celebração e partilha disso tudo. Vinham grupos da Capelinha, do Bom Juá, da Baixa do Cacau, da Fazenda Grande do Retiro, do Calafate, da Fonte do Capim, do Alto do Peru, da Jaqueira do Carneiro, da Boa Vista do São Caetano e da Sussunga. Nomes de lugares estranhos para quem pensa numa Salvador a partir da Geografia das elites soteropolitanas. Nomes de lugares que minha memória guarda com carinho precioso de um tempo inesquecível. Nesses encontros nos conhecíamos e, o melhor: nos reconhecíamos! E isso era o mais importante. Reconhecer aqueles e aquelas que veem traçando uma história diferente consigo e com os outros.

A gente talvez sabia sem saber o quanto era importante agir diferente e viver outro rumo nesse mundo que está á espreita do tolo e do insensato. Esse mundo que vai devorando a nossa alma e nos transformando em consumidores também vorazes; esse mundo que retira nosso tempo de pensar e nos faz trabalhar cada vez mais, não mais em nome de algo aparentemente digno e valoroso, como o suposto progresso que a ideologia dominante nos afetava, mas em nome do consumo mesquinho que descaracteriza nossas identidades e nos uniformiza como “clientes”, seres que compram, engrenagens que fazem o novo deus mercado funcionar, “para o bem da economia”.

E essa transição foi nos tomando e os ventos da nossa história peculiar foram tomando outros rumos.

A Igreja Católica foi esquecendo os Encontros Episcopais de Puebla e Medellin e foi desarticulando as Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais comprometidas com uma perspectiva cristã revolucionária, entre elas, a Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), e foi nos impondo uma Pastoral da Juventude de orientação carismática, que só rezava, rezava, rezava, cantava, cantava, cantava, e nos afastava de Deus.

Ficou o impasse: ou a juventude da periferia se adequava aos ditames de Dom Lucas Moreira Neves, de Ratzinger e do Papa João Paulo II, ou seria melhor que saíssemos.

A segunda opção nos pareceu melhor. E a Igreja levou a comunidade consigo para o céu.

De lá, a comunidade só pôde ficar observando a história sem mais poder formar subjetividades rebeldes, comprometidas com um novo mundo que Jesus Cristo propôs. S

em poder trazer o céu pro mundo, por orientações históricas dos poderosos da Igreja Católica que impediram as comunidades de participarem ativamente da história, tais comunidades perderam seu élan vital e sucumbiram.

A juventude desapareceu, pois suas lideranças foram começando a serem indesejadas, pois suas palavras queimavam pensamentos arcaicos, gestados em segredo no alto comando da Igreja. Quem sabe um pensamento articulado com os altos comandos da política brasileira? Quem sabe sarney’s e os “dons” (bispos e cardeais), não estejam estrategicamente nesse jogo de xadrez impedindo que os peões deem um xeque-mate definitivo nessa história mal contada de poderes podres que se articulam contra os filhos dessa mãe nada gentil?

Os lugares onde morávamos e moramos foram sendo tomados pelos traficantes. Não mais a comunidade andante procurando servir a quem precisa e atraindo jovens esperançosos para atuar nesse processo. Isso acabou. A Igreja deu uma contribuição inestimável para essa mudança trágica.

As esquinas foram sendo ocupadas por jovens com armas na cintura, tomados por expressões de ameaça à vida dos moradores. Foram tornando-se feras a serviço de outros poderes, poderes desumanizantes, a serviço do consumo de drogas por jovens das classes médias e altas. Uma juventude servindo a outra e as duas a serviço dos grandes traficantes que foram tomando corpo no estado da Bahia.

O Governo sonolento foi deixando tudo ocorrer sem combater a ameaça que se articulava contra a vida e a paz dos humildes. Deslocados do Rio e São Paulo os grandes traficantes montaram novas bases aqui e a violência começou a matar milhares de jovens todos os anos. As bases são outras agora e a Igreja Católica tem uma responsabilidade muito grande nisso.

Assim como a rede da vida se estendia em ações solidárias e atraiam os jovens para sua luz, assim também a rede da morte se estende pelos confins de nossa cidade, de nosso estado e de nosso país, e mata milhares de jovens todos os anos, pois a última luz que eles e elas veem na vida, é a dos disparos impiedosos das armas, que assinam com sangue seu relatório funesto da participação da juventude em suas hostes.

E o Bispo Primaz do Brasil jamais terá a capacidade de escrever um relatório contrário, pois sabe dos meandros do poder que silencia aqueles que têm coragem de pronunciar a tessitura da morte em função da ânsia de poder e controle que a Igreja exerce desde que foi assumida pelo estado Romano, pois sua poderosa mão também abriu a caixa de pandora, de onde a fumaça das drogas emergiu para o nosso mundo. A juventude abandonada precisa de espaços para reconstruir o seu destino vital de transformar esse mundo sujo, podre, doente, viciado em vitrines, cocaínas e crack.

Joselito Manoel de Jesus

Um jovem professor da UNEB e um jovem que saiu da comunidade por não mais crer naquele deus inventado pela igreja, que não se compromete com o ser humano na mudança das estruturas nocivas do nosso mundo.

Fonte: Tecendo Fios com Jô

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