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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Caminhar com os pobres para construir uma teologia viva

 “Para mim é um absurdo falar em autocrítica a respeito da relação entre Teologia da Libertação e marxismo”, afirma Jon Sobrino

Ao refletir sobre os rumos da Teologia da Libertação nos últimos 40 anos, o teólogo espanhol Jon Sobrino reconhece que ela pode ter perdido um pouco da força e da potência midiática que possuía nos anos 1980. Ele recorda a época dos regimes militares na América Latina, que teria sido o período de maior perseguição aos teólogos da libertação: “as ditaduras militares usavam força militar, ou seja, armas, com as quais podiam matar e assim o fizeram. Agora o que temos são democracias capitalistas. E que poder elas têm? O capital. Este não mata normalmente, porque pode enganar ou comprar as pessoas de outras formas. A Teologia da Libertação pode realmente ter perdido forças. O que não perde as forças é o capital”. Para Sobrino, “o capitalismo pode tolerar até certo ponto a ajuda e o amor aos pobres. Outra coisa é quando se sai em defesa deles, o que provoca um conflito social. Nesse sentido, o povo pobre ensina a nós, que não somos pobres, a ver melhor as coisas do mundo real, porque vivem uma realidade que não vivemos. Em geral, os pobres não querem servir de exemplo para ninguém. Eles simplesmente dão o exemplo pela experiência, pelo modo de ser e nos evangelizam”.

Jon Sobrino é professor da Universidade Centro-Americana – UCA, de San Salvador. Doutor em Teologia pela Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt (Alemanha) e diretor da Revista Latino-americana de Teologia e do informativo Cartas a las Iglesias, é autor de, entre muitos outros livros, Cristologia a partir da América Latina: esboço a partir do seguimento do Jesus histórico (Petrópolis: Vozes, 1983). Sobrino esteve na Unisinos participando do Congresso Continental de Teologia, com a conferência inaugural do evento, intitulada “Um novo Congresso e um Congresso novo”, no último mês de outubro, ocasião em que concedeu a entrevista a seguir, pessoalmente, à IHU On-Line.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais os caminhos para se construir uma teologia viva?
Jon Sobrino – Há um poema de um poeta espanhol chamado Antonio Machado , cantado por Joan Manuel Serrat , cantor popular espanhol, que diz “Caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao andar” . Você me pergunta quais os caminhos para construir uma teologia viva. E eu te respondo com a canção: não há caminhos; eles se fazem ao andar. Se vivemos no mundo com os olhos abertos para ver a pobreza real, percebemos que ela se capta melhor com o nariz, com o cheiro das pessoas. Às vezes, quando vemos os pobres nas fotografias, eles são até bonitos: estão nus, sujos, até simpáticos. Mas quando nos deparamos com os pobres e queremos humildemente ajudar, estamos fazendo o caminho para uma teologia viva. Constrói-se uma teologia viva caminhando com os pobres. Casaldáliga , que é outro grande poeta, comentando a referida poesia de Antonio Machado, diz: “o caminho se faz ao andar para que os atrasados possam nos alcançar. É preciso caminhar para animar aqueles que estão atrás, para que também caminhem. Faça do canto do teu povo o ritmo da tua marcha”.
IHU On-Line – Quarenta anos depois do surgimento da Teologia da Libertação, que autocrítica ela deve fazer?
Jon Sobrino – A primeira autocrítica é reconhecer que é humana. E não falo aqui da Teologia da Libertação, mas de teólogos, teólogas, homens, mulheres, sacerdotes, leigos e jornalistas também. Falo de pessoas. Há jornais e periódicos da libertação, mas há também os da opressão. O que vejo é que há resistência à Teologia da Libertação por parte do Vaticano, que a persegue. Talvez, às vezes, com razão, afinal, ela não é perfeita; mas muitas vezes sem razão. Alguns teólogos, como Ignacio Ellacuría , foram mortos não por serem teólogos da libertação, mas por defenderem o pobre, por lutarem pela justiça e trabalharem pela paz. A direita dos militares não queria ouvir falar de uma paz entre marxistas e ricos. Também destaco que a Teologia da Libertação começou como um movimento realizado por homens e devemos nos perguntar o que temos feito com as mulheres enquanto intelectuais pensantes e teólogas? E nesse campo é preciso fazer uma autocrítica. No entanto, as coisas estão caminhando. O mesmo ocorre em relação aos indígenas. Para mim é um absurdo falar em autocrítica a respeito da relação entre Teologia da Libertação e marxismo.
IHU On-Line – Muitos criticam a Teologia da Libertação, dizendo que ela perdeu o entusiasmo e a força de atuação dos anos 1980. Como recebe essa crítica e quais os desafios da Teologia da Libertação hoje? 
Jon Sobrino – Em primeiro lugar, a Teologia da Libertação é um ente abstrato. Ellacuría também perdeu a força quando estava vivo, porque o mataram. Mas mantém sua força mesmo morto, como teólogo, por meio de seus escritos, que hoje são muito mais lidos do que antes. Gustavo Gutierrez  perdeu força? Creio que não, pois aos 84 anos continua produzindo e está escrevendo um livro importante sobre os pobres, que acredito que será muito bom. Leonardo Boff  também não perdeu a força, mas mudou a direção de sua força. O que quero dizer é que os teólogos que seguiram Medellín  tem sofrido muita perseguição. Sempre que o pensar cristão estiver realmente baseado em uma visão dos pobres, em uma prática movida pela compaixão pelos pobres, haverá perseguição. No entanto, percebo que hoje há menos perseguição do que há alguns anos. Por exemplo, na UCA (Universidad Centroamericana José Simeón Cañas, em El Salvador), onde estou, de 1976 a 1989, foram explodidas no campus 25 bombas. Isso não ocorre mais hoje. É preciso reconhecer que a UCA perdeu muito da sua força social, realmente, afinal não temos mais um Ignacio Ellacuría ou um Martín-Baró, e todos aqueles que eram grandes lutadores sociais. Então, admito que a Teologia da Libertação não atua como nos anos 1980. Ela perdeu popularidade midiática, sem dúvida nenhuma.
IHU On-Line – Mas hoje não temos mais ditaduras militares; vivemos em uma democracia... 
Jon Sobrino – As ditaduras militares usavam força militar, ou seja, armas, com as quais podiam matar e assim o fizeram. Agora o que temos são democracias capitalistas. E que poder elas têm? O capital. Este não mata normalmente, porque pode enganar ou comprar as pessoas de outras formas. A Teologia da Libertação pode realmente ter perdido forças. O que não perde as forças é o capital. Por exemplo, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos que serão realizados no Brasil irão ser eventos fantásticos e que não correm nenhum risco de fracasso, porque são expressões do capital. No entanto, uma universidade que pensa, uma igreja que predica, pode perder força no sentido de que os ricos dizem: “essas não incomodam mais”.
IHU On-Line – Hoje não temos mais grandes líderes como Ignacio Ellacuría, por exemplo?
Jon Sobrino – Não. E sei bem disso, pois convivi com ele durante 15 anos. Mas isso não significa perder força. Essa é a lei da vida. Quando há grandes líderes que são mortos, não se pode esperar que imediatamente surjam outros. Se vier será muito bom, mas nem sempre é o que ocorre. No entanto, não me assusto com o fato de que não há grandes líderes. O problema está quando se mata o povo; e aqui não falo apenas de matar com armas.
IHU On-Line – Em que sentido a vivência com o povo de El Salvador ensina a fazer uma teologia atenta aos sinais dos tempos?
Jon Sobrino – O que faço é uma teologia junto aos pobres, de alguém interessado pelos pobres e, sobretudo, foi designado a mim, em El Salvador, mais do que estar com os pobres, estar perto de pessoas perseguidas. Quando cheguei a El Salvador não tinha a mais remota ideia do que iria me acontecer, pois eu vinha dos meus estudos na Alemanha. Ao nos sentirmos tocados pela realidade, nos move a vontade de fazer algo de concreto por ela. Fiz minha tese de doutorado em Frankfurt sobre a cristologia, mas foi em El Salvador, no ano de 1970, que aprendi porque mataram Jesus de Nazaré, porque o crucificaram no ano 30 ou 33. Paulo foi morto decapitado com uma espada, o que era uma morte digna na cultura romana. A morte na cruz, além de ser uma crueldade terrível, era a morte designada aos terroristas. Era uma morte humilhante, até para a família de um crucificado. Mas por que fizeram isso com Jesus? Porque ele se envolveu – principalmente com palavras – no conflito social da época, defendendo o povo oprimido. A expressão “opção pelos pobres” é algo que gosto muito, mas não de forma absoluta, porque a opção pelos pobres não significa optar pelos pobres simplesmente, mas, primeiro, sair em defesa deles. É mais profundo. O capitalismo pode tolerar até certo ponto a ajuda e o amor aos pobres. Outra coisa é quando se sai em defesa deles, o que provoca um conflito social. Nesse sentido, o povo pobre ensina a nós, que não somos pobres, a ver melhor as coisas do mundo real, porque vive uma realidade que não vivemos. Em geral, os pobres não querem servir de exemplo para ninguém. Eles simplesmente dão o exemplo pela experiência, pelo modo de ser e nos evangelizam.

Graziela Wolfart


Fonte: IHU

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