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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A primavera ameaçada

As pastorais sociais, comunidades eclesiais de base e o caminho ecumênico que o Concílio abriu são hoje opções minoritárias e quase marginais


Em tempos de mudanças climáticas repentinas e imprevisíveis as estações do ano podem ser interrompidas ou prejudicadas por fenômenos como o aquecimento global ou pela interferência humana nos ecossistemas. Do mesmo modo, nas sociedades, experiências novas podem ser sufocadas ou postas em perigo.
Na Igreja Católica, no dia 11 de outubro de 1962, há exatamente 50 anos, o papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II para renovar a Igreja e preparar melhor a estrutura eclesial para abrir-se à unidade das Igrejas cristãs, como, segundo os evangelhos, Jesus desejou. João XXIII foi o papa bom e santo que comoveu o mundo inteiro pela sua simplicidade e seu desejo de que a Igreja voltasse a se parecer mais com a comunidade evangélica de Jesus. Não passava ao mundo a imagem de um homem fechado sobre seus próprios medos e saudoso dos tempos antigos. Ele propôs como critérios da renovação uma volta às fontes da fé (o evangelho), mas também uma verdadeira atualização da Igreja. Pela primeira vez no mundo, em um concilio universal, a Igreja conseguiu reunir os bispos católicos do mundo todo. Também pastores, teólogas, leigos e leigas de várias outras Igrejas cristãs foram convidados como observadores fraternos. O Concílio Vaticano II teve quatro sessões e produziu 16 documentos. Não condenou nenhuma heresia, nem proclamou dogmas. Abriu o diálogo da Igreja com a humanidade.
Esse diálogo fraterno e espiritual foi o estilo da Igreja até o final dos anos 70. Hoje, 50 anos depois da abertura do Concílio, uma grande parte de cristãos desejam que a Igreja retome aquele clima espiritual. Mas, nem todos pensam assim. Na Igreja Católica atual há três interpretações diferentes sobre o Concílio e o modo de viver a fé. Há as pessoas e grupos que se recordam do Concílio como uma bênção divina para a Igreja e para o mundo. São os grupos que compreendem a renovação da Igreja como vontade divina. Essa linha foi majoritária nos anos 60. Desde os tempos do Concílio, houve alguns bispos, padres e leigos católicos (uma pequena minoria) que rejeitaram o Concílio em nome da tradição. Uma terceira interpretação, hoje oficial na cúpula da Igreja, aceita o Concílio, mas apenas nos pontos em que ele garante continuidade com a velha tradição. Ignora e mesmo o desrespeita nos pontos em que ele ousou mudar o modo de ser vigente. Os que defendem esse tipo de postura acentuam uma Igreja clerical, centrada em si mesma e mais preocupada com suas estruturas do que com o seguimento do evangelho. Por causa desse tipo de postura, dois dias antes de falecer, há pouco mais de um mês, o saudoso cardeal Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão, afirmava: “Infelizmente, a Igreja está ao menos 200 anos atrasada com relação ao diálogo com o mundo atual”.
De todos os modos, não podemos perder a esperança. Jesus disse: “A verdade vos libertará!” (Jo 8, 35). Ninguém consegue deter a voz do vento, nem afogar o grito da profecia. As pastorais sociais, comunidades eclesiais de base e o caminho ecumênico que o Concílio abriu são hoje opções minoritárias e quase marginais. Mas, mesmo minoritárias e pouco compreendidas, são como os chamava Dom Hélder Câmara, “minorias abraâmicas”. Assim como o patriarca Abraão, apesar de frágil, velho e estéril, Deus o tornou fecundo, também, pela força divina, essas minorias se tornam sinal de transformações importantes. Hoje, no mundo e também nas estruturas da Igreja, essas minorias mantêm viva a voz do Espírito e testemunham que o reinado divino vem a esse mundo. Unem-se a todos/as que na terra buscam e trabalham por um novo mundo possível.

Marcelo Barros é monge beneditino.

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