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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um acontecimento de graça e de novidade

Para a teóloga colombiana Olga Consuelo Velez, o Concílio Vaticano II trouxe novos ares à Igreja do continente, e, embora haja ventos de involução, o caminho percorrido nesses 50 anos foi forte e será capaz de continuar dando frutos em meio à perseguição que se possa viver hoje


“Foi fruto do Concílio a teologia da libertação, as comunidades eclesiais de base e, especialmente, a consciência social que se despertou na Igreja latino-americana, fazendo da opção preferencial pelos pobres uma opção central e um compromisso verdadeiro. É normal que, em 50 anos, esse horizonte tenha sofrido transformações, e não podemos esperar que ele mantenha a vitalidade e o impulso dos inícios”. A análise é da teóloga colombiana Olga Consuelo Velez, que concedeu a entrevista a seguir por e-mail à IHU On-Line. Além disso, continua, “sabemos que, passadas as primeiras duas décadas, começou uma verdadeira perseguição contra a Igreja latino-americana por alguns setores conservadores da Igreja. Essa situação de confrontação desconcertou alguns, desmotivou outros, encheu de medo e temor a outros setores eclesiais”. Para Consuelo Velez, é preciso “continuar denunciando as ‘tentações’ que chegam de todas as partes a uma ‘involução’ eclesial que oferece segurança, tranquilidade e, o que mais nos confunde, atração de muitas pessoas, incluindo os jovens, que parecem se sentir melhor com um tipo de ‘espiritualismo’ que os centra no além, no cumprimento da norma, no centralismo eclesial”. E constata: “não acredito que o Vaticano tenha as respostas para este novo momento, porque as mudanças que estamos vivendo são aceleradas e talvez nem alcancemos o seu ritmo, mas a partir desse dinamismo temos que enfrentar desafios tais como o pluralismo cultural e religioso, que tende a se traduzir na pluralidade de teologias, de liturgias, de modelos eclesiais”.
Professora na Faculdade de Teologia da Pontificia Universidad Javeriana – PUJ, da Colômbia, Consuelo Velez é doutora em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É autora de, entre outros, Reflexiones en torno al feminismo y al género (Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana, 2004); El método teológico. Fundamentos /especializaciones /enfoques (Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana, 2008). Ela estará na Unisinos no próximo mês de outubro participando como painelista do Congresso Continental de Teologia, abordando o tema “Teologia e novos paradigmas”. Saiba mais em http://bit.ly/q7kwpT.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – No ano em que o Concílio Vaticano II completa seu 50º aniversário de abertura pelo Papa João XXIII, qual sua leitura desse importante acontecimento eclesial, a partir da realidade latino-americana?
Olga Consuelo Velez – Para mim, o Concílio trouxe novos ares à Igreja do continente, e, embora haja ventos de involução, o caminho percorrido nesses anos foi forte e será capaz de continuar dando frutos em meio à perseguição que se possa viver hoje. Explico-me melhor: foi fruto do Concílio a teologia da libertação, as comunidades eclesiais de base e, especialmente, a consciência social que se despertou na Igreja latino-americana, fazendo da opção preferencial pelos pobres uma opção central e um compromisso verdadeiro. É normal que, em 50 anos, esse horizonte tenha sofrido transformações, e não podemos esperar que ele mantenha a vitalidade e o impulso dos inícios. Além disso, sabemos que, passadas as primeiras duas décadas, começou uma verdadeira perseguição contra a Igreja latino-americana por alguns setores conservadores. Essa situação de confrontação desconcertou alguns, desmotivou outros, encheu de medo e temor a outros setores eclesiais. Mas hoje continuamos constatando que o Espírito não deixa de estar presente nesse caminhar, e não só essa teologia não morreu (como alguns queriam ou afirmam), mas também foi se enriquecendo com teologias contextuais que, inspiradas no horizonte libertador, foram se comprometendo com realidades como a mulher, os povos indígenas, os afrodescendentes, etc. Por tudo isso, o Concílio, para mim, foi um acontecimento de graça e de novidade que continua vivo e depende, em grande parte, da nossa fidelidade a esse espírito para que possa continuar dando frutos.
IHU On-Line – Dentre os objetivos do Concílio estava o diálogo da Igreja com o mundo moderno. A partir da realidade latino-americana, o que significava a modernidade?
Olga Consuelo Velez – Acredito que a América Latina soube dar um giro contextual a esse desafio. O maior problema no continente não era a modernidade como tal, mas sim a realidade de injustiça estrutural que se vive nessa realidade. E a América Latina soube pôr em diálogo essa situação com a vida eclesial e traduzir em evangelho o que a dinâmica social demandava, dinâmica que não era alheia à modernidade com a sua fé posta no progresso e na capacidade de resolver os problemas com as contribuições do desenvolvimento científico. A América Latina desenvolveu uma consciência crítica sobre os modelos sociais e os questionou a partir de seus pilares. Ela tentou dar respostas e deixar que a fé se enriquecesse com as contribuições da sociologia para sair de uma fé ingênua. Tudo isso lhe provocou críticas de “sociologismo” e esquecimento da espiritualidade, críticas que sinceramente consideradas são injustificadas, porque uma fé que não se apropria de forma científica da realidade nunca poderá ser uma fé encarnada que leva a sério o seu compromisso com o mundo.
IHU On-Line – Em que medida o Vaticano II conseguiu superar o problema do eurocentrismo e responder aos desafios enfrentados pela Igreja presente, sobretudo, nos países empobrecidos?
Olga Consuelo Velez – Como disse antes, a América Latina soube olhar para o que acontecia neste continente e traduzir o novo momento eclesial para essas preocupações. Não digo que tudo tenha sido perfeito, mas, sem dúvida, o seu caminhar foi tão decidido e real que despertou inquietação no centro, e por isso a perseguição não se fez esperar. Mas nem tudo está superado. Precisamente uma realidade atual é a “volta ao centro”. Comunidades religiosas e o clero diocesano voltam a olhar para a Europa, para a sua formação teológica, voltando ao continente com modelos importados do centro, trazendo sérios preconceitos contra o caminhar latino-americano e campanhas evangelizadoras para recuperar a “espiritualidade” perdida por culpa da preocupação social. Tudo isso é uma distorção da inculturação propiciada pelas Conferências Gerais do Episcopado na América Latina, mas revela que, precisamente porque ocorreu um caminho para a descentralização, hoje se quer frear e manter o poder central.
IHU On-Line – De maneira geral, como as conferências de Medellín e Puebla traduziram o Vaticano II para a realidade latino-americana?
Olga Consuelo Velez – A Constituição Pastoral Gaudium et Spes pode ser considerada central no giro dado pelo Vaticano II. Nesse sentido, o chamado que ela faz para olhar “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias” do mundo de hoje fez com que essas conferências olhassem para a realidade latino-americana e efetivamente a “vissem” (bem sabemos que às vezes se olha, mas não se vê o essencial), e o que se viu foi esse “escândalo estrutural” do “enorme fosso entre ricos e pobres” e o imenso desafio que o evangelho tinha de responder a esse grito. A opção pelos pobres foi uma resposta concreta e encarnada para essa realidade, e a articulação da fé com a consciência social traduziu a inspiração conciliar de uma Igreja que deixa de olhar para si mesma para olhar para a realidade e tentar responder a ela. A emergência do rosto dos pobres como a urgência de inculturar a fé, a liturgia, a teologia nessa realidade foi se perfilando nessas conferências e, de alguma forma, foi se tornando realidade.
IHU On-Line – Em que medida a teologia da libertação repercutiu, no contexto latino-americano, as inovações promovidas pelo Concílio?
Olga Consuelo Velez – Se entendermos a teologia como “uma reflexão crítica à luz da fé da práxis histórica dos cristãos”, estamos dizendo que, na América Latina, a teologia da libertação foi capaz de articular a realidade social com a fé e buscou responder a ela de maneira criativa e comprometida. Bem conhecemos todo o agir das comunidades eclesiais de base com a sua renovação litúrgica, a sua centralidade na palavra de Deus, o seu formar comunidade e o seu compromisso social. Não se negam as deficiências e as distorções que foram vividas nesses ambientes, mas nada disso nega o espírito de Jesus que bateu asas e continua batendo entre os pobres e o dinamismo espiritual que despertaram não só na prática pastoral, mas também na academia. De fato, a Faculdade de Teologia da Universidad Javeriana – nos tempos em que eu era estudante – foi questionada por alguns personagens da hierarquia eclesial, e em certo sentido esta perseguição não era infundada: a teologia era comprometida, e as reflexões que fazíamos buscavam responder à realidade social. Esse impulso se perdeu um pouco, mais do que no corpo professoral, em muitos estudantes que chegam para a faculdade prevenidos contra essa teologia e/ou ignorando o caminhar latino-americano, o que torna necessário buscar meios para recuperar a “memória” e continuar impulsionando uma fé comprometida com a vida.
IHU On-Line – Após 50 anos de abertura do Concílio, entre o recuo e o avanço, como a senhora analisa o atual momento da Igreja, sobretudo tendo presente a realidade da América Latina?
Olga Consuelo Velez – Acredito que há motivos para continuar sonhando “outro mundo possível” e “outra Igreja possível” – como se cunhou nas edições do Fórum Social Mundial –, porque o Espírito continua presente, e a fidelidade ao evangelho não pode ser derrotada. O Congresso Continental que será celebrado em outubro deste ano  é uma aposta na vitalidade de uma fé comprometida e em uma teologia encarnada que tenha no centro da sua reflexão os mais pobres deste tempo – com toda a pluralidade de rostos e de situações das quais hoje temos mais consciência. No entanto, é preciso continuar denunciando as “tentações” que chegam de todas as partes a uma “involução” eclesial que oferece segurança, tranquilidade e, o que mais nos confunde, atração de muitas pessoas, incluindo os jovens, que parecem se sentir melhor com um tipo de “espiritualismo” que os centra no além, no cumprimento da norma, no centralismo eclesial. Para mim, essas são tentações reais e fortes às quais é preciso estar muito atentos, buscando revelá-las e não cair nelas.
IHU On-Line – Quais as perspectivas e desafios que se apresentam para a Igreja no contexto do século XXI? Como responder a essa nova realidade vigente à luz do Concílio Vaticano II?
Olga Consuelo Velez – A Igreja não pode renunciar ao retorno constante ao evangelho e a manter a vitalidade que o Espírito de Jesus, ao abrir novos horizontes, lhe comunica. Para mim, esse é o Espírito do Vaticano II, e, na medida em que o mantenhamos, estaremos em comunhão com ele. Não acredito que o Vaticano tenha as respostas para este novo momento, porque as mudanças que estamos vivendo são aceleradas e talvez nem alcancemos o seu ritmo, mas a partir desse dinamismo temos que enfrentar desafios tais como o pluralismo cultural e religioso, que tende a se traduzir na pluralidade de teologias, de liturgias, de modelos eclesiais, etc. Também é urgente um compromisso com um povo de Deus que, na realidade, seja sujeito do caminhar eclesial e não mero destinatário. Também é importante continuar trabalhando pela inclusão da mulher em todas as esferas eclesiais e por um papel mais decidido de renovar a Igreja à luz da teologia atual, propiciando mais encontros do que suspeitas. E o maior desafio é o de recuperar a capacidade profética que a Igreja deve ter, porque, antes de uma estrutura de culto e religião, ela é uma dinâmica de vida que busca tornar presente o reinado de Deus nesta história – reinado que é sempre graça e dom –, mas que precisa da nossa fidelidade e compromisso para se tornar efetivo.


Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | 

Tradução de Moisés Sbardelotto

Fonte: IHU


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