
Liz Marques, integrante da Colegiada Estadual e Ampliada Nacional das CEBs abriu os trabalhos. O tema do Encontro foi ‘CEBs: a vida na cidade em busca da sociedade do Bem Viver e Bem Conviver'. "Estamos aqui como Igreja ecumênica, profética, missionária, libertadora e ecológica. As CEBs estão comprometidas com a edificação de uma nova sociedade, na construção do Reino de Deus, fiéis a Jesus de Nazaré. Queremos, aqui na diocese de Santo André, construir caminhos para o Bem Viver e o Bem Conviver". Segundo Liz, "as CEBs têm vivenciado esta experiência desde a fidelidade no seguimento a Jesus de Nazaré, que colocou a sua vida na dinâmica da construção do Bem Viver e do Bem Conviver". O Bem Viver está em sintonia com o Evangelho de vida digna e possível para todos os povos. "As comunidades nutrem esta grande utopia com as grandes causas do Projeto de Deus, que são a vida plena, terra partilhada, moradia, saúde, educação, trabalho e lazer para todos, uma Igreja de comunhão e participação", argumentou.
Dom José Nelson Westrupp, bispo de Santo André, saudou os presentes desejando que a sua diocese se tornasse casa de comunhão, de fraternidade e acolhida. "Apesar do cansaço, tenho a certeza que vocês estão aqui com o coração aberto para crescer. Sabemos que as CEBs são verdadeiras escolas de formação de cristãos comprometidos com a fé. Nós, como Igreja, abraçamos e acolhemos a Palavra de Deus como fonte de espiritualidade, farol do nosso caminho, a exemplo da primeira comunidade cristã que fazia do ensinamento dos Apóstolos, da partilha do pão e das orações, o fundamento da sua vida", afirmou o bispo que destacou ainda a Eucaristia como lugar privilegiado para aprender a amar.
Ao
abordar o tema principal, Rafael Rodrigues perguntou: "como Viver Bem e
Conviver na cidade, diante do sistema neoliberal que nos empurra para
outra dimensão e determina as convivências e relações na sociedade?" O
assessor reafirmou a necessidade de buscar na Bíblia uma avaliação dessa
questão. "O que é Conviver e Viver Bem à luz da Bíblia? Quais as
provocações que vêm da Palavra de Deus e quais as provocações que vêm da
experiência de vida?", indagou para explicar que, na Bíblia esse Viver
Bem, em comunidade tem a Lei (a Torá) que orienta a caminhada do Povo. O
biblista citou o livro do Deuteronômio (23, 25-26), que assegura a
todos o direito aos bens necessários para a sobrevivência. "Ninguém deve
passar fome, todos têm o direito de comer. Comida para todos é a marca
do Viver Bem. É poder plantar, produzir e comer. Mas aquele que não pode
plantar e não consegue produzir, também tem o direito de comer. Isso
vai criando uma nova relação social, onde quem não pode plantar e
produzir, não é considerado preguiçoso, mas porque lhe foi tirado toda a
produção, ele depende da solidariedade do outro. Assim, quem produz
deve abrir seu campo para que os necessitados comam. A base da Lei é:
não pode haver pobres", destacou o assessor, e observou: "hoje há muita
riqueza nas mãos de poucos e isso é a marca da exploração, da corrupção,
de que alguém está ganhando mais em cima dos que não têm nada". O Viver
Bem não compactua com a lógica do roubo ou do saque.
A
seguir, a pastora Nancy Cardoso aprofundou a reflexão ao destacar a
necessidade de recolocar a leitura bíblica na caminhada das CEBs. "Por
mais que localizemos os textos bíblicos sobre o Bem Viver, se não
tivermos a dimensão crítica da interpretação e não entendermos que o
Espírito divino nos convoca para a atualização da Palavra que está em
nossa vida, o texto vai ficar numa moldura bonita, mas não vai cortar a
realidade. A Bíblia é uma faca de dois gumes e tem que ajudar a cortar a
nossa própria vida e criticar a sociedade que vivemos. Recuperamos a
leitura bíblica para ficarmos incomodados. Temos um conjunto de textos
que apresentam o Viver Bem de acordo com a vontade de Deus, mas esse
Viver Bem deve ser atualizado". Nancy explicou ainda que a sociedade
gera relações em que algumas pessoas não conseguem produzir, ou então se
matam de trabalhar e não conseguem comer. "Precisamos resgatar o
trabalho como algo fundamental na questão do Bem Viver. Hoje comemos
mediados pelas grandes empresas e os supermercados. São eles que
garantem o nosso Bem Viver, porque a terra está sequestrada. Vamos ao
supermercado e escolhemos as frutas, as verduras, mas não nos
perguntamos em que condições os alimentos foram produzidos. O Bem Viver
não é só essa casquinha por cima da qualidade da vida, mas é se
perguntar pelas estruturas que organizam a forma de produzir,
reproduzir, distribuir e consumir a vida". Sobre a leitura popular da
Bíblia, Nancy afirmou a importância da leitura crítica, na Bíblia e na
realidade, "para que a nossa intervenção seja política e cheia de
espiritualidade e contribua com outros na construção do Bem Viver".Para Maria de Lourdes Pereira, que reside no Assentamento Reunidas, município de Promissão - SP e integra a Equipe colegiada estadual das CEBs, "o objetivo do ‘2º Paulistão' foi reunir as lideranças para retomar o tema do 8º Encontro Nacional de Fé e Política (Embu das Artes - SP, outubro de 2011), que trabalhou a mesma questão. Isso ajuda as nossas comunidades a trocar experiências e sentir se estamos vivendo bem e se isso está presente também no convívio". Explicou ainda que o Encontro serviu para começar a preparação do Regional rumo ao 13º Intereclesial, marcado para 2014 em Crato - CE.
Na avaliação do padre Felix Manuel dos Santos, assessor das CEBs na diocese de Santo André e pároco na Paróquia São Geraldo, que acolheu o evento, a escolha dos assessores foi acertada. "A dupla já vem trabalhando junto há muito tempo e está habituada à dinâmica que utiliza a Bíblia para refletir sobre a realidade. Pela partilha que o tema provocou eles conseguiram alcançar o objetivo".
A carta final do Encontro resume a escolha das CEBs e denuncia, entre outras coisas, a diferença entre a sociedade capitalista e a sociedade do Bem Viver. "Dessa constatação, emerge a necessidade de escolher o caminho da bênção ou o da maldição. Vimos que o Bem Viver é fruto da profecia, da luta, da solidariedade e de uma nova ética, um novo modo de se relacionar com tudo que vive. Faz-se necessário a construção efetiva de caminhos, através da política, dos movimentos sociais e de todos os organismos que comungam desse sonho, para se chegar à civilização possível e desejada", diz um trecho do documento.
Jaime Carlos Pattias
Confira na íntegra a Carta Final do 2º Paulistão das CEBs.

As imagens de N. Sra. Aparecida e de Padre Cícero,em meio a faixas, catazes e símbolos da caminhada criaram ambiente para a celebração da Eucaristia, que foi presidida por dom José Luiz Bertanha, bispo de Registro - SP, e referencial das CEBs no Estado, e concelebrada por vários padres. Na homilia, dom José destacou a prática de
Jesus.
"Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância", recordou. "A
vida é um dom de Deus que precisamos cuidar. Então devemos amar a terra
que pisamos, a água que tomamos e o ar que respiramos". Para o bispo, o
mundo do mercado quer só explorar para tirar proveito e por isso
sofremos as consequências do egoísmo. "Vamos respeitar, defender,
promover a vida do nosso Planeta. Essa é a missão dos cristãos. Além
disso, é necessário que as comunidades cultivem a Convivência para que a
vida seja marcada pelo amor a exemplo dos Apóstolos Pedro e Paulo, que
por caminhos diferentes descobriram Jesus e se colocaram a serviço da
construção do Reino de Deus". O bispo recordou os compromissos das
Conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida de fazer o
nosso povo redescobrir a pessoa de Jesus Cristo. "Precisamos evangelizar
em todos os lugares e entrar em estado permanente de Missão, em
particular acolher Jesus nos pobres e necessitados. O primeiro encontro
com Jesus é no rosto dos pobres, para depois encontrá-lo na oração e na
Eucaristia", sublinhou.A programação contemplou também um espaço para partilhar alguns trabalhos dos sub-regionais alinhados com o conceito indígena de uma sociedade diferente, mais ecológica, mais humana, mais fiel ao Projeto divino de paz e abundância.
Fonte: Revista Missões

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