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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Diálogo de um cão com Deus!


“Sabe Senhor. Ainda não entendi,
viemos à praça, pensei ser um passeio,
estranhei, ele não tinha esse hábito,
mas vim, feliz. Aqui chegando, deu as
costas, entrou no carro, e nem disse
adeus.
…Olhei para os
lados, nem sabia o que fazer ainda tentei
seguí-lo e quase fui atropelado. O que
eu teria feito de tão mau?
À noite, quando ele chegava, eu abanava o
rabo, feliz, mesmo que ele nunca
viesse me ver no quintal. Às vezes eu latia,
mas havia estranhos no portão, e
não poderia deixá-los entrar sem avisar meu
dono.
Quem sabe foi a
mando de minha dona, por eu estar lhe dando
trabalho. Não foram as crianças:
elas me adoravam, e creio que nem sabem o que
aconteceu, devem ter-lhes dito
que eu fugi.
Como sinto saudades!
Puxavam-me a cauda, às vezes eu
ficava uma fera, mas logo éramos amigos
novamente.
Estou faminto, só
bebo água suja, meus pêlos caíram quase
todos. Nossa, como estou magro!
Sabe, Pai, aqui neste canto que arrumei para
passar a noite, faz muito frio,
o chão está molhado.
Creio que hoje vou
me encontrar aí contigo, no
céu. Meu sofrimento vai terminar, e mesmo em
espírito, vou ter permissão
para ver as crianças.
Peço-vos, então, não
mais por mim, mas pelos
meus irmãozinhos. Mande-lhes pessoas que deles tenham
compaixão. Como eu,
sozinhos não viverão mas que alguns meses na terra
do homem.
Amenize-lhes o frio, igual ao que agora eu sinto, com o
calor de atos de pessoas abençoadas.
Diminua-lhes a fome, tal qual a que
sinto, com o alimento do amor que me foi negado.
Mate-lhes a sede com
a água pura de seus ensinamentos,
transmitidos ao homem, elimine a dor das
doenças, extirpando a ignorância da terra.
Tire o sofrimento dos que
estão sendo sacrificados
em rituais, em laboratórios e tudo mais, tirando
dos humanos o gosto pelo sangue.
Ampare as cachorrinhas prenhas que
verão suas crias morrerem de
fome, frio e pestes, sem nada poderem fazer.

Abrande a tristeza dos que, como
eu, abandonados – Entre todos os males, o
que mais doeu foi esse.
Receba,
Pai, nesta noite gélida a minha alma,
pois não será mais meu sofrimento, mas dos
que ficarem, e por eles vos
peço.
Amém…”

Fonte: Marilia Escobar

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