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terça-feira, 29 de maio de 2012

Um discípulo da realidade


Na visão de Luiz Carlos Susin, João Batista Libânio não foi propriamente um especialista e nem um generalista, mas um articulador atento e bem fundamentado da teologia com a pastoral


“Libânio diz tudo o que se deve dizer, mas de forma mineiríssima: fortiter et suaviter, forte nas análises, nos conteúdos, e suave no bom humor, na leveza de sua própria personalidade”. É desta maneira que Luiz Carlos Susin descreve João Batista Libânio. Ao enquadrá-lo como “um dos ‘fathers’ da Teologia da Libertação”, Susin considera que “antes de ensinar libertação, Libânio é eclesialmente livre, sem fanatismo, bom de conversa com todo mundo. Isso ajuda muito na caminhada eclesial”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, frei Susin destaca que “um dos elementos que mais encanta em Libânio é a forma literária em que recria os temas que aborda, sempre exuberante em imagens, sobretudo quando faz o que mais gosta, a comunicação oral”.

Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – Estef, em Porto Alegre. É também secretário-geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Dentre suas obras, destacamos Teologia para outro mundo possível (Paulinas, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na ocasião em que celebramos os 80 anos de João Batista Libânio, qual o seu testemunho sobre a importância desse grande pensador e teólogo brasileiro?

Luiz Carlos Susin –
Permitam-me uma digressão no mar das memórias: conheci Libânio ao lado de Leonardo Boff  quando percorreram o Brasil incentivados por Dom Aloísio  para ajudar a renovação conciliar das Congregações religiosas e eram convidados para conferências públicas de grande impacto. Se Leonardo tem origens gaúchas amenizadas pela cordialidade franciscana, Libânio tem origem mineira disciplinada pela formação jesuítica. Libânio diz tudo o que se deve dizer, mas de forma mineiríssima: fortiter et suaviter, forte nas análises, nos conteúdos, e suave no bom humor, na leveza de sua própria personalidade. Ele é, desde o início, um dos nossos melhores teólogos conciliares. Ele não é um professor simplesmente, é um mestre que dá o que pensar e conta, para isso, com uma forma criativa de propor as informações e as questões. Quando escreve ou quando fala, é claro e didático, além de denso. Tem um grande sentido de interdisciplinaridade, fruto também de abundante leitura. Mas um dos elementos que mais encanta em Libânio é a forma literária em que recria os temas que aborda, sempre exuberante em imagens, sobretudo quando faz o que mais gosta, a comunicação oral.

IHU On-Line – Que inspirações teológicas e pastorais emergem de Libânio?

Luiz Carlos Susin –
Libânio escreveu em muitas direções. Soube colocar sua competência e sua capacidade de estudo a serviço de sua assessoria, tanto acadêmica como pastoral. Por isso foi tão variado, tão colorido, em suas produções. Versou sobre praticamente toda a teologia sistemática, embora a teologia fundamental tenha sido o lugar em que, ao menos me parece, ele tem dado asas ao diálogo com outras áreas do conhecimento, com autores contemporâneos. Ele tem servido a vida religiosa escrevendo para Convergência , tem servido as comunidades eclesiais de base (CEBs) com inumeráveis assessorias. Cortou o Brasil em toda direção, assim como a América Latina e o oceano para dar conta de conferências, cursos, reuniões. Portanto, Libânio não foi propriamente um especialista e nem um generalista, mas um articulador atento e bem fundamentado da teologia com a pastoral. Essa articulação, a sua metodologia, a sua atenção de mestre, valem mais do que os seus ricos conteúdos. Ele se antecipou e fez hermenêutica do tempo em muitas ocasiões, graças a esta disponibilidade e atenção que o tornou um discípulo da realidade onde se encontra o caminho da verdade e um mestre como irmão que toma pela mão ou dá um empurrãozinho para frente.

IHU On-Line – Como Libânio tem contribuído para a teologia cultivada na América Latina?

Luiz Carlos Susin –
Evidentemente, Libânio é um dos “fathers” da Teologia da Libertação . Mas dizer isso é pouco, pois quando se começa a pensar nos nomes e nos rostos dos grandes elaboradores da Teologia da Libertação, cada um emerge com idiossincrasia própria, é um conjunto tão colorido como é a América Latina. Mesmo como jesuítas, Libânio, Juan Luís Segundo  ou Sobrino  são teólogos muito diversos, apenas para citar alguns. Graças a teólogos como Libânio outros continentes começaram a olhar para a América Latina e ler seus autores como quem tem algo sério e novo para dizer. Um exemplo está em James Alison , brilhante teólogo inglês que veio estudar em Belo Horizonte para seguir de perto mestres como Libânio. Mas a originalidade da teologia elaborada em conexão com a pastoral em meios populares simples e pobres tornou-se, em Libânio, uma impressionante fidelidade revelando, assim, a coerência que é constitutiva da Teologia da Libertação: o conhecimento da realidade, a interpretação das fontes e a vida pastoral inserida em meios populares, ou seja, as mediações socioanalíticas, hermenêuticas e práticas. Isso é maciço em Libânio.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o encontro de Libânio com a Teologia da Libertação?

Luiz Carlos Susin –
Neste ponto creio que o próprio Libânio teria ainda alguma revelação a nos dizer, mas convém acrescentar que ele trabalhou desde o começo de sua trajetória de teólogo intensamente em equipe, em troca de experiências e de ideias. A interação entre teólogos da libertação se fez comumente face a face e não apenas mediada por escritos, e Libânio participou de todo o arco de seu desenvolvimento em grande interação com os demais. Por outro lado, os alunos são sempre um aguilhão, obrigam a pensar e a comunicar, e a sala de aula foi parte essencial da casa de Libânio. Em termos de Teologia da Libertação, uma teologia que se obriga a ser profética também para dentro da Igreja, Libânio não teve maiores problemas com a hierarquia. E, no entanto, em suas análises eclesiais nunca deixou de dizer o que devia dizer ainda que fossem observações duras. Mas sempre disse de forma mineira, ou seja, afetuosamente e com a simplicidade direta dos meninos.

IHU On-Line – Qual o lugar do rosto do empobrecido em Libânio?

Luiz Carlos Susin –
De suas análises eclesiais se aprende o que sempre foi essencial para toda a Teologia da Libertação: o pobre é um lugar teológico privilegiado e um sujeito eclesial escandaloso. Como sujeito social, como cidadão, nós encontramos nas suas análises sobre a cidade o lugar doloroso dos pobres. Mas, sem dúvida, o mistério está em encontrar junto ao pobre a revelação do “Deus-conosco”, na nossa carne, identificado com os pequeninos. Esta lição é de toda a teologia latino-americana e é também de Libânio.

IHU On-Line – A partir de Libânio, que perspectivas se abrem para a caminhada eclesial latino-americana?

Luiz Carlos Susin –
Costuma-se dizer que a juventude é a idade das intuições; depois vem a idade das fundamentações, das reflexões e finalmente a idade das sistematizações. Libânio, em todo esse percurso, ensinou o quanto se ganha mantendo um pensamento flexível, disponível para muitas direções, contanto que permaneçam os pontos firmes das intuições básicas. Em termos eclesiais, seus esquemas de abordagem da realidade, sua leitura, as conclusões que provieram de suas agudas observações estão aí testemunhando uma Igreja que é possível ser samaritana, ministerial, misericordiosa, equilibrada. Antes de ensinar libertação, Libânio é eclesialmente livre, sem fanatismo, bom de conversa com todo mundo. Isso ajuda muito na caminhada eclesial.

IHU On-Line – Qual a importância do pensamento e da teologia de Libânio para o futuro da Igreja, tendo em conta a diversidade religiosa e o mundo plural?

Luiz Carlos Susin –
Uma palavra-chave da teologia de Libânio, que ressoa em cada página, é “abertura”, e isso supõe alguém que não pretende ser dono da verdade, mas se mantém despojado e humilde no caminho da verdade e, portanto, um bom companheiro para acolher e valorizar a diversidade e o pluralismo que, hoje, são palavras-chave para um mundo de maior convivência e liberdade. O sentido de humor de Libânio o deixa afinado para esta sinfonia que por está ainda em fase de afinação dos outros instrumentos.

Por: Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa

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