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quinta-feira, 29 de março de 2012

XXXII Aniversário de Dom Romero. Continuar o que ele fez e foi


A páscoa de Dom Oscar A. Romero aconteceu há 32 anos e hoje nos perguntamos o que fazer com Dom Romero. É a mesma pergunta que os cristãos da segunda geração se fizeram: o que fazer com Jesus de Nazaré?

Jesus foi crucificado no ano 30 e uns trinta e cinco anos depois, Marcos, o primeiro em fazê-lo, editou um evangelho. Para isso, recolheu tradições orais, averiguou por sua conta, sobre a compaixão de Jesus para com as multidões, suas denúncias aos poderosos, as controvérsias sobre Deus e sua oração ao Pai.
Estruturou tudo isso em forma de história, sendo seu ponto culminante a paixão que termina em cruz. Com audácia, afirma que Jesus morre com um grito: "Deus meu, por que me abandonaste". E ao pé da cruz, um pagão, o centurião romano, é quem o reconhece como "Filho de Deus".

Passado o sábado, umas mulheres vão até a tumba para ungir o cadáver. Encontram a pedra da entrada movida e um jovem que lhes diz: "Não está aqui. Ressuscitou. Contem aos seus discípulos". E o relato termina com essas palavras de novo audazes: "as mulheres saíram correndo e fora de si; e, com medo, não disseram nada a ninguém". Esse final foi tão surpreendente que anos depois, tiveram que agregar outro mais convencional.

Por que Marcos escreveu esse "pesado" evangelho? Certamente, PA rtilha com os outros evangelistas que Jesus é a Boa Notícia de Deus. Porém, como escreve para uma comunidade que sofre a perseguição, em Roma, insiste em que o cristianismo não é coisa fácil. É seguimento de Jesus carregando a cruz. E ensina que "perdendo a vida", como Jesus, o cristão "a ganhará".

Recordar como Marcos procedeu pode ajudar-nos a falar sobre Dom Romero hoje. Há uma diferença significativa, pois Marcos não teve biografias e discursos precisos de Jesus, como os que nós temos de Dom Romero. Porém, podemos aprender com Marcos a encontrar em Dom Romero um cristianismo forte, não frágil. E ver a grande importância ao final da vida de Dom Romero.

É o que tentamos fazer a seguir. Tanto em Jesus quanto em Dom Romero, sua relação com Deus e com os seres humanos alcançou uma profundidade inigualável no final de suas vidas. Por isso, recordaremos a última Carta Pastoral de Dom Romero, seu último discurso, sua última homilia e seu último retiro espiritual.

1. Sua última Carta Pastoral. Dom Romero, pastor do país. Está datada de 6 de agosto de 1979, quando Dom Romero já havia feito um longo caminho em uma situação sumamente conflitante. Se via o aumento da repressão, que desembocaria em guerra, tal como aconteceu. Podemos aprender várias coisas, pensando, sobretudo, nas Igrejas, em seus membros e em sua hierarquia.

a) O título da Carta é "Misión de la Iglesia en medio de la crisis del país". Dom Romero levou o país a sério. Não escreveu uma breve mensagem; mas um texto de umas 60 páginas. O preparou durante várias semanas com uma equipe de vinte pessoas bem capacitadas: economistas, sociólogos, teólogos, leigos e sacerdotes, e pessoas em trabalho direto com o povo. Também enviou uma pesquisa às comunidades, pedindo-lhes sua opinião, entre outros temas, sobre: "para você, quem é Jesus Cristo", "qual é o pecado fundamental do país", "o que pensa da conferência episcopal, do senhor Núncio, do arcebispo de San Salvador", e levou em conta as resposta que recebeu. Considerou muito os documentos dos bispos latino-americanos em Puebla, que acabavam de ser publicados. Certamente, a opção pelos pobres e a idolatria.

b) Em um país que estava ardendo, Dom Romero "quis pensar o país", seus problemas e os passos para uma solução. Com vigor e rigor, analisou e condenou as idolatrias. A primeira, a absolutização da riqueza e da propriedade privada, que condenou como raiz da violência estrutural. Hoje em dia, apenas se fala com seriedade dessa idolatria, nem na sociedade e nem na Igreja. E persiste o silêncio sobre o imperialismo capitalista que provoca guerras e crises mundiais. A segunda, absolutização da segurança nacional, do exército, dos corpos de segurança, dos esquadrões da morte. Na história, são como o deus Moloch que, na mitologia, exige vítimas para subsistir. Hoje, de diferentes formas, apesar de que, provavelmente, com as mesmas causas, em El Salvador e em toda Mesoamérica, vivemos com a "epidemia do homicídio", de 10 a 13 por dia. A terceira, a absolutização das organizações populares. Em sua Carta Pastoral de 1978, as defendeu de forma surpreendente para um hierarca da Igreja Católica, pois as organizações tinham a todos os poderes, e parte da hierarquia, contra si. Nessa Carta, insiste no serviço da Igreja às organizações; porém, adverte sobre suas falhas e perigos: não cair na idolatria que se manifesta no sectarismo entre elas; colocar a organização acima do povo; manipulação da religião.

c) Também tratou sobre outros graves problemas, como a violência, que poderia chegar a ser legítima; porém, que, historicamente, era fonte de inúmeros males. E propôs caminhos de solução, como o diálogo, não somente em razão de suas bondades abstratas, mas em base a sua urgente necessidade histórica. E de tudo isso, tirou uma conclusão, muito inovadora e audaz para a Igreja: a pastoral de acompanhamento ao povo, sofredor, combativo e cheio de esperanças.

Hoje, essas Cartas Pastorais são benéficas e necessárias.

2. Seu último discurso. Dom Romero, sacerdote e teólogo dos pobres. Expressa bem o que disse em Lovaina, no discurso de aceitação de um Doutorado Honoris Causa, no dia 2 de fevereiro de 1980. Comecemos três anos antes. Na semana após o assassinato de Rutilio Grande, nas reuniões do clero, sacerdotes e religiosas propuseram celebrar, no dia do funeral, uma missa única na praça diante da catedral, para mostrar a unidade massiva da Igreja, seu repúdio, sua esperança e seu compromisso. Dom Romero tinha somente uma dificuldade, que expôs com simplicidade e clareza. "O sacrifício da missa da glória a Deus. Fechar as igrejas no domingo não iria diminuir essa glória?". Com a mesma simplicidade e clareza, um sacerdote disse: "Dom Romero, se mal não estou, um padre da Igreja -se referia a São Irineu- disse que "a glória de Deus é o homem que vive". Gloria Dei vivens homo. Dom Romero ficou sossegado em seu espírito e com decisão e entusiasmo celebrou uma única missa naquele domingo. Três anos depois, Dom Romero disse em Lovaina: "A glória de Deus é que o pobre viva". Gloria Dei vivens pauper. Colocou em palavra teológica o miolo de sua prática histórica cotidiana.

Ninguém falou dos pobres como Dom Romero. E poucos os amaram como ele os amou.

3. Sua última homilia na catedral. Dom Romero, ao mesmo tempo, homem, de Deus e do povo sofrido. São muito conhecidas as palavras finais de sua última homilia na catedral: "Parem a repressão!" Recebeu o aplauso mais estrondoso em três anos. As palavras não necessitam comentário. Somente quero fixar-me na argumentação de Dom Romero: colocar juntos a Deus e ao povo sofrido.

Exigiu aos soldados "deixar de matar" porque temos que obedecer a lei de Deus; porém, antes, clamou indefesa e comovedoramente. "Irmãos, são de nosso próprio povo; matam a seus próprios irmãos". E terminou sem argumentação alguma: "Em nome de Deus e em nome desse povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu cada dia mais tumultuados; rogo-lhes; ordeno-lhes, em nome de Deus, parem a repressão!".

Para Dom Romero, em Deus há ultimidade transcendente total. E no povo sofrido há ultimidade histórica: seus lamentos. Os lamentos dos que sofrem sobem até o céu. E Deus sai de seu céu para escutá-los. Ellacuría tinha razão:
"Sobre dois pilares Dom Romero apoiava sua esperança: um pilar histórico, que era seu conhecimento do povo... e um pilar transcendente, que era sua persuasão de que ultimamente Deus é um Deus da vida e não de morte, que o último da realidade é o bem e não o mal".

Dom Pedro Casaldáliga costuma dizer: "Tudo é relativo, menos Deus e a fome". Para Dom Romero, a ultimidade está unificada: "Deus e o povo sofrido".

4. Seu último retiro espiritual. Dom Romero, sozinho diante de Deus. Um mês antes de ser assassinado, Dom Romero deixou escrito um diário, começado em 25 de fevereiro de 1980, com seus apontamentos sobre os exercícios espirituais. Neles abre sua alma a Deus e comunica ao seu pai espiritual, Segundo Azcue. Escreve sobre três coisas, mesmo que em ordem diversa ao que registramos aqui. É um texto comovedor e especialmente importante para conhecer o melhor possível sobre Dom Romero a partir daquilo que mais o preocupava.

a) "Não quero aceitar uma morte violenta que, nessas circunstâncias, é muito possível". Escreve só, diante de Deus; porém, nesses últimos dias também falou publicamente sobre sua morte.

"Tenho sido frequentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhes que, como cristão, não creio na morte sem ressurreição. Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma jactância; com a maior humildade. Como pastor estou obrigado pro mandato divino a dar a vida pelos que amo, que são todos os salvadorenhos, mesmo pelos que vão assassinar-me. Se essas ameaças se cumprirem, desde já ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador".
Palavras de total nudez espiritual.

b) Falou também com o Padre Azcue sobre "minha situação conflitante com outros bispos". O problema era suficientemente conhecido. Com exceção de Dom Rivera, os demais bispos estavam contra ele. Em 1978, escreveram uma Carta Pastoral sobre as organizações populares, contrária a escrita por Dom Romero e Dom Rivera. Menos conhecidas foram suas dificuldades com o Vaticano; porém, na congregação de bispos queriam destituí-lo como arcebispo. De sua primeira visita a João Paulo II (7 de maio de 1079) saiu decepcionado e triste. Em sua segunda visita (30 de janeiro de 1980) sentiu compreensão e carinho. Anos antes, feliz, visitou a Paulo VI. "Coraggio", lhe disse o papa. Mencionamos tudo isso porque mostra o quanto Dom Romero esteve só diante de Deus, apesar de que em Roma encontrou consolo e conselho no Padre Arrupe e no Cardeal Pironio. Dom Romero deveu perguntar-se e perguntar a Deus: Senhor, e tua Igreja?".

c) O que mais surpreendeu foi ler seu escrúpulo: "não ser tão cuidadoso como antes em geral com minha vida espiritual". É enternecedor. Vai além da psicologia e penso que toca uma fibra de grande fineza ante o mistério de Deus. Poucos dias depois de escrever essas palavras, disse em sua homilia dominical: "Quem me dera, queridos irmãos, que o fruto dessa predicação de hoje fosse que cada um de nós fôssemos encontrar-nos com Deus e que vivêssemos a alegria de sua majestade e de nossa pequenez" (10 de fevereiro de 1980).

Ao longo de sua vida, Dom Romero se foi empapando de Deus. Morreu empapado de Deus.


*****

Assim vemos a Dom Romero desde seus últimos dias: "Homem dos pobres, homem de seu povo sofrido, home de Deus".

Outros disseram isso melhor e com menos palavras. Um camponês, quando lhe perguntaram quem foi Dom Romero, respondeu instantaneamente: "Dom Romero disse a verdade. Nos defendeu; defendeu os pobres. E por isso o mataram". O livro de María López Vigil ‘Piezas para um retrato' termina com a história de um homem limpando a tumba de Dom Romero. Perguntou-lhe por que fazia aquilo; e o home respondeu: "Porque ele era meu pai". E explicou. "Eu não sou mais do que um pobre. Às vezes faço carreto no mercado; outras vezes, peço esmolas e outras vezes gasto tudo com bebida e curto a ressaca largado nas ruas. Porém, sempre me animo. Eu tive um pai. Porque ele derramava todo seu carinho às pessoas como eu. Por isso, limpo sua tumba. Faz com que eu me sinta gente".

Recordam a Dom Romero em vida. Como Marcos, proclamam que Dom Romero é "uma boa notícia". "Com ele, Deus passou por El Salvador", disse o padre Ellacuría.

Nós falamos sobre Dom Romero, sobre o final de sua vida e a reflexão pode parecer sombria. Porém, desde seu final ele pode nos oferecer esperança. Jürgen Moltmann, o teólogo de "El Dios crucificado", escreveu: "Nem toda vida é motivo de esperança; porém, sim, o é a quem por amor tomou sobre si a cruz".

Assim foi a vida de Dom Romero. Dá esperança vê-lo caminhar pelos cantões de seu povo e escutar suas homilias na catedral. E dá esperança seu martírio.


Capela da UCA - Universidad Centroamericana, El Salvador.
23 de março, 2012.


Jon Sobrino

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