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sábado, 17 de março de 2012

Vaticano adverte os teólogos de que devem se submeter aos bispos

Maus tempos, de novo, para a teologia. Já foi considerada uma ciência, inclusive a imperatriz das ciências (e a filosofia sua escrava: "philosophia ancilla theologiae", disse Tomás de Aquino), mas a hierarquia do catolicismo a considera hoje uma matéria de pesquisa com cartas marcadas.

O Vaticano acaba de emitir esse ditame, afirmando que os teólogos devem se submeter aos bispos porque são "os autênticos intérpretes da fé". A ordem procede da Comissão Teológica Internacional, em um documento intitulado "Teologia hoje: Perspectivas, princípios e critérios". Com apenas 35 páginas, o texto foi aprovado em novembro passado e sua publicação atrasou até hoje, aguardando a autorização do cardeal William Levada como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o nome atual do Santo Ofício da Inquisição.

Ninguém duvida de que por trás da decisão está o papa Bento 16, que foi teólogo profissional durante décadas, como catedrático de dogmática e história do dogma em várias universidades alemãs. O polonês João Paulo 2º o fez cardeal em 1977 e, quatro anos depois, o chamou a Roma para que vigiasse a ortodoxia vaticana como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e presidente da Pontifícia Comissão Teológica Internacional. Manteve-se no cargo até sua eleição para papa em abril de 2005. Ratzinger completa 84 anos no próximo mês.

A primeira vítima desses novos tempos é o teólogo Juan José Tamayo, nascido em Amusco, Palencia, em 1946. Nesta semana vai pronunciar uma conferência na Biblioteca Pública de Palencia, que foi severamente execrada pelo bispo dessa diocese, Esteban Escudero. O prelado o fez mediante um comunicado divulgado na semana passada pelo serviço de notícias da Conferência Episcopal Espanhola.

Apesar de ser evidente que a conferência de Tamayo foi convocada pela Universidade Popular de Palencia e se realiza em um centro civil, o bispo diz ver-se "na obrigação de advertir os católicos de que não foi promovida pelo bispado nem por qualquer associação ou movimento pertencente à Igreja Católica". Justifica sua intromissão apelando para uma chamada "nota" da comissão doutrinária da Conferência Episcopal, de janeiro de 2003, na qual se emitem várias censuras contra o livro de Tamayo "Deus e Jesus", editado pela Trotta.

A Comissão para a Doutrina da Fé romana, então presidida por Ratzinger (hoje Bento 16), nunca assumiu ou tramitou, pelo menos publicamente, a decisão do inquisidor espanhol. O novo documento da Comissão Teológica Internacional propõe agora "critérios metodológicos determinantes para a teologia católica em relação a outras disciplinas afins, como as ciências religiosas". E faz isso em três capítulos: a teologia pressupõe a escuta da palavra de Deus amparada na fé (capítulo 1); se realiza em comunhão com a Igreja (2); tem como fim dar razão à verdade de Deus (3).

Em resumo, salienta que os teólogos, para realizar seu trabalho, devem reconhecer a jurisdição dos bispos para "uma interpretação autêntica da palavra de Deus transmitida pela escritura e a tradição".

Sobre a intempestiva irrupção do bispo de Palencia em sua atividade profissional, o teólogo Tamayo não mordeu a língua e disse: "O senhor bispo está especialmente desorientado. Confunde o espaço religioso com o espaço público e intervém neste como se o fizesse na Idade Média, quando o bispo era senhor feudal. No espaço público pode opinar como qualquer cidadão, mas não impor sua ideologia e mentalidade dogmática e, menos ainda, impor limites à liberdade de expressão, como tampouco coagir os católicos, que são livres para decidir por sua conta. Episcopado e teologia se movem em planos diferentes. Eu não posso submeter minhas pesquisas teológicas ao ditame dos bispos. Se o fizesse, atiraria pela borda 40 anos de pesquisa e desacreditaria a teologia".

Vinculado à Teologia da Libertação, diretor da cátedra de Teologia e Ciências das Religiões da Universidade Carlos 3º, secretário-geral da Associação de Teólogos João 23 e autor de 57 livros, em sua maioria sucessos de vendas (do último, "Outra Teologia é Possível", a editora alemã Herder acaba de anunciar a segunda edição), Tamayo nunca foi condenado pelo Vaticano e, portanto, não é um herege no sentido tradicional da palavra. Mas faz tempo que os bispos o têm em sua agenda de combate.

Em novembro passado o cardeal de Barcelona, Lluis Martínez Sistach, proibiu uma intervenção dele na paróquia de Sant Medir, no bairro de La Bordeta, em Barcelona. Tamayo ia falar sobre a mulher na Igreja. Finalmente o fez em um local que a própria paróquia tem alugado da Esquerda Republicana, a 50 metros do templo. Foi o terceiro veto em dois meses, os outros por parte do cardeal Antonio Maria Rouco, em Madri.

Tamayo não é o único teólogo execrado na Espanha pela hierarquia atual. São dezenas desde o Vaticano 2º, entre outros os claretianos José María Vigil, Benjamín Forcano e Evaristo Villar, o franciscano José Arregi, o redentorista Marciano Vidal e os jesuítas José María Díez-Alegría, Juan Antonio Estrada e José María Castillo. A inquisição romana está há dois anos investigando José Antonio Pagola, ex-vigário da diocese de San Sebastián, por seu livro "Jesus - Uma aproximação, sem tomar uma decisão". Pagola já vendeu cerca de 100 mil exemplares de seu livro, apesar de ter sido execrado pela hierarquia espanhola com extrema severidade.

A atração do herege

Dois gênios tão díspares quanto o filósofo marxista Bloch e o apóstolo Paulo concordam sobre a necessidade da heterodoxia. "O melhor da religião é que cria hereges", afirmou o autor de "Princípio Esperança". O de Tarso o disse em latim, em sua primeira carta aos Coríntios. "Oportet et haereses esse" ("convém que haja heresias"). Sabia bem disso aquele que caiu do cavalo quando caçava cristãos pelo caminho de Damasco, para se converter pouco depois no grande secretário de organização do catolicismo romano, em franca dissensão com seu colega Pedro. Não pôde imaginar que alguns de seus sucessores iriam encontrar hereges até em uma lista de erratas.

Quando convocou o Vaticano 2º, há meio século, João 23 rogou que se acabasse com o sinistro Santo Ofício da Inquisição, entre cujas façanhas - tantas vezes criminosas - estava a de ter importunado a ele próprio, além de Bento 15 e o papa Paulo 6º. A pontifícia congregação encarregada então de engrandecer a doutrina e promover a fé logo se transformou em uma nova inquisição. Desde então caíram em suas garras, só no século passado, duas centenas de grandes pensadores religiosos. Para desgraça do Vaticano, são os que vendem mais livros e os que enchem as salas de conferências aonde vão. É a atração eterna do herege. Tamayo arremeda Larra naquilo de que escrever na Espanha era chorar. Fazer teologia livre na Igreja Católica é chorar, mas o reino das massas continua sendo dos heterodoxos.


Juan G Bedoya - Madri - Espanha

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