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sexta-feira, 16 de março de 2012

As religiões na sociedade e na academia em debate com José Casanova, na Unisinos

José Casanova, nascido na Espanha em 1951, é um dos mais respeitados sociólogos da religião da atualidade. É professor titular no departamento de sociologia da Universidade de Georgetown em Washington/D.C., EUA, uma universidade católica e jesuíta fundada em 1789, e diretor do programa sobre “globalização, religião e o secular” do Center Berkley daquela universidade.

Inicialmente, Casanova estudou filosofia e teologia católica na Universidade de Innsbruck, na Áustria. Foi influenciado pelos grandes teólogos católicos e protestantes da época, entre eles Karl Rahner e Yves Congar, bem como Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer e Paul Tillich. Também recebeu influências da Teologia da Libertação latino-americana e as teologias políticas de Johann Baptist Metz e Jürgen Moltmann. Interessou-se pela teoria crítica da Escola de Frankfurt e pela filosofia de Theodor Adorno, Walter Benjamin e Ernst Bloch. Seguindo sugestão de seu professor de dogmática, Franz Schupp – sucessor de Karl Rahner e, posteriormente, afastado da cátedra por causa de seus ensinamentos “heréticos” – Casanova foi para a New School of Social Research em New York, EUA, talvez ironicamente para estudar mais a fundo a sociologia do alemão Jürgen Habermas. Chegou a entender a sociologia, nesta linha, como “uma análise do presente com intenção prática”, ou seja, buscando uma teoria do presente fundamentada empiricamente que informaria e guiaria a ação prática coletiva. Estudou, ainda, os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, teóricos da secularização dos anos 1960, e Robert Bellah com suas reflexões sobre novos movimentos religiosos. Doutorou-se sobre a “Ética do Opus Dei e a modernização da Espanha”, tendo como tese principal uma “afinidade eletiva” (Max Weber) entre a ética do Opus Dei e o capitalismo tecnocrata autoritário efetivo já sob a ditadura de Franco na Espanha. Constituir-se-ia, portanto, em algo semelhante à relação, defendida por Max Weber, entre a ética protestante e o capitalismo burguês liberal. Em termos de religião, seu interesse chegou a ser a relação entre religião e sociedade, muito mais do que da religião como uma esfera diferenciada dentro de sociedades modernas.

Publicou vasta bibliografia, entre outras sobre religião e globalização, migração e pluralismo religioso, religiões transnacionais e teoria sociológica. Sua obra-prima é “Public Religions in the Modern World” (1994), considerado um clássico na área, onde contradiz a muito postulada conexão íntima entre modernidade (ocidental, mas vista como universal) e secularização, em especial onde mantém que a religião seria fadada a virar algo meramente privado, sem incidência pública. Contestou esta hipótese tanto empírico quanto conceitualmente. Eventos em 1978/79 o impulsionaram a esta conclusão: a revolução no Irã, a eleição de um papa polonês, a ascensão do sindicato “Solidariedade” na Polônia, a revolução sandinista na Nicarágua e a forte ação política da “Maioria Moral” nos EUA. Como um dos estudos de casos no referido livro apresenta a “Igreja Popular” que emergiu no Brasil dos anos 1970 e 1980 com as Comunidades Eclesiais de Base no âmbito da Igreja Católica. Segundo ele, tal movimento fomentou a democracia, ao mesmo tempo que ficou comprometidamente religioso – um exemplo de religião pública democrática, portanto. Para Casanova, não há, nem deve haver, necessariamente, uma privatização da religião para garantir a modernidade e a democracia.

Outro exemplo que vem destacando é o da Turquia. “Quanto mais moderna, ou pelo menos democrática, a política turca se torna, mais publicamente muçulmana e menos secularista tende a se tornar também”, ensina Casanova. A Europa ocidental, por sua vez, teima em excluir a Turquia da União Européia, alegando incompatibilidade cultural. No entanto, ela mesmo, diante de posturas exacerbadas de laicidade, não consegue admitir e assumir suas próprias raízes culturais e religiosas cristãs. A maciça presença muçulmana em seu meio – pela imigração – e às suas margens – no oriente – fez surgir o que Casanova chama de “ansiedade da Europa diante da religião”. Segundo ele, há muito preconceito contra o islã como intrinsecamente fundamentalista e anti-democrático, de modo semelhante aos preconceitos contra o catolicismo no século XIX. Este, por sua vez, tem feito um forte aggiornamento, imposto de modo universal a partir da hierarquia, e se tornado uma religião verdadeiramente global e transnacional.

Jose Casanova está visitando o Brasil desde início de março, com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Leopoldo. No Sul, atuará na PUC-RS, na Unisinos e nas Faculdades EST com palestras e debates sobre religiões e teologias públicas, secularização e presença religiosa no espaço público.

Teologia e religiões no espaço público da academia e da sociedade e As religiões na sociedade e na academia. Desafios e perspectivas são os temas que serão debatidos pelo sociólogo José Casanova, da Georgetown University, no dia 15 de março, na Unisinos.


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