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sábado, 28 de janeiro de 2012

“Modelo do Fórum já é o caminho para a construção da alternativa”

Membro do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo do Fórum Social Mundial e participante desde a primeira edição do evento, o educador Sérgio Haddad avalia que depois de 12 anos é possível assegurar que o método está correto, mas admite que em certo grau, o encontro tem dificuldades de dar respostas. "A metodologia do Fórum já é um caminho para a construção dessa alternativa. Como fazer disso uma síntese é o grande desfaio que nós temos"afirma

Porto Alegre - Quando o Fórum Social Mundial se realizou pela primeira vez, em Porto Alegre no ano de 2001, o lema “Um outro mundo é possível” parecia bem mais distante da realidade do que na edição de 2012. Ao menos para brasileiros, esse período foi marcado por inúmeras conquistas associadas às bandeiras tradicionais do evento, especialmente em relação a distribuição de riqueza.

Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser o ídolo daquelas milhares de pessoas que estiveram nos dois primeiros anos para virar herói e presidente de milhões de brasileiros – e chegou a ser vaiado pelos seus seguidores no Fórum Social Mundial por não seguir as políticas imaginadas por seus apoiadores de esquerda, além de participar mais de uma vez no Fórum Econômico de Davos, cuja crítica à postura arrogante e à defesa do neoliberalismo foi o que fez nascer o encontro de Porto Alegre.

O país deixou de ser devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ele mesmo emprestar dinheiro à instituição e pela primeira vez em um censo, a maior parte da população se autodeclara negra.

No mundo, a crise econômica vivida em países europeus, cuja origem foi o mercado financeiro dos Estados Unidos, leva multidões às ruas para perguntar porque o 1% mais rico ainda detém mais poder que os 99% restantes (mensagem do Ocupe Wall Street), porque não há espaço para novas ideias na política (questionamento de Os Indignados) ou ainda por que não é possível ampliar o alcance da democracia mesmo em países onde o culto à personalidade e à liderança religiosa é cultural (Primavera Árabe).

Por isso, na 12ª edição do Fórum Social Mundial (que este ano leva o codinome Temático, por ser preparatório para a Rio+20) é curioso que os participantes do Fórum Econômico Mundial discutam justamente o tema que se notabilizou por ser o cerne de todo o debate: Davos elegeu como tema de sua edição em 2012 a falência do neoliberalismo, propondo uma discussão sobre “A grande transformação: criando novos modelos”. O Fórum Social, por sua vez, não trocou as pautas tradicionais, mas agregou e tornou central um assunto que em anos anteriores não recebia a atenção merecida: o meio ambiente.

Não há dúvidas de que o receituário neoliberal, apesar de estar “sob judice”, ainda exerce forte influência – basta verificar as medidas de ajuste adotadas na Europa para conter a crise econômica. Congelamento de aposentadorias, milhões de empregos cortados, legislação trabalhista flexibilizada, aumento de impostos e benefícios cada vez menores levam parte da população às ruas. Por outro lado, na América Latina, ou mais particularmente no Brasil, o enfrentamento à crise desde 2008 tem sido marcado por medidas de estímulo à produção e ao consumo, com a valorização do salário mínimo, corte de tributos para determinados setores, ampliação do apoio à atividade industrial.

Mas como seguir criticando o neoliberalismo quando até seus antigos defensores o colocam como um modelo ultrapassado? E mais: como transformar o debate de ideias em ações efetivas que possam partir do indivíduo e da sociedade civil organizada, sem necessariamente depender de governos? Esse foi o tema da conversa com um dos idealizadores do Fórum Social Mundial e atual membro do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo do evento, Sérgio Haddad.

A discussão foi suscitada pelas falas dos participantes da mesa de abertura do Fórum Mundial da Educação, no dia 24 de janeiro, na Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Os comentários oscilavam entre o absolutamente genérico – 'sem reforma agrária não é possível educação de qualidade', ou o 'socialismo vive e está em construção' – ao mais objetivo tal qual a dificuldade de ensinar aos alunos o valor do trabalho quando todos pensam apenas em consumir. Nenhuma das perguntas foi respondida objetivamente pelos participantes da mesa. “Não me proponho a responder questões tão amplas e diferentes entre si. E também não me arrisco a identificar um caminho a ser seguido porque todos aqueles que se disseram iluminados e preparados para esta tarefa fracassaram”, provocou Haddad, que aprofundou essa reflexão na entrevista reproduzida a seguir.

Há uma ansiedade dos participantes para que o Fórum Social Mundial traga respostas objetivas. Como lidar com isso depois de 12 edições?

No início o FSM tinha muito uma característica de denúncia porque era uma contraposição a Davos. Nesse sentido se manteve nos primeiros anos com uma situação de mostrar os limites do modelo de desenvolvimento, do neoliberalismo. A questão ambiental não era tão presente. Mas sobre as respostas que as pessoas querem, nas atividades autogestionárias o que a gente vê é um crescimento de apresentação de experiências. O que não temos é condições de identificar isso, mas são basicamente grupos que vem fazendo atividades na perspectiva da economia solidária, da construção de organizações populares ou movimentos sociais, de formas de energia alternativas. Não é fácil construir uma alternativa porque todas as tentativas anteriores de construção de alternativas eram centralizadas, tinham um sujeito de mudança – em um momento foi a classe operária, o povo oprimido, depois a juventude, Tudo isso foi por água abaixo porque nenhuma solução vai sair de um grupo social, mas vai sair de uma diversidade. Agora como construir alternativas a partir da diversidade é talvez a grande dificuldade que temos.

A fórmula do FSM se mantém inalterada?

O modelo do Fórum está muito presente em movimentos como Indignados e Ocuppy Wall Street: é horizontal, não tem cacique, não tem hierarquia, todo mundo ocupa espaço. Então a própria metodologia do Fórum já é um caminho para a construção dessa alternativa, porque ela engloba desde as camadas mais inferiores de sua atividade a diversidade. Agora, como fazer disso uma síntese, ou ainda perguntar-se se é necessário fazer disso síntese, esse é o grande desfaio que nós temos. Acreditamos no método. Eu, particularmente, acredito que que as hipóteses vão nascer dessa diversidade: do olhar indígena sobre a questão dos bens comuns, do bem viver, as hipóteses de você pensar o mundo do não trabalho, as questões que estão sendo debatidas sobre decrescimento ou de construção de modelos de produção que sejam de outra natureza, com baixa produção de carbono.

O consumo chegou no seu limite?

Precisamos diminuir essa tensão de fazer fila porque o novo iPhone está sendo lançado! É como se o cara não pudesse comprar o aparelho dois dias depois! Isso está chegando no limite. E finalmente acho que o limite também está sendo dado pela própria realidade – as pessoas não conseguem andar porque tem carro, estão se envenenando respirando o ar, etc. Em algum momento, ou o cara foge dessa realidade, ou ele vai ter que enfrentá-la.

Questões práticas são importantes na discussão?

Temos que ter essa preocupação na agenda. Esse é o papel que a gente faz: tentar trazer as novas questões e balançar isso com a denúncia porque só a análise da conjuntura é algo que você começa a se sentir impotente, deprimido, com saberes, alternativas, experiências.

O que deve ser feito para que a Rio+20 não se transforme em uma grande festa, sem acordos concretos e de fôlego?

Eu acho que a Cúpula dos Povos vai ter de tudo, igual ao Fórum Social Mundial. Desde gente que não quer dialogar com o Estado, com o poder público, até gente que está afim de interferir no documento (a carta de compromissos) que já está sendo trabalhando. Não tem como não fazer diferente. Vai ter de tudo, como foi na Eco92. Talvez a maior dificuldade é como que no meio dessa confusão alguém é capaz de viabilizar a sua proposta e trazer uma contribuição que possa ser disseminada entre todas as pessoas.

Mas há alguma estratégia para pressionar por acordos?

O que estamos tratando de construir é talvez uma unidade em alguns pontos.

Quais?

Ah, se eu soubesse! Já há algumas coisas que foram ditas. A ideia de defender algumas coisas como bens coletivos, por exemplo. Há um forte movimento contra a energia nuclear, e isso pode render uma campanha grande, o modelo energético. Mas essas coisas precisam ser consensuadas, porque os grupos tem posições muito centradas. O mais difícil que eu vejo é o tema econômico, porque a somatória da economia popular, das trocas comunitárias, isso não resulta em um novo modelo de organização da sociedade para a questão econômica. E ao mesmo tempo a máquina vai andando, as pessoas vão produzindo. Imagina a China entrando no mercado de consumo, crescendo 8% ao ano, e querendo (manter) o mesmo padrão norte-americano.

E onde entra a educação nesse debate?

O Fórum Mundial de Educação na verdade quer colocar em relevo essa questão. Para isso – eu não sou organizador do FME – ele tem debater os temas que estão colocados na conjuntura. Porque o educador normalmente, pelas contingencias de vida, está muito voltado à sua atividade cotidiana, a sala de aula. Tem muito poucas possibilidades de fazer debates mais amplos. E ele tem um papel fundamental, porque quando se fala em mudança de mentalidade, isso significa mudança de valores, de concepção de mundo. Claro que o professor não tem todo esse poder, há a família, a comunicação de massa, mas a sala de aula é importante como espaço de reflexão porque as crianças ficam muito tempo na escola. Então como tratar isso sob uma perspectiva de uma dinâmica nova, sob novos valores, valorizando a criança como centralidade no processo educativo, construindo a sua relação com o tema ambiental, com respeito a natureza, ao semelhante.

O Fórum teria então um papel de atuar na formação do professor?

Não tenho dúvida de que o Fórum cumpriria esse papel através do debate de ideias. No limite, talvez não discutir o modelo de escola, mas os valores que um novo modelo poderia conter. Isso é mais fácil, ao menos na educação formal. O nosso papel é disseminar isso.

Naira Hofmeister

Carta Maior

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