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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quando o boi vale mais que o índio - CEPAT/IHU

A situação de abandono e sofrimento dos indígenas fez com que o kaiowá Guarani Anastácio dissesse: "Aqui o boi vale mais do que uma criança guarani", ou ainda a afirmação de outra liderança guarani: ''Quase não temos mais chance de sobreviver neste Brasil''.

Não é apenas "o boi que vale mais do que uma criança guarani", também a soja e, sobretudo, a cana-de-açucar. A dramática situação do povo kaiowá Guarani deve-se ao fato de que os mesmos "estão fora do lugar". O que tem valor e é valorizado no Estado são as commodities.

Como diz Egon Heck, "o que a gente percebe é, na verdade, uma prática articulada pelo poder econômico e político no Mato Grosso do Sul, baseada fundamentalmente na produção exportadora e na monocultura da soja, além da agroindústria da cana, que está se agravando em níveis extremamente perigosos e absurdos".

É novamente o indigenista Egon Heck quem ilustra bem o contraste da situação vivida no Mato Grosso do Sul. "De um lado, se tem um dos estados de economia mais florescentes do País, baseado na monocultura de milho, na criação de gado e, agora, a monocultura da cana-de-açúcar está entrando com muita força. E, por outro lado, há muitas populações expulsas do campo, dentre elas principalmente as indígenas. Essas são as mais afetadas, pelo fato de suas terras se situarem, em geral, nas áreas mais férteis que são as de mata Atlântica, no extremo sul do estado, as terras Guarani-Kaiowá."

Continua ele: "Hoje, na região, existem mais de 20 milhões de cabeça de gado que dispõem de 3 a 5 hectares de terra por cabeça, enquanto os índios Guarani-Kaiowá não chegam a ocupar um hectare por índio. Assim, com falta de terra, centenas de sem terras indígenas são obrigados a se deslocar para a beira das estradas. Essa é uma situação calamitosa para essas populações, além de gritante em termos de injustiça para com os povos indígenas e os trabalhadores sem-terras", diz o coordenador do Cimi-MS.

Portanto, a agressão sistemática contra os povos indígenas e até mesmo a tentativa de eliminá-los está relacionado ao modelo agrícola concentrador de terra e produtor de commodities voltado para o mercado internacional.

Aqui reside a contradição. Por um lado, o modelo econômico vigente estimula e favorece a plantation de commodities - soja, cana - e a commoditie pecuária - gado. É nisso que se tranformou o Mato Grosso do Sul. Por outro lado, o Estado brasileiro fala no respeito às minorias, nos direitos sociais, ambientais, culturais. Aqui entram os indígenas. Povo milenar, proprietário primeiro das terras, portador de outra visão de mundo distante do produtivismo e consumismo do capitalismo predador.

As duas dinâmicas se chocam, não são conciliáveis. Quem poderia proteger os mais fracos é o Estado, mas esse permanece preso ao modelo neodesenvolvimentista - ancorado boa parte na produção de commodities. A não confrontação do Estado ao agronegócio como se viu também no Código Florestal, já manifesta uma opção. Nessa equação, perdem os mais fracos, perde o povo kaiowá Guarani.


Fonte: CEBI

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