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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

População denuncia truculência do Exército em Floresta - PE

Excelentíssimo Sr. Coronel Antonio Almério Ferreira Diniz Filho

Responsável pela operação do exercito na cidade de Floresta em novembro 2011

A presente missiva tem como objetivo demonstrar nossa indignação, perplexidade, constrangimento e desaprovação diante da forma como a operação bélica realizada pelo exército nessa cidade durante este período.

Se o objetivo era prestar um serviço à comunidade como foi anunciado às autoridades e à população não haveria a menor necessidade de sitiar a cidade transformando-a num estado de sítio, monitorando militarmente cada ponto das entradas e saídas da cidade e privando as pessoas de liberdade de ir e vir, pois os próprios alunos da pós-graduação tinham que se identificar no portão do Centro de Formação da Diocese onde o curso foi deslocado, pois, originariamente era ministrado na GRE - Gerência Regional de Educação do Estado de Pernambuco.

Não haveria a necessidade de teatralizar e filmar movimentos de "desordem" por parte de alguns jovens como aconteceu hoje pela manhã em que alguns de seus comandados estavam filmando a queima de pneus realizada por cerca de dez jovens atores com palavras de ordem como "queremos paz, somos da paz". Até onde ficamos sabendo, essa teatralização foi realizada também em outros espaços da cidade como forma de justificar a presença ostensiva e ofensiva por cerca de mil homens quase todos armados com fuzis dentro de um espaço que há mais de dez anos vem construindo uma cultura de paz.

Não haveria necessidade de desrespeitar o acordo com o responsável do centro de formação, em que durante a noite muitos soldados colocando colchões nos corredores perfilavam de cuecas no mesmo corredor onde nossas alunas estavam hospedadas, caracterizando oficialmente atentando ao pudor e assédio moral por parte desses oficiais. Foi também muito constrangedor, na condição de coordenador da pós-graduação ouvir das alunas que praticamente não dormiram a noite em função dessa segurança ou vigilância armada.

Estamos nos sentindo constrangidos e violentados em nossos direitos básicos. Somos professores das UFF - Universidade Federa Fluminense do Rio de janeiro, da UESB - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, da UNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos Sinos do Rio Grande do Sul e do Mackenzie de São Paulo. Todos nós estamos participando dessa pós graduação com o objetivo de construir uma cultura de paz, onde a ética, o respeito, a tolerância, a cooperação, o diálogo, o empenho solidário em ações sustentáveis possam contribuir para diminuir a violência estrutural e simbólica que assola esta região. Qual não é nossa surpresa ao constatar que as ações empreendidas pelo exército derrubam todos os pilares daquilo que entendemos por ética e dignidade humana?

Desde sexta feira a noite tenho constatado o quanto os soldados estão despreparados para lidar com as pessoas enquanto sujeitos dotados de direito, deveres e dignidade. Eles iam adentrando pelos espaços quase que atropelando as pessoas como aconteceu literalmente com a professora Alice Yamasaki que estava vindo da UFF - Universidade Federal Fluminense para ministrar a disciplina Educação, Direito e Cidadania. Atitudes como respeito, por favor, é possível, diálogo parece que não foram ensinadas aos vossos comandados. Na reunião que tivemos com as coordenações dos dois grupos de formação no sábado pela manhã, conversamos com o tenente responsável e questionamos se a razão de ser da vinda do exército era cumprir ações solidárias, as atitudes eram exatamente opostas, pois a força e o poder que emanam da farda não justificam um comportamento autoritário, agressivo e ameaçador. Seguramente o senhor tem consciência dos vários tipos de violência amplamente estudados em Ciências Sociais e Ciências Políticas e os cinco tipos principais de violências somos submetidos nestes dias, mas a que mais nos chocou e incomodou foi a violência simbólica e a violência do poder das forças das armas que intimidam. Por isso a pergunta: estamos em um estado de direito em Floresta ou em estado de sitío?

De que maneira os tanques, as armas bélicas e em enorme quantidade ajudarão no tratamento da saúde pública? De que maneira o arsenal presente nos 5 quartéis generais montados em uma cidade com esse porte poderá contribuir para ações de serviço à população? De que maneira a presença ostensiva e ameaçadora de cães farejadores contribuirão para descobrir as causas da falta de emprego e perspectiva de vida dos jovens desta cidade? De que maneira o monitoramento das pessoas e estamos o tempo inteiro nos sentindo monitorados justificará a presença do exército na proporção que estão aqui? Como justificar que tem muito mais soldados nesta pequena cidade do que o conjunto de soldados brasileiros no Haiti para integrar as forças internacionais de paz naquele país?

Como poderemos dar continuidade ao curso de pós-graduação em educação e ética para uma cultura de paz num ambiente em que os soldados armados desfilam pelos corredores do Centro de Formação, contrariando exatamente tudo o que a professora tenta ministrar como necessária a construção da paz, inclusive o desarmamento que é um dos objetivos da UNESCO?

Senhor Coronel, é histórico que as forças armadas brasileiras têm um papel a cumprir que é o de zelar pela segurança, pelo bem estar, pela justiça social do território e pelo povo brasileiro, mas sinceramente, o objetivo maior desta operação de guerra é zelar pela paz enquanto justiça social do povo de Floresta? Em algum momento na construção da operação de guerra montada foi levado em consideração que em sua ampla maioria trata-se de um povo explorado, um povo simples, um povo sofredor, um povo sem perspectiva de futuro porque nenhuma empresa quer aqui se aportar por causa do estereótipo criado de uma das cidades mais violentas do país? Em algum momento os senhores consideraram que precisariam dialogar com gente e não com coisas, que pessoas são diferentes de animais? Que o espaço público num estado democrático de direito é um direito de todos e que não se pode invadir dessa forma sem que antes tenha sido feita um diálogo com os membros da comunidade para justificar uma negociação e não uma invasão como a que está ocorrendo e que nos remete ao âmago da ditadura militar?

Como coordenador do curso de pós-graduação e em comum acordo com a professora que está ministrando a disciplina, estamos encerrando as atividades acadêmicas antes do tempo previsto, pois não temos condições de continuar um trabalho dedicado à construção da paz estrutural quando somos forçados a dividir o espaço e não a conviver com tão forte demonstração de poder bélico, de indiferença para com as pessoas que aqui estão e que enquanto cidadãs e trabalhadoras contribuem para o soldo dos vossos subordinados, o que implicaria num mínimo numa cordialidade, numa atitude pedagógica e educativa, numa postura de respeito, de diálogo.

Como coordenador do curso de pós-graduação em educação e ética para uma cultura de paz, estou me colocando à disposição para em algum momento caso o senhor considere conveniente dialogar com vossos subordinados sobre a importância do respeito, da ética, do diálogo na construção da justiça social e que esta não se constrói a base da força, mas do respeito e do bem comum.

Encaminho esta carta para todas as universidades que fazem parte desta pós-graduação em educação e ética para uma cultura de paz.

Atenciosamente


Jorge Miranda de Almeida Alice Akemi Yamasaki

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