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domingo, 25 de dezembro de 2011

O Filho da Liberdade foi “prosear no céu”

Manelão (esquerda), Idelma e Zé Valdir
Foto: Evandro Medeiros



No último dia 10, o Manelão foi “prosear no céu”, como escreveu Ricardo Rezende. Morreu de infarto fulminante em seu sítio, às margens do rio Araguaia, lugar tratado por ele como “Santuário Ecológico”, perto de Conceição do Araguaia. Somente agora, dias depois, encontro algumas palavras para uma digna despedida.

Manuel Martins de Almeida, o Manelão, caboclo do Araguaia, filho da liberdade, era músico e poeta popular, militante das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e praticante de uma filosofia extraordinária, seu sentido de existência: amálgama da sua história com o povo do Araguaia e uma espiritualidade fundada na integração de todas as formas de vida. Nas palavras de Ricardo Rezende: “um franciscano na vida”.

Conheci Manelão no final da década de 1980, em São Geraldo do Araguaia. Eu, militante da Pastoral da Juventude, e o Manelão numa de suas viagens de animador das comunidades eclesiais de base. Desde então vivenciamos muitos reencontros, sempre com sentido de partilha profunda de vida (identidade). Ele, com sua presença miúda, pés descalços, sorriso aberto, olhar amoroso e abraço largo e demorado. Queria se purificar naquele abraço, dizia ele, me chamando de “Pureza”. Era um ser humano digno do nome no aumentativo: Manelão! Sua vida e suas músicas animaram-me profundamente nas minhas escolhas e trajetória de vida.

Em 1991, recebi de Manelão duas fitas cassetes com músicas populares do Araguaia e de outras “partes do Brasil”. Numa delas, escreveu: “música alternativa (independente) são cantos criados nas diversas partes do Brasil, ainda (graças) não exploradas pela sociedade de consumo e pelo comércio (MCSs). Nessas fitas, uma amostra do que temos de música nesse vasto Brasil. A maioria extraída de um arquivo de quase 200 fitas gravadas”. As duas fitas trago guardadas, bem como os CDs de composições dele, muitas resultantes da parceria histórica com Zé Valdir, também músico-poeta popular do Araguaia.

Segundo nota do Secretariado Dominicano de Justiça e Paz, “Manelão participou, no último final de semana, em Xinguara do Encontro de lavradores das áreas de conflitos da região Sul do Pará, contribuindo muito – de acordo com Aninha – com a espiritualidade da caminhada. Nesse mesmo Encontro ao receber a Agenda Latina Americana de presente, beijou-a e disse: ‘eu estava precisando desse Encontro e dessa Agenda para reforçar a minha opção.”

Manelão era dessa gente do Araguaia: dos tempos de outrora, das “bandeiras verdes”, dos tempos cinzentos do presente e dos tempos da utopia, do futuro chão da liberdade. Cantou o rio Araguaia e a vida do povo do Araguaia. Continuará vivo nas memórias do seu povo.

Na música “Filho da Liberdade” [Manelão - FECAM de Marabá], sua declaração de identidade e nossa memória e saudade dele:

O sol já rompeu no horizonte
Vai cruzando o céu fumacento
Meus pés já vão cruzando os montes
Pisando este chão turbulento

Vou caminhando
Na estrada da felicidade
Os pés descalços
Buscando o chão da liberdade (bis)

Sou filho da terra virgem, Brasil
Na roça eu me criei
Prantos de adulto, sorriso infantil
Nas estradas cultivei
Sou sangue de caboclo varonil
Tantas sementes plantei (bis)

Carrego a viola no ombro
A bagagem é um sonho de amor
Conduzo o livro da verdade
Escrito por nosso senhor

Nas mãos cansadas
Carrego o bastão da certeza
Os pés calejados
Me ensina abraçar a pobreza

Pois vou caminhando
Na estrada da simplicidade
Os pés descalços
Buscando o chão da liberdade.


Idelma Santiago

Originalmente publicado no Opinião, 20-21/12/2011

2 comentários:

Jose Hélio Alvarez Elarrat disse...

Olá Idelma
Também fui um grande admirador dessa dupla (Manelão e Zé Waldir). Certa ocasião (1981/1982) dei meu único violão ao Zé Waldir em troca de suas músicas gravadas. Ele me deu 4 fitas que eu adorava ouvir (Araguaia/ Meu Araguaia/ De mistérios e terror...). Um amigo me emprestou e as destruiu. Se você ainda possui essas fitas, há como transformá-las em arquivo digital? Escreva-me: jhae@ufpa.br - Prof. Hélio Elarrat (62 anos). Abraços

Neto Melquides disse...

Conheci manelão eu era ainda criança, aqui em Anapu no Pará, uma pessoa fantastica, inda tenho uma fita cassete que ele me presenteou com o nome de raizes do araguaia, so hoje pesquisando a sobre manela que axei este falando da viagem desse grande homen ao ceu, eu e minha familia estamos muito triste, vou repassar a notia ao PE AMARO que tbm muito o admirava.
abraços a todos