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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Filhos de espanhol assassinado no Dops recebem restos mortais do pai

Família sempre desconfiou da versão de suicídio apresentada pela ditadura

SÃO PAULO. Depois de 38 anos, os três filhos do espanhol Miguel Sabat Nuet receberam ontem os restos mortais do pai, assassinado em uma cela do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo, em 1973, durante a ditadura militar. A ministra da Secretaria dos Diretos Humanos, Maria do Rosário, pediu desculpas à família, em nome do Estado brasileiro.

O reconhecimento do corpo, que estava no Cemitério de Perus, na Zona Norte da capital paulista, por exame de DNA, foi possível graças a uma ação do Ministério Público Federal. A exumação só aconteceu em abril de 2008. Até essa data, os três filhos, que vivem na Venezuela, tinham a informação de que o pai havia se matado.

- Vocês não estão apenas devolvendo os restos do meu pai, vocês estão nos devolvendo parte de uma história desconhecida - disse a filha, Maria del Carmen, de 56 anos.

Os filhos sempre desconfiaram da versão de suicídio pela ligação do pai com a Igreja Católica. Eles chegaram a receber um atestado médico falso de suicídio assinado por dois médicos brasileiros.

De acordo com a procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga, responsável pelo caso, o reconhecimento do corpo de Nuet só foi possível pelo empenho dos grupos familiares de presos políticos brasileiros, que encontraram em um dos livros do Instituto Médico Legal, em São Paulo, o nome do espanhol. Em 2008, houve contato com os filhos de Nuet.

Segundo a procuradora, o espanhol foi preso em uma estação de trem por ser estrangeiro e utilizar um diário para escrever. Ele não teria ligação com grupos de esquerda.

- É uma das mortes que mais expõe a ditadura militar brasileira. Uma pessoa que foi morta aqui porque falava outra língua, porque era, como ficou reconhecido nas anotações militares, metido a filósofo. E escrevia coisas tão bonitas - afirmou a procuradora.

Os filhos não são categóricos em afirmar que o pai não tinha militância política. Eles contam que ele era muito ligado às ideias da Teologia da Libertação, vertente progressista da Igreja Católica. Na época da prisão, Nuet, de 50 anos, vivia na Venezuela. Ele teria visitado a Argentina e depois viajado para o Brasil, quando acabou preso.

Os filhos Miguel, Maria del Carmen e Lorenzo pretendem jogar as cinzas do pai na montanha de Montjuic, em Barcelona, sua cidade natal na Espanha.

- Por fim, ele vai descansar em paz - concluiu a filha.


Fonte: Autor(es): agência o globo:Sérgio Roxo

O Globo - 13/12/2011


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