Loading...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A humanidade carece de cronistas, diz teólogo


O que o mundo mais necessita na atualidade é de cronistas que contem sobre a irresponsabilidade, que caracteriza a globalização, disse o teólogo luterano Vitor Westhelle na mesa de abertura, sexta-feira, 18/11/2011, do Seminário Comunicação, Ética e Cidadania, em São Leopoldo.

Vitor resumiu a derrocada de Wall Street, em 2008, como a irresponsabilidade de uma sociedade sem espelho retrovisor, ou, “para dizer em outras palavras, perdemos a arte da crônica, ou esta é hoje muito rara no seu sentido originário”.

Em hebraico, “crônica” significa prestar contas dos eventos do dia, das coisas reais do que sucede, definiu o teólogo. Ele lembrou que Fernão de Magalhães, que circundou o globo terrestre pela primeira vez, em 1521, também foi o primeiro navegador que passou a não enviar mais cartas-relatório à coroa espanhola, que o subsidiava, fazendo da “irresponsabilidade uma prática legítima”.

“Por que não voltam os fatos à notícia?” – indagou o teólogo. Além da irresponsabilidade, há ainda outro fator: o mundo é chato. É desconcertante ver que as notícias, a não ser as locais, são exatamente as mesmas divulgadas pelo New York Times, pelo jornal da BBC, e pela Zero Hora. “Temos de encontrar uma maneira de forçar que os fatos reais voltem ao noticiário”, afirmou Vitor, citando a escritora indiana Arundhati Roy.

O escândalo já não mais existe porque as pessoas se acostumaram com a superficialidade das coisas. “Acostumamo-nos à mera vida, não à vida em sua plenitude”, avaliou. “Sociedades que já não sabem lidar com a morte, tampouco o sabem com a vida que não seja mera vida”, disse.
Com o desencantamento do mundo, como definiu o sociólogo alemão Max Weber, já não se entende o fator religioso e seu papel em questões de vida e de morte. A concepção da vida e da morte são os momentos mais íntimos.
Na equação entre modernização e secularização, o fator religioso foi subtraído. “É preciso que isso entre na equação, a saber, de que o fator religioso não é sobre obras ou sofrimentos, não é sobre as mediações que nos acostumamos a administrar, mas sobre a intimidade que nos une à vida na sua concepção e à morte na sua consumação”, assinalou Vitor.

O Ocidente, agregou, perdeu em vasta medida a capacidade de entender o poder da intimidade, que é o fator religioso. “É por isso que a intimidade dá medo, pois é imediata à vida e à morte”, frisou. A instituição da religião, disse, é a forma como a civilização aprendeu a lidar com o medo e o terror que a intimidade produz. “É por isso que temos que voltar a entender a importância do rito, do culto e do mito”, sinalizou.

Na análise da professora Christa Berger, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), o mundo hipermoderno é inseguro e a humanidade vive a era da desorientação. “Somos convocados a nos comportarmos como consumidores” e esse é um “imperativo da felicidade”, que se insinua no imaginário com objeto de engenharia individual.

O seminário foi promovido pelo curso de Jornalismo da Unisinos em parceria com a Faculdades EST e apoio da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC), Instituto Humanitas, Fórum Luterano de Comunicadores, Editora Padre Reus e Editora Sinodal.

Fonte: CONIC

Nenhum comentário: