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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

As igrejas carismáticas não se colocam em relação a questão social - Boff

“As igrejas carismáticas, seja católicas, seja evangélicas, não se colocam em relação à questão social...

Elas são profundamente alienadas e, pior, alienantes, pois distraem os fiéis de sua própria realidade sofrida ou lhes dão uma versão espiritualista.”

O teólogo, escritor, professor universitário e ex-padre da Ordem Franciscana Leonardo Boff é o expoente maior da Teologia da Libertação no Brasil. Após concluir doutorado na Universidade de Munique em 1970, retornou ao Brasil, onde lecionou Teologia e foi o editor de revistas católicas. Em 1985, foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso”, perdendo sua cátedra e suas funções editoriais, pela Congregação para a Doutrina da Fé – então sob a direção de Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI – pelos questionamentos expressos no seu livro Igreja, Carisma e Poder. Recuperou algumas funções em 1986, mas sempre sob severa vigilância, e em 1992, ante nova ameaça de punição, pediu dispensa do sacerdócio e uniu-se à educadora popular Márcia Monteiro da Silva Miranda, divorciada e mãe de seis filhos.

Boff é atualmente professor emérito da Uerj, mora com Márcia em Petrópolis e viaja o Brasil dando palestras sobre os temas abordados em seus mais de 60 livros. Além das causas sociais, dedica-se atualmente também à questão ambiental.


P: Em que sentido a ascensão da doutrina carismática nos últimos anos, e sua atual hegemonia no seio da Igreja Católica, e a multiplicação das igrejas neopentecostais colaboraram para o crescimento da alienação e do distanciamento do povo da percepção da via política como caminho para modificar a realidade objetiva?
R:
Na verdade, as Igrejas carismáticas, seja católicas, seja evangélicas, não se colocam em relação à questão social. A maioria delas é fundamentalista ou possui uma tendência forte ao fundamentalismo. Isso tem como consequência que a única realidade e verdade que para elas conta é a realidade/verdade religiosa. As demais questões não possuem relevância, pois pertencem ao mundo do profano, do reino deste mundo, que nada tem a ver com o reino de Deus. Elas são profundamente alienadas e, pior, alienantes, pois distraem os fiéis de sua própria realidade sofrida ou lhes dão uma versão espiritualista. Dizem: são pobres porque não se abrem a Deus e não pagam o dízimo. Quando se enquadram na mensagem religiosa, prosperam. Daí a centralidade é dada ao evangelho da prosperidade material para este mundo. Estas igrejas despolitizam os fiéis no sentido de não incluírem em sua agenda as questões da justiça social, da pobreza, produzida por processos de exploração. E quando há eleições não discutem os projetos políticos, apenas as questões morais ligadas ao aborto, aos homossexuais, ao casamento entre homoafetivos.

P: Por que os grandes eventos religiosos atraem multidões e as manifestações políticas não?
R:
Há uma sede espiritual grande em todas as sociedades mundiais. isso se deriva do excesso de racionalismo, de consumismo e da pletora de bens materiais. O ser humano sente necessidade de algo que lhe dê um sentido mais rico à existência. As religiões sempre foram nichos criadores de sentido e de um sentido absoluto, identificado com Deus. Todo discurso que atende a esta demanda tem ouvintes. A política não possui esse condão, especialmente a nossa, que é muito rasteira, urdida de interesses corporativos e marcada por conchavos e alto níveis de corrupção. Há um cansaço com a política, porque ela não muda substancialmente as relações sociais. Ela não apresenta boas bandeiras nem suscita sonhos e utopias, realidades que sempre mobilizam os espíritos.

P: Marx, afinal, tinha razão? A religião é o ópio do povo?
R:
Marx fez uma descrição correta da função social da religião (não considerou outras funções) ao afirmar que “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, a alma de condições desalmadas... a religião é o ópio do povo”. Coisa semelhante encontramos nos profetas, especialmente em Isaías e em Oséias. A religião comparece como o único refúgio de sentido que resta ao oprimido: transferir este sentido para o outro mundo, porque este é um inferno. Quando Marx diz que a religião é ópio do povo, afirma-o no sentido positivo: é um lenitivo que faz diminuir o sofrimento e suportável a exploração. Lênin modificará a versão e dirá que a religião é ópio para o povo. Aqui há um uso político da religião para abafar o espírito de resistência e de revolução. Mas em outras passagens mais tarde, Marx vai entender que a religião pode ser libertária e revolucionária, ao afirmar que Deus não quer a exploração, quer a vida e a justiça. Esta dimensão foi aprofundada por Antonio Gramsci e pelos teólogos da libertação, que tentaram fazer do capital libertário do cristianismo um fator de mobilização social e não mais de resignação.

P: Como explicar o “milagre da multiplicação” das igrejas neopentecostais, em pouco mais de 20 anos, em um país de forte tradição católica como o Brasil? Foi um movimento espontâneo ou induzido “de fora para dentro”?
R:
Ele é as duas coisas: veio de fora, especialmente dos EUA, até com apoio da CIA no final dos anos 60, particularmente, nas regiões mais sensíveis em termos de movimentos revolucionários, que eram a América Central mas também o Brasil. Elas assumiram a linguagem da libertação das Igrejas da libertação concreta, histórica, e a esvaziaram num sentido espiritualista como libertação do pecado, libertação que somente Deus pode trazer. E há uma justificação interna. institucionalmente a igreja Católica é um fracasso. Pelo numero de fieis deveria ter 120 mil padres. E possui apenas 17 mil, oito mil dos quais são estrangeiros. Portanto, é uma igreja sem sustentabilidade interna. Vive da inércia que vem do pacto colonial onde igreja e Estado constituíam um único projeto. Então há um vazio enorme e os fiéis não são atendidos em suas demandas religiosas. Como o povo brasileiro é religioso, qualquer grupo que chega com uma mensagem religiosa facilmente é acolhido, pois não possui uma visão doutrinária do cristianismo. Deus é o mesmo em todas as Igrejas e Cristo está em todas. Mas eu não vejo a proliferação das Igrejas evangélicas como uma catástrofe. Elas expressam a diversidade cristã, quer dizer, o fato de que a mensagem de Jesus não pode ser monopólio de apenas uma Igreja. É um legado deixado à humanidade, sensível ao mundo espiritual, e pode exprimir-se de muitas formas diferentes. Tal fato é inevitável e fundamentalmente sadio. O problema é que existe uma concorrência no mercado das igrejas e religiões: umas querendo ser melhores ou ter mais fiéis que as outras. Se houvesse mútuo reconhecimento, o que seria ideal, teríamos harmonia religiosa e ausência de conflitos confessionais e uma rica criação de símbolos religiosos.

P: Como anda a Teologia da Libertação no Brasil e no mundo? Ainda conta com muitos adeptos? Qual o futuro desta corrente teológica?
R:
A Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito do oprimido: o operário, o indígena, o negro, a mulher, os discriminados socialmente. A marca registrada desta teologia é a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da justiça e da vida. ultimamente os teólogos da libertação se deram conta de que o planeta Terra é tão ou mais explorado que as classes e os países periféricos. Ela tem que ser incluído na opção pelos pobres, como o Grande Pobre que deve ser libertado, baixado da cruz e ressuscitado. Daí nasceu uma vigorosa ecoteologia da libertação que eu, já nos anos 80, com a incompreensão de alguns teólogos, vinha sustentando. Hoje esta teologia está em todos os continentes e muito viva. Não possui a visibilidade que possuía antes por não ser mais polêmica. Mas está presente, como se pode ver na semana que antecede os Fóruns Sociais Mundiais. Sempre há o Fórum Mundial da Teologia da Libertação, de caráter ecumênico. E nunca há menos de 3 a 4 mil participantes vindos de todos os continentes. Talvez seja a única teologia hoje que tem uma palavra a dizer, a partir da fé, sobre as questões mundiais da crise econômica, ambiental e do processo profundamente desigual e perverso de globalização.

P: O Papa é, em algumas ocasiões, recebido nas ruas com gritos de “pedófilo” e “nazista”. É possível reverter o viés negativo em que a Igreja Católica se encontra? Qual é o papel da Igreja neste milênio?
R:
A Igreja vive um de seus piores momentos em toda a sua longa história porque foi atacada naquilo que era o seu grande capital: a moralidade, os valores espirituais, o respeito à pessoa humana. A questão dos pedófilos desmascarou a pretensão da Igreja de ser melhor que outras instituições. Ela está submetida aos avatares da história. Pode fazer o bem melhor como pode fazer o mal pior. Este Papa não teve hombridade de assumir o erro de bispos e padres pedófilos. Tentou tergiversar como campanha da imprensa laica e laicista contra a igreja ou tentou esconder o fato. E o tentou de uma forma criminosa, pois enviou uma carta aos bispos, sob pena de sigilo pontifício, de não denunciarem os pedófilos à justiça civil. Com isso se fez cúmplice de um crime. Depois teve que assumir o fato e de certa forma se redimiu. Mas não mudou nada no problema de fundo: a formação afetiva daqueles que querem ser padres. Não basta impor o celibato como lei. Importa integrar a sexualidade com uma dimensão do humano de forma que possa viver a opção do celibato de forma humanizadora, sem recalques e sem obsessão. A pedofilia denuncia uma educação sexual distorcida e uma afetividade não trabalhada pedagogicamente.


Fonte: Conselho Regional de Economia - CORECON-RJ


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