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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um artigo sobre a renuncia de Frei Enoque : DO SACERDÓCIO À POLÍTICA: Um missiânico ou um pré-destinado político.

O motivo de retomar a atenção de todos é devido aos constantes comentários sobre a renúnica do atual prefeito de Poço Redondo Frei Enoque Salvador de Melo, (PSB). Parece que não paíram mais dúvidas que a renúncia é decisão concreta do Sr. Prefeito. Afinal, ele próprio afirmou estar decidido à deixar o cargo eletivo de Prefeito Municipal, para o qual foi eleito com maioria absoluta dos votos válidos no último pleito eleitoral ocorrido em 2008.

O dito popular diz: “O bom é o que chega. O que sai, normalmente é achincalhado e humilhado”. O nosso amigo e escritor nato Alcino Alves Costa já escreveu sobre esse personagem, o puxa-saquismo, diz ai Alcino como ele se apresenta.

Independentemente, se a saída de Frei Enoque é por questões religiosas ou jurídicas, isso não convém. Se o Clã da Igreja Católica está obrigando seus sacerdotes retornarem às suas missões divinas, ou se, os entendimentos jurídicos apontam seta para o lado oposto o desfavorecendo, também nao tem grande valia.

Meus amigos, existe uma coisa que ninguém, por mais que deseje apaga da história de Poço Redondo. É a fase antes do Frei Enoque e com Frei Enoque. Não sabemos como será a fase pós-Frei Enoque, essa sim é uma dúvida das mais vultuosa. Basta apenas que os sucessores façam igual a ele, assim o nosso progresso continuará e Poço Redondo seguirá crescendo e se desenvolvendo cada vez mais.

A sua história é digna de aplausos e de ser contada aos mais novos, no meu caso, fui em busca de registros, com o intuito de repassar aos meus descendentes da quão importância teve esse pernambucano que deixou seu lar, seus familiares, o conforto da capital Recife, para embrenhar-se no sertão de Sergipe, com objetivo de dar vez e voz aquele povo esquecido e maltratado pelo poder estatal. A história do Frei Enoque não se distancia muito do passado do beato Antonio Conselheiro, do Frei Damião, de Madre Teresa de Calcultá, e até mesmo daquela missionária norte-americana Dorothy Stang assassinada recentemente no Estado do Pará, por lutar por melhores condições de vida para aqueles que esperam de boca aberta uma oportunidade de talvez deixar uma melhor educação, saúde e cultura para os seus descendentes.

Não precisa exigir muito da memória para saber que foi por intermédio do Bispo Dom José Brandão de Castro, Arcebispo da Diocese de Propriá que seguindo ideário prático-religioso da Teologia da Libertação, movimento configurado a partir do Concílio Vaticano II (1962/1965), alimentado pelo espírito de líder religioso e compromissado com a luta contra as injustiças sociais do sertão, fez-se um apostolado de comunhão com os pobres. A vida no sertão sergipano permitiu ao franciscano conhecer a história do lugar, promover a cultura através de eventos promovidos por associações de organização religiosa, passando assim os religiosos a terem efetiva participação da vida política daquele povo, com isso de forma natural os sacerdotes foram imiscuindo na vida político-partidário, sem, contudo, deixar aflorar a ansia e a soberba que assolam quase que a totalidade dos políticos profissionais.

Pertinente lembrar que Frei Enoque Salvador de Melo, e o geógrafo Raimundo Eliete Cavalcante chegaram a Sergipe envolvidos na mesma causa, tendo fixado morada em Poço Redondo por questões relativas ao impacto social provocado pela construção da Hidroelétrica de Xingó na vida das populações ribeirinhas do São Francisco, por volta da década de 1980, o primeiro traz em seu nome talvez a profecia Divina, chama-se “Salvador”.

Um emblemático momento da história do Frei Enoque é contado na obra “Caminhando com Jesus nos sertões nordestinos” de autoria do também fransciscano Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, que consiste no relato a respeito da luta dos índios kiriri-xocó da Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, pela sua posse na década de 1970. Consta que, a ilha pertencera aos índios antes de ser tomada pelo falecido coronel Porfírio Brito. Empenharam-se na questão jurídica, a favor dos remanescentes indígenas, além dos sindicalistas, a FETASE, a Diocese de Propriá, a Universidade Federal de Sergipe os franciscanos com destaque para o frade Enoque Salvador de Melo, que alternando humildade, coragem, destemor e exultação, travou severa luta em favor dos índios, resultando em sua arbitrária prisão, e esse mesmo guerreiro agora é praticamente escurraçado por alguns de uma terra que ajudou a trazer desenvolvimento e prosperidade.

Essas pequenas anotações servem para refrescar as memórias daqueles que pareçem sofrerem de amnesia momentânea, não tenho pretensões de querer tapar o sol com a peneria, afinal minha posição sempre se mostrou firme e ética, criticando quando entendo pertinente, porém, reconhecendo o valor que cada um possui. Por Justiça entende-se ser dar a cada um o que é seu, sem afetar o direito do outro.

Não quero adentrar se as questões que culminaram com o desfecho da decisão do Frei Enoque renunciar ao seu mandato são de ordem pessoal, religiosa ou jurídica. O que se mostra imutável é que Poço Redondo jamais apagará de sua história a felicidade de ter tido uma pessoa abnegada e compromissada com os pobres, proporcionando condições de vida de forma igualitária, sem fazer qualquer distinção. Talvez isso tenha gerado incômodo em alguns. Se por ordem do Papa ou por decisão do TSE, se por não possui condição de elegibilidade ou qualquer outra situação, o certo é que a voz ativa e ensurdecedora em prol dos poçoredondenses não pode se calar. Se com mandato ou sem mandato, se com limitações jurídicas ou religiosa, a voz do Frei Enoque sempre trará benefícios para nosso tão massacrado torrão.

Para refletir: “Bem-aventuradosos pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventuradosos que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventuradosos mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventuradosos que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; Bem-aventuradosos limpos de coração, porque eles verão a Deus; Bem-aventuradosos pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventuradosos que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventuradossois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.

Aos pobre de espirito, os que choram, os mansos, os que tem sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos, os que injuriam e perseguem, são todos bem-aventurados pela palavra de Deus. Assim também seja o Frei Enoque bem-aventurado em sua decisão, porque dela decorre sua felicidade. E se tu és salvador, seja também protegido e abençoado pelo Poderoso Eterno Salvador.


Cicero Dantas de Oliveira

Licenciado em matemática. Bacharelando em Direito. Inscrito na OAB/SE. Integrante do Escritório EVALDO CAMPOS E ADVOGADOS ASSOCIADOS. Assessor do Presidente do CRECI/SE.


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