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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jornadas Teológicas Andinas




Participei das Jornadas Teológicas Andinas em preparação dos 50 anos do Concilio Vaticano IIº e dos 40 anos do livro de Gutierrez sobre a teologia da libertação, eventos que serão celebrados no próximo ano na cidade de Porto Alegre. Foi a última etapa de uma série de encontro regionais que algumas instituições religiosas e universitárias organizaram para não deixar passar em branco eventos tantos importantes. Come di costume, quando participo de eventos culturais, não deixo de esboçar uma reflexão sublinhando e destacando idéias que podem servir como partilha.

1. O primeiro elemento que me chamou atenção das Jornadas Teológicas Andinas é o espaço dedicado as conjunturas. Foram conjunturas de todo tipo: cultural, sócio-política, religiosa. Num encontro teológico europeu ou americano nunca teria acontecido isso. Aqui vem o marco especifico da Teologia da Libertação, ou seja, uma maneira de pensar a Deus contextualizada, atenta à história, fiel ao projeto de Deus que se fez homem e veio a morar no meio de nós. No mundo Ocidental teologia é falar de Deus e pronto. São raciocínios puríssimos sobre Deus e a sua natureza, que são elaborados nos livros de teologia produzidos no Ocidente. Por isso acham estranha a maneira de fazer teologia da América Latina. A Teologia da Libertação tem como ponto de partida a realidade histórica, sobretudo, a realidade dos mais pobres que, no nosso querido continente são milhões. A teologia da Libertação acompanha o mistério revelado aos pequenos (cf. Mt 11,25s) e escondidos aos sábios do mundo. Durante as Jornadas foi salientado como muitos teólogos da libertação que escrevem livros, passam uma parte do próprio tempo morando em favelas, para partilhar com os pobres o peso da cruz dos oprimidos. Uma coisa, de fato, é falar e escrever de Deus dentro de um quartinho cheiroso; outra coisa é argumentar sobe Deus vivendo em favelas com o esgoto ao céu aberto e acompanhando a luta corriqueira dos mais pobres.

2. A segunda observação sobre estas jornadas é a tomada de consciência do contraste patente entre religião e vida. Foi impressionante escutar os dados da pobreza que está assolando os países andinos. A luta contra a corrupção política parece se agravar dias após dias, apesar dos esforços dos últimos anos. É o grito dos povos indígenas que parece cair no vazio perante a ganância das grande multinacionais que visam somente o lucro. Perante uma região com uma forte e expressiva presença da Igreja católica, chama atenção a lastimável situação social ladeada de problemas que assolam a população, deixando uma percentagem altíssima de pobres e miseráveis. E ai vem de imediato uma pergunta lancinante: que religião é essa? Que ritos celebramos se não modificam por dentro as estruturas injustas de poderes corruptos? Que fé vivemos se não produz uma vida digna, pelo menos conforme aquilo que nos ritos celebramos? Séculos de religião, de ritos e a desigualdade social em vez de diminuir parece crescer. Milhões de fieis em toda a região Andina e os pobres e miseráveis ainda estão ai, sofrendo, se lascando para conseguir um pedaço de pão para comer. Deve ter alguma coisa que não funciona.

3. Terceiro ponto que quero destacar das Jornadas Teológicas Andinas é a importância dada ao encontro pessoal com Jesus. Para quem é acostumado a ler livros de teologia da libertação se trata de uma novidade. Sem duvida é o fruto da reflexão que saiu de Aparecida e que está encontrando respaldo nas reflexões não apenas dos teólogos, mas também de tantos operadores pastorais. Talvez o motivo desta importância que está sendo atribuída ao encontro pessoal com Jesus é ligada aquilo que escrevi pouco acima. Se, de fato, a nossa vida de fé não é fruto do encontro pessoal com Jesus, a nossa ação se reduz a um puro ativismo e o nosso encontro com os pobres, ao longo da vida, pode se tornar interessado. Para o pobre ser caminho do encontro com Cristo, precisa ser disponíveis ao encontro com o mistério, ser abertos as novidades que o Transcendente leva consigo. Mais ainda: para que uma reflexão teológica sobre a pobreza evangélica, não vire sociologia de baixo nível, é necessário sempre manter a alma aberta ao mistério.

4. Uma última consideração. Em várias palestras nestes três dias de Jornadas Teológicas, foi destacada a importância das comunidades de base – CEBs – como novo jeito de ser Igreja e a tarefa delas desenvolvida no processo de libertação dos pobres. A chance de uma transformação da Igreja hoje e como precisa dessa transformação!- reside exatamente nas comunidades de base, na consciência que os pobres assumem sobre o próprio destino. Trabalhando há mais de doze anos nas CEBs sinto-me angustiado quando escuto este tipo de conversa. Os pobres que encontro e que encontrei não tem este tipo de consciência e nem a procuram. Os pobres reais que encontrei nas comunidades são diferentes dos pobres idealizados que são apresentados nos encontros eclesiais, nos debates teológicos. Sobretudo é diferente a maneira de abordar Deus e, com isso, os problemas da vida. É muito mais espontâneo, alegre, fora de raciocínios vazios a maneira dos pobres reais de se encontrar com Deus, comparado com as argumentações recheada de consciência social que emergem nos encontros eclesiais. Talvez esta diferença é devida ao fato que os pobres reais, aqueles que passam a vida se lascando para conseguir um pedaço de pão, entram em contato com Deus com aquele confiança que brota de uma vida desamparada, muito diferente das idéias teológicas que surgem na mente de quem está abastado, passando o tempo todo entro o escritório e uma sala de aula. A o meu ver, se a teologia da libertação quer ter um futuro deve escutar com mais atenção o grito dos pobres, mergulhar na vida deles, para sair de um falatório amiúde vazio, ideológico e pouco real. Talvez seguindo este caminho menos visível, mas mais evangélico, as elucubrações ficam bem mais reais e, por isso, mais aderentes à vida do povo.

Pe Paolo Cugini

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