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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Romaria do Caldeirão - Crato-CE: Catolicismo revive era da fartura e fraternidade

Romaria ao Sítio do Caldeirão lembra o feito histórico de abundância e espiritualidade cristã no semiárido brasileiro

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Cerca de duas mil pessoas participaram do evento religioso, que relembra a comunidade cristã liderada pelo beato José Lourenço, renovando a esperança do sertanejo

Crato. Os moradores das proximidades do Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto começam a chegar cedinho. A pé, de bicicleta, veículos. Aos poucos todos vêm para celebrar a 12ª Romaria das Comunidades de Base, pelas vítimas de um massacre. São homens e mulheres simples, agricultores, e que conhecem um pouco de uma das histórias mais exitosas do Brasil de convivência com o semiárido. Também uma das mais tristes, de massacre, em números não-oficiais, de cerca de mil pessoas. Idosos, homens, mulheres e crianças, que perderam a vida numa batalha sangrenta e sem ter sequer como se defender dos ataques aéreos das milícias. O massacre completou 76 anos no último dia 10 de setembro.

O dia iniciou nublado, com uma fina neblina que não inibiu os moradores. Isso realçou o verde, lembrando o tempo quando um verdadeiro oásis se formou em meio ao sertão, com fartura na agricultura, na pequena vila construída pelos lavradores. Naquela época, havia o sonho da redenção de centenas de sertanejos, que chegavam famintos ao local. Em tempos de seca, nos anos 30, um movimento liderado por beato trazia esperança para aquela pequena comunidade que crescia e se fortalecia. Quem chegava recebia o compromisso com o trabalho, rezar e ter boa estadia.

A celebração foi presidida pelo bispo diocesano do Crato, dom Fernando Panico. A inspiração dos lavradores aconselhados pelo Padre Cícero e liderados pelo beato José Lourenço serviram de inspiração para o grito da terra deste ano. Um exemplo de convivência com a natureza, segundo o padre Vileci Vidal, que há 12 anos, da Comissão Pastoral da Terra e coordenador da romaria.

Vários integrantes das comunidades eclesiais de base participaram da caminhada. E os vaqueiros do sertão se vestem com seus gibões de couro e adentram na mata. A chegada ao sítio é um mistério no meio da natureza. No local, mora apenas uma família há vários anos, que são guardiões do espaço. Após a celebração, as pedras com suas fendas enormes e cheias de água cristalina, em meio a uma paisagem verde são visitadas pelos romeiros.

Sepulturas

A ideia, segundo padre Vileci, é que os romeiros que vêm à festa de Nossa Senhora das Dores, possam participar deste momento religioso. Além disso, também conhecer a história do Caldeirão, que tem uma forte ligação com o Padre Cícero, já que foi um discípulo seu, expulso do Sítio Baixa Dantas, que conseguiu liderar um movimento no Nordeste. E até hoje é polêmico. É que não foi encontrado nenhum corpo, nenhuma pista da vala comum onde os mortos do Caldeirão foram sepultados. As edificações do sítio continuam preservadas, pelo menos a principal, a Igreja de Santo Inácio de Loyola, está erguida e com as mesmas características originais do movimento.

O local passará a ter uma nova visibilidade, com o projeto de Revitalização do Parque Histórico do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. O memorial do Caldeirão deverá estar erguido até o próximo ano, segundo a secretária de Cultura, Esporte e Juventude do Crato, Daniele Esmeraldo. Mas ele afirma que uma das principais finalidades é preservar a originalidade do espaço místico. (E.S)

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