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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Guerreiro de batina

Arns abrindo caminho para o corpo do operário Santo Dias da Silva, morto pela polícia em 1979, e que a ditadura queria esconder (foto: Eduardo Simões)

Dedicação do cardeal dos trabalhadores transcendeu a Igreja, salvou vidas e mexeu com a história do país. Dom Paulo simboliza o valor da resistência e da esperança

De esperança em esperança, Paulo Evaristo Arns completa 90 anos com a mesma certeza que tinha aos 20: a solidariedade e a busca da justiça e da paz como razão de viver. Os arredores da morada de dom Paulo emanam serenidade. A mesma com que enfrentou tiranos de plantão no poder e lutou pelas causas dos desfavorecidos. Desde 2007, o franciscano vive numa pequena congregação na região metropolitana de São Paulo. Irmã Devanir de Jesus, amiga de convivência diária, conta que o cardeal optou por descansar com a sensação de dever cumprido. “É uma pessoa iluminada. De fácil cuidado e muito gentil. Eu cresço a cada momento que convivo com ele.”

Não há São Pedro que abra as portas da congregação a um repórter. O aposentado cardeal não concede mais entrevistas, não vai a debates nem eventos – o que inclui celebrações de seus 90 anos, completados em 14 de setembro. A imagem de São Francisco de Assis à entrada dá as boas-vindas e parece explicar que a opção de seu mais famoso e fiel devoto é merecida e necessária. “Dom Paulo, como frei franciscano, teve espírito de despojamento, de simplicidade de vida e de uma inteligência privilegiada”, conta o amigo dom Pedro Stringhini, bispo de Franca.

A infância em Forquilhinha (SC) forjou o homem que mais tarde se transformaria em pedra no sapato da ditadura. A fé da mãe, Helena, e o espírito conciliador do pai, Gabriel, são vistos pelo cardeal como pilares de sua formação. Quando estava para ingressar no seminário, o menino recebeu do pai o pedido: “Papai é colono, e você, mesmo depois de estudar muito, sempre será filho de colono e de seu povo”. Dom Paulo levou isso na cabeça nos 12 anos de estudos, após a ordenação, em 1945, e na pós-graduação na Universidade de Sorbonne, na França. Na Europa pós-guerra, a desigualdade social se alastrava. Dom Paulo deparou com a realidade dos que lutaram e com as cicatrizes da intolerância nazista. As marcas do conflito arraigaram ainda mais em Paulo Evaristo a conduta humanista que o guiaria pela vida.

No retorno ao Brasil, antes da chegada a São Paulo, trabalhou em comunidades carentes de Petrópolis (RJ) durante dez anos. Em julho de 1966, se apresentava à metrópole acinzentada, que crescia e empurrava para as bordas a massa de migrantes. A Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, reinseria a realidade das mazelas do mundo na vida clerical. Emergia a Teologia da Libertação, que preconiza uma opção preferencial pelos pobres e a consciência das massas – ensinar a pescar – como meio de reagir à opressão. Ao mesmo tempo, a força das armas produzia as ditaduras no Cone Sul.

Quando assumiu a Arquidiocese de São Paulo, em 1970, o franciscano de cara deu recados. Vendeu o Palácio Pio XII, residência oficial do arcebispo, para financiar terrenos e construir casas na periferia. Fortaleceu as Comunidades Eclesiais de Base, que até hoje disseminam pelos bairros as discussões sobre política, cidadania e, claro, religião. E incentivou as pastorais. “O papa Paulo VI disse a dom Paulo que tivesse uma bela equipe de bispos auxiliares que deveriam estar perto do povo”, conta um desses bispos, dom Angélico Sândalo Bernardino, chamado em 1974. Eram quatro bispos auxiliares, um para cada região da cidade. Dom Angélico recebeu a incumbência de cuidar da Pastoral Operária, criada quatro anos antes. E se tornaria mais tarde o “bispo dos operários”.

A amizade com Paulo VI renderia ao Brasil algo mais que recomendações episcopais: toda vez que algum religioso estivesse em risco, dom Paulo ia ao Vaticano. “Todo mundo municiava dom Paulo com informações sobre o que estava acontecendo porque sabia que ele era ouvido aqui e fora”, diz o amigo Paulo Cesar Pedrini, da Pastoral Operária.

No fim da década de 1970, bispos ligados à conservadora corrente Tradição, Família e Propriedade (TFP) pediram ao governo que expulsasse do Brasil dom Pedro Casaldáliga, bispo espanhol da Prelazia de São Félix do Araguaia, “acusado” de ser comunista. O cardeal viajou a Roma, e Paulo VI mandou o recado: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”, versão da história confirmada pelo próprio Casaldáliga.

Abra-se o caminho

Waldemar Rossi lembra quando foi chamado por dom Paulo. Meses após a criação da Pastoral Operária, o franciscano queria saber do metalúrgico: os integrantes eram a favor da luta armada? “Nós temos o direito de nos organizar para defender nossos direitos?”, perguntou-lhe Rossi. “É um dever”, ouviu. “Estamos fazendo. Na hora em que a gente estava ganhando força, vem a ditadura e mata...”, prosseguiu. E o cardeal encerra a conversa: “Aí, vocês têm o direito da legítima defesa”. Rossi passaria a ser um amigo fiel do arcebispo.

Três anos mais tarde, foi preso. Sua mulher procurou dom Paulo, o crime foi denunciado nas paróquias de São Paulo e no exterior. “Os militares queriam parecer bonzinhos, então ficavam furiosos quando alguma coisa transpirava para o exterior”, lembra Margarida Genevois. “Essa arma a gente utilizou bastante.” Rossi, um dos fundadores da Pastoral Operária, ficou na sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo. Dom Paulo promovia caminhadas ao redor do Dops, até que, no 25º dia da prisão, entrou no prédio, não tomou conhecimento dos protestos em contrário e foi à sala do delegado. “Vocês torturaram esse homem. Ele não consegue andar direito”, acusou, logo que foi autorizado a ver o prisioneiro, que tinha também o “defeito” de liderar a oposição ao comando do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, há anos submisso a militares e patrões.

Não era a primeira vez que ele batia de frente com o inimigo. Não seria a última. “Dom Paulo foi abrindo caminho”, conta dom Angélico, ao lembrar da chegada ao Instituto Médico Legal (IML) em 30 de outubro de 1979. Lá estava o corpo do operário Santo Dias da Silva – cujo desaparecimento só não aconteceu porque sua mulher, Ana Dias, entrou à força no carro dos policiais que o transportaram. Depois de discutir com a PM para que libertasse os militantes presos por organizar uma greve não apoiada pelo sindicato, o metalúrgico foi baleado nas costas diante de uma fábrica na zona sul paulistana. “Dom Paulo saiu de casa com todos os trajes episcopais e chegou dizendo: ‘Abram a porta. É o arcebispo de São Paulo’. Foi aonde estava o corpo e pôs o dedo na bala, indicando o ferimento feito por um policial”, relembra o padre Júlio Lancelotti.

Da Rua da Consolação até a Catedral da Sé, milhares de pessoas se reuniram em protesto. “Foi um grito de dor, de denúncia”, lembra Ana, que anos mais tarde soube que o cardeal encomendara um caixão mais resistente para que os companheiros pudessem cumprir o desejo de transportar o corpo de Santo pelas ruas de São Paulo. Como sua família não aceitava sua opção pela militância, Ana contou muito com o auxílio do amigo. “Dom Paulo foi meu pai. Pai de verdade, e não um pai ausente.”

O bico do condor

A Cúria Metropolitana, localizada em um bairro de classe alta de São Paulo, já era uma referência no enfrentamento à repressão. O arcebispo articulara a criação da Comissão Justiça e Paz, que denunciava as prisões ilegais e as torturas, dava suporte aos familiares e pressionava os militares. “Comecei atendendo um dia por semana. Depois, dois, três. No fim, atendia todos os dias, de manhã e de tarde”, conta Margarida Genevois, que integrou a comissão durante 25 anos e chegou a presidi-la. A fama do arcabouço protetor criado na arquidiocese cresceu e já atraía perseguidos da Argentina, do Chile, Paraguai e Uruguai. Os militares reclamavam da intromissão da Igreja brasileira, e dom Paulo rebatia: “A solidariedade não tem fronteiras”.

Santiago, Chile, 1979. O Clamor, grupo de defesa dos direitos humanos criado em São Paulo com olhos na América Latina, atingia um de seus pontos altos. Sob a proteção do cardeal, a jornalista inglesa Jan Rocha, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh­ e o pastor presbiteriano Jaime Wright arquitetaram a primeira missão de resgate de crianças sequestradas pela ditadura argentina (1976-1983). Anatole e Vicky, cujos pais, uruguaios, foram mortos em Buenos Aires, viviam na capital chilena quando foram localizados pelo grupo. Até hoje, as Avós da Praça de Maio recuperaram o destino de mais de cem netos raptados, história que teve início sob influência e guarida de dom Paulo e do Conselho Mundial de Igrejas.

A aproximação entre o cardeal e o CMI, que reúne igrejas protestantes, foi realizada por Wright. O pastor despertou para a luta contra a ditadura após a morte do irmão, Paulo, em 1973, e logo se transformou em grande amigo de Arns. “Sempre brincavam que um parecia um presbiteriano disfarçado de católico e o outro parecia um católico disfarçado de presbiteriano”, lembra Anita Wright, acostumada a ver o pai viajar intensamente e hospedar em casa refugiados que batiam à porta do Clamor. O CMI passou a custear as operações de salvação de pessoas e, mais tarde, seria fundamental para o projeto Brasil Nunca Mais.

A ditadura caminhava para o final, e o sinal de alerta acendeu. “Consegui que o Conselho Mundial de Igrejas financiasse o projeto, desde que eu obtivesse o aval de dom Paulo”, conta a advogada Eni Moreira, idealizadora do Brasil Nunca Mais, para que episódios de destruição de arquivos, como vistos em outros períodos autoritários, não se repetissem. Entre 1979 e 1985, um grupo restrito de advogados valeu-se do direito de retirar processos arquivados no Superior Tribunal Militar, em Brasília, e montou um quadro sistemático da repressão promovida nos 15 anos anteriores. “O ‘guarda-chuva’ de dom Paulo nos dava certa tranquilidade”, admite Eni. Seis anos depois, vinha à tona o livro Brasil Nunca Mais, com relatos dos métodos­ de tortura, as acusações ilegais e os crimes promovidos pelo regime – informação que, saída de seus arquivos, nunca pôde ser contestada pelos repressores.

Dom Paulo jamais acreditou na versão de que o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, houvesse cometido suicídio na cela em que estava detido, no DOI-Codi, outro aparelho da ditadura. A missa de sétimo dia da morte de Vlado, em 1975, ato ecumênico que atraiu milhares de pessoas até a Catedral da Sé, transformou-se em um momento simbólico, possivelmente o início do fim dos anos de chumbo. “Lembro do meu pai relatando a agonia de tentar chegar na catedral, porque havia bloqueios policiais nas vias de acesso”, conta Anita sobre a saga de Wright, representante presbiteriano na celebração.

Debaixo do viaduto

Padre Júlio, da Pastoral do Povo da Rua, relembra um episódio em que um grupo de moradores de rua estava na iminência de passar mais uma noite fria do inverno paulistano debaixo de um viaduto. A Prefeitura de São Paulo, então administrada por Paulo Maluf, havia fechado um abrigo e, naquela noite, dom Paulo disse que dormiria no local enquanto não fosse reaberto. “Eu o convidei e ele foi até o Viaduto do Glicério, no centro de São Paulo, onde os moradores de rua estavam. E aí foi um esparramo. Imagine só, o arcebispo embaixo de um viaduto.”

Depois de 28 anos à frente da Arquidiocese de São Paulo, dom Paulo renunciou por questão de idade em 1998, aos 77. Recebeu da Igreja o título de arcebispo emérito e, dos operários, o de cardeal dos trabalhadores. Após alguns anos vivendo no Jaçanã, zona norte, retirou-se para a congregação em Taboão da Serra. Hoje, ao acordar, lê jornais e em seguida faz uma celebração diária aos moradores da comunidade religiosa onde vive. Com apoio de uma bengala, faz uma leve caminhada pelo jardim e segue para o almoço. Nos últimos anos, optou por não assistir à televisão, mas dizem as boas línguas que a carne é fraca para uma única paixão: dar uma espiadela de nada na TV quando joga o Corinthians. Obviamente, não assume e atribui o “vacilo” às freiras – corintianas por obra e graça do próprio.

No começo deste ano, quando esteve internado, dom Paulo convocou ao hospital dom Angélico: queria que o amigo rezasse a missa. Ao final da celebração, na cama da Unidade de Terapia Intensiva, aproveitou a hora do abraço para sussurrar: “Confiança. Vamos avante. De esperança em esperança. Na esperança sempre”. Para o cardeal dos trabalhadores, pode-se desanimar, sofrer, esmorecer, mas desistir jamais. “A esperança não é o ópio do povo, mas o motor que modifica o mundo.”

Discurso cortado
Na noite de 3 de julho de 1980, Waldemar Rossi havia sido encarre
gado por dom Paulo de ler ao papa João Paulo II uma carta com denúncias de trabalhadores sobre violações a seus direitos. O Exército, responsável pelas credenciais, levantou a ficha do fundador da Pastoral Operária e decretou que “contumaz comunista” não participaria da celebração. Dom Paulo o pôs para dentro e, como chovia e o papa estava atrasado, pediu a Rossi que encurtasse o discurso – lesse apenas o primeiro e o último parágrafo. Ainda assim, foi adiante a denúncia da morte de Santo Dias e de Raimundo Ferreira Lima, o Gringo – trabalhador rural também assassinado pela repressão, dois meses antes, no sul do Pará. Quando 130 mil pessoas bradavam “liberdade!”, o papa precisou da ajuda do cardeal para entender o que se passava. “Foi o momento mais forte do encontro”, lembra Rossi.

João Peres e Virginia Toledo

Fonte: Revista do Brasil

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