sexta-feira, 8 de julho de 2011

13ª Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo





“Um grito de dor, Um clamor por justiça”
37 anos de impunidade

Água, terra, ar. Terra, Gaia, Casa Comum, Nossa Morada. Água de beber, lavar, purificar, batizar, santificar.
Terra que faz brotar o alimento, a beleza, a sombra. Verde que apazigua e refresca a alma. Terra que faz germinar o nosso sustento, nosso futuro.

Com qual direito, tudo isso, tão santo e necessário, poderia nos ser furtado? E com que tamanha falta de exercício do dever, instituições negligenciam, há tantos anos, a devida atenção para um caso que se tornou o maior passivo ambiental do país? Um trecho da Carta da Terra nos diz: “os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas”.
Onde houver erro, que eu leve a verdade
De 1974 a 1987, 59 empresas multinacionais aproveitaram a inexistência de um marco regulatório ambiental sobre a destinação de resíduos industriais no Brasil, para em terras do interior paulista – Santo Antônio de Posse, depositar ilegalmente todo e qualquer tipo de lixo industrial, sem nenhum monitoramento ou controle. Foram depositados, declaradamente, 326 mil toneladas de resíduos tóxicos.
Uma série de atos negligentes e omissos de entidades e órgãos responsáveis pela fiscalização do local arrastou o caso de maneira morosa e descomprometida, desde o início até o término de suas atividades.
Moradores do entorno, expostos à contaminação invisível, não tinham nenhum tipo de acesso a laudos e análises.

Vinte e sete anos após o início das atividades no Aterro Mantovani, ou seja, em 2001, partes das empresas (48) assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta, comprometendo-se a remediar a área. Os moradores já não podiam consumir a água de seus poços artesianos e nem plantar em suas terras. Um impacto na geração de renda das famílias, no valor de suas propriedades, na saúde, e principalmente, um grande impacto emocional. Pensar que durante anos e anos, sem saber, beberam da água, respiraram do ar e comeram da colheita plantada em terras contaminadas. Pensar que no tempo atual, a geração de filhos e netos também vive sob a mesma situação. Impossível classificar tamanha angústia.

Evidências
Análises detectaram em 2000 e em 2002, a contaminação do poço de abastecimento em dois sítios com 1,2 Dicloroetano, substância altamente cancerígena. A quantidade máxima estabelecida e aceita pelo Ministério da Saúde é de 10μ/L. No Sítio Santo Antônio, foi encontrado de 144 a 166 μ/L.
Há casos de câncer, infertilidade e morte por causa da contaminação das águas na região.
Depois da assinatura do TAC, pouco se avançou. Sem poder consumir a água de suas casas, os
moradores recebem um caminhão de água por dia para abastecimento e nada mais. Nas palavras da promotoria da comarca de Jaguariúna, onde corre o processo, “nada garante que o compromisso firmado pelas empresas seja cumprido”.

Deus guia o povo pelo caminho
“E o senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para guiá-los pelo caminho, e de
noite numa coluna de fogo, para os alumiar. Nunca tirou de diante da face do povo a coluna
de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite. (Ex 13-21,22)”.
Chamamos os irmãos e irmãs da terra e das águas, para junto conosco, caminhar e clamar por justiça social e ambiental. Uma caminhada para selar um compromisso comum em dar passos firmes rumo à sustentabilidade.

À luz da Carta da Terra, partilhamos de um supremo desafio para o futuro. “A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano é primariamente ser mais, não, ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O aparecimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios, ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes”.

“Essas empresas destruíram um sonho que a gente
tinha. Um sonho de viver em paz, criar os nossos filhos
com saúde e alegria, mas nós não temos mais alegria
nem paz”. - Sebastião Setim - Morador do Sitio Dois Irmãos - Vizinho do Aterro Mantovani

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