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domingo, 26 de junho de 2011

Um tijolo na casa coletiva deste sonho

A fome endêmica atingindo milhões de brasileiras e brasileiros acabou no Brasil, graças ao Fome Zero, às políticas do governo Lula, à participação da sociedade civil, com ações coordenadas pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), e ao engajamento voluntário e consciente de milhões de brasileiras e brasileiros, organizados ou não.

O Brasil, agora, coloca-se outro desafio até 2014: acabar com a extrema pobreza e a miséria, que ainda estão presentes, segundo o Plano Brasil sem Miséria lançado pela presidenta Dilma, na vida de 16,2 milhões de pessoas, meia Argentina.

Há hoje ainda outro problema, quase tão sério quanto a fome: a obesidade, que ameaça tornar-se crônica e atinge amplos setores da população, de A a Z, ricos, pobres e remediados, ainda que com causas, resultados e conseqüências diferentes para cada um. As pessoas comem mal e/ou demais.

Neste contexto e realidade, os Conseas nacional, estaduais e municipais e governos, em todos os níveis, estão preparando a 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, a realizar-se em Salvador de 7 a 10 de novembro de 2011, com o lema "Alimentação Adequada e Saudável: Direito de Todos”.

O mundo está em crise geral. Crise econômica, ambiental, crise de valores. O desemprego bate à porta dos países ricos, ditos desenvolvidos. Os trabalhadores dos países centrais vêem crescer a fome, até a miséria. A fome, que atingia 850 milhões de pessoas no mundo, aumentou, atingindo hoje quase 1 bilhão. Tsunamis, terremotos, enxurradas, tempestades e chuvaradas atingem todos e tudo, com conseqüências desastrosas, perdas materiais, mortes, choro e ranger de dentes. O consumismo do "ter” invade famílias, comunidades e corações, sem olhar se leva à solidariedade, à justiça e à dignidade.

Monopólios e oligopólios destroem sementes crioulas e culturas milenares, espalham agrotóxicos, poluem rios e riachos, criam alimentos sem sal, sem sabor, artificiais, e impõem preços e hábitos alimentares.

Ao mesmo tempo, a resistência se fortalece: os jovens de Barcelona, as mulheres dos países árabes, o povo latino-americano. Os agricultores agro-ecológicos voltam às raízes. Consumidores conscientes rejeitam o plástico, os anabolizantes, as injeções químicas e transgênicas. Querem um mundo para viver e respirar. Querem paz. Querem alimentos saudáveis. Querem direitos. Querem liberdade.

Realizar uma Conferência para discutir alimentação saudável e adequada como direito de todos vai à raiz dos problemas e das soluções e ao cerne das mudanças urgentes e necessárias. A voz militante de quem quer um outro mundo possível está engajada no esforço coletivo. Não há mais o que e como esperar. Não só a fome tem pressa, como dizia Betinho. Também os direitos, também a fraternidade, também o meio ambiente, as árvores e a floresta. Não ao consumismo. Não ao lucro desenfreado. Não às guerras. Não à concentração de terra, renda, riqueza e poder. Sim à vida, sim à simplicidade, sim ao bem-viver indígena.

O Brasil e seu povo estão fazendo a sua parte. Mas há muito por andar. O caminho é longo e precisa de engajamento geral. Uma andorinha apenas não faz verão. A 4ª Conferência espera a presença, o apoio entusiasmado e sorridente daqueles que continuam sonhando, daqueles que acreditam no futuro, dos homens e mulheres de boa vontade cheios de esperança e fé em si mesmos, nos outros e nas outras.

Nem gordos, nem magros. Saudáveis. Nem famintos, nem pobres, nem miseráveis, nem ricos ou super-ricos. Iguais. Sujeitos de direitos, protagonistas de um mundo justo com alimento adequado e saudável para todos e todas: homens, mulheres, jovens, idosos, crianças, adolescentes, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares e camponeses, militantes da economia solidária, acampados e assentados, vileiros e moradores de favelas, população em situação de rua, catadores de material reciclável, trabalhadores e trabalhadoras, funcionários públicos e professores.

Somos todos e todas parceiros e parceiras. Companheiros e companheiras, no sentido original da palavra, que vem de ‘cum pane’, no latim. Ou seja, ‘com pão’: o pão repartido, o pão comunitário, o pão partilhado, o pão nas bocas e mesas sem distinção de cor, de raça, de gênero, de origem, de posses. O pão da vida, o pão da esperança, o pão do futuro.

O chamamento é este, a hora é essa. A 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional é uma pedra, um tijolo na casa coletiva deste sonho. Basta você estender a mão e colocá-los no lugar devido, no lugar que merecem.

Em vinte e quatro de junho de dois mil e onze.


Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

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