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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Ser cristão não é conjugar o verbo "calangar"

Descobri recentemente um outro verbo para o nosso dicionário (desculpem-me os doutos e letrados na nobre língua portuguesa!) muito apropriado para a condição subserviente de muitos leigos e leigas de nossa Igreja diante dos desafios da evangelização.

Trata-se do verbo "CALANGAR". O significado é óbvio e ilário!

O movimento contínuo do pobre réptil acenando pra cima e pra baixo lembra com exatidão o conformismo e a apatia dessa turba de batizados, que tradicionalmente e infalivelmente cumpre suas obrigações semanais para com a santa madre Igreja - "assiste" a missa dominical, comunga e ouve o "sermão" do padre - mas não consegue transcender as paredes do templo e ascender a uma compreensão mais genuína da fé.

A religião não pode ser aquilo que o filósofo Karl Marx constatava em seus escritos: "Ópio do povo".

Ela não pode nos anestesiar, nos distanciar do foco, da essência, das questões primordiais. Em suma, ela não pode nos alienar, ser empecilho para que sejamos sujeitos de nossa história e protagonistas do projeto revolucionário de Jesus Cristo.

O processo de alienação ocorre todas as vezes que nos omitimos e nos acovardamos dentro e fora da Igreja diante das situações que geram exclusão e injustiça, quando não temos coragem de tocar nas grandes mazelas da sociedade em nossos discursos e pregações, quando transformamos a nossa fé num mero lampejo de emoção, um momento de pura euforia ou uma sensação de satisfação puramente pessoal.

Enfim, alienamo-nos quando olhamos de braços cruzados o bonde da história passar e preferimos continuar em nossa cômoda posição de "calangos".

O que é ser cristão mesmo? Olhe com atenção para a vida desse profeta e tente responder a essa simples indagação: Você se considera discípulo e missionário de Cristo? Quais são as grandes opções de Jesus? A opção pelos pobres, pelo serviço, contra todo o poder que oprime; a opção pela misericórdia contra todo legalismo; a opção pela vida, contra todas as estruturas que geram morte. Jesus fez opção, enfim, pela pessoa humana e disse "não" as estruturas desumanizadoras de seu tempo.

E nós hoje? Nossas Igrejas são veículos de inclusão ou de exclusão social? Os pobres a frequentam, participam de seus ritos e sacramentos ou permanecem timidamente distantes em seus guetos e periferias?


Não existe cristianismo sem a opção preferencial pelos excluídos e marginalizados. Os cristãos "calangos" vão vivendo os seus dias rotineiros de olhos postos para as coisas do alto, perdidos em seus louvores enfadonhos e intermináveis, de corações piedosos e legalistas, prontos para separar o joio e o trigo com rapidez e destreza, em nome da fé ou do que eles pensam ser "fé". Não se misturam com os infortunados pecadores, experimentam o êxtase do paraíso já nesta vida e zombam dos que pensam diferente, dos que se aventuram a olhar Jesus Cristo de outra maneira, não apenas como o doce e meigo Jesus, mas como o profeta dos marginalizados e desprezados que não se calou diante da tirania dos que detinham o poder para escravizar e oprimir os mais fracos.

Constantemente romantizamos a nossa fé e infantilizamos a nossa relação com Deus. Não existe a verdadeira experiência de Deus sem o compromisso com a vida e com as realidades que nos cercam. É preciso repensar urgentemente nossos conceitos e convicções. Só participa do grupo de Jesus quem tem coragem de não conjugar o verbo "calangar".

César Augusto Rocha - Coordenador do Conselho Diocesano de Leigos/as de Tianguá

Fonte: Se Avexe não!

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