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domingo, 19 de junho de 2011

(Homo)Sexualidade e a esquerda

A Teologia da Libertação, como sabemos, produziu um poderoso discurso religioso de crítica às injustiças sociais e apresentou uma imagem de Deus compassivo e solidário com os sofrimentos dos pobres do mundo inteiro. O seu impacto foi tão grande que ultrapassou o continente latino-americano e atingiu o cristianismo nos outros continentes; e foi mais além do próprio o mundo cristão e entrou também no mundo judaico, budista e islâmico. (Há hoje uma produção importante da teologia islâmica de libertação que é pouco conhecida por aqui.)

O que une setores dessas diversas religiões não é uma compreensão convergente de Deus (no budismo majoritário, não há noção de Deus), nem uma vontade de estabelecer um diálogo religioso pelo diálogo, mas a convicção ética de que a (sua) religião deve assumir responsabilidades frente à tão gritante injustiça social que marca o nosso mundo. É a capacidade de ver além das riquezas, dos luxos e luzes que brilham nos grandes centros e encontrar rostos de pessoas pobres que sofrem.

Criar uma ampla aliança "religiosa” em torno da "opção pelos pobres” não é uma tarefa tão fácil porque há muitos setores em todas as religiões que crêem que a religião não deve se misturar com problemas e conflitos sociais, ou que a realidade social existente é expressão da vontade de deus todo-poderoso que controlaria o mundo ou da "lei do carma” ou de algum tipo de destino controlado pelas leis ou vontades divinas. Contudo, a luta contra injustiça e opressão está unindo muitos.

Ao lado dessa luta, há também outras lutas importantes que foram sendo objetos de atenção por parte dos teólogos e dos setores das igrejas e religiões nas últimas décadas: a luta das mulheres contra a opressão patriarcal e machista, a luta dos negros e dos indígenas e também de outras minorias étnicas dentro de sociedades preconceituosas. Essas são lutas que diferem da luta em torno da opção pelos pobres porque têm a ver com dinâmicas sociais e psicológicas que vão além das questões econômicas e de classes. Mas, na medida em que essas diversas formas de opressão se dão dentro de um sistema social globalizado, a articulação das teologias feminista, negra e indígena e a opção pelos pobres tem sido uma tarefa assumida por muitos/as teólogos/as por muitas partes do mundo. E isto não tem sido fácil, especialmente no campo prático. Por exemplo, muitos e muitas que lutam pela superação da pobreza ainda carregam dentro de si, em lugares profundos da sua psique, visões machistas do mundo e de Deus.

Mas, o que eu realmente queria propor aqui para reflexão é a necessidade de aprofundarmos reflexões sobre um tema ainda pouco trabalhado neste vasto grupo das teologias críticas ou teologias da libertação em um sentido mais amplo: o da sexualidade. É claro que diversos teólogos/as já trataram do tema da "moral sexual” em uma perspectiva libertadora, e a teoria do gênero trabalha com a construção social da identidade e diferenças de gênero. Contudo, a emergência no campo da mídia massiva das lutas dos homossexuais e da forte reação por parte significativa da sociedade, especialmente de setores religiosos, transforma esse tema em tema urgente.

O que vemos no debate mais massivo são posições muito semelhantes, com sinais trocados. De um lado, uma condenação em si de todos os tipos de e relacionamentos homossexuais, de outro, uma aprovação a priori. Essas duas posições não costumam distinguir a orientação sexual –hetero ou homo– da questão moral que surge nos relacionamentos afetivos e sexuais entre pessoas concretas. A grande parte da discussão está se dando em torno da homo ou heterossexualidade em si.

O problema vai além da introdução da discussão da ética sexual nas lutas de gênero, etnia e da justiça social. É preciso levar em conta a complexidade das relações que se entrecruzam nas lutas sociais concretas. Tomemos como um exemplo a disputa em torno do PL 122, projeto de lei que criminaliza homofobia. O senador Walter Pinheiro (PT-BA), que é reconhecido como alguém que luta pela superação do capitalismo e é um quadro importante da DS, uma tendência do PT conhecido por ser mais de esquerda dentro do partido, assumiu, em nome da sua fé, uma posição que é, para muitos da esquerda, inaceitável. Ele participou de uma manifestação contrária a PL 122 promovida por setores evangélicos. Como era de se esperar, isso gerou polêmica e é possível encontrar na internet "cartas abertas” bastante agressivas.

Esse exemplo mostra como a divisão entre a direita e a esquerda no campo político não funciona bem quando lidamos com temas como o da sexualidade. Isso nos mostra que precisamos debater e estudar com seriedade esse tema e as relações que novas visões vão implicar na luta por um mundo mais justo e humano.


Jung Mo Sung

Fonte: Adital

Noticia por email: Fernando Camargo


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