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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Esperar contra toda a esperança



Esperar contra toda a esperança é uma expressão bíblica que significa ficar firme na esperança, mesmo quando todos os sinais aparecem em sentido contrário e a pessoa não teria mais nenhuma razão para nutrir qualquer esperança. É verdade que, nos anos duros de repressão, Geraldo Vandré cantava: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Há quem opõe esperar e agir. Entretanto, nas tradições espirituais antigas e também na Bíblia, esperar não é uma atitude passiva de quem cruza os braços e simplesmente aguarda o que vai acontecer.

Ao contrário, a esperança é a motivação profunda para "nadar contra a corrente” e investir com toda a coragem mesmo naquilo que aparentemente não oferece muitas perspectivas de sucesso.

Em algumas culturas a linguagem da espera surgiu para expressar a expectativa de um parto. A mulher grávida espera uma vida nova que ela já sente dentro de si, já se mexe e apenas prepara o momento de sair para a vida autônoma.

Assim como para cada pessoa, também para uma sociedade, a esperança se concretiza em um projeto de vida. A Bíblia é uma coleção de livros e contém uma multidão de histórias e de mensagens, mas por tudo isso passa um fio que percorre desde a primeira até a última página.

Descobre o sentido mais profundo da Bíblia quem a lê percebendo em suas páginas o desenvolvimento de um projeto divino que vai se revelando desde os tempos antigos dos primeiros patriarcas até o Apocalipse. Este projeto divino não é algo apenas religioso e nem diz respeito somente aos crentes.

É uma proposta de vida profunda e abundante, baseada na paz e na justiça para todos. Se as religiões são válidas o são à medida que servem para educar a humanidade para viver este projeto divino.

Nas diferentes épocas da história, vários povos viveram determinados projetos. Impérios tiveram e alguns ainda têm sonhos de conquistar outros países e se perpetuar como proprietários do mundo. Mesmo no século XX, o Nazismo buscou este objetivo e fracassou.

Na América Latina, alguns povos indígenas clarearam para si mesmos e para os outros que o objetivo de um Estado deve ser proporcionar o que o povo quéchua chama sumak kwasay, os aymara denominam sumak kamana, os guaranis e outros povos têm outro modo de dizer, mas o sentido é sempre o mesmo: a vida em plenitude e em convívio harmonioso entre as pessoas e com a natureza.

É claro que para ter êxito, um projeto não tem somente claro o objetivo. Deve definir um método ou caminho para isso. No passado, partidos e grupos que queriam mudar o mundo acreditavam que poderiam conseguir isso pela força das armas. Hoje, aumenta o número de pessoas sérias que estão convictas: só uma educação social e profunda da sociedade consegue mudá-la verdadeira e profundamente.

No início do século XIX, na Venezuela, Simon Bolívar era um jovem de família nobre e rica que fez um voto a Deus: não descansaria enquanto não promovesse uma sociedade de pessoas, unidas em uma só pátria grande e libertada do colonialismo dos impérios europeus.

Ele era discípulo de um grande educador (Simon Rodrigues) e começou implantando escolas e institutos de alfabetização para índios e negros. Como o império espanhol não aceitou perder suas colônias na América, ele teve de reunir um exército e lutar. Em poucos anos, proclamou a independência de seis países da América do Sul e em cada um deles estabeleceu governos locais.

Não se tornou presidente de nenhum. Nasceu rico e morreu pobre. Mas, legou para o futuro a herança do que então passou a se chamar de bolivarianismo, o projeto de países livres, abertos às culturas indígenas e negras e nos quais a terra seja repartida de forma justa por todos os habitantes e os governos estejam a serviço do povo mais empobrecido.

Hoje, este projeto encanta de novo multidões em vários países irmãos do nosso continente. Cedo ou tarde, terá uma tradução e adaptação brasileira que una índios, negros, lavradores e povo das periferias em um projeto libertador e pacífico de mais vida para todos.

Marcelo Barros

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