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domingo, 9 de janeiro de 2011

A Bíblia e o Fundamentalismo

De 5 a 26 de Outubro de 2008, realizou-se em Roma mais um Sínodo dos Bispos, uma assembleia que, representando o episcopado de todo o mundo, cumpria a tarefa de oferecer ao Papa soluções e sugestões para o bom governo da Igreja. O tema escolhido por Bento XVI era: “A Palavra de Deus na vida e na missão da igreja”.

Segundo o Instrumento de Trabalho, ou documento de preparação do Sínodo, um dos temas a discutir seria o “fundamentalismo”, fenômeno hoje muito generalizado que, no espaço cristão, se apresenta como obediência não-crítica à letra dos textos sagrados, provocando erros e gerando conflitos.

Um fenômeno do nosso tempo

Muitos talvez só ouvissem falar de fundamentalismo, quando, em 1979, regressando do exílio, o Aiatolá Khomeini proclamou a República Islamita no Irã. E, tornaram a ouvir, quando da destruição espectacular das torres do World Trade Center de New York, em 11 de setembro de 2001. Num e noutro caso, falava-se unicamente do fundamentalismo islâmico. Mas, nos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, também andaram envolvidos outros fundamentalismos: o judaico e o cristão.

O fundamentalismo islâmico prega a volta às origens do Islã e uma reforma de costumes e da sociedade segundo os preceitos da “Sharia”, a lei do Alcorão. Engloba diversas tendências. Entre elas, a do recurso à violência para atingir os seus fins. É uma tendência radical. Operou, a princípio, apenas em âmbito nacional, como o Al-Jihad egípcio, responsável pelo assassinato de Anwar Sadat, em 1981. Com o tempo, porém, passou a atuar em âmbito internacional, como a Al Qaeda, dirigida por Osama bin Laden, que pretende fundar um califado ou liderança islamita universal.

O fundamentalismo judaico não se distingue, como outros fundamentalismos, pela fidelidade literal ao texto sagrado, uma vez que a interpretação rabínica da Torá foi sempre bastante livre; manifesta-se na ultra-ortodoxia. Para o judeu fundamentalista, a lei de Deus tem valor absoluto, tanto na vida privada como na pública. Ele deve evitar o contato com as pessoas alheias à sua comunidade. Contra os judeus liberais, que defendem a integração com a sociedade local, os fundamentalistas cultivam a auto-segregação, tanto dos gentios como de outras tendências do judaísmo.

O fundamentalismo cristão, onde se insere a vertente católica que remonta ao antiliberalismo e ao antimodernismo do “Syllabus” de Pio IX, surgiu originariamente, no início do século passado, no seio de uma corrente do protestantismo americano. O nome derivou duma série de fascículos publicados entre 1909 e 1915, onde pastores de várias denominações relacionavam os “fundamentals”, pontos fundamentais da fé cristã, dos quais nenhuma Igreja poderia desviar-se. O principal era o da infalibilidade da Bíblia. Foi um movimento que cresceu e que transbordaria dos Estados Unidos, onde fez com que se proibisse o ensino da teoria da evolução nas escolas, arvorou, durante a Guerra Fria, a bandeira do anticomunismo, defendeu um patriotismo messiânico, que via a América como a nação eleita, e se transformou numa irresistível força eleitoral de direita.

Direta ou indiretamente, os três fundamentalismos estiveram presentes, ou na tragédia do 11 de setembro de 2001, ou na sua origem e sequelas.

Esteve na origem o conflito árabe-israelense. E foi sobretudo na qualidade de cúmplices do Estado de Israel que os americanos foram punidos. Esse conflito vinha-se arrastando havia tempo, conduzido por facções fundamentalistas islamitas, o Hamas e o Hizbollah, e por fundamentalistas judeus, alguns atuando por meio de organizações extremistas como o Kach Kahane Chai, que pretende restaurar o Estado de Israel tal como está descrito na Bíblia.

As primeiras reações oficiais e populares dos Estados Unidos ao trágico acontecimento de 11 de setembro de 2001 induziram a pensar, com razão, que entrava em cena um terceiro fundamentalismo. O presidente do país mais poderoso do mundo afirmou então que o conflito que se avizinhava seria uma guerra monumental do bem contra o mal e que Deus, indiscutivelmente, estaria do lado dos americanos. Louca presunção, logo agravada, quando os xerifes do Pentágono, Ministério da Guerra dos Estados Unidos, batizaram a operação antiterrorista de Justiça Infinita, expressão de clara referência bíblica.

Que é o fundamentalismo?

A palavra tem hoje um significado difuso. Abrange qualquer corrente, movimento ou atitude de cunho conservador que realce a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos. Inicialmente, não era assim.

O fundamentalismo, como já foi dito, surgiu no âmbito protestante americano como movimento religioso conservador contra o protestantismo liberal.

Depois, o termo viria a ser aplicado também ao tradicionalismo e antimodernismo católicos, o que ampliou mas roubou força à expressão. Usado no contexto ortodoxo, tornou-se ainda mais confuso. É que os fenómenos que exprimia não eram iguais, eram apenas parecidos. De qualquer modo, tratava-se sempre de uma base cristã a opor-se à cultura dita moderna. Mas, quando o aplicaram a outras religiões, o seu significado ficou ainda mais vago.

Surgido no meio protestante há um século, o fundamentalismo veio hoje a tornar-se, no linguajar corrente, uma categoria sociológica e psicológica que pode significar movimentos similares, nascidos de religiões ou de cosmovisões diversas. Mas apresenta-se, acima de tudo, como uma reação tipicamente religiosa ao desafio do modernismo. No início, não defrontou diretamente os princípios da modernidade, mas as influências que ela exercia sobre a comunidade dos fiéis. E os fundamentalistas de hoje também não é às crises do mundo moderno que reagem; é às crises que o mundo moderno provoca na comunidade de fé e nas suas convicções básicas.
Todo o fundamentalista está seguro e certo do seu seguimento literal da revelação divina. Acredita que um texto, por mais difícil e misterioso que seja, sendo revelação de Deus, é acessível a todos e só pode ter um sentido. Se Deus é um Deus de amor e de verdade – diz – ele se revelará necessariamente a nós, numa forma acessível às pessoas comuns, que têm olhos, ouvidos e outros sentidos.

Historicamente, o fundamentalismo nasceu da controvérsia teológica suscitada nos Estados Unidos, no começo do século XX. Os seus primeiros sinais estão, como já se disse, na publicação da colecção de 12 volumes em defesa dos “fundamentos da fé” contra o liberalismo. A colecção tinha por título “The Fundamentals. A Testimony to the Truth” (Os Fundamentos. Um Testemunho da Verdade) (1909-1915). A polêmica teológica durou anos. Mas, já em 1926, escrevia o “Christian Century” (Século Cristão) que “todo o movimento fundamentalista era vazio e artificial” e “totalmente desprovido de qualidades para empreender obras construtivas ou de sobrevivência”. No entanto, ele sobreviveu. E não só. Os protestantes históricos liberais suplantaram-no na década de 1920. Mas, depois, foram perdendo rapidamente adeptos, enquanto os cristãos evangélicos fundamentalistas – principalmente de tipo pentecostal – se tornaram a força protestante predominante.

Na realidade, o fundamentalismo protestante foi uma reação à atitude dos cristãos liberais em face da modernidade. Ninguém o expressou melhor que J. Gresham Machen em seu livro “Christianity and Liberalism” (Cristianismo e Liberalismo) (1923). As invenções modernas e o industrialismo sobre elas construído – diz ele – ofereceram-nos, em numerosos aspectos, um mundo novo para viver. Mas este mundo seria impensável sem uma nova ciência. E um dos traços do moderno método científico é submeter ao exame crítico toda a herança do passado. Ora, uma vez que a fé cristã se baseia, por definição, na autoridade de uma época passada, caberá indagar se a religião do primeiro século ainda pode conviver com a ciência do século vinte. A resposta dos teólogos liberais, explícita ou implícita, foi “não”. O projeto teológico liberal visava refundir a totalidade da fé cristã, buscando nas expressões de fé do cristianismo primitivo “a essência do cristianismo”, isto é, aquilo que devia permanecer ao longo dos tempos da História. J. Gresham Machen condena tal atitude, porque a ciência moderna secular atacará os cristãos liberais em sua própria cidadela, a “essência do cristianismo”, não lhes deixando nada para sustenta a sua fé.

Os cristãos fundamentalistas acreditavam que, se a Igreja se tornasse liberal, o cristianismo desapareceria da terra. Para se oporem a isso, pregaram a renovação espiritual dos indivíduos e a renovação moral da sociedade. Mas estavam ao mesmo tempo convencidos de que essa renovação tinha de passar pela renovação da teologia. Era, portanto, tarefa do teólogo cristão reafirmar os “fundamentos da fé cristã”, contrapondo as doutrinas bíblicas às pretensões teológicas do liberalismo.

Fundamentalismo global

A partir de 1970, o fundamentalismo cresceu e continua a crescer a passo acelerado. Nos Estados Unidos, e mesmo na Europa, as Igrejas fundamentalistas evangélicas crescem mais rapidamente que as denominações históricas e que a Igreja Católica. Na América Latina, as Igrejas pentecostais fundamentalistas quase que quintuplicaram nestes quarenta anos.

A ascensão, no Irã, do Aiatolá Khomeini em 1979 anunciava uma virulenta explosão do que, a partir de então, começou a chamar-se “fundamentalismo islâmico”.

Em Israel, com o crescimento e a força política do Gush Emunim, “bloco dos fiéis”, aumentou o temor de um perigoso fundamentalismo judaico.

Na Índia, contestando o caráter secular do Estado indiano, os fundamentalistas sikhs e hindus têm-se envolvido em tumultos públicos e actos de agressão armada.

Na Igreja Católica do pós-Vaticano II, há sinais de um reavivamento do fundamentalismo papal.

Tais fenómenos levaram os cientistas a estudar comparativamente esses diversos fundamentalismos e a procurar determinar as suas características de organização, a composição social, os métodos de recrutamento, a cosmovisão, a ideologia e os programas. É que o crescimento global contemporâneo do fundamentalismo em vários grupos religiosos não pode ser resultado de mero acaso. O que é que significa essa vontade individual ou colectiva de recuperar a autoridade de uma tradição sagrada e o conclamar as pessoas a voltarem a uma tradição perdida ou em perigo de se perder? Por quê essa exigência de se recuperarem os valores de uma época anterior que se presume mais pura e mais íntegra?. Por que é que se aponta e condena ideologias, movimentos sociais e forças ou indivíduos que desviaram a sociedade dum antigo estado moral agora idealizado?
Os motivos são decerto variados e dizem respeito a pessoas, instituições e coletividades. Os indivíduos como as comunidades humanas carecem de uma história, isto é, de possuírem tradições, ritos e cultos para terem uma vida criativa e equilibrada. A criatividade é apropriação crítica do passado e sua transformação em algo novo. Quando um processo traumático vem obstruir essa apropriação do passado e bloquear a transformação do património herdado numa nova realidade para o futuro, é normal que surjam reações fundamentalistas. Fala-se então de regressão.

O islamismo, por exemplo, considera-se a si próprio como a ordem religioso-política instituída por Deus para o mundo inteiro e entrou na História como a religião do vencedor. O reino mundial árabe-islamítico superou então todos os povos, especialmente os europeus e cristãos. A derrocada posterior desse império universal provocou um trauma que subsiste até hoje e que se agravou ainda mais, quando o mundo árabe-islâmico se viu sujeito às potências coloniais europeias e cristãs. E, até hoje, o islamismo que um dia, no período do seu florescimento, assimilou as conquistas literárias, científicas e tecnológicas dos povos da sua influência, transformando-as em cultura mundial, não foi ainda capaz de se apropriar da civilização moderna, surgida na Europa, mas enraizada na herança árabe. Não soube lidar, de forma criativa, com a modernidade. Só consegue entendê-la como ameaça, como fator de insegurança.

Sentimento similar domina o resto da humanidade perante a situação do mundo atual, um mundo complexo e desconcertante. As catástrofes do mundo moderno mostram a muitos que há algo de errado. O aumento da miséria das massas do Terceiro Mundo, as notícias sobre possíveis infernos nucleares, as guerras e os constantes desastres ecológicos parecem dar razão aos fundamentalistas. O ser humano possui hoje um poder sem precedentes: é capaz, como nunca, de construir o seu futuro, mas tem também o trágico poder de o destruir por completo.

É isto que leva os fundamentalistas a buscar a segurança em verdades seguras, num quadro do mundo mais estável, em lideranças conhecedoras do caminho certo, onde seja possível encontrar apoio.
O caso da Igreja Católica é exemplar. O Concílio Vaticano II foi a grande tentativa de determinar, de forma nova, a mensagem e características da Igreja Católica nas condições actuais: um caso típico de apropriação e transformação do passado. Mas, conforme se previa, as decisões e orientações do Concílio provocaram dissensões em diferentes regiões da Igreja universal. Era como se um mundo acabasse para dar lugar a outro ainda estranho. Vendo nas inovações do Concílio um perigo, o Vaticano tudo tem feito para restabelecer o mundo católico tradicional, o que acarretou, inevitavelmente, consequências anacrónicas e destrutivas.

O fundamentalismo católico

O termo “fundamentalismo”, lembremos mais uma vez, proveio de um protestantismo que buscava a segurança contra outros, aferrando-se à letra da Escritura. Existe uma variante no catolicismo contemporâneo que, substituindo a Bíblia pelos Concílios de Trento e Vaticano I, identificou a fé católica com a tradição geradora dos cânones e definições desses concílios, do Syllabus dos Erros de Pio IX e da infalibilidade papal. Essa tradição representaria a idade de ouro em que a Igreja sabia para onde ia; ela hoje teria perdido o rumo, deixando-se invadir por inimigos como o secularismo, o marxismo, o sionismo, o cientismo e a maçonaria.

O fundamentalismo católico não se opõe, como o protestante, à evolução natural. Os textos centrais em que se baseia não são tanto os escriturísticos, como no protestantismo. Aquilo a que se opõe é à evolução histórica da doutrina. Ele vê a verdade como um conjunto de verdades depositadas definitivamente, uma vez por todas. Estas podem ser expostas de várias maneiras em diversas culturas, mas não admitem evolução.

Por isso, escreveu um sociólogo anglicano, David Martin: “Com razão se poderia considerar o catolicismo como intrinsecamente fundamentalista, pois suas definições oficiais se configuram como um sistema completo e oniabrangente… Nos seus textos concentra-se uma forte ambição teocrática”.

São afirmações que os teólogos talvez não aceitem. Não deixarão, porém, de reconhecer que, nos textos católicos oriundos da autoridade eclesiástica, está presente essa ambição teocrática. A autoridade é tida como emanada de Deus e incontestável.

Foi esta a experiência que nos ficou do longo pontificado de João Paulo II. O seu insistente apelo à autoridade e a sua constância em distribuir certezas, como se ele possuísse uma resposta completa e exaustiva para os problemas da sociedade, constituem mostra evidente de fundamentalismo católico. Comparando-o com o seu antecessor, Paulo VI, um homem angustiado e hesitante, que parecia carregar o peso do mundo sobre os ombros, um jornalista francês, Robert Solé, assim o descreveu em 1987: “Karol Wojtyla, o bom e rijo montanhês, leva a Igreja às costas, como se fosse mochila de alpinista… Uma Igreja só de certezas, sem fantasias doutrinais. Uma Igreja mais disciplinada, sem nenhuma confusão entre padres e leigos”.

O seu projeto ficou bem claro em outubro de 1978, ao inaugurar o seu pontificado: “Abri, de par em par, as portas a Cristo. A seu poder redentor abri as fronteiras das nações, dos sistemas económicos e políticos, os imensos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento. Não temais; Cristo sabe o que há no homem. Só ele sabe”. E o papa era o representante de Cristo! Na altura, ele, Karol Wojtyla!

Depois, João Paulo II teria a sua parte na derrubada do Muro de Berlim, na libertação dos países da Europa Central e Oriental e mesmo no colapso do comunismo na União Soviética. Tentaria moldar a Igreja universal à imagem e semelhança da Igreja polonesa, acreditando porventura no mito do messianismo polonês do século XIX, que vaticinava que um papa eslavo havia de salvar e renovar a Igreja decadente. Não querendo que lhe solapassem a autoridade, submeteu a processo alguns dos teólogos mais representativos: Hans Küng, Edward Schillebeececk, Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez, Charles Curran e outros. Marginalizou figuras proeminentes do episcopado: cardeal Hume, Carlo Maria Martini, Arns, Lorscheider, Gaillot, etc, ao mesmo tempo que promovia a posições importantes (Joseph Ratzinger, por exemplo) ou elevava ao episcopado figuras, acaso impopulares ou incompetentes, mas dispostas a apoiar a estratégia papal. Obcecado pela doutrina da infalibilidade em questões de fé e moral, tornou-se cúmplice da miséria das massas e da fome e morte de milhões de crianças e adultos em todo o mundo, ao insistir na campanha mundial contra os métodos anticoncepcionais e contra os preservativos na luta contra a Sida; ao fazê-lo, fez-se também responsável por milhares de abortos de filhos indesejáveis, pois, reprovados os contraceptivos, o aborto tornou-se o método principal do controle da natalidade. Sustou o diálogo com o mundo moderno, encetado em boa hora por João XXIII e pelo Vaticano II, substituindo-o por uma doutrinação unilateral. Evocou enfaticamente o Concílio, mas ressaltando o que nele houve de continuidade com o passado e deixando em silêncio as suas sábias colocações quanto ao presente e ao futuro. Em vez das palavras programáticas do Concílio, brindou-nos com palavras de um magistério autoritário: em vez do agiornamento desejado pelo bom Papa João XXIII, tivemos a tradicional doutrina católica; em vez da colegialidade do papa com os bispos, preconizada pelo Concílio, tivemos um centralismo romano rígido; em vez de abertura ao mundo moderno, só acusações e denúncias contra uma suposta acomodação; em vez do ecumenismo, aferro ao estreito universo romano-católico; em vez do reconhecimento da distinção entre a Igreja de Cristo e a Igreja romano-católica, a reafirmação duma maior identidade desta com a verdade do Evangelho. Muitas vezes defendeu os direitos humanos, que seu predecessor Leão XIII, um século antes, tinha condenado em bloco, mas não os soube respeitar, dentro da Igreja, condenando ou discriminando teólogos, mulheres e a legião de cento e cinquenta mil padres que, optando pelo casamento, foram excluídos do ministério e reduzidos a uma condição inferior à de qualquer simples leigo.
Com tudo isto, com sua negação a caminhar segundo o espírito que animou o Vaticano II, em que participara, João Paulo II encarnou bem o fundamentalismo católico e deixou uma herança que parece difícil de superar a breve prazo.

Concluindo

A Bíblia nem sempre esteve ao alcance dos fiéis católicos, como está agora. Foi-lhes, por vezes, até mesmo proibida. Era domínio do clero que, não raro, deitou mão da letra da Escritura para sustentar o seu poder e privilégios. O fundamentalismo cristão-católico não é, portanto, coisa nova.

Só um exemplo: as palavras de Cristo a Pedro, em Cesaréia, milhões de vezes repetidas ao longo dos séculos e esculpidas em grandes letras na Basílica de São Pedro em Roma: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Pedro tinha intuído e confessado que Jesus era “o Messias, o Filho de Deus vivo” e o Mestre congratulou-se com ele, porque o que acabava de testemunhar, toda aquela certeza, não era inspiração humana, mas revelação de Deus. Porém, logo a seguir, só uns versículos à frente, Pedro tenta dissuadir Jesus de ir a Jerusalém, pois o aguardavam lá o sofrimento e a morte. Jesus repele-o energicamente, como tentador: “Afasta-te, Satanás!… os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mt 16, 23). Segundo as Escrituras, Pedro há de errar de outras vezes, mesmo gravemente, capaz que era, não só de escutar as revelações de Deus, mas também as sugestões do Maligno. E Jesus sabia-o. Por isso, as suas palavras: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” envolvem uma certa ironia. Pedra, sim, mas pedra frágil!
E a história de Pedro foi a história que repetiram, vezes sem conta, os Papas que lhe sucederam. Alguns foram mesmo escandalosos. Mas nunca deixaram de sustentar o seu poder numa leitura fundamentalista dessas palavras de Jesus. E foi também na leitura fundamentalista delas que os católicos fizeram do Papa um mito, transfigurando-o, quase divinizando-o!

A verdade não se encontra em versículos isolados da Bíblia, mas em toda a Bíblia. A sua leitura isolada e literal é um perigo. Por isso, razão tinha aquele inspetor da antiga DGS (Polícia do Estado salazarista) que, para convencer o missionário que tinha diante de si, lhe estendia a Bíblia, cheia de notas, recolhida de um guerrilheiro abatido nas matas de Angola: “Veja, padre, era na Bíblia que o guerrilheiro hauria a coragem e o ódio para matar. Como vê, um livro que serve para tudo, até para se cometerem as maiores barbaridades”.

E acrescentemos ainda que a verdade também tem uma história: vai-se descobrindo muitas vezes aos poucos e foi-se expressando diversamente nas várias épocas e culturas dos povos. A ciência e o saber não se lhe opõem; poderão ajudar a descobri-la.


Por Luís Guerreiro

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