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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wikileaks e as ''mesquinharias processuais'' do Vaticano

Os documentos diplomáticos secretos revelados na manhã do último sábado, 11/12, como parte das publicações do WikiLeaks confirmam que, embora o Vaticano tenha ficado horrorizado com as revelações de abusos sexuais por parte do clero na Irlanda em 2009 e 2010, ele também ficou ofendido com os pedidos de que o embaixador papal participasse de um inquérito promovido pelo governo, vendo isso como um insulto à imunidade soberana do Vaticano sob o direito internacional.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 11-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa postura, segundo o documento, se revelou na Irlanda como "mesquinhamente processual", ao não enfrentar a realidade do abuso clerical e, portanto, piorando a crise.

Os documentos também contêm apreciações diplomáticas críticas sobre a recente decisão do Papa Bento XVI de criar novas estruturas para acolher os anglicanos descontentes, assim como ao percebido analfabetismo tecnológico e à inaptidão comunicacional de alguns altos funcionários do Vaticano.

As desventuras de relações públicas no Vaticano, de acordo com um documento, diminuíram o volume do "megafone moral" do Papa.

Documentos recentemente divulgados também indicam que:

* O Vaticano manifestou o desejo de resistir à influência do presidente socialista venezuelano, Hugo Chávez, na América Latina;
* Ele concordou silenciosamente a encorajar os países a apoiar o acordo de Copenhague sobre as mudanças climáticas, apesar de a Santa Sé oficialmente não tomar posição sobre projetos de acordos;
* Ele esperava que a Polônia atuaria como um baluarte contra o secularismo radical dentro da União Europeia, especialmente ao "manter a linha" sobre a vida e as questões de família;
* O então cardeal Joseph Ratzinger se opôs à entrada da Turquia na União Europeia, mas, como Papa, Bento XVI tomou uma posição oficial neutra, ao continuar enfatizando a importância das raízes cristãs da Europa.

Enquanto os documentos revelaram que realmente não contêm nenhuma surpresa sobre o próprio Vaticano, eles levantam, sim, o véu sobre a forma como os diplomatas norte-americanos e seus colegas viram vários movimentos por parte de Roma nos últimos anos.

As revelações vêm principalmente dos documentos da Embaixada dos EUA junto à Santa Sé enviados ao Departamento de Estado em Washington, muitas vezes expressando informações recolhida a partir de conversas com fontes da Igreja ou com outros diplomatas em Roma.

Os documentos foram revelados na edição do dia 11 de dezembro do jornal Guardian, do Reino Unido.

Um documento de 2009, intitulado "Escândalo dos abusos sexuais tensionam as relações Irlanda-Vaticano, sacodem a Igreja irlandesa e desafiam a Santa Sé", relata uma conversa entre Julieta Valls Noyes, a oficial número dois da embaixada dos EUA no Vaticano, e seus colegas da embaixada irlandesa junto à Santa Sé.

Noyes escreve que, enquanto a primeira preocupação do Vaticano foi pelas vítimas de abuso, ele também sentiu que os pedidos para que seu embaixador na Irlanda cooperasse com a "Comissão Murphy" ameaçaram a sua soberania sob o direito internacional.

O documento informa que o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, escreveu finalmente à Embaixada da Irlanda junto à Santa Sé para insistir que quaisquer pedidos de informação deveriam vir através dos canais diplomáticos apropriados.

Essa postura, escreveu Noyes, provocou reação na Irlanda: "Grande parte dos irlandeses viu os protestos do Vaticano como mesquinhamente processuais, não enfrentando o verdadeiro problema dos abusos horríveis e acobertados pelas autoridades da Igreja".

Enquanto a situação da Irlanda se desenvolvia no final de 2009 e início de 2010, Noyes afirmou, "o normalmente cauteloso Vaticano se moveu com uma velocidade incomum para resolver a crise interna da Igreja", referindo-se a um encontro entre o Papa Bento XVI e os bispos da Irlanda, em fevereiro de 2010. Mas ela também diz que os contatos na Irlanda e no Vaticano esperavam que a crise "se prolongasse por vários anos".

Em um outro documento de 2009, Noyes descreve uma conversa com Francis Campbell, embaixador do Reino Unido junto da Santa Sé, sobre a decisão do Papa de criar novas estruturas, chamadas "ordinariatos pessoais", para acolher anglicanos tradicionalistas incomodados com os movimentos de liberalização, como a ordenação de mulheres e de pessoas abertamente gays como bispos e a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Essa medida colocou o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, em uma "situação impossível", segundo Campbell, e constituiu potencialmente "a pior crise em 150 anos" nas relações entre anglicanos e católicos.

Segundo a descrição da conversa feita por Noyes, Campbell alertou que essa medida poderia desencadear um latente anticatolicismo no Reino Unido e até mesmo provocar atos de violência em casos isolados.

O relatório dos diplomatas dos EUA manifestou dúvidas sobre "se o dano às relações intercristãs valia a pena", especialmente, afirmava-se, "pelo fato de que o número de anglicanos desafetos que irá se converter provavelmente será uma gota ao invés de uma onda".

Outro relatório de Noyes, de janeiro de 2009, escrito na sequência de uma polêmica mundial provocada pela decisão do Papa Bento XVI de levantar a excomunhão de quatro bispos católicos tradicionalistas, incluindo um que negou o Holocausto, disse que o caso revela uma grave "falha nas comunicações" do Vaticano.

Essa falha, segundo o documento, leva a uma "mensagem confusa e reativa que reduz o volume do megafone moral que o Vaticano usa para promover seus objetivos".

O porta-voz do Vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi, é o único assessor papal a usar um Blackberry, de acordo com o documento, e a maioria dos altos funcionários do Vaticano nem mesmo usa uma conta de e-mail.

Pelo fato de os altos funcionários do Vaticano não costumarem entender a natureza das comunicações modernas, afirmou o documento, eles muitas vezes falam em uma linguagem "codificada", impossível de ser decifrada pelo mundo exterior. Noyes citou um exemplo do embaixador israelense junto à Santa Sé, que disse ter recebido uma carta do Vaticano, que supostamente continha uma mensagem positiva para o seu país, mas que era "tão velada que ele não a entendeu, mesmo quando lhe foi dito que ela estava lá".

Parte do problema de comunicação, afirmou o relatório, é estrutural: Lombardi não faz parte do círculo íntimo do papa. Por isso, ele "é o entregador, ao invés de ser um modelador da mensagem". E ele está "terrivelmente sobrecarregado" de trabalho.

No mundo católico em geral, acrescentou o documento, existem histórias de sucesso de comunicação – indicando em particular a forma como o grupo católico Opus Dei respondeu ao frenesi criado pelo romance e o filme "O Código Da Vinci".

Em geral, o documento relatou que há movimentos no Vaticano com relação à necessidade de melhores estratégias de comunicação, mas pouco sentido concreto sobre o que fazer.

"Nossos contatos vaticanos parece estar falando apenas da necessidade de uma melhor coordenação interna sobre as decisões e mensagens públicas planejadas", diz-se. "Mas se ou quando a mudança virá permanece como uma questão em aberto".

No momento, não parece que essas divulgações poderão criar uma crise diplomática, especialmente dado que o Vaticano anunciou antecipadamente que não queria que as revelações do WikiLeaks perturbassem os laços EUA-Vaticano.

As autoridades do Vaticano percebem que pelo menos algumas das opiniões críticas expressas nos documentos vazados, especialmente na frente de relações públicas, são amplamente compartilhadas dentro do próprio Vaticano. Além disso, a Casa Branca de Obama tentou enviar sinais de confiança para Roma, incluindo a recente nomeação de um delegado presidencial para participar do consistório do dia 20 de novembro para a criação de 24 novos cardeais. Foi a primeira vez que um presidente dos EUA enviou uma delegação oficial para um consistório, e isso foi visto no Vaticano como uma forma diplomática de expressar respeito.

No meio da manhã, Lombardi, o porta-voz do Vaticano, publicou uma declaração em italiano e em inglês sobre os vazamentos do WikiLeaks.

"Sem entrar na avaliação da extrema gravidade da publicação de uma grande quantidade de documentos reservados e confidenciais e das suas possíveis consequências", diz a declaração, "a Sala de Imprensa da Santa Sé observa que uma parte dos documentos publicados recentemente pelo site Wikileaks diz respeito a relatórios enviados ao Departamento de Estado dos Estados Unidos pela Embaixada dos Estados Unidos junto à Santa Sé".

"Naturalmente, tais relatórios refletem as percepções e as opiniões daqueles que os redigiram", diz a declaração, "e não podem ser considerados expressão da própria Santa Sé, nem citações precisas das palavras de seus oficiais. Sua credibilidade deve, portanto, ser avaliada com reserva e com muita prudência, levando em consideração tais circunstâncias".

O embaixador dos EUA junto à Santa Sé, Miguel Diaz, também emitiu uma declaração condenando os vazamentos "nos termos mais fortes possíveis", ao mesmo tempo em que se recusava a comentar sobre a sua autenticidade.

Os Estados Unidos e a Santa Sé estão trabalhando juntos em várias frentes, disse Diaz, da adaptação da economia mundial aos direitos humanos, às mudanças climáticas e ao diálogo inter-religioso, e essas parcerias "vão resistir a esse desafio".


Intituto Humanitas Unisinos - IHU

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