quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um Negro Natal

A comunidade negra de uma região do Rio de Janeiro desejava, no ano de 2010, realizar uma mostra de seus principais símbolos e elementos religiosos.

Numa atitude de abertura e acolhida, a reverenda da Igreja Anglicana abriu as portas da congregação para o evento, gesto concreto de diálogo inter-religioso. Mas o que a reverenda não esperava era a reação de alguns fiéis.

Na visão deles, o templo tinha sido profanado, uma vez que representações dos orixás haviam sido introduzidas no espaço sagrado! Esse grupo de fiéis exigiu a purificação e reconsagração do templo, como nos tempos da Idade Média ou na época de Josias (2Rs 23)! Imagens negras adentrando um templo de um "deus branco"!

Por outro lado, as celebrações natalinas no Brasil cedem mais e mais aos apelos do deus mercado.

As próprias igrejas começam a aceitar as imposições, cada vez distinguindo menos o que é religião ou cultura popular daquilo que é interesse de mercado.

Tem se tornado cena quase comum, na noite de Natal, acolher com palmas a entrada de Papai-Noel nos templos, como o ponto mais alto de missas ou cultos natalinos. Não seria esse gesto uma profanação do espaço sagrado?

Ou não seria problema, visto que Papai-Noel é a imagem de um deus branco? É uma questão de aguçar o olhar, de observar como nossos sentidos vão se adaptando a "outros costumes" que moldam nosso comportamento.

Por um lado, aumenta na sociedade o fundamentalismo religioso. B

asta lembrar o peso que se deu a discussões religiosas realizadas de maneira infantil ou até mesmo maldosa na última campanha presidencial.

Por outro lado, este mesmo fundamentalismo não questiona a idolatria do capital. É bom não esquecermos que, no Brasil, adotamos um Natal cada vez menos cristão.

Isso se expressa não só na cópia de símbolos europeus, mas no peso que se dá a uma figura produzida e divulgada pela multinacional Coca-Cola.

Evidentemente, não precisamos ir a outros extremos, deixando de valorizar coisas boas que a figura do Papai-Noel traz, especialmente para o sonho das crianças.

Melhor seria recuperar o original São Nicolau, o que parece não ser mais possível. E

ntretanto, na busca de um equilíbrio, devemos pelo menos assumir o racismo imposto pelo mercado: por que a introdução de um símbolo do deus consumo, criado pela sociedade branca, não profana um templo? E por que o diálogo com religiões de matriz africana, a priori já é considerado uma profanação?

Conta o Evangelho de Lucas que os primeiros a visitar Jesus, ainda naquele curral que serviu de templo para acolher a Deus Criança, foram os pastores (Lc 2,8-20).

Na versão de Mateus, quem visitou Jesus foram magos estrangeiros (Mt 2,1-12). Em ambos os casos, gente não muito aceita pela religião oficial.

Para vários grupos fundamentalistas, isso também seria profanação. Para a sabedoria popular, regada pela ação do Espírito, com certeza, não! Pois o próprio Espírito ajudou a tradição popular a reconhecer em um dos magos o representante do povo negro.

Sabemos que no Brasil mais da metade da população é afrodescendente. Não por coincidência, é a população mais empobrecida e discriminada. Não deixemos que nossa vivência religiosa legitime o preconceito e eternize esse fosso social no qual só há lugar para o verdadeiro Deus em estrebarias.

A você um negro e santo Natal!

texto publicado no Boletim Por Trás da Palavra


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