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sábado, 18 de dezembro de 2010

O futuro das CEBs e as CEBs do futuro





Sabemos das inúmeras polêmicas em torno das chamadas “manipulações” do documento de Aparecida, e uma das causas de tantas discussões foram as suas referências às CEBs.

Perpassando os textos com olhar mais simples e desarmado, no entanto, encontramos a respeito, inúmeras referências positivas.

O texto reconhece com gratidão os esforços de tantas mulheres e homens que deram um autêntico testemunho de serem discípulos missionários, verdadeiros samaritanos, repletos de compaixão pelos sofredores que ficam excluídos do festivo banquete da vida plena.

O número 178 é um belo exemplo do valor que as Igrejas da América Latina e do Caribe vêm dando às CEBs. Convém apresentá-lo, quase que na íntegra: “ Na experiência eclesial de algumas Igrejas da América Latina e do Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base têm sido escolas que ajudam a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros ...

Puebla constatou que as pequenas comunidades, sobretudo as comunidades eclesiais de base, permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos; no entanto, também constatou “que não tem faltado membros de comunidade ou comunidades inteiras que, atraídas por instituições puramente leigas ou radicalizadas ideologicamente, foram perdendo o sentido eclesial”.

Agora, a questão: Qual o futuro das CEBs e qual as CEBs do futuro?

As CEBs só terão futuro se tiverem como modelo a comunidade que deu certo: a TRINDADE. Também terá que se inspirar, com a criatividade suscitada pelo Espírito Santo, no ícone de toda comunidade cristã, pintado por Lucas, nos Atos dos Apóstolos com as mãos das muitas preces e o pincel da vívida experiência das comunidades apostólicas: “Perseveravam na doutrina dos apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações... O Senhor aumentava cada dia mais número dos que entravam no caminho da salvação” At 2,42.47b.

Por que a Trindade? – Porque é a comunidade no seu sentido mais profundo: a “perfeiticíssima” Comunhão das pessoas divinas no Laço do Amor. Cada pequena comunidade abeberando-se da Palavra de Deus, dia após dia, vai conhecendo o Senhor e se abrindo à sua vontade, sendo, pouco a pouco, cimentada na força do amor. O Espírito Daquele que morreu para fazer de todos os povos um só povo (Cf Ef 2,14) penetrará nas profundezas dos corações dos seus membros, pulverizando o desejo de lucro e de poder, incinerando em sua chama o egoísmo, enfim, suscitando a santa ânsia de comunhão, de participação e de missão. Ressoa o documento no número 240 “ Uma autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o sólido fundamento da Trindade-Amor...A experiência batismal é o ponto de início de toda espiritualidade cristã que se funda na Trindade”.

Têm futuro as CEBs que se radicalizarem no discipulado, que se tornarem “escolas de discípulos e missionários do Senhor” ( cf 178). Essa radicalização é, essencialmente, viver as Bem-aventuranças, abraçando integralmente o projeto do Pai. É, portanto, seguimento de Cristo com um ardor sempre renovado, purificado na intimidade da leitura orante das Sagradas Escrituras.

Sem recostar a cabeça no peito de Jesus para abeberar-nos na fonte das misericórdias, da graça, seremos platéia passiva e não companheiros e amigos Dele. É do amor a Cristo que nasce o amor potente à sua esposa, a Igreja. A Epístola aos Efésios afirma com total clareza que Ele –Jesus – ama a Igreja.

As CEBs discípulas e missionárias só terão futuro se, à semelhança do Senhor, a amar com a intensidade com que a amaram Paulo, Francisco, Teresa, Oscar Romero, Luciano, Carol, etc,.

Têm futuro as CEBs que se envolverem na Missão, que olha para além das paredes de sua capela, matriz, sala de estar de um simples lar. Há uma vasta seara a ser ceifada. Há um mundo se contorcendo nas dores de um parto e um monstro sendo concebido na violência, injustiça, trevas, desespero. Só o Cordeiro é capaz de nos mostrar o sentido profundo de nosso existir e o Caminho a seguir.

Têm futuro as CEBs que se empenharem na causa do Reino, denunciadoras, à luz da fé cristã e católica, de tudo o que fere a dignidade humana, mas ao mesmo tempo saibam apontar caminhos de esperança.

Precisamos de CEBs cada vez mais proféticas, que não tenham medo de se empenhar na dura luta pela defesa da vida, desde o seu primeiro instante até o seu declínio natural, na denúncia de todas aquelas injustiças que obscurecem o “rosto divino das mulheres e dos homens” travando-lhes o desenvolvimento integral.

Para isto, olhando o rosto, a vida de Jesus, somos chamados a adquirir um olhar cada vez mais compassivo. Sem paixão pelo rosto de Cristo, escondido nas faces sofridas e vincadas de nossa gente, nunca seremos discípulos e missionários. Sem paixão por Jesus e sua Igreja não será possível evangelizar, não passaríamos de ventríloquos de uma notícia que só produz tédio e depressão.

É o pequenino, mas atuante, profético, missionário, samaritano rebanho de discípulos e discípulas – “Não temais pequenino rebanho” – o futuro das CEBs e as CEBs do futuro.

Ah! Como eu sonho com este futuro e, sem ser pretensioso, penso ser este o sonho de Deus .

Os textos de Is 61,1-2; Lc 4, 18-19 estão a me indicar isso.

Agora Aparecida está avalizando nossos sonhos: o do Pai e o do Filho, porque o Espírito Santo já arregaçou suas mangas e começou a obra. Pois é Dele que mais necessitamos, no fundo dos corações e nos músculos dos braços, para sairmos de nossa mesmice e marasmo. Aparecida tem que acontecer!

D. Paulo Francisco Machado

Bispo de Uberlândia/MG

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