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domingo, 26 de dezembro de 2010

Dom Pedro Casaldáliga anuncia aposentadoria e constata: a “saúde no país está doente"



Os dias que passou internando por conta de uma cirurgia de prostata levaram o bispo emértido da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), Dom Pedro Casaldáliga, 83 anos, a refletir sobre a dificuldade que o cidadão enfrenta para conseguir tratamento médico no país. “A saúde está doente neste país com tanto luxo, médicos e hospitais, mas a saúde pública está sucateada, precisando de reformas”, observa o bispo, que anuncia: “Vou aposentar, definitivamente. Estou no limite da idade e do Parkison”.

Ele reconhece que quando esteve internado foi muito bem tratado, mas lamenta que milhões e milhões de seres humanos não tenham a mesma sorte. “Me recordo as imagens tristes que a televisão tem mostrado, quase sempre, hospitais com corredores cheios, o caso de uma mulher grávida que tinha passado por uns quatro hospitais tentando vaga para fazer uma cesariana, e chego a uma conclusão:” A saúde está doente”.
Esses dois meses que passou se recuperando da cirguria, conta o bispo, serviu para ler, meditar, rezar mais um pouco e sentir saudade de São Félix do Araguaia, do povo do Araguaia. “Estou de volta, vou aposentar definitivamente, estou no limite da idade e do parkinson. Dizem por aí que a velhice é a melhor idade. Não é bem assim. Tem muitos velhos que não são aceitos nem na própria família, são jogados num asilo ou mesmo nas ruas das grandes cidades”.
CNBB

Indignado com a precariedade dos serviços de saúde oferecidos à população que não tem condições de pagar pelo serviço particular, Dom Pedro Casaldáliga diz que tem rezado, “pedido a Deus para que a saúde seja bem cuidada, pois é um direito de todos tratamento gratuito em hospitais, postos de saúde e que todos sejam tratados como pessoas humana como filho ou filha de Deus”.

O bispo relatou com exclusividade ao O Repórter do Araguaia os momentos difíceis que passou em Goiânia, onde passou por uma cirurgia da Próstata. “Graças a Deus deu tudo certo, apesar da variação da pressão arterial, um dos efeitos do Mal de Parkinson”.
Durante a entrevista, Dom Pedro, brincou, fez analogias e deu explicações sobre sua condição de saúde e de espírito. “Acontece que os bispos também adoecem e entram na faca”, disse ele a respeito da cirurgia. Segundo o bispo, foram dias de saudades e de reflexão. “Tivemos várias manifestações de carinho e solidarieda o povo tem rezado muito. Eu estava pensando nesses dias todos e, deu para pensar bastante, que eu estava com todas as regalias e cuidados, bem acompanhado, mas muito não tem este mesmo tipo de tratamento.
“Eu agradeço o carinho de todos, as orações e a caminhada continua... Dias atrás um sertanejo me perguntava pela saúde eu disse: você sabe, cavalo velho... Ele disse: Bispo, cavalo velho pasto novo. E eu acrescentei: e perto de casa. Mas, estamos em caminhada, Deus é a nossa salvação”, concluiu Dom Pedro Casaldáliga.

Prelazia S. F. Araguaia

História - Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico espanhol, nasceu em Balsareny(Barcelona) no dia 16 de fevereiro de 1928. Ingressou na Congregação Claretiana em 1943, sendo ordenado sacerdote em Montjuïc, Barcelona, no dia 31 de maio de 1952. Em 1968, mudou-se para a Amazônia Brasileira.Foi nomeado administrador apostólico da prelazia de São Félix do Araguaia (MT) no dia 27 de abril de 1970. O Papa Paulo VI o nomeou bispo prelado de São Félix do Araguaia no dia 27 de agosto de 1971. Sua ordenação episcopal deu-se a 23 de outubro de 1971, pelas mãos de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia e de Dom Tomás Balduíno, OP e Dom Juvenal Roriz, CSSR. Foi bispo da sé titular de Altava até 1975.Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras.Dom Pedro já foi alvo de inúmeras ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bonito (Mato Grosso). Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erguida uma igreja. Dom Pedro é um dos maiores combatentes do trabalho escravo no país.

Texto de Sandra Carvalho com Vanessa Lima.
Entrevista exclusiva para
O Repórter do Araguaia.

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