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domingo, 14 de fevereiro de 2010

“Quem ajuda o Haiti são os Haitianos”





“Quem ajuda o Haiti são os Haitianos”
Fonte: Jornal O Semanario - Jacareí

A expressão “nou bouke”, pixada em um dos muros de Porto Princípe, capital do Haiti significa “estamos cansados”, em crioulo haitiano, a língua popular do país. Não é pra menos. A história do Haiti e de seu povo é marcada por ocupações, ditaduras violentas e muita miséria, resultado da exploração francesa e dos 60 anos de bloqueio econômico que o país sofreu. A imagem que registra o muro com o desabafo é do estudante de sociologia da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), Daniel F.Q. Santos, que esteve no Haiti entre os dias 3 e 16 de janeiro de 2009. Conversou com militantes, com a população, com o representante do exército brasileiro e estava na principal praça de Porto Príncipe quando o terremoto de magnitude 7,3 atingiu o país no dia 12. É muito rápido, dura 30 segundos. Quando terminou, já tinha muita gente machucada”, relembra.
Daniel saiu do Brasil no dia 31 de dezembro de 2009, juntamente com outros 8 alunos brasileiros, em um grupo coordenado por um professor da UNICAMP. O objetivo da viagem era recolher informações e estudar sobre a cultura do país, que conta com a ocupação do Exército brasileiro desde 2004. Ele conta que a entrada no país foi mais difícil do que ele imaginava. “Ficamos na República Dominicana aguardando um ônibus pra conseguir entrar no Haiti. Chegamos no dia 3 de janeiro lá. Sem luz, alguém carimbava os passaportes. Assim mesmo, sem controle nenhum”. As imensas minas de areia já na entrada do país denunciavam um desflorestamento descontrolado. Com precariedade de energia, os haitianos cortam as arvores para transformá-las em carvão pra poderem cozinhar. “Você não vê árvores. E se tiver, eles cortam pra poder comer”.
Segundo Daniel, a primeira impressão de Porto Príncipe é de caos, uma confusão de pessoas a pé. O transporte público, inexistente, é substituído por pequenos carrinhos chamados “tap-taps”, que funcionam como lotações. As escolas são freqüentadas por uma certa elite haitiana, composta em geral por famílias que possuem renda mensal fixa. Ainda assim, muitas vezes as famílias precisam, fazer o sacrifício de destinar quase 70% de seu salário (de até 100 dólares mensais) para a escola das crianças. “Mesmo a mão de obra sendo tão barata, ao menos estes haitianos estão bem, pois tem emprego. Os outros são informais, ganham quando podem.” Daniel explica que existe, sim, uma elite e bairros ricos no Haiti mas que, em geral, essas casas são destinadas ao pessoal da ONU e de outras instituições internacionais. “Branco lá vive em gueto de branco. Eles não se misturam, então, quando a gente saía a pé nas ruas, era uma loucura. Eles riam muito da gente e achavam bizarro, porque branco lá não anda a pé.” Também apaixonados por futebol e pelo futebol brasileiro, os haitianos possuem uma expressão cultural muito singular. Adoram quadros e possuem conhecimento amplo sobre pintores, escolas e técnicas. Nas ruas, são vendidos quadros de artistas populares. “Eles pintam de tudo, desde a realidade do que eles vivem lá até os temas mais genéricos. O rap também é muito forte, é a música popular haitiana.”

“Tudo começou a boiar (...) Parecia o fim do mundo.”

No dia 12 de janeiro, Daniel e mais dois integrantes do grupo estavam na praça central da cidade, já atrasados para uma entrevista, quando o terremoto aconteceu. “Tudo começou a boiar, tudo mexia e eu não sabia o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo, as pessoas gritando, caindo, a poeira que começa a subir, aquela correria.” Quando Daniel se deu conta do que aconteceu, ligou a câmera. Nas imagens, editadas em 3 vídeos polêmicos publicados na internet, as pessoas choram e gritam, correm de um lado para o outro. Do outro lado da praça, vê-se um prédio já no chão. “As pessoas começaram a apontar para o prédio e a gente foi lá ver o que estava acontecendo. Tinha um cara com a metade do corpo pra fora, já morto”. Neste instante, Daniel percebeu que seria melhor procurar o restante do grupo, que estava na livraria da cidade. No caminho, o caos era geral e a população estava desesperada. Quando chegaram à livraria, o prédio havia desabado. “Comecei a gritar, é a primeira reação. Chamei o nome das pessoas e um senhor haitiano, muito calmo, veio nos dizer que os brancos já tinham saído e que não tinha ninguém ferido. Ele apontou a direção da casa onde nós estávamos ficando.” Ao tentar voltar para casa, com muito medo, uma multidão de pessoas corria na direção oposta. Inseguros com a situação, Daniel e os colegas resolveram correr também. Segundos depois, um posto de gasolina explodiu. “Já não existia um Estado. Depois do terremoto, o estado era negativo”. Voltaram para casa, reencontraram o grupo e avisaram as famílias. Notícias foram chegando até que os próprios estudantes começaram a ter dimensão do tamanho da tragédia. “A gente sabia que tinha sido grave, mas não sabíamos que o país tinha acabado. O Senado, que estava em reunião, ruiu e matou os senadores. Os outros prédios públicos ruíram com os funcionários dentro. Toda a burocracia do estado sumiu.”
Como as tropas do exército brasileiro e da ONU não foram para as ruas, o grupo achou prudente permanecer em casa, racionar água e comida e se preocupar em enviar informações para o Brasil. Eles saíram do país três dias após o terremoto, época em que puderam constatar que a colaboração e o racionamento de mantimentos parecia tranquilo. “Estava todo mundo com a roupa do corpo na rua. Tudo tinha caído, mas as pessoas estavam ali, recolhendo os corpos, racionando e dividindo a pouca água e comida que ainda tinham. Um caminhão de um distribuidor de água haitiano estava parado entregando água para a população. Entre os haitianos tudo parecia calmo, rolava uma solidariedade. Mas até o quarto dia, quando nós fomos embora, a ajuda internacional ainda não havia chegado”. O exército brasileiro e as tropas da ONU não colocaram seus homens nas ruas e quem fazia a operação de retirada dos corpos eram os próprios haitianos. “Os grandes heróis foram e continuam sendo os haitianos”, diz Daniel contando que os jovens formavam equipes de resgate, se organizavam e “salvaram muitas vidas assim”, afirma ele. Como a ajuda internacional não chegou, o exército brasileiro e as tropas da ONU não foram para as ruas, o mau cheiro e o risco de doenças por conta dos corpos soterrados aumentavam. Por isso, com pasta de dente no nariz ou camisetas amarradas no rosto, os jovens empilhavam os corpos, pois dessa forma ficaria mais fácil de recolher ou queimar depois. “Quando a imprensa internacional chegou e viu aquilo, disse que era um protesto da população, que estava fazendo barricada com os corpos porque a ajuda não tinha chegado”. No cemitério, havia montanhas de corpos que haviam sido queimados e eles começavam a abrir valas comuns. Daniel lembra que “eram valas de sete mil corpos cada uma, sem cerimonial nenhum, sem ritual nenhum, tudo muito rápido”.

“Prioridade para armamentos”

Futuro – Segundo Daniel, ajuda internacional não chegava e logo começaram a faltar medicamentos, alimentos e outros suprimentos. Controlando as entradas do país, os Estados Unidos vetaram a entrada de aviões contendo medicamentos e outros suprimentos. Em nota publicada no dia 17 de janeiro, a Organização Médicos Sem Fronteiras afirma que “uma aeronave que trazia material médico e cirúrgico foi reenviada para a República Dominicana”. A nota ainda afirma que “a prioridade deve ser dos aviões que transportam equipes médicas e equipamentos para salvar vidas”. Daniel esclarece que os Estados Unidos têm interesse no Haiti, pois o país é um ponto estratégico. “Pega toda a região do Caribe, está encostado na América do Sul e, como está a apenas duas horas de vôo dos Estados Unidos, pode servir de base ou como rota de controle.” Daniel afirma que a prioridade do que chega é dos armamentos e que os Médicos Sem Fronteiras realmente não tinham mais medicamentos para tratar a população haitiana.
Mas para o estudante de sociologia, a situação no Haiti reflete um jogo de demonstração de poder. Os Estados Unidos querem manter seu domínio na região. O Brasil vem disputando há muito tempo uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, por isso é importante que eles demonstrem trabalho no Haiti. “O problema é que o trabalho de seis anos das tropas brasileiras foram destruídos em 30 segundos de terremoto”. O presídio foi destruído e cerca de seis mil presos saíram para as ruas. Todas as prisões que o exército fez para conter as ações de milícias no país foram em vão. “A tendência agora é que as milícias se fortaleçam ainda mais”, prevê o estudante.
Polêmica - Daniel postou seus vídeos no Youtube, mas o vídeo foi removido por violação de direito autoral. Daniel explica “Quando coloquei o vídeo no Youtube, o coordenador do projeto me chamou e disse que o Exército brasileiro havia entrado em contato com ele. Durante a viagem, o Comandante e representante do Exército nos recebeu e falou sobre as operações no Haiti. Em algum momento ele diz que a missão do Haiti é um laboratório para eles e que, apesar de estarem pagando um preço alto agora, o resultado refletiria mais tarde para o Brasil. Eu filmei esse encontro, com o consentimento do comandante e utilizei as imagens no vídeo que publiquei. O Exército alegou que eu não tinha o direito de divulgar imagens do comandante falando sobre a operação. Fizeram pressão sobre o professor, e o professor sobre mim. Me tiraram do grupo e disseram que eu os havia traído. O vídeo é meu, eu filmei tudo, editei, traduzi. Tirei o nome do grupo e assinei o vídeo sozinho. Foi quando o professor entrou com o pedido de remoção do vídeo no Youtube, alegando que, por ele ser o responsável pelo projeto, o vídeo era dele. Ameaçou me processar judicialmente e eu tirei o vídeo do ar. Resolvi esperar as coisas se acalmarem. A questão é que esse vídeo é individual, não fazia parte do projeto. E o comandante do exército brasileiro no Haiti é uma pessoa publica, eu não invadi a privacidade de ninguém. Depois, o professor me chamou para conversar. Já fiz centenas de cópias deste vídeo e estou espalhando para todo mundo. É a expressão de muita gente que precisava desabafar. Eu precisava desabafar, na verdade.” Em cima de seu nome, nos créditos do vídeo, Daniel reafirma que a verdade precisa ser dita e a voz do povo haitiano precisa ser escutada. Os vídeos, atualmente, podem ser vistos nos seguintes endereços:
www.dailymotion.com/video/xc3tkc_e-c-part-13_news
www.dailymotion.com/video/c3u0d_e-c-part-23_news
www.dailymotion.com/video/c3wxg_e-c-part-33_news

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