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sábado, 8 de setembro de 2012

O Concílio do impulso para a reconciliação



Na visão de John O’Malley, há algo nada católico no fato de atualmente algumas pessoas quererem fazer o Vaticano II “ir para trás”. “Só posso interpretar esse movimento como resultado de medo e ignorância e como uma tentativa de certas pessoas de formar uma igreja ‘à sua imagem e semelhança’”, afirma


“O Vaticano II foi um evento complexo, e não deveria ser reduzido a um único tema geral”. A opinião é do padre jesuíta e historiador da Igreja John O’Malley, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. Segundo ele, a reconciliação apreende uma dinâmica essencial que permeou o Concílio Vaticano II. Essa dinâmica, explica, se manifestou de várias formas. “O Concílio foi, por exemplo, uma reconciliação com as culturas não europeias; uma tentativa de reconciliar a igreja com outras igrejas cristãs; uma tentativa de reconciliação com os judeus; uma reconciliação com os muçulmanos; uma reconciliação com o ‘mundo moderno’, que o oficialismo católico tinha odiado e temido desde a Revolução Francesa”. E continua: “o documento final do Concílio, ‘Sobre a igreja no mundo moderno’, é a grande expressão desse impulso. Entretanto, o documento faz a afirmação balizadora de que, assim como a igreja ensina o mundo moderno, ela, por sua vez, aprende dele. Esse documento é dirigido a todos os homens e mulheres de boa vontade. Essa é a reconciliação mais global. A igreja quer abarcar e ajudar a humanidade toda”.

Considerado um dos historiadores da Igreja mais respeitado e reconhecido dos Estados Unidos, John W. O’Malley é doutor em História pela Universidade de Harvard. Atualmente é professor de Teologia da Georgetown University, de Washington (EUA). É membro da Fundação Guggenheim, da Academia Norte-Americana de Artes e Ciências e da Sociedade Filosófica Norte-Americana. Especialista em Concílios, com especial atenção ao Concílio de Trento e ao Concílio Vaticano II, é autor de What happened at Vatican II [O que aconteceu no Vaticano II] (Cambridge, MA: Harvard University Press/Belknap. Press, 2008) e A history of the Popes [Uma história dos Papas] (Lanham, MD: Sheed and Ward, 2006).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – A partir de uma análise histórica, em que medida o Concílio Vaticano II foi um marco referencial para a Igreja?


John O’Malley – O Vaticano II foi um marco na história do catolicismo. Nunca houve um concílio como ele antes, e, até certo ponto, o Vaticano II foi o primeiro concílio realmente “ecumênico” no sentido de que ecumênico se refere ao mundo inteiro – no concílio havia bispos de 116 países diferentes. O Vaticano II foi singular já pelo número de participantes – cerca de 2.200 bispos participavam em algum momento de suas quatro sessões entre 1962 e 1965, ao passo que o Vaticano I teve cerca de 700 e o Concílio de Trento, que foi aberto com apenas 32, teve apenas cerca de 200 em seu ponto alto. Nenhum concílio antes do Vaticano II jamais tentou fazer uma revisão tão completa da igreja, o que significa que nenhum concílio teve uma pauta tão expansiva. Foi o primeiro concílio a ocorrer após a invenção do telefone, do rádio e da televisão, o que quer dizer que ele foi o primeiro concílio em que houve verdadeiramente uma conversação entre os que estavam presentes na Basílica de São Pedro e o resto da humanidade do lado de fora.


Cinco características do Vaticano II

Essas características do Concílio, ainda que importantes, não são tão significativas quanto outras, das quais mencionarei cinco.

A primeira é: o Vaticano II foi o primeiro concílio a levar em conta culturas diferentes da europeia. Em seu primeiro documento, “A sagrada liturgia”, o concílio reafirmou que a Igreja estava aberta para toda e qualquer cultura e só excluía os aspectos que poderiam ser supersticiosos. O documento incentivou a inclusão de elementos tirados de culturas indígenas na própria liturgia.

A Igreja Católica sempre se definiu como católica, isto é, universal, mas na prática se identificava com a Europa. Houve exceções notáveis, como o caso dos jesuítas no Japão e na China , no século XVII, quando os missionários tentaram adotar e adaptar línguas, símbolos e formas de pensamento nativas. Mas esse experimento não durou. Especialmente no século XIX, os missionários se identificavam estreitamente com os governos da França, da Bélgica e de outros países que os patrocinavam, o que trouxe maus resultados quando as reações anticolonialistas ocorreram após a Segunda Guerra Mundial.

A segunda característica se segue quase como uma consequência da primeira. O Concílio queria fomentar a adaptação local e promover um grau maior de autonomia em muitas áreas da vida eclesiástica. Em outras palavras, a unidade na igreja não significava uniformidade em todos os sentidos. A introdução de liturgias no vernáculo constitui um grande símbolo desse princípio, mas a autoridade que o concílio concedeu às conferências episcopais nacionais ou regionais foi de natureza mais prática. É claro que a última palavra era da Santa Sé, mas a Santa Sé era o último recurso, e não o primeiro em muitos assuntos.

Mais profunda ainda foi a decisão do concílio de ensinar a doutrina da colegialidade episcopal (terceira característica), isto é, a doutrina de que os bispos como indivíduos e coletivamente têm uma responsabilidade contínua não só por suas próprias dioceses, mas também pela igreja de modo geral. Eles são parceiros do papa nesse tocante, embora não possam atuar legitimamente em oposição ao papa. Essa doutrina foi inflexivelmente rejeitada por uma pequena minoria no concílio, que continuou, de formas sutis e não muito sutis, a solapá-la após o concílio.

O que a maioria das pessoas não percebe é que a colegialidade não foi uma tentativa de “democratizar” a igreja, como seus inimigos gostam de rotulá-la, e sim a recuperação de uma tradição antiga segundo a qual o governo normal da igreja era “sinodal”, isto é, realizado por sínodos ou concílios. Concílios locais, dos quais houve centenas e centenas na longa história da igreja, tinham autoridade última pela área que estava aos seus cuidados, e os “concílios ecumênicos”, dos quais a Igreja Católica geralmente reconhece 21, eram o tribunal de apelação último. Só quando a autoridade papal começou a ficar mais forte no Ocidente na Idade Média é que surgiu uma contestação da primazia dos concílios.

A quarta característica é: o Vaticano II tentou levar em conta um dos mais notáveis traços do mundo moderno – a consciência histórica, isto é, uma percepção aguda da discrepância entre o passado e o presente. Essa consciência se desenvolveu gradativamente ao longo dos séculos, mas tornou-se dominante nos séculos XIX e XX. Ela foi aplicada a assuntos sacros. A doutrina da Imaculada Conceição de Maria, proclamada dogma pelo Papa Pio IX em 1854, era desconhecida na Igreja até a Idade Média. Como explicar esse fato, numa igreja cuja função é passar adiante o ensino dos apóstolos e nada além disso? Como explicar que a confissão dos pecados a um sacerdote é necessária antes da Sagrada Comunhão, quando essa prática só se desenvolveu na Idade Média?

Questões como essas não podiam ser honestamente evitadas em meados do século XX. O concílio tentou tratar delas de várias maneiras, incluindo a ideia de “desenvolvimento”, uma forma de evolução. De qualquer modo, o fato é que nenhum concílio antes do Vaticano II jamais lidou seriamente com esse problema, e nenhum concílio terminou com uma concepção mais dinâmica da Igreja. A mais óbvia expressão desse dinamismo é o termo italiano aggiornamento, tantas vezes aplicado ao Vaticano II, que significa uma atualização. Mais básico para o concílio, entretanto, foi o resgate de tradições mais antigas – como a colegialidade, por exemplo – para ajustar e qualificar a situação no presente. Esse também é um procedimento dinâmico.

A quinta característica é: o Vaticano II queria responder à solicitação feita pelo papa João XXIII de que o Concílio mostrasse que a Igreja “é a mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de bondade e misericórdia”, como ele disse no discurso com que abriu o Concílio em 11 de outubro de 1962. O que de fato é mais notável em relação aos documentos do Vaticano II é que eles adotam um vocabulário para refletir o objetivo do papa, um vocabulário virtualmente desconhecido em concílios anteriores. Os concílios anteriores agiam como órgãos legislativos, definindo penas para o descumprimento da lei, e como tribunais para criminosos eclesiásticos, impondo punições aos culpados – o que, no notório caso de Jan Hus  no século XV, significou morte na fogueira.


Menos culpa e mais parceria

O Vaticano II evitou o vocabulário da punição e culpa, o vocabulário dos anátemas, e o substituiu por um vocabulário de amizade, parceria, reciprocidade e interioridade. A mudança visava causar impacto no comportamento da igreja e, assim, de cada cristão, especialmente dos que têm autoridade. Ela queria mudar o estilo em que a Igreja atuava – ou ao menos como se percebia que ela atuava – mais ou menos de acordo com o seguinte padrão:

da coerção para a consciência
da hostilidade para a amizade
da rivalidade para a parceria
da suspeita para a confiança
do domínio para o serviço
das ameaças para a persuasão.

Essa lista pode ser melhor entendida e apreciada se levamos em conta o que considero o principal impulso do concílio, que ajuda a explicar todas as suas principais decisões. Trata-se do impulso para a reconciliação. O Vaticano II foi um evento complexo, e não deveria ser reduzido a um único tema geral. Não obstante, creio que a reconciliação apreende uma dinâmica essencial que permeou o concílio. Essa dinâmica se manifestou de várias formas. O concílio foi, por exemplo, uma reconciliação com as culturas não europeias, como sugeri acima. Ele foi uma tentativa de reconciliar a Igreja com outras igrejas cristãs, como no decreto sobre o ecumenismo. Foi uma tentativa de reconciliação com os judeus, especialmente depois do horror do Holocausto, que aconteceu na Alemanha, cuja população professava ser cristã, mas cometeu as mais execráveis atrocidades. Foi uma reconciliação com os muçulmanos, não mais rotulados de “nosso inimigo ímpio e eterno”, como disse o Papa Paulo II no século XVI.

Ele foi uma reconciliação com o “mundo moderno”, que o oficialismo católico tinha odiado e temido desde a Revolução Francesa. O documento final do concílio, “Sobre a Igreja no mundo moderno”, é a grande expressão desse impulso. Observe o título: a igreja no mundo moderno, não para o mundo moderno, nem contra o mundo moderno, mas simplesmente no mundo moderno. Entretanto, o documento faz a afirmação balizadora de que, assim como a Igreja ensina o mundo moderno, ela, por sua vez, aprende dele. Esse documento é dirigido a todos os homens e mulheres de boa vontade. Essa é a reconciliação mais global. A Igreja quer abarcar e ajudar a humanidade toda. “Nada que seja genuinamente humano é estranho aos seguidores de Cristo”, diz o texto.


IHU On-Line – Em que medida o Concílio Vaticano II pode ser ainda atual?


John O’Malley – O Vaticano II ainda é atual e relevante para nós hoje? Creio que ele certamente o é, e de muitas formas, que não tenho tempo nem espaço de aprofundar agora. Mas certamente nada poderia ser mais relevante para nosso mundo de hoje do que a necessidade de reconciliação. Guerras, rumores de guerra, genocídios e outros atos de ódio e violência parecem estar em toda parte. Dentro da Igreja, há facções que travam encarniçadas guerras de propaganda. A reconciliação não poderia ser mais contracultural e, assim, mais cristã. “Vim para reconciliar o mundo com o Pai”. A missão de reconciliação de Jesus é a missão que o concílio nos impôs.


IHU On-Line – Como o senhor interpreta as recentes decisões da cúria romana em retomar costumes litúrgicos anteriores ao Vaticano II, ou então reabilitar o movimento lefebvriano? Por que esse recuo da Igreja?

John O’Malley – Não há um movimento em marcha para reverter as decisões do Vaticano II e minimizar sua importância? Não há dúvida de que esse movimento existe. Até mesmo no Concílio, um pequeno grupo de bispos nunca o aceitou, e em anos recentes essa facção, que no passado era quase minúscula, ficou mais forte e está nos mais elevados lugares. Hoje em dia, às vezes se ouvem pessoas que se jactam de ser “bons católicos” (talvez até se jactem de ser “os verdadeiros católicos”) dizer também que não aceitam o Vaticano II. Absolutamente não entendo como católicos, bons ou maus, podem rejeitar um concílio ecumênico. Isso é inteiramente contrário à tradição da Igreja desde o Concilio de Niceia  no século IV. O Vaticano II foi produto dos bispos do mundo todo, que se encontraram por um período de quatro anos, consultaram os melhores teólogos da época, e foi promulgado pelo Papa Paulo VI, vigário de Cristo. Há algo nada católico em relação a qualquer pessoa atualmente que queira fazer o Vaticano II “ir para trás”. Só posso interpretar esse movimento como resultado de medo e ignorância e como uma tentativa de certas pessoas de formar uma igreja “à sua imagem e semelhança”, e não de acordo com aquela da mais elevada autoridade na Igreja, um concílio ecumênico presidido por dois papas.


Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa 
Tradução de Luís Marcos Sander

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