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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Para Casaldáliga filme não deve ser pessoal, mas retratar as verdadeiras causas da luta



A vida de Pedro Casaldáliga, o bispo espanhol reconhecido como um dos grandes expoentes da Teologia da Libertação latino-americana e radicado, desde 1968, no distante São Félix do Araguaia (Brasil), está sendo filmada numa coprodução brasileira-espanhola para a televisão.
"Nesta terra é fácil nascer e morrer, o difícil é viver", disse Casaldáliga, da região que há 44 anos adotou, quando chegou a São Félix (no Estado de Mato Grosso, na Amazônia) e encontrou-se com um mundo de tensões sociais, onde grandes latifundiários se empunhavam sobre os pobres, camponeses e indígenas.

Hoje, com 84 anos e ainda radicado em São Félix, continua empenhado em sua luta. "Nós nos conformamos com este sistema que faz da humanidade um negócio", declarou à agência AFP, com a voz fragilizada pelo Parkinson, mas com uma lucidez intacta.

Casaldáliga também continua defendendo uma Igreja comprometida com o povo. "Hoje, mais do que nunca, a Igreja teria que ser a voz da esperança", disse, e defendeu que "o Vaticano não seja Estado, o Papa não seja chefe de Estado, que reconheça os direitos da mulher, que não seja uma Igreja de poder e sim de serviço", disse.

Este padre catalão, que nunca voltou para a Espanha, enfrentou os latifundiários, o governo e até o Vaticano em sua denúncia ao latifúndio e defesa dos camponeses, indígenas e por uma Igreja mais comprometida. Viveu ameaçado de morte por pistoleiros, e foi fundador da Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista, marcos na luta pela reforma agrária e pelos direitos dos indígenas.

"A [vida] de Casaldáliga é uma história de luta e conquista da terra, no Brasil, e a de compromisso de um homem que diante de uma situação extrema, deu uma resposta extrema, entregando sua vida para resolver essa situação. É uma história universal e isso é o que dá força ao filme", conta à agência AFP, Francesc Escribano, escritor e jornalista catalão, autor do livro "Descalço na terra roxa", que dá título ao filme, do qual também é produtor.

Uma equipe de 100 pessoas chegou a São Félix do Araguaia para as filmagens, até início de setembro. A cidade, distante 24 horas de ônibus de Brasília, hoje possui cerca de 10.000 habitantes e carece de estradas asfaltadas.

Para o filme, foram reconstruídos cenários que procuram voltar a como era 40 anos atrás: uma terra em processo de colonização, com prostíbulos e pistoleiros, explica Escribano.

O autor catalão, Eduard Fernández, interpreta Casaldáliga na que será uma minissérie de dois capítulos, com um orçamento de 3,5 milhões de euros, contando com o roteirista do premiado filme "Central do Brasil", Marcos Bernstein, em que participam a Televisión Espanhola, a catalã TV3 e a TV Brasil.

Em 1988, Casaldáliga foi chamado a Roma e submetido a um duro interrogatório pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Interpretado como um empuxo entre dois pesos pesados da Igreja, esse diálogo é o ponto de partida do filme. Em 1985, o bispo catalão viajou a Nicarágua para apoiar a greve de fome do chanceler e sacerdote Miguel d'Escotto, e para Cuba a convite do então presidente Fidel Castro. Dele, o teólogo brasileiro frei Betto, um símbolo da esquerda católica latino-americana, afirmou: "Há no Brasil um santo e herói, Pedro Casaldáliga. Santo por sua fidelidade radical ao Evangelho, herói pelos riscos de vida enfrentados e as adversidades sofridas".

"Não façam um filme sobre mim, que seja um filme sobre as verdadeiras causas desta luta: a vida, a liberdade e a dignidade", pediu Casaldáliga ao seu amigo Escribano, quando soube que produziria o filme.


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 A vida de Dom Pedro Casaldáliga, 'o bispo dos pobres', chega à TV

Brasília, 13 ago (EFE).- A liturgia solidária do bispo catalão Dom Pedro Casaldáliga, que durante décadas foi no Brasil a voz dos índios, dos sem-terra e dos mais pobres, chegará à televisão transformada em uma série por seu compatriota Francesc Escribano.
'É a história de alguém que veio para transformar o povo, mas acabou transformando a terra', declarou Escribano à Agência Efe, que filma a série 'Descalço Sobre a Terra Vermelha', baseada no livro de mesmo nome que escreveu sobre a vida do bispo.
A filmagem é feita em São Félix do Araguaia, um humilde povoado do interior do estado do Mato Grosso, aonde Casaldáliga chegou em 1968 e ainda reside, com 84 anos de idade e lúcido, apesar do mal de Parkinson que o acomete há muito tempo.
Nesse mesmo lugar, Escribano conheceu Dom Pedro Casaldáliga em 1984, quando fez a primeira das entrevistas que depois resultaram no livro 'Descalço Sobre a Terra Vermelha', publicado em 2002.
Tanto esse livro como o 'documentário-ficção' são para o jornalista espanhol 'algo como um 'western' com forte carga espiritual', que descreve o duro retrato humano encontrado por Casaldáliga quando chegou à São Félix do Araguaia.
'Esta parte do Mato Grosso era em 1968 uma região abandonada por Deus, extremamente violenta, e com os índios em uma luta feroz por suas terras com fazendeiros que não perdoavam', afirmou Escribano por telefone.
A história retrata essa luta e a forma como o bispo catalão se envolveu nela até abraçar a Teologia da Libertação, uma corrente teológica nascida entre os movimentos de base da Igreja Católica no Brasil e que depois se expandiu pelo resto da América Latina.
Por essa causa, Casaldáliga voltou à Europa em 1988, pela primeira vez desde que chegou ao Mato Grosso.
Mas o fez porque 'foi chamado para uma audiência' pelo Vaticano, disse Escribano, explicando que essa ida à Santa Sé é um dos fios condutores da trama.
Nessa oportunidade, além de ter uma audiência com o papa João Paulo II, Casaldáliga teve 'uma verdadeira queda de braço religiosa' com Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI e então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que condenava os princípios 'marxistas' identificados na Teologia da Libertação.
Durante a rodagem desta produção, que levará oito semanas em São Félix do Araguaia, Escribano disse que 'todo o povo' e o próprio Casaldáliga passam por 'uma autêntica revolução', ao reviver passagens de sua própria história 'que muitas vezes não são as melhores'.
O bispo recebe quase diariamente uma parte do elenco e, segundo palavras de Escribano, sempre os atende com uma mesma frase que remete ao seu delicado estado de saúde: 'Estou vivo'.
O projeto é uma co-produção hispânico-brasileira da qual participam a 'Televisió de Catalunya' (TV3), a 'Televisión Española' (TVE), a 'TV Brasil' e as produtoras 'Minoria Absoluta' e 'Raiz Produções'.
A produção terá um custo aproximado de R$ 7,5 milhões, que foram financiados em parte por empresas dos dois países, entre elas as espanholas Endesa e Mapfre, e a Petrobras.
A filmagem conta com mais de 1.200 figurantes da região de São Félix do Araguaia. No papel de Casaldáliga estará o ator espanhol Eduard Hernández.
'Já trabalhei em 25 ou 30 filmes, mas este é o personagem mais especial, o mais importante que já tive e para o qual precisei 'me esvaziar' para poder fazer um Pedro 'limpo' e assumir o compromisso que ele teve durante sua própria história', disse Hernández.
Uma história que, segundo Escribano, o 'bispo dos pobres' queria ter escrito e refletido de outra maneira.
'Disse que queria evitar o 'benefício próprio', que preferia um filme sobre as causas e não sobre uma pessoa concreta', porque a história de suas lutas 'foi comunitária', explicou Escribano, confessando que só pôde cumprir 'a metade' desse desejo. EFE
Eduardo Davis

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