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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Revista Perspectiva Teológica.



 
A partir de 2010 os três números anuais de Perspectiva - Revista de Teologia saem também em versão eletrônica. Com essa iniciativa, os responsáveis pela revista pretendem disponibilizar a um público mais amplo o acervo de reflexão Teológica acumulado em suas páginas ao longo dos anos. O conteúdo dos números anteriores será progressivamente divulgado on-line.

A uma secularização triunfante, seguiu-se um reflorescimento do extremamente ambíguo
fenômeno religioso, a ponto de falar-se de uma "Nova era". As seitas pululam. A teologia
é substituída por uma vasta e fluida literatura religiosa das mais diversas tonalidades
possíveis que lotam estantes de livrarias de aeroportos e rodoviárias.

A coragem e a expectativa de mudanças profundas nas estruturas eclesiásticas levavam
a pena do escritor do primeiro artigo da Revista a levantar a questão de a configuração
da administração eclesiástica, a caracterização monárquica do episcopado, a organização
territorial da Igreja, a diversificação dos ofícios e ministérios serem tributárias
das reformas políticas da Europa antiga e medieval e portanto não necessariamente vinculadas
ao núcleo cristão intangível. 

Hoje, pelo contrário, experimenta-se um reforço da centralização, um enrijecimento das estruturas eclesiásticas. Então se acentuavam a dimensão de serviço da hierarquia ao Povo de Deus, a Igreja dos pobres e dos pecadores, uma abertura nova ao ecumenismo e sobretudo o encontro com o mundo moderno.

Hoje a dimensão de serviço acanhou-se. Afigura da Igreja dos pobres adquirira pelo
impacto de Medellín e Puebla tal novidade e vigor que se tornou para muitos setores da
Igreja intolerável ameaça. Prefere-se falar de reconciliação e evitar qualquer epíteto  que
insinue uma Igreja das bases, popular ou dos pobres. Enfim, a opção nítida
pelos pobres, pela libertação, pela fé articulada com a promoção da justiça,
no espírito da fidelidade à Verdade e da liberdade acadêmica, encontra também seus
percalços no momento atual.

Entretanto continua missão desta Revista teológica: batalhar pelos ideais ousados que
ela se propôs, sobretudo na sua segunda fase. A prática da teologia é uma tarefa que
implica fazer-se contemporâneo a uma situação e guardar, ao mesmo tempo, uma distância
crítica dela.

Contemporâneo aos problemas, às perguntas fundamentais, aos desafios que a Igreja,
a pastoral, o fiel simples, os homens e mulheres da atualidade vivem e sofrem. Contemporâneo
no esforço de falar não somente às pessoas de hoje, mas de suas interrogações
e buscas fundamentais, inquietadoras. Mas não necessariamente contemporâneo no sentido
de falar a uma sensibilidade superficial nem de responder a medos das autoridades.

Em função de tal sensibilidade, gira pelas mãos de leitores ávidos do religioso abundante
literatura. A serviço do poder, existem os perenes escribas, repetidores fiéis de frases
feitas de documentos. São reprodutores incansáveis do mesmo na alegria servil do sorriso
complacente dos narcisos no poder.

A teologia toma distancia crítica. Não busca a demagogia fácil do aplauso Imediato,
nem o apoio rápido do poder. Sabe que pode contrariar interesses imediatos, sobretudo
ao procurar ser profundamente democrática, reconhecendo no povo (demos), máxime
simples e fiel, o poder, a força (cratos) inspiradora, alimentadora de suas reflexões. 

A teologia persegue, portanto, uma "democracia na e da fé" do cristão fiel. Nasce de uma
responsabilidade de fé em vista do povo e volta-se para ele. Não visa diretamente nem
aos seus pares da teologia, nem às autoridades, mas ao povo de Deus. É serviço a este.

Dos teólogos profissionais, recebe ajudas em forma de críticas e reforços. São ajudas, mas
nunca a última palavra. 

Da hierarquia acolhe o testemunho da verdade, mas não pratica o puro espelhismo de seu poder.

A Revista é consciente da ousadia de ser teológica no sentido estrito e, ao mesmo
tempo, responder aos imperativos pastorais das comunidades eclesiais vivas e populares.
A teologia toca com sua reflexão arquétipos religiosos profundos do povo. São resistentes
e dão consistência de sentido e vida ao povo fiel. Constituem o escrínio sagrado da
cultura popular. Violentá-los, profaná-los com teologias secularizantes de Primeiro Mundo
pode transformar-se num desserviço eclesial. Mantê-los também no nimbo religioso da
alienação conflita com a causa libertadora desse mesmo povo pobre.

Respeito e crítica devem conjugar-se na tarefa teológica que a Revista se propõe.

Pretende conservar a riqueza cultural religiosa da fé popular, de um lado, e. de outro,
antecipar-se aos problemas que a ameaçam afim de prepará-la para os embates duma
modernidade que não pede licença para entrar. Atrasar pode ser-lhe ruína. Precipitar-se
pode produzir o mesmo efeito.

No equilíbrio da captação da riqueza da sabedoria e
religiosidade popular e da crítica de seus limites alienantes situa-se o jogo teológico a ser
conduzido com responsabilidade e audácia.

Nem sempre tal tarefa é entendida. Cabe aguardar na paciência histórica que muitas
das reflexões hoje produzidas possam amanhã ser percebidas na sua profundidade.

Se tivesse faltado aos teólogos pré-conciliares esta distância e paciência não teríamos tido o
Concilio Vaticano II. Não foram os teólogos da repetição escolástica, que gozavam da
aura do poder, que o gestaram, mas aqueles que sofreram a incompreensão, as suspeitas,
e, entretanto, fiéis na liberdade de escrever, confiantes no rolar da história e pacientes em
face dos acontecimentos adversos, permaneceram na lide teológica até serem recuperados
pela grande Tradição da Igreja.

A teologia da América Latina, que se quer produzir e veicular nessa Revista, sofre
no momento duplo perigo: embalar-se com apoios superficiais e afetivos, sem a consistência
da crítica, ou recuar ao cômodo servilismo do escrita sem liberdade crítica. A
teologia, como toda estrutura cristã, participa em profundidade do mistério pascal. Não
há ressurreição histórica, não há reconhecimento de profundidade que não passe pelas
cruzes da dúvida, pelos dilaceramentos da verdade não percebida, pelas incompreensões
das hierarquias, pela ironia sarcástica dos poderosos.

A teologia não é nenhum empreendimento derivado de outra atividade de que depende
na sua própria estruturação. Também não goza da autonomia absoluta da razão
segundo o catecismo da ilustração kantiana. Na unidade de um só Espírito, um só
Senhor e um só Deus, participa da diversidade dos dons, dos ministérios e dos modos de
agir (ICor 12,4-6). É, antes de tudo, interação, com carisma próprio e original, mascom
referências fundamentais à revelação, ao povo fiel, ao magistério eclesiástico. Daí lhe
surgem as fidelidades necessárias.

A sua fidelidade última é ao Senhor Jesus, que nos revelou o mistério da Trindade.
E, ao seguir Jesus, mais uma vez a teologia assume sua tarefa fundamental de fazer-se
contemporânea e guardar distância crítica. Pois Jesus foi o primeiro a viver esta dialética
da contemporaneidade e da distância. Foi extremamente contemporâneo ao anunciar o
tão desejado e sonhado Reino de Deus. Era realidade fascinante para o judeu da época.
Guardou distância crítica quando rompeu os esquemas religiosos e organizacionais dos
poderes judaicos. Pagou o preço da cruz. Venceu o tempo pela ressurreição e pela presença
até hoje de sua mensagem
.
Esta Revista propõe-se  mais uma vez, para o próximo quartel de século de vida ouvir
a realidade, expressa especialmente na vida do povo fiel e sofrido, captar-lhe  em
profundidade os sinais a fim de oferecer uma palavra de fé refletida. A revelação, palavra última
de nossa fé, pede de nossa reflexão teológica sempre nova linguagem, nova abordagem de
conteúdo, nova configuração, dentro de sua Identidade continuada, que não se percebe
pela linearidade da letra formulada, mas pela "recepção" garantida pelo "sensus fidei"
e "sensus fidelium". 

É o reconhecimento na fé, que não se faz instantaneamente, mas ao
longo de uma caminhada da comunidade, que é o aval maior, desejado e acolhido na
gratuidade e surpresa. Por isso, quanto mais a hierarquia estiver próxima ao povo fiel,
tanto mais ela será critério da verdade, que o mesmo Espírito agita nos segmentos vivos
da sua Igreja. E quanto mais ela se afasta perigosamente do povo, tanto menos capaz se
faz de exercer sua função de árbitro e confirmadora da verdade. 

O último critério da verdade na Igreja nunca é uma Instância humana. É sempre o Espírito de Deus que.
numa predileção benevolente e maravilhosa, quis ocultar os seus mistérios "aos sábios e
aos inteligentes" e revelá-los "aos pequeninos" (Mt 11,25).

A teologia está sempre consciente de que trabalha com a verdade numa dimensão
escatológica e salvífica. Participa do "já" atual dessa verdade a ser transmitida como
fonte de sentido, vida e salvação para os homens e mulheres. Entretanto sofre sua pequenez
diante do "ainda não" desvelado de uma Verdade plena, do "Deus sempre maior",
que a impulsiona sempre a ultrapassar os limites já alcançados.
Com essa consciência esta Revista deseja prosseguir seu serviço de reflexão séria e
livre, na humildade de suas fracas forças, mas forte na confiança Naquele em quem
acreditou (2Tm 1,12).

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