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terça-feira, 17 de abril de 2012

O teólogo dos pobres, dos menos favorecidos e dos miseráveis da América Latina

“A pobreza não é uma fatalidade, é uma condição; não é um infortunio, é uma injustiça. É resultado de estruturas sociais e de categorias mentais e culturais, está unida ao modo como se construiu a sociedade, em suas diversas manifestações” (Gustavo Gutierres Merino).

Gostaria de fazer uma pequena homenagem, a um querido ex-professor que tive na disciplina de Teologia Pastoral, quando ainda era estudante de teologia e que me ajudou muito a pensar e refletir a fé de forma mais critica, e ao mesmo tempo fazer uma leitura mais realista da vida. Talvez ele não leia este artigo, mas fico grato a ele pelos ensinamentos, que com sua imensa sabedoria soube transmitir a todos nós que tivemos o privilegio de ouvi-lo numa sala de aula.

Ele é uma pessoa extremamente simples. Alias, a humildade e a simplicidade são a sua marca registadas. Seu olhar tímido e sua voz um tanto ronquido, ajudou-nos a construir um dialogo profundo entre fé e ciência. O seu nome é Gustavo Gutiérrez Merino. Nasceu em Lima, Peru, em 8 de junho de 1928. É um teólogo peruano e sacerdote dominicano, considerado por muitos - com toda justiça – como o fundador da Teologia da Libertação. Possui 23 títulos de Doutor Honoris Causa outorgados por universidades de diversos países: 5 no Peru, Argentina, Holanda, Suiça, dois na Alemanha, dez nos Estados Unidos, dois no Canadá e também na Escócia, obtidos entre 1979 e 2006. Ganhou o Prémio Príncipe das Astúrias em 2003 na Categoria Comunicação e Humanidades.

Foi ordenado sacerdote em 1959. Gutierrez, na década de 60, foi o primeiro a falar na igreja dos pobres e, na década seguinte, elaborou o conceito teológico propriamente dito. É considerado por muitos o pioneiro na sistematização da Teologia da Libertação na década de 70, quando lançou o livro Teologia da Libertação, esta obra marcou, uma nova forma de pensar na América Latina do Século XX.

Na sua obra Teologia da Libertação, focaliza que o nosso Deus (o Deus Judeu-Cristão) é o Deus da Aliança com os marginalizados e desclassificados. No seu livro, o professor Gustavo Gutierrez afirma que o cristianismo da misericórdia não devia ser apenas da assistência pela esmola, mas do compromisso com a superação das desigualdades sociais. Dessa forma, a Teologia da Libertação oferecia uma nova espiritualidade para o engajamento paroquial, comunitário e religioso. Isso se manifestou num “novo jeito de ser Igreja”, que se concretizou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Assim, o professor Gustavo Gutiérrez cria, no fim dos anos 60, um método teológico desde e para a América Latina pobre e oprimida. Deu a essa reflexão da fé a partir do reverso da história o nome de Teologia da Libertação. Seu raio de projeção tem sido verdadeiramente impressionante: desde a teologia negra, índia, asiática, feminista, ecológica e das religiões até a teologia judaica e palestina da libertação.

No movimento da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez ocupa um lugar em destaque. A ele deve-se a primeira obra sistemática de reflexão crítica a partir da práxis histórica da libertação em confronto com a palavra de Deus, acolhida e vivenciada na fé. Em sua ótica, a teologia é representada com um ato segundo, que supõe como ato primeiro não uma práxis qualquer, mas a práxis da fé, isto é, uma espiritualidade caracterizada pelo compromisso com o outro – que no contexto latino-americano é o empobrecido – e, então, pela luta em prol da justiça que o Deus da vida não só comanda mas compartilha.

Trata-se de uma teologia “do avesso da história”, que se deixa provocar pela identificação de Cristo com os oprimidos e leva os cristãos a “descer do inferno deste mundo”, e a “comungar com a miséria, com a injustiça, com as lutas e com as esperanças dos condenados da Terra, porque deles é o Reino dos Céus”, dizia sempre com uma firme convicção. Nesse sentido, o objetivo da teologia é “apologético” no significado mais elevado: dar testemunho do Deus da vida que escuta o grito do pobre.

Segundo o Padre Gutierrez: “Vivemos numa época dominada pela economia liberal, ou, se se preferir, neoliberal. O mercado irrestrito, chamado a regular-se com as suas próprias forças, passa a ser o princípio, quase absoluto, da vida económica. O célebre e clássico “deixar fazer” do início da economia liberal postula hoje de forma universal – pelo menos na teoria – que toda a intervenção do poder político, mesmo para atender a necessidades sociais, prejudica o crescimento económico e redunda em prejuízo geral. Por isso, se se apresentam dificuldades nos rumos económicos, a única solução é mais mercado”.

A consequência de esta nova forma de realizar uma leitura sociologia da realidade, segundo Gutierres nos leva: “Na raiz de nossa existência pessoal e comunitária se acha o dom da auto-comunicação de Deus, a graça de sua amizade enche de gratuidade a nossa vida. Faz-nos ver como um dom nossos encontros com os outros homens, nossos afetos, tudo o que acontece”.

Para o Professor Gustavo Gutierres, a mudança de vida, a “Conversão significa transformação radical de nós mesmos, significa pensar, sentir e viver como Cristo presente no homem despojado e alienado”. Assim, o teólogo da libertação, desafia as consciências alienadas de muitos cristãos: “A fé não é coisa que se conserve num cofre-forte para protegê-la, é vida que se exprime no amor e na dedicação aos outros. Nos Evangelhos ter medo equivale a não ter fé… A parábola dos talentos ensina-nos que uma vida cristã, baseada não na formalidade, na autoproteção e no medo, mas na gratuidade, na coragem e no sentido do outro, constitui a alegria do Senhor. E a nossa”.

Afinal, Gutierres lança o desafio da sua construção teológica da práxis concreta. Já que para Ele, a fé alimenta a politica e a politica deve ser vivenciado como espaço de libertação dos pobres: “Além de qualquer dúvida, a vida do pobre é marcada pela fome e pela exploração, cuidado médico inadequado, ausência de habitação digna, dificuldade em alcançar alguma educação, salários injustos e desemprego, lutas por seus direitos e também repressão. Mas não é tudo. Ser pobre é também uma forma de sentir, conhecer, pensar, fazer amigos, amar, crer, sofrer, celebrar e rezar. O pobre constitui um mundo em si mesmo. Compromisso com o pobre significa entrar e, por vezes permanecer neste universo, com uma consciência muito mais clara; significa ser um dos seus habitantes, olhando para ele como local de residência e não só de trabalho. Não significa ir a este mundo pontualmente, para testemunhar o Evangelho, mas antes, dele emergir, cada manhã, com o propósito de proclamar as boas novas a todo ser humano… Vemos com clareza crescente que se exige uma imensa dose de humildade para que as pessoas se comprometam com os pobres dos nossos dias”. Os pobres são inúmeros que não caberia neste espaço denomina-los.

Para o Professor Gustavo Gutierres, a teologia é uma “carta de amor”, jamais deixou de encontrar no sublime dialogo entre fé e ciência, aquele caminho de libertação que todos gostariam de trilhar, mas, são poucos os que têm a coragem de abraçar. O professor Gustavo Gutierres não tem medo e continua pregando, alias, ele é incansavelmente batalhador, e com certeza que agora mesmo em algum bairro periférico de Lima no Peru ou em outras favelas de algum país da América Latina, continua gritando por justiça e libertação, já que para ele, como nos dizia na sala de aula, naquelas noite fria de Buenos Aires: “…fazer teologia é escrever uma carta de amor ao Deus em que eu creio, ao povo ao que pertenço e a Igreja da que formo parte (….) Uma teologia que não se situe no contexto de uma experiência de fé corre o risco de converter-se numa espécie de metafísica religiosa, numa roda que gira no ar sem mover o carro (…..) Mais do que teologias, os testemunhos vividos é que assinalarão e já estão assinalando o rumo de uma espiritualidade da libertação”. Já que o cristianismo não é uma religião mágica e milagreira. A ideia base que surge do kerigma, daquele primeiro anuncio, nós incentiva a redescobrir um Cristianismo que é ante de tudo, anuncio da boa noticia da libertação dos poderosos deste mundo.

O professor Gustavo Gutierres foi sempre um fervente incentivador de novas formas de pensar, já que com seu exemplo de simplicidade e humidade soube semear em nós a semente da coragem, para gritar com coragem e sem medo, em meio às incompreensões, que ainda é possível mudar as realidades injustas que encontramos em todos os cantos das nossas comunidades, seja ela, pobre, ricas ou miseráveis.

Daniel Brizueña



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