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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um olhar atento sobre a Pastoral Atual


Padre Valdery (Foto: Reprodução do Blog Totó Rios)Estar em dia com a Igreja supõe não estar por fora das etapas de sua história recente. Também quanto à história local. Dentre as propostas e decisões pastorais de nossa Diocese destaca-se o espírito e as atividades ligadas às Santas Missões Populares.

O método adotado é o do padre Mosconi, escolhido na época para vir a Sobral na fase de sua implantação, há cinco anos.

As Missões Populares estão aí animando as celebrações ligadas à preparação do 1º Centenário de criação da Diocese.

Tentando contribuir na reflexão, Em Dia Com a Igreja traz um comentário do mesmo padre Mosconi, fazendo um balanço do que aconteceu na pastoral da Igreja no Brasil, especialmente no aspecto da Catequese e da leitura da Bíblia, nos últimos 40 anos.

Assim, no caso é preciso estar atento não só aos pontos positivos, mas também às falhas, porque o uso da Bíblia está diretamente ligado à visão de pastoral e a maneira de realizá-la.

Com este olhar de quem quer acertar, assim comenta padre Mosconi: “São inegáveis os avanços da pastoral no Brasil nos últimos 50 anos. Na década de 50, no século passado, com a chegada dos ideais da Ação Católica (graças, sobretudo, ao incentivo de D. Hélder Câmara), ventos novos começaram a soprar na Igreja.

Foi nessa época que surgiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), uma das primeiras experiências em nível nacional no mundo católico. Depois veio o Concílio Vaticano II (1962-65), que assumiu rosto latino-americano na Assembléia Episcopal de Medellín (1968) de Puebla (1979). A partir desses momentos históricos, inúmeras paróquias e dioceses do continente latino-americano abriram-se para novos caminhos pastorais.

Dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) cresceram nas décadas de 70 e 80, despertando energias novas para a transformação da dura realidade sociopolítica do continente. Na década de 90 foi a vez dos Movimentos Eclesiais espalharem-se rapidamente por todo o continente.

Pe. Mosconi fala de coisas que num passado mais remoto não aconteciam. Hoje, já se pode participar de celebrações animadas. Há agentes de pastoral dedicados e capacitados. Há esforço significativo para realizar uma pastoral orgânica e de conjunto.

Mas, pergunta ele, está tudo cem por cento? E responde: Não, também há falhas. Das muitas elencadas por ele, Em Dia com a Igreja destaca 10 (de a a j) de cada um dos dois blocos em que ele divide seu trabalho:

01. FATOS DA PASTORAL ATUAL: Ao longo de sua análise, lembra que há separação entre atividade pastoral e vida das pessoas, as quais têm anseios, buscas, dificuldades e sonhos; que há pessoas que se sentem na pastoral mais objeto do que sujeito; que há pouca pastoral social, separada da pastoral de conjunto, atendo-se apenas a situações de emergência.

Falhas:
Fragmentariedade e ativismo. Há paróquias com muitas atividades pastorais, mas sem projeto pastoral claro e cativante, capaz de articular e orientar todo o trabalho. Faz-se aqui uma pastoral imediatista, fragmentária, ¨tapa buracos¨. Quando há projeto, frequentemente não está na linha transformadora do Evangelho.

Repetitividade. Muitas agendas pastorais estão sobrecarregadas desde o início do ano (Campanha da Fraternidade, Quaresma, mês de maio, mês vocacional, mês bíblico, mês missionário, Advento, novenas, festas, reuniões). Há aqui muito de repetitivo, de falta de criatividade.

De tudo um pouco. Certas paróquias parecem supermercados, onde se pode encontrar todo tipo de produtos religiosos. Corre-se o risco de consumismo religioso.

Agitação e superficialidade. Cria-se ambiente de permanente corre-corre, em que há muito barulho e pouca escuta – também nas celebrações.

Legalismo. Em certos ambientes pastorais há clima frio, sem vida, com tudo sob o controle de alguns, tendo-se normas para tudo.

Caminhos contraditórios. Paróquias vizinhas – e, em alguns casos, até a mesma – com opções pastorais opostas, provocando tensões e conflitos.

Uniformidade. Adota-se mais a uniformidade do que o pluralismo, mais a dispersão do que a comunhão, mais o autoritarismo do que a participação, mais pessoas ¨tarefeiras¨ do que criativas.

Pouco discernimento. Nas reuniões e assembléias há pouco espaço para o diálogo sereno, o discernimento, a meditação e a oração silenciosa.

Devocionismo. Promovem-se orações e devoções, com promessas para alcançar prosperidade – quando há muitos pedidos e pouca gratuidade.

Pouca profecia. Há pastorais ingênuas, sem envolvimento consciente com os grandes desafios atuais, tanto no campo eclesial quanto sociopolítico.

02. USO DA BÍBLIA NA PASTORAL ATUAL – Aqui, padre Mosconi tenta constatar como a Bíblia é acolhida, lida e atualizada. Fala que o interesse sobre a Bíblia e os estudos bíblicos avançaram muito. As escolas bíblicas multiplicam-se. A Bíblia está mais presente nas pastorais, nas celebrações, nos grupos de reflexão, nos círculos bíblicos, nas comunidades e nos movimentos.

Falhas:
-Para muitos, a Bíblia continua sendo desconhecida.

-Há tendência de ¨forçar¨ a Bíblia, obrigando-a a dizer o que se quer que diga.

-Ao redor da Bíblia há muita gritaria e pouco silêncio ou escuta.

-Na maior parte das atividades pastorais, a Bíblia é incluída quando sobra tempo, não como critério de discernimento.

-O estudo e a meditação, em continuidade ao Evangelho ao longo do ano litúrgico, não são suficientemente valorizados.

-As leituras bíblicas frequentemente são apressadas, com atualizações ambíguas.

-Lê-se a Bíblia ao pé da letra, sem fazer as distinções entre linguagem e mensagem.

-Às vezes, a Bíblia é usada para dividir e reprimir aspirações, outras vezes para justificar posturas contrárias ao Evangelho.

-Às vezes a Bíblia é apresentada como conjunto de normas e leis, levando a uma leitura legalista e moralista.

-Há o risco da idolatria da Bíblia quando se dá mais importância ao livro do que ao rosto de Deus que a Bíblia revela.


Pe. Valdery
Professor do Instituto de Teologia e Pastoral (ISTEP) e Pároco de Cruz.

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